Quando o Espírito Santo veio sobre os Apóstolos

Em síntese: Há quem negue a historicidade de Jo 20, 19-23 e
At 2, 1-11, afirmando serem “construções teológicas”; apenas
significariam a efusão do Espírito ocorrida em data desconhecida após Páscoa.
São inconsistentes os argumentos em favor dessa tese, como se verá a seguir.
Trata-se de dois episódios históricos: o de Jo 20 registra o dom do Espírito
aos Apóstolos e seus sucessores em vista da remissão dos pecados pelo
sacramento da Reconciliação. Quanto ao relato de At 2, refere-se à vinda do
Espírito sobre os Apóstolos para que convocassem todos os homens na comunhão da
Igreja (= ekklesia = convocação).

A revista REB, outubro 2002, pp. 913-918, publicou o artigo
“Quando desceu o Espírito Santo sobre os Apóstolos?” da autoria do
Pe. Ariel Alvarez Valdés (Argentina). Propõe uma interpretação de Pentecostes
que se tem difundido, deixando perplexos vários leitores. Eis por que o assunto
será considerado nas páginas subseqüentes.

1.    A tese do autor

O articulista parte do princípio de que houve uma só efusão
do Espírito Santo sobre os Apóstolos, narrada de modos diferentes por Jo 20,
19-23 e At 2, 1-11 respectivamente.

O relato de Jo 20, 19-23 teve, segundo o autor, a intenção
de mostrar que a vinda do Espírito foi uma nova criação; procura no texto do
evangelista os ecos de passagens do Antigo Testamento que falam de criação,
das  quais a principal é Gn 2, 7 (o sopro da vida…). Assim ficaria
evidenciado que Jesus cumpriu profecias referentes à renovação do homem.

Quanto ao relato de At 2, 1-11, segundo Valdés, põe em
relevo o fato de ter o Espírito promovido a nova aliança de Deus com os homens,
pois apresenta o dom do Espírito no dia de Pentecostes (quando os judeus
comemoravam a aliança do Sinai).

Em suma, tratar-se-ia de duas “construções
teológicas”, que nada diriam de histórico. A efusão  do Espírito e a
conseqüente fundação da Igreja terão ocorrido num dia ignorado por nós, quando
os Apóstolos amedrontados se achavam reunidos em oração. – Eis a conclusão do
autor:

“Quando, afinal, desceu o Espírito Santo sobre os
discípulos? Não sabemos. Deve ter sido em alguma dessas reuniões que,
cautelosos e medrosos, eles costumavam fazer depois da ressurreição de Jesus,
para orar. De súbito se sentiram invadidos por uma força estranha e maravilhosa
que os animava, lhes transmitia poderes ignotos e os impelia a falar como nunca
teriam imaginado. E compreenderam que era o Espírito do Senhor.

Mais tarde, a tradição posterior narrou essa experiência de
dois modos: um (recolhido por João) situado na Páscoa; outro (recolhido por
Lucas), em
Pentecostes. Isto, porque cada tradição queria deixar uma
mensagem diferente. A de João: quando alguém recebe o Espírito de Deus, se
transforma em nova criatura, um novo ser, e não deve jamais voltar atrás,
àquilo que era antes. E a de Lucas: quem recebe o Espírito Santo já não pode
obedecer a outras vozes que não sejam a voz desse Espírito.

Não se sabe em que dia exatamente desceu o Espírito Santo
sobre os discípulos e provocou o nascimento da Igreja. Por isso, em vez de
dizer que a Igreja nasceu em Pentecostes, seria melhor dizer que Pentecostes
aconteceu quando nasceu a Igreja” (p. 918).

 

Tais dizeres são o resultado de preconceito mais do que de
arrazoados lógicos e persuasivos. Valdés de antemão julga que só pode ter
havido uma efusão do Espírito; este pressuposto é gratuito. Parece evidente ter
havido duas efusões do Espírito, dadas as circunstâncias e finalidades de cada
uma.

O articulista tenciona falar em nome dos biblistas em geral:

“A solução atualmente proposta pelos biblistas é muito
simples: os dois autores (João e Lucas-Atos) estão contando o mesmo episódio, isto
é, a única descida do Espírito Santo sobre os seguidores de Jesus. Ambos, no
entanto, o contam de modo diferente, porque cada um tem uma  intenção
especial, quer dizer uma teologia particular” (p. 914).

Pergunta-se, porém: se a nova interpretação é comum na
exegese contemporânea, por que as edições católicas da Bíblia não a 
mencionam em suas notas de rodapé?

2.    Que dizer?

2.1.        Em relação ao
artigo

1) Como dito, o autor parte do princípio de que só pode ter
havido uma efusão  do Espírito, princípio este gratuitamente afirmado,
pois, na verdade, duas efusões com finalidades diferentes não vêm a ser um
absurdo. Pouco persuasivas são as palavras do articulista: “Segundo o Novo
Testamento, o Espírito Santo desceu duas vezes sobre os discípulos… Houve
então duas descidas? Será que a primeira não foi eficaz, e por  isto se
fez necessária uma segunda?” (p. 914).

Esse dogmatismo não condiz com o estilo de uma explanação
científica.

2) É desnecessário analisar cada um dos paralelos que o
autor aponta entre Jo 20 e At2, de  um lado, e o Antigo Testamento,
de  outro lado. Assim em Jo 20 Valdés relaciona a saudação
“Paz!” e a alegria dos discípulos com uma nova criação – o que é
intuição pessoal pouco convincente.

Verdade é que em At 2 São Lucas quer associar o Pentecostes
cristão ao judaico e, conseqüentemente a nova aliança à antiga. Mas este
relacionamento não é necessariamente uma construção teológica; por que não pode
corresponder à realidade dos fatos?

3) “Não se sabe em que  dia exatamente desceu o
Espírito Santo sobre os discípulos e provocou o nascimento da Igreja” (p.
918). – Esta afirmação é estranha: no Novo Testamento  teríamos a notícia
de um falso nascimento da Igreja, não porém, a do verdadeiro  nascimento.
– Com que fundamento se presume isto? Para interpretar um texto, todo estudioso
sabe que o sentido literal há de ser presumido até se provar que o texto é
metafórico ou figurado. Ora, tal prova, Valdés não a  fornece.

4) Quanto à tese, defendida por Valdés, de que Jesus
realizou sua Ascensão no dia mesmo de Páscoa, nada há que lhe opor. Diz o
Evangelho que, depois de Páscoa, Jesus aparecia aos discípulos e desaparecia;
parecia não estar morando na Terra; esta, aliás, ainda marcada pelo 
pecado, não era o habitat da nova criatura ou de Jesus ressuscitado. O próprio
Evangelho de S. Lucas apresenta a Ascensão no dia mesmo de Páscoa. Após
quarenta dias de aparições, Jesus se terá despedido definitivamente dos seus
discípulos; cf. Lc 24, 1-53 e At 1, 3. Aliás por ocasião de sua despedida,
Jesus prometeu nova efusão do Espírito Santo, subseqüente àquela do dia de
Páscoa; seria a Segunda, destinada a congregar os homens na Igreja; cf. At 1,
5.8. Vê-se então que reduzir as duas efusões a uma só eqüivale a desrespeitar e
violentar o texto bíblico.

2.2.        Dois
episódios com finalidades diferentes

1) A narrativa de Jo 20 tem por objetivo fundamentar o
sacramento da Reconciliação. Os ministros do Senhor não perdoam os pecados em virtude
de suas presumidas qualidades, mas por um dom de Deus outorgado pelo Espírito
Santo.

Tal é o texto em foco:

“Jesus disse: “A paz esteva convosco! Como o Pai
me enviou, assim também eu vos envio! Então soprou sobre eles e disse:
“Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, serão
perdoados. A quem não os perdoardes, não serão perdoados” (Jo 20, 21-23).

Há uma alusão indireta a este texto em Mt 9, 8: Jesus
perdoou os pecados do paralítico, dando ocasião a que “a multidão glorificasse
a Deus, por haver dado tal poder aos homens”, isto é, aos ministros do
Senhor.

Este é o primeiro envio do Espírito Santo, que, como se vê,
tem finalidade bem definida. O segundo envio caracteriza-se por outro objetivo
e circunstâncias bem diversas.

2) Em At 2, 1-11 o Espírito Santo é dado  não aos
ministros do Senhor apenas, mas a todo o corpo da Igreja, que Ele deve
vivificar. É o Espírito Santo quem, por meio do dom das línguas, chama todos os
povos para viverem numa só convocação ou ekklesia. Nesse preciso dia de
pentecostes foi fundada a Igreja.

Valdés não leva em conta um aspecto de At 2, 1-11 que foi
muito caro à Tradição cristã: Pentecostes é uma réplica a Babel. Com efeito; em
Babel (Gn 11, 1-9) as línguas foram multiplicadas como conseqüência da
desunião  dos homens entre si; não podendo colaborar uns com os outros,
dispersaram-se e constituíram povos com sua língua e sua cultura próprias,
chegando à hostilidade entre si. Ora em Pentecostes as línguas foram
multiplicadas por dom de Deus a fim de re-unir as nações dispersas numa grande
família que paira acima dos nacionalismos: a ekklesia de Cristo. O Pentecostes
cristão é assim a festa da unidade das família humana estreitada pelos laços do
amor de Deus.

Santo Agostinho (+ 430) alude a isto na seguinte passagem do
seu sermão 271:

“Depois de ter passado quarenta dias com seus
discípulos, o Senhor ressuscitado subiu ao céu. E no qüinquagésimo dia, que
hoje celebramos, enviou o Espírito Santo, como está escrito: De repente, veio
do céu um ruído como de um forte vento. Então apareceram línguas como de fogo,
que se repartiram sobre cada um deles. E começaram a falar em outras línguas,
conforme o Espírito lhes concedia expressar-se (At 2, 2-4).

Aquele vento purificava os corações da palha da carne.
Aquele fogo consumia o feno da velha concupiscência. Aquelas línguas faladas
pelos que estavam repletos do Espírito Santo prefiguravam a  futura
Igreja, que haveria de se difundir entre as línguas de todos os povos. De fato,
após o dilúvio, a impiedade soberba dos homens construiu uma torre elevada
contra o Senhor, e o gênero humano mereceu ser dividido em línguas diversas,
começando cada povo a falar sua língua para não ser entendido pelos outros
povos. Agora, ao invés, a humilde piedade dos fiéis recolheu a diversidade
dessas línguas na unidade da Igreja, onde a caridade reuniu aquilo que a
discórdia tinha espalhado. E os membros dispersos do gênero  humano, como
membros de um único corpo, voltam a ser unificados na única cabeça que é Cristo,
fundidos na unidade de seu santo corpo pelo fogo do amor”.

Estas poucas reflexões são suficientes para evidenciar quão
leviano seria abandonar a clássica concepção de Pentecostes.

   

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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