Quinze anos a mais: para quê?

No dia 5 de abril deste ano, na cidade de Barinas, na Venezuela, foi celebrada uma missa pela saúde de Hugo Chávez, que há anos vem se tratando de câncer. No final, o Presidente declarou: «Digo a Deus que, se o que já enfrentei não foi suficiente, aceito a doença, mas que ele não me leve ainda. Dê-me mais um tempo de vida, porque me restam muitas coisas a fazer por esse povo e por essa pátria».

Um mês após, no dia 6 de maio, deparei-me com esta notícia na internet: «Shaun Wilson-Miler, um jovem de apenas 17 anos, que mora em Melbourne, na Austrália, tem uma doença cardíaca crônica. Após dois transplantes de coração, os médicos lhe disseram que não teria muito tempo de vida. Sabendo disso, ele gravou um vídeo para se despedir dos amigos e familiares: “Oi, galera! Tenho más notícias para contar. Eu não vou ficar aqui por tanto tempo quanto pensei. Mas quero dizer que foi um passeio incrível, e não tenho arrependimentos. Viva a vida ao máximo, porque você nunca sabe o que vai acontecer! Eu quero agradecer à minha família e aos amigos. Por favor, não chorem por mim! Eu ficarei bem. Sentirei muita saudade. Amo vocês!».

As palavras do presidente venezuelano e do jovem australiano me trouxeram à mente a história de Ezequias, assim narrada pela Bíblia: «O rei Ezequias adoeceu de uma enfermidade mortal. O profeta Isaías foi visitá-lo e lhe disse: “Assim fala o Senhor: Põe em ordem a tua casa porque vais morrer. Não poderás escapar!”. Então Ezequias virou o rosto contra a parede e fez esta prece: “Senhor, não te esqueças de que andei na tua presença com toda a fidelidade e de coração limpo, e que sempre procurei fazer o que era bom aos teus olhos”. E começou a chorar. Então a palavra do Senhor foi até ele por meio de Isaías: “Ouvi a tua oração e vi as tuas lágrimas. Vou prolongar em quinze anos a duração de tua vida”» (Is. 38, 1-5).

Não me atrevo a fazer comparações entre a piedade, a vida e o governo de Hugo Chávez e do rei judeu. Nem sou profeta para prever como terminará a existência o jovem de Melbourne. Ignoro se ambos receberão, como aconteceu com Ezequias, mais quinze anos de vida. O que, porém, sempre impressiona é a tristeza de Ezequias ante o seu fim iminente: «Devo ir-me embora no melhor de minha vida! Não verei mais o Senhor na terra dos viventes. Nunca mais verei um homem neste mundo!» (Is 38,10-11).
Nunca foi fácil para ninguém aceitar a morte. Não é apenas Hugo Chávez, Shaun Wilson-Miler ou Ezequias que o afirmam, mas a maior parte dos 55 milhões de pessoas que morrem todos os anos: 150.000 por dia e 6.500 por hora. Para os jovens, ela aparece como algo tão distante que quase não existe. Não será por isso que a maioria das vítimas da violência ou dos acidentes de trânsito se conta precisamente entre eles?

Se existe uma certeza na vida, é que ninguém escapa da morte. Mas, para quem se deixa guiar pelo Evangelho, ela adquire um sentido diferente e maravilhoso: a última etapa de uma série superada ao longo da existência, o derradeiro “sim” ou “não” dito a Deus através de intenções e atitudes. Para os que se deixaram guiar pelo amor, ela é o encontro com o Prêmio tão esperado: «Vinde, benditos de meu Pai, ocupar o lugar que vos foi preparado desde a criação do mundo!» (Mt 25, 34).

Para São Paulo, o crescimento humano tem um processo e um destino definidos: «Enquanto o nosso físico vai se deteriorando, o nosso interior vai-se renovando dia a dia. Uma tribulação momentânea nos proporciona uma eternidade de glória incomensurável. Isso acontece porque temos os olhos voltados não para as coisas visíveis, mas para as invisíveis. O que é visível é passageiro e o que é invisível é eterno. Sabemos que, quando a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dará outra morada no céu, que não é obra de mãos humanas, mas é eterna» (2Cor 4,16-18; 5,1).

Só tem sentido viver se for para fazer o bem. Caso contrário, quanto antes desaparecermos, melhor para a humanidade! Era assim que pensava São Paulo: «Não sei bem o que escolher: meu desejo é partir e estar com Cristo – o que seria muito melhor. No entanto, por amor a vocês, é preferível que eu continue a viver para ajudá-los a progredir e a gozar da alegria proporcionada pela fé» (Fl 1,22-25).

Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)

Fonte:
Fonte: http://www.cnbb.org.br/site/articulistas/dom-redovino-rizzardo/10733-quinze-anos-a-mais-para-que

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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