Recordando o Sacro Império

Bogotá (Terça-feira, 28-02-2012, Gaudium Press) O Sacro Império Romano Alemão foi mais que apenas uma organização política ou que um espaço de tempo que durou uma forma de governo. Menos ainda tratou-se simplesmente de grandes e pequenos reinos sujeitos à autoridade de um imperador.

Quem a vê assim abarca apenas uma parte mínima dessa organização supra-nacional, capaz de cobrir debaixo de seu manto régio e leve povos de muitas raças e condições, de tal maneira que ele acolheu inclusive judeus e ciganos da Europa que ali sentiam-se protegidos. E protegidos mais que por um governante, por um pai comum de muitos povos, uma espécie de patriarca bíblico encarnado em uma dinastia Real, ungida até a medula de seus ossos pela caridade cristã.

Era como um organismo vivo, grande e benigno, cuja cabeça foi sempre uma família nobre de proverbiais façanhas e antepassados cuja legenda povoava o imaginário popular maravilhosamente. Seu poder de proteção era o mais importante.

Um súdito do Sacro Império tinha garantias em toda a extensão da Europa e certamente seu reconhecimento ia mais além do que hoje poderia significar para alguns talvez a vista de Schengen.

A águia bicéfala aureolada, vigiando o oriente e o ocidente estampada na dourada bandeira tremulante do católico império, a octagonal coroa de Carlos Magno encravada de pedras preciosas e a prolífica e sociável família Habsburgo lhe pertencem por direito próprio. Como instituição de direito público tem sido uma experiência única na história dos povos e bem poderia ter-se como eco fidelíssimo da doutrina social e política que emana dos ensinamentos do Evangelho e o Magistério da Igreja.

Nunca antes a humanidade em nenhuma parte da terra conseguiu organizar-se política, social e economicamente como o fez debaixo das asas deste império a que bem se poderia aplicar essa frase do Evangelho de Jesus “Meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mateus 11, 28-30).

Como entender hoje com as precárias noções do direito constitucional republicano, uma estrutura do poder monárquico, federalizada e corporativa ao mesmo tempo?

O poder desse Império que abarcava povos de personalidades muito definidas e inclusive discordantes, não se encontrava unicamente nas mãos do Imperador romano-alemão, nem nas dos príncipes eleitorais ou no conjunto de pessoas que integravam a Dieta Imperial “aristocraticamente democrata”.

Sem embargo era inteiramente governável apesar dessa diversidade de etnias, línguas, costumes e legados históricos, um verdadeiro vitral maravilhoso de muitas cores e tamanhos sobrenaturalmente iluminados pelo próprio “Sol de justiça”, império ao que não se lhe poderá negar sua beleza e perfeição política como instituição composta de cidades livres, principados eclesiásticos, condados, ducados, reinos, ordens de cavalaria e territórios autônomos mas associados aos que o império como ente superior apoiava sem prejudicar-lhes sua autonomia.

Essa belíssima sinfonia cujas harmonias se ouvem quando se repassa a história com encantamento e veneração, se faz mais presente hoje ao presenciar o dramático final de uma União Européia a ponto de liquidação total consumida por rivalidades e disputas mesquinhas.

Qual foi então o segredo dessa peculiar forma de organização geopolítica tão fenomenal que nem Hohenzollers, nem Bonapartes nem líderes demagogos com todo o apoio político e económico conseguiram emular?

A grandiosa cerimonia de reconhecimento do Papa que coroava ao imperador após a proclamação dos príncipes eleitores?

Fica aquém de qualquer estudioso da história e da política se se limita só a isto, que de fato é uma grande verdade.

Sem embargo, o Sacro Império foi uma construção institucional batizada pela Igreja e construído em um processo que levava muito anos respeitando as elites naturais de cada região que um autor definiu como a “área de influência de uma família”.

Se quisermos, é o único império sagrado que existiu precisamente por ser algo assim como a prolongação política da própria instituição familiar como a concebe e defende a Igreja Católica.

Por Antonio Borda.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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