Quando a religião é uma desgraça…

Após os atentados que, no dia do Natal de 2011, mataram dezenas de católicos na Nigéria – atentados que foram repetidos nos primeiros dias de janeiro de 2012, com outras tantas vítimas -, dentre os muitos leitores que se manifestaram em portais da internet, gravei a opinião de dois deles. O primeiro, que se assina simplesmente “Ateu”, escreveu: «Quando alguém adota uma religião – qualquer uma: cristianismo, judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo, espiritismo – a primeira coisa que morre nele é a humanidade. Depois, a tolerância, a compaixão e o senso de justiça. E tenho dito!».

O segundo, cujo nome – não sei se fictício – é Tonho, parece querer justificar os desmandos atuais de algumas religiões trazendo à memória as culpas da Igreja Católica na Idade Média: «Já não houve fundamentalismo católico? A Santa Inquisição? Os acusados de heresia não eram queimados vivos em praça pública?».

Mais do que com Tonho, preciso concordar com o ateu: a religião é uma desgraça para todos quando, ao invés de um encontro com um Deus que é sempre e somente amor, ela se transforma numa ideologia a serviço dos interesses humanos. Não será por isso que aumenta constantemente o número dos ateus? Se a religião não é capaz de transformar as pessoas em cidadãos que atuam por um mundo justo e fraterno, para nada serve.

Sobre os massacres ocorridos na Nigéria, a Organização das Nações Unidas assim se manifestou: «A ONU condena nos termos mais fortes esses ataques e expressa suas condolências ao povo da Nigéria, assim como às famílias que perderam entes queridos. O Secretário-Geral apela mais uma vez para se pôr fim a todos os atos de violência sectária no país, e reitera sua firme convicção em que nenhum objetivo pode ser justificado com o recurso da violência».

“Nenhum objetivo”, muito menos a religião, cuja tarefa principal deveria ser a promoção da paz e da concórdia. É o que declarou também o porta-voz do Vaticano, Pe. Federico Lombardi: «O atentado contra as igrejas na Nigéria, precisamente no dia de Natal, manifesta infelizmente mais uma vez um ódio cego e absurdo, que não tem nenhum respeito pela vida humana».

Mas não é apenas na Nigéria que a religião é instrumentalizada pela maldade humana. No Iraque, nenhuma missa foi celebrada na noite do Natal, para não pôr em risco a segurança dos fiéis, aterrorizados por inúmeros ataques perpetrados contra eles. (No dia 31 de outubro de 2011, foram mortos 57 cristãos).

Outro fato doloroso aconteceu no Tadjiquistão, no dia seguinte ao Natal. Um jovem de 24 anos foi morto a facadas por um grupo de muçulmanos enfurecidos quando ele visitava familiares e amigos na madrugada de segunda-feira, vestido como Ded Moroz – o Papai Noel da tradição russa. De acordo com as fontes policiais, o assassino gritou na hora do crime: “Infiel!”.

Totalmente diferente deve ser o relacionamento entre as religiões que desejam subsistir. A indiferença, a desconfiança e o ressentimento que as mantêm distantes uma da outra, precisam ser substituídos pela estima, pelo diálogo e pelo encontro. É esta também a convicção do teólogo espanhol, Pe. Andrés Torres Queiruga: «O diálogo não é um capricho, mas constitui uma condição intrínseca da verdade, porque não é possível aproximar-se sozinhos, fechados no egoísmo dos próprios limites, da riqueza infinita da oferta divina. Unicamente juntos, dando e recebendo, num contínuo intercâmbio de descobertas e experiências, de crítica e enriquecimento mútuos, é que se vai construindo na história a resposta à revelação salvífica. Cada religião reflete a verdade à sua maneira e a partir de uma situação particular. Todavia, à medida que elas sobem e se aperfeiçoam, se aproximam entre si, segundo a famosa frase de Teilhard de Chardin: “Tudo o que sobe, converge”.

Talvez, por isso, convenha ir substituindo – ou pelo menos completando – a palavra “diálogo” pela palavra “encontro”. O diálogo pode implicar a conotação de uma verdade que já se possui plenamente e que vai ser “negociada” com o outro, que também já tem a sua. O encontro, pelo contrário, sugere muito mais um sair de si, unindo-se ao outro, para ir em busca daquilo que está diante de todos».

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Dom Redovino Rizzardo
Bispo de Dourados (MS)

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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