Reflexões sobre o celibato – EB

padreEm síntese: Fulton Sheen, famoso Bispo norte-americano, escreveu sua autobiografia, na qual propõe ponderações sobre o celibato. Enfatiza o fato de que o celibato não é um truncamento, uma renúncia sem mais, mais é, sim uma troca: a troca da criatura pelo Criador, do finito pelo Infinito, do relativo pelo Absoluto (cf. 1 Cor 7, 25-35). É certo que o celibatário tem que viver neste mundo, lidando com os valores criados deste mundo, mas ele o faz com o possível desapego para poder descobrir sempre mais o Eterno presente no tempo. – Quem não tem o senso de Deus, não compreende a vida una ou indivisa. Até mesmo grandes homens religiosos não católicos, como o Mahatma Gandhi e o Secretário Geral da ONU em tempos idos, deram o testemunho de grande estima pela vida celibatária, que eles mesmos abraçaram.

O Bispo norte-americano Fulton Sheen, conhecido por seus programas de televisão, escreveu um livro autobiográfico intitulado Treasure in Clay¹ (Tesouro dentro da Argila), no qual se encontra o capítulo 13, que propõe “Reflexões sobre o Celibato” (pp. 201-213). São páginas notáveis, das quais vão, a seguir, traduzidos alguns trechos dos mais significativos.

I. O Texto

“Há três conselhos evangélicos: pobreza, castidade e obediência. Nem todos os três são populares do mesmo modo… Em nossos dias, não existe muita estima à obediência e à castidade. A pobreza parece ser mais valorizada não tanto como despojamento pessoal, mas como via para auxiliar a pobreza alheia – o que é realmente recomendável. A razão pela qual a castidade está em declínio, é que vivemos numa cultura sensual. A Idade Média foi uma época de fé; depois veio a Idade da Razão no século XVIII; agora vivemos na Idade dos Sentimentos.

Nos tempos da rainha Vitória, o sexo era tabu; atualmente a morte é que é tabu. Cada época tem seus próprios tabus. Creio que uma das razões para a promiscuidade sexual de nossos dias é a falta de finalidade para a vida humana. Quando dirigimos um carro e nos perdemos na estrada, geralmente passamos a dirigir com mais velocidade; assim também, quando falta o pleno sentido da vida, surge a tendência a compensá-lo com acelerações, drogas e intensidade de afetos…

O celibato se torna mais difícil para quem se afasta do amor de Cristo; vem a ser então um fardo pesado… Eu poderia fazer um retrospecto da minha vida, e estou certo de que veria a minha atitude diante do celibato sempre em relação com o meu amor pessoal a Cristo. Desde que meus afetos deixam de se voltar para Ele, começam a se voltar para as criaturas. O celibato não é a ausência de afetos; é, antes, a intensidade dos afetos.

Cada afeto tem um objetivo que o excita: um bloco de ouro, uma mulher, um “cacho de cabelos”, como dizia Kipling ou Cristo. Por que Jesus aceitou a Paixão e a Cruz? Porque Ele sentia um ardente afeto para com a vontade do Pai. Ele o comparou a um fogo (Lc 12, 49). Um marido que ama intensamente a sua esposa, não tem problemas de infidelidade, mas aquele que está constantemente em litígio com a esposa, põe-se muitas vezes à procura de algo melhor.

Notáveis casos de celibato manifestaram-se ao público na sociedade moderna. Gandhi, por exemplo, foi um homem profundamente religioso. Ele amava os párias “intocáveis” da Índia por causa de Deus a ponto de se tornar celibatário com a idade de trinta e um anos. Com o consentimento de sua esposa, fez o voto de abraçar o celibato no resto de sua vida. Ele declarava  Ter um dharma, uma tarefa ou uma missão, que ele tinha de executar a todo preço na sua vida. Isto implicava, para ele, a prática de duas virtudes – a pobreza e o celibato. Observou o psicanalista Erik Erikson: “Ele abriu mão da intimidade sexual para entregar-se a uma mais ampla intimidade comunitária, não porque a sexualidade lhe parecesse imoral”. Gandhi mesmo explicou: “Eu quero dedicar-me ao serviço da comunidade; por isto tive que renunciar ao desejo de ter filhos e riquezas e viver a vida de Vanaprastha, isto é, de alguém dispensado dos cuidados da casa”.

Dag Hammarskjöld, mais tarde Secretário Geral das Nações Unidas, foi também alguém que acreditou no celibato porque tinha apaixonado amor a uma finalidade, ou seja, a paz entre as nações. Ele declarou “Para quem responde ao chamado do Caminho da Possibilidade, a solidão pode tornar-se obrigatória”. No seu qüinquagésimo terceiro aniversário, ele escreveu este bilhete a Deus: “Dá-me esta indispensável solidão, de modo que se me torne mais fácil entregar-Te tudo”. Sendo um homem normal, ele sentia “o desejo de compartilhar e abraçar, de ser unido e absorvido”. Mas, como Gandhi, ele afirmou: “A solidão devida ao celibato pode levar a uma comunhão mais íntima e profunda do que aquela que se realiza entre dois corpos”.

Na Organização das Nações Unidas houve quem o escarnecesse por causa do seu celibato e o acusasse de homossexualismo. Ele jocosamente replicou aos seus detratores nos seguintes termos: “Pois que ele nunca teve outro igual, os homens chamaram anormal o unicórnio”. Tão veemente era a sua estima de fraternidade entre as nações que Dag  julgava haver muita carga a ser jogada no mar para salvar o navio.

Esses dois homens (Gandhi e Dag), provavelmente sem o saber, diziam a mesma coisa que São Paulo a respeito do celibato: “O homem não casado se entrega aos afazeres do Senhor. Todo o seu anseio é agradar ao Senhor. Mas o homem casado tem de se preocupar com os afazeres do mundo e se dedicar a agradar à esposa. Ele está dilacerado entre dois polos” (1Cor 7, 32s).

Em última análise, tudo se reduz a quanto um homem está apaixonado, a quão alto vão os ardores dos seus afetos e dos seus anseios. Se um homem é capaz de renunciar à sua liberdade para aderir à mulher que ele ama, também é possível a um homem renunciar a uma mulher por causa de Cristo. O amor no serviço celibatário sobe ou cai conforme o amor a Cristo. Quando Cristo se torna menos importante no coração  do homem, outra coisa há de sobrevir para preencher o vazio… Cristo na Cruz e Cristo na Eucaristia será sempre a pedra de toque da autenticidade do celibato. Quanto mais deixamos de responder a este Dom, tanto menos desejamos olhar para um Crucifixo, tanto menos queremos visitar o Senhor no seu Sacramento.

A libido ou o impulso sexual é um dos mais fortes instintos no ser humano. Um dos grandes erros de certas modalidades de educação sexual é de crer que, se as crianças conhecem alguns dos males que resultam  de excessos, elas se abstêm do abuso sexual. Isto não é verdade. Nenhum mortal, ao ver sobre uma porta a tabuleta “Febre tifóide”, será impelido a forçar a porta para contrair a doença. Mas, se a palavra “sexo” estiver gravada sobre uma porta, verificar-se-á um impulso para arrombar a porta e entrar.

A libido tem uma finalidade muito mais ampla do que freqüentemente se supõe; ela não existe somente para o prazer; não existe somente para a propagação da espécie; não é somente um meio para intensificar a união do marido e da esposa. É também um potencial que tende à superioridade. O impulso sexual é capaz de transformar. O carvão tanto se pode tornar fogo como se pode tornar um diamante. A libido tanto pode  ser posta para fora como pode ser armazenada. Ela pode procurar união com outra pessoa de fora, mas pode também procurar união com outra pessoa que está dentro, isto, é, Deus.

Assim o celibato não é somente a renuncia à pessoa de fora, é também a concentração na pessoa que está dentro. Deus não está fora. Ele está em nós: “Hei de habitar em vós e vós  habitareis em mim” (Jo 14,20). O celibato é um transformador que multiplica a energia de dentro para a concentrar inteiramente em Cristo, que vive na alma.

Os fornicadores não acreditam que alguém possa ser celibatário. Eles projetam o seu próprio erotismo sobre os outros. Doutro lado, os celibatários são aqueles que devem compreender a fraqueza dos fornicadores. Nós, sacerdotes, que nunca violamos o voto de celibato, somos freqüentemente interpelados nestes termos: “É muito fácil para vocês; vocês não são tentados”. Ora é justamente o contrário que acontece. O celibatário é tentado, talvez mais do que qualquer outro. A maçã do outro lado da cerca parece mais doce. Quem conhece melhor o empenho que um atacante ou um médio ou um goleiro tem que exercer numa partida de futebol: o jogador mesmo ou o espectador? Quem conhece a força do vento? Aquele que é carregado pelo vento ou aquele que pode ficar de pé e resistir?…

Quanto mais amamos a Cristo, tanto mais fácil é pertencer a Ele somente”.

II. Refletindo…

Fulton Sheen é muito sábio ao discorrer sobre o celibato, que ele conhece por experiência própria. Podem-se realçar três pontos na sua explanação:

1) a ênfase no fato de que o celibato não é um truncamento, uma renúncia sem mais, mas é sim uma troca: a troca da criatura pelo Criador, do finito pelo Infinito, do relativo pelo Absoluto (1Cor 7,25-35). É certo que o celibatário tem que viver neste mundo, lidando com os valores criados deste mundo, mas ele o faz com o possível desapego para poder descobrir sempre o Eterno presente no tempo.

2) Quem não tem o senso de Deus, não compreende o celibato. Pode julgar que é castração, frustração… O celibato só se entende como voltado para Deus. Por isto quem não entende o celibato, deveria abster-se de o criticar. O celibato é coisa nobre e santa, plenamente justificada aos olhos da fé… Tanto que muitos pensadores e religiosos não católicos o sabem valorizar grandemente.

3) Fulton Sheen cita, dentre os não católicos, o Mahatma Gandhi e o ex-Secretário Geral da ONU Dag Hammarskjöld. São belos testemunhos de amor ao celibato por suas palavras e sua vida. Muitos outros nomes se poderiam citar ainda, corroborando a experiência de fidelidade à vocação para a vida una e indivisa.

Apêndice

SEGUEM-SE DUAS CARTAS: a primeira publicada no jornal O GLOBO em data de 5/11/96, e a Segunda enviada ao mesmo jornal, mas não publicada. Ambas retomam e explicitam ainda a temática da vida una, levando em conta, principalmente a Segunda, o pensamento indiano.

A Clássica Perspectiva Cristã

Em vista do artigo “Os anjos querem ser homens” de Elias Mugrabi, publicado em O GLOBO de 30/10 próximo passado, página 7, e de semelhantes pronunciamentos, fazem-se oportunas algumas ponderações. Não se vê bem por que os meios de comunicação social se ocupam tanto com o celibato do clero, pressionando ao casamento aqueles que fizeram livre opção pela vida una e indivisa. Esta tem seus alicerces espirituais no Evangelho (Mt 19, 12: “eunucos por amor do Reino dos Céus”), em S. Paulo (1Cor 7, 25-35) e na Tradição cristã (basta lembrar as obras de S. Cipriano de Cartago, S. Ambrósio de Milão, S. Gregório de Nissa, S. João Crisóstomo…). Não estamos numa democracia? Ou será que a onda de pansexualismo. Que invade nossa sociedade, obceca a opinião pública, levando-a a crer que o sexo é um imperativo incoercível e não lhe permitindo ver o significado grandioso da vida totalmente consagrada ao Senhor e aos valores eternos? O insuspeito jornalista Paul Francis, em recente crônica de O GLOBO, estimava o celibato como uma das grandes prendas da Igreja Católica; o mesmo é dito por cristãos orientais, assim como por seguidores do hinduísmo. Se há falhas por parte de algumas pessoas consagradas, isto é compreensível, dada a fragilidade humana, mas não esvazia o valor da vida una. Para reconhecer este valor, basta ouvir o testemunho de tantos homens e mulheres que vivem fielmente a vida indivisa (sustentados pela graça de Deus, que nunca falta) e que encontram aí enorme fator de alegria e felicidade, porque amam profundamente a Deus e aos irmãos.- Pe. Estêvão Tavares Bettencourt O.S.B.

O Enfoque Indiano e Psicológico
(Dra. Olga Sodré)

Minhas pesquisas na área da Filosofia e da Psicologia (doutorado em Filosofia Indiana, na Sorbonne, e mestrado em Psicologia, na PUC – RJ) não apenas puseram em evidência a valorização deste estado em diferentes caminhos de busca da união com Deus, como também me ajudaram a distinguir este processo dos mecanismos de repressão e sublimação estudados pela psicologia. Apenas como exemplo, na Índia, os urdhvaretas, são aqueles que canalizam sua energia sexual. Segundo a doutrina e a prática da yoga, tal energia pode ser canalizada pelo sistema nervoso para o cérebro, desenvolvendo suas potencialidades latentes destinadas à ascensão espiritual. Brahmacarya ou continência é considerado como um meio de acesso a um poder espiritual oculto, que resulta em novo vigor físico e mental: “Quando a continência se torna estabelecida, vigor é obtido. Tendo atingido vigor, o Yogui aperfeiçoa suas realizações (siddhis)” (Encyclopedia of Yoga, de Ram Kumar Rai, Prachya Prakashan Varanasi, 1982, pág. 192).

Embora num sentido diverso desta busca de siddhis ou poderes espirituais, a vida de muitos santos católicos atesta o valor e grandeza da experiência humana do celibato, que longe de Ter sido patológica ou desequilibrada de suas vidas, contribui, ao contrário, para sua elevação e aperfeiçoamento como seres humanos. O ideal da vida una surge desde o início do cristianismo como um meio de configuração a Cristo (que é modelo  deste tipo de vida) e como uma via de realização do Amor (Agape) a Deus e aos outros seres. Neste sentido, longe de ser apenas uma privação da satisfação momentânea, a vida una é, sobretudo, a busca de uma união completa com a fonte da verdadeira satisfação… A única experiência humana semelhante, embora ainda pálida e distante pelas limitações e deformações humanas, é a experiência do estado de felicidade de uma pessoa apaixonada. Se muitas vezes a vida una é assim vivida, trata-se mais da dificuldade ou inadaptação da pessoa que escolheu este caminho do que do valor em si de tal opção. Embora se optou pela vida una, assim como sinais de repressão ou de sublimação envolvendo esta escolha, o processo espiritual da vida una é próprio, desenvolvendo-se em íntima relação com o Amor de Deus, no nível mais profundo do ser humano. – Olga Sodré.

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¹ Originally published by Doubleday and Company. New York 1980.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 418 – Ano 1997 – p. 120

Por Fulton Sheen

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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