Realidade e culturas

Dom Walmor Oliveira de AzevedoO entendimento da realidade que configura a sociedade contemporânea, em todos os aspectos, tem na cultura (na verdade, nas culturas!) uma lupa importante como instrumento de decifração e interpretação. Sempre é oportuno retomar questões de base sobre os rumos da sociedade; suas prioridades e modos como se vive nas diferentes circunstâncias e cenários, no dia a dia. A cultura é o que tece esses rumos, define dinâmicas e influencia na eleição de prioridades para o modo de viver e de organizar, social e politicamente, a vida de todos. Trata-se de considerações com complexidades próprias. Embora seja uma abordagem complexa e trabalhada, metodicamente, nos diferentes campos da ciência, é interessante e de grande importância incluir no debate cotidiano o indispensável entendimento a respeito da cultura (e das culturas) para se viver diferente, ensaiar mudanças mais profundas, interferir na realidade e configurá-la melhor nos parâmetros da cidadania, da civilidade e da dignidade própria do viver humano.

Vale, então, referência a um entendimento conceitual de cultura, para facilitar a reflexão e permitir juízos, entendida essa enquanto maneira particular como em determinado povo os homens cultivam sua relação com a natureza, entre si e com Deus. Trata-se, na verdade, do estilo de vida comum, apontando a pluralidade de culturas. Assim entendida, a cultura refere-se ao conjunto de valores que animam a totalidade da vida de um povo, bem como evidencia ‘desvalores’ que o enfraquecem, formando determinada consciência coletiva, definindo costumes, configurando instituições e seus funcionamentos, moldando práticas e dinâmicas da convivência social. Há de ter sempre presente o conjunto rico, complexo e desafiador que a cultura significa, enquanto se tem em conta a experiência histórica e vital dos povos de uma sociedade específica. Pode-se calcular o que isto significa para cada indivíduo – pensada a cultura como realidade histórica e social -, considerando-se sua localização e desenvolvimento no seio da sociedade, condicionado ou enriquecido por ela. É um exemplo ilustrador considerar a cultura de massa para sublinhar o próprio de sua qualidade, tais como espetáculos de revistas, telenovelas, histórias em quadrinhos, e até música popular, balizando uma vida marcada por superficialidade, repetição de situações óbvias e; seja pensada especialmente – em razão da seriedade – a exploração dos gostos mais banais do público.  

Essa consideração e de outros âmbitos explicitam o quanto é importante o entendimento da realidade à luz da cultura com suas dinâmicas. De posse desta resumida abordagem conceitual a respeito da cultura, vale retomar a realidade na qual estamos inseridos para a vivência da cidadania, para avaliar processos e desdobramentos, sem deixar de levar em conta o peso sobre as costas de todos, em especial, sobre a dos mais pobres e dos fracos. É oportuno localizar sob essa luz a avalanche de questões que incomodam a sociedade brasileira e nela perpetuam atrasos, mesmo emoldurada por oportunidades singulares quanto ao crescimento econômico, até nas nebulosidades presentes, a existência de clarividências políticas. Há uma antífona cantada em todos os cantos do país a respeito dos retardamentos quanto à infraestrutura para que o Brasil hospede, de forma adequada, grandes eventos como a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas, em 2016. Também, necessidades na infraestrutura para a vida de hoje e de amanhã do povo brasileiro gritam urgências, quando se pensa em aeroportos, estradas e outras demandas básicas como a lucidez na política habitacional para responder à defasagem dos sem-casa, dos que vivem em situação de risco e de desrespeito à dignidade. Há uma burocratização congênita que inviabiliza respostas e impede o usufruto de oportunidades de desenvolvimento compartilhado para mudar cenários sociais, incompatíveis com conquistas do próprio Estado.

A lucidez de gestores e de governantes tem sido empacada pela falta de escalões capazes de avançar nas oportunidades deste tempo e nesta sociedade. É interessante – para mostrar o quanto a realidade está vinculada, impulsionada ou amordaçada pela cultura – ouvir nas conversas, mesmo nos estratos populares, perguntas como: por que os japoneses já refizeram em tempo recorde as estradas mais danificadas pelo tsunami acontecido há poucos meses, e aqui é preciso muitos meses para fazer uma ponte? Por que se adiam, várias vezes, a inauguração de viaduto e outras? Não menos graves são os entendimentos que pautam o proceder no ‘cartorialismo’, nas barganhas, ou ainda, na cultura de ‘mexer os pauzinhos’, esconder a verdade e solapar propostas, indicando o quanto é preciso mudanças na cultura para alavancar mudanças urgentes na realidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

 
Fonte:
http://www.arquidiocesebh.org.br/

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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