Que é a Moralogia?

Em síntese: A Moralogia, fundada pelo mestre japonês Chiruko Hiroike, propõe uma Ética sadia e válida. Todavia as mesmas propostas e ainda mais grandiosas perspectivas de crescimento espiritual se encontram na Moral católica. Esta é baseada no amor de Deus, que primeiro nos amou (cf. 1Jo 4, 19) e que pede resposta condigna, ao passo que a Moralogia é assaz imprecisa no tocante ao conceito de Deus e ao valor da religião. O mestre japonês coloca no mesmo plano Jesus Cristo, Sócrates, Buda, Confúcio e Amaterasu Omikami; ora o paralelismo entre Jesus e outros sábios é inaceitável a um cristão, que vê em Jesus “o Verbo eterno feito carne” (Jo 1, 14); ademais pregou o monoteísmo (há um só Deus Criador do mundo e do homem), ao passo que Buda pregou o panteísmo (Deus, o mundo e o homem se identificariam entre si).

A Moralogia, oriunda do Japão, tem-se expandido por vários países, inclusive o Brasil, onde tem sede nacional em São Paulo. Apregoa uma Ética coerente com os bons princípios da lei natural, mas deixa dúvidas quanto às suas crenças religiosas. Daí a conveniência de examinarmos atentamente os documentos da Moralogia, entre os quais se destaca a “Introdução à Moralogia”, publicada pelo Instituto de Moralogia. Além de tal obra, nós nos serviremos, nas páginas seguintes, do fascículo “Nova Moral” editado pelo mesmo Instituto.

1.  Origem  da  Moralogia

O fascículo “Nova Moral” em sua 3º capa relata:

“A Moralogia nasceu através das amargas experiências de grave doença do Prof. Hiroike, por volta de 1912, logo após a outorga do título de Doutor em Direito pela Universidade Imperial de Tokyo, coma tese intitulada Estudo das leis parentescas da antiga China. Apesar desse título honorífero, ele estava entre a vida e a morte como consequência de diversos anos de árduos estudos, e conscientizou-se da diferença entre o sucesso na vida e a felicidade na vida. A partir desse momento, ele decidiu abandonar tudo que o possuía, e oferecer-se em prol da felicidade de toda a humanidade. Assim, mesmo em estado doentio, dedicou-se a profundos estudos sobre as ciências morais, humanas e sociais. Ele chegou à conclusão então de que a crescente desvalorização da moral perante a sociedade, era devida, principalmente, ao fato de nunca terem sido demonstrados os efeitos da prática da moral. O Prof. Hiroike sentiu então que era necessário um estudo racional e científico sobre a moral, e entregou-se inteiramente às pesquisas nesse campo, formulando as bases de uma nova ciência, que veio a se chamar Moralogia.

Essa nova forma de Educação Social lançada pelo Prof. Hiroike é baseada no amor supremo dos Mestres da Humanidade, e visa orientar corretamente a atitude mental e a conduta de cada um, em nossa vida  diária, para a realização da paz, felicidade e desenvolvimento da humanidade”.

O fundador da Moralogia, o Dr. Chiruko Hiroike, nasceu aos 29/3/1866 em Higashi Nagasoi (Japão). Em 1885, com dezenove anos, conquistou o certificado de professor primário. Em 1902 era Professor Universitário de Gramática Clássica Chinesa. Em 1912 doutorou-se em Direito. Tendo adoecido gravemente, jurou dedicar-se de corpo e alma à salvação da mente humana. Em 1915 publicou a obra “Templo de Ise e o Caráter Nacional”, na qual esclarece o significado e a importância de “Benevolência, Tolerância e Auto-Reflexão”, que passaram a ser o âmago da Moralogia. Em 1926 concluiu o texto da obra “Tratado de Ciência Moral”, ficando esse ano estabelecido como data da fundação do Instituto de Moralogia. Pôs-se a viajar pelo Japão, proferindo conferências sobre a sua  filosofia de vida. Foi respeitado pelas autoridades governamentais do Japão, às quais explanou os princípios da Moralogia. Finalmente, com 72 anos de idade, faleceu em 1938 numa estância de águas termais próxima de Tanigawa.

Como se vê, as preocupações do fundador se voltaram muito mais para a Ética do que para a Religião propriamente dita.

Vejamos agora quais são

2.  Os Princípios da Moralogia

Lê-se  no mesmo fascículo “Nova Moral”, 3ª capa, o seguinte:

“A Moralogia é o estudo da moral, que tem por finalidade  incentivar a prática da suprema moral, e demonstrar, através de análise racional e científica, os efeitos da sua aplicação na vida humana. A Moralogia é a palavra criada pela primeira vez pelo Prof. Chikuro Hiroike (1866-1938), formada de Mos-Moris (costume, moral), do latim, e Logos-Logia (ciência, estudo), do grego.

A suprema moral é o conjunto dos ensinamentos comuns encontrados nos princípios morais e filosóficos legados ao mundo, através de cinco grandes Mestres da humanidade:

Jesus Cristo, de Israel………………………..Amor

Sócrates, da Grécia……………………………Justiça

Confúcio, da China…………………………….Clemência

Buda, da Índia………………………………….Benevolência

Amaterasu Omikami, do Japão……………..Pureza”

1. Explicitando o acima dito, podemos afirmar que a Moralogia distingue dois tipos de Moral: a M. Comum e a M. Suprema.

A Moral Comum prega bons costumes, etiquetas sociais, compaixão, gentileza, justiça, paciência, autocontrole, assiduidade… É indispensável à manutenção e ao desenvolvimento de uma sociedade sadia. Todavia apresenta imperfeições, tais como a de cair em meras formalidades. Assim, por exemplo, quem visita um doente, pode estar agindo por compaixão e gentileza, mas também pode estar procedendo segundo mera formalidade, preocupado apenas com manter uma boa imagem perante os outros. O egocentrismo pode estar prevalecendo, pondo em perigo os interesses da própria pessoa e dos demais cidadãos.

A Moral Suprema respeita a Moral Comum, mas exige benevolência, ainda que esta custe prejuízos a quem a pratica. Tal é a Moral dos cinco Sábios citados: Sócrates, Jesus Cristo, Buda, Confúcio, Amaterasu Omikami. A Moral Suprema acarreta benefícios para o indivíduo e para a sociedade, obtendo-lhes felicidade, alegria e harmonia na convivência social.

Os grandes temas da Moralogia vêm a ser: Renúncia ao Egoísmo, Benevolência, Cumprimento do Dever, Respeito aos Direitos Alheios, Gratidão e Retribuição, Desenvolvimento e Salvação da Mente Humana.

A Moralogia insiste muito no Ortolinon1 ou série de benfeitores antepassados que contribuíram para o desenvolvimento, a paz, a segurança e a felicidade do gênero humano. Há três tipos de Ortolinon:

– o Ortolinon Familiar, que é a sucessão dos ancestrais de alguém;
– o Ortolinon Nacional, que é a série de benfeitores de uma nação. Em todo país, há uma figura que exerce a função principal de unificar a nação e a quem se devem amor e respeito;
– o Ortolinon Espiritual, que é a série de benfeitores da vida espiritual, como os Sábios que se dedicaram de corpo e alma à salvação e ao desenvolvimento da mente humana; são eles que ensinam a Moral Suprema.

Existe também o Co-Ortolinon, que são pessoas vivas na Terra, a quem devemos favores: padrinhos, professores, fornecedores, clientes, educadores, economistas…

A Família imperial Japonesa goza de especial veneração, pois se diz que, durante dois mil anos aproximadamente, cultivou Benevolência, Tolerância e Auto-Reflexão.

Os frutos da Moral Suprema são a paz e a felicidade para todos os que a praticam; isto favorece a saúde física e a longevidade dos seres humanos; aliás, o mestre Hiroike se interessou vivamente pela saúde corporal dos seus seguidores a partir de 1936. É de notar que os moralogistas não se referem à vida póstuma; seus princípios visam apenas à realização do homem no mundo presente.

2. A respeito de Deus a Moralogia apresenta um conceito confuso, que se exprime do seguinte modo:

“O universo em que vivemos está sempre em movimento ordenado, e essa realidade é a demonstração da existência de uma lei. O globo terrestre, que faz parte deste universo, bem como todos os seres que nele habitam, são regidos inteiramente por esta lei. Nós, seres humanos, não podemos viver ignorando-a. A Moralogia denomina essa lei de “Lei da Natureza”, e ela é a própria obra da natureza, que cria e desenvolve tudo e todos. A essência dessa obra é reconhecida como sendo Deus.

Em seguida, como podemos ver nas histórias e mitologias de diversos povos, o homem, desde a antigüidade, temia e venerava a obra da natureza, e rendia homenagens a Deus, expressando a gratidão pela farta dádiva recebida. Esses fatos nos demonstram que reconhecer Deus é um requisito fundamental para o ser humano” (Introdução p.23).

Pergunta-se: que significa “Deus é a essência da obra da natureza”? Seria uma afirmação panteísta, que identificaria Deus com a própria natureza que nos cerca? Pode-se crer que o autor do texto não é panteísta, pois pouco adiante no mesmo capítulo parece corrigir-se, caindo em certa contradição:

“Na Moralogia, Deus representa o “Deus Absoluto”, que atua no universo, com significado mais amplo que os deuses venerados em particular por alguns povos ou religiões. Esse Deus, que cria e desenvolve todas as coisas, é de natureza universal” (Introdução, p. 24).

Neste texto, o autor fala de Deus Criador, o que corresponde ao conceito monoteísta de Deus.

À p. 27 da mesma “Introdução”, lê-se:

“Na Moralogia Deus é considerado um Ser personificado, e a Lei da Natureza, a manifestação da Vontade Divina. Podemos dizer, portanto, que Deus é um Ser superior aos Sábios, pois os próprios Sábios, que tanto veneramos, O reconheceram como um Ser personificado. Assim, ao personificarmos Deus, podemos perceber a sua essência, que é a de criar e amar todas as coisas, e levamos uma vida virtuosa com muita convicção”.

“Para a Moralogia, reconhecer e acreditar em Deus significa a realização de benevolência, com a mentalidade diariamente renovada e com sentimento de gratidão e veneração a Deus”.

A Moralogia venera também os Sábios colocando Jesus Cristo no plano de Sócrates, Buda, Confúcio, Amaterasu Omikami. Esta relativização não corresponde ao conceito que os cristãos têm de Jesus Cristo; é inaceitável, visto que, para a fé cristã, Jesus é Deus feito homem ou o verbo feito carne (cf. Jo 1, 14). Segundo a Moralogia, os Sábios admitiram a existência de Deus; são venerados por muitos como pessoas divinas (Introdução, p. 23).

Vê-se, pois, que o conceito de Deus não é claramente formulado na Moralogia, o que aliás corresponde à índole dessa Escola, que mais se importa com a Ética do que com a Teologia propriamente dita.

3.  Conclusão

A Moralogia propõe uma Ética sadia e válida. Todavia as mesmas propostas e ainda mais grandiosas perspectivas de crescimento espiritual se encontram na Moral católica. Esta é baseada no amor de Deus, que primeiro nos amou (1 Jo 4, 19) e que pede resposta condigna. Para morigerar a si mesmo e construir uma sociedade harmoniosa, o cristão não precisa de abandonar a sua cosmovisão cristã e filiar-se à escola de Chiruko Hiroike. Jesus Cristo ensinou um ideal de vida muito mais sublime do que o do mestre japonês.

De resto, o paralelo entre Jesus e Buda é inconcebível, já que Jesus pregou o monoteísmo (Deus é um só, Criador do mundo e do homem(, ao passo que Buda professou o panteísmo (Deus, o mundo e o homem se identificam entre si). Sem dúvida, todo Credo religioso prega as mesmas normas básicas da lei natural; coloca-as, porém, em uma cosmovisão que pode variar de mestre para mestre.

***                                    
1 Ortolinon é explicado como palavra composta do grego órthos, reto, correto, e linon, linha, fio.

Revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 424 – Ano 1997 –  p. 427

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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