Porque o nome do Papa é Bento e não Benedito?

O Emmo. Sr. Cardeal Joseph Ratzinger, sendo eleito 265º sucessor do Apóstolo São Pedro escolheu, seguindo uma multisecular tradição, ser chamado por um novo nome, Bento, cuja grafia na língua oficial da Igreja, que o latim, é Benedictus.

Com a ajuda de um grande latinista, que preferiu permanecer “in Deo abscondito”, chegamos à seguinte conclusão: Bento ou Benedito vêm do verbo – benedicere. Como aconteceu com as demais línguas derivadas do latim, o português manteve palavras mais próximas do original latino, chamadas eruditas, e palavras de derivação com forma mais popular.

O verbo benedicere não escapou à regra: resultou em bendizer, com o particípio passado bendito, na forma erudita, e em benzer, com duplo particípio: benzido e bento.

Quando o particípio foi substantivado, enquanto nas demais línguas foi mantida uma única forma – benedetto (italiano), bendito (espanhol), no francês e no português resultou em duas formas: béni e benoît e bendito e bento.

Como nome próprio, Benedictus, do latim, tem uma só forma em algumas línguas latinas – Benoît (fr), Benedetto (it). Na língua portuguesa o nome Bento já veio com os colonizadores, referindo-se a um Santo: “Houve um homem de vida venerável, Bento tanto pela graça quanto pelo nome” que viveu entre os anos 480 e 547, escrevendo para os seus monges uma Regra, sendo considerado o patriarca dos monges do Ocidente, que em sua maioria, hoje, por viverem a sua Regra são chamados de beneditinos. Em 24 de outubro de 1964 o Papa Paulo VI o proclamou Patrono da Europa. A memória litúrgica de São Bento por causa da quaresma, antes celebrada no dia 21 de março em toda a Igreja, data provável de sua morte, foi transferida para o dia 11 de julho, data em que desde a Idade Média, se fazia também sua memória.

Em Portugal, por exemplo, para que bem se distinga Santo Antônio de Lisboa (1195-1231), o Santo Antônio do Deserto (250-356), é chamado de Santo Antão, para não confundir São Mauro, discípulo de São Bento, com um santo Mouro, vem chamado de Santo Amaro…

Na Igreja existe um São Benedito, cuja memória facultativa é feita no dia 05 de outubro, ele que morreu em 1589, portanto, 1042 anos depois de São Bento. No Brasil, quando os negros começaram sua devoção a esse Santo, siciliano de origem etíope, portanto não necessariamente negro, chamaram-no, eruditamente, de Benedito, para não confundir com o São Bento dos beneditinos e não bentinos, como alguém poderia até supor. Se houve nisso alguma manifestação de racismo, dever-se-ia admitir a discriminação racial até entre os santos e, curiosamente as imagens de Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora de Monserrate e Nossa Senhora de Montevergine, à guisa de citação, são negras e, nem por isso são discriminadas, espero que se entenda realmente o porque de Bento XVI sem que criemos fantasias ou correspondamos simplesmente à vontade daqueles que já a criaram, desfaçamos os mitos, sejamos mais reais.

Nos mais de dois mil anos de história do cristianismo tivemos os seguintes Papas com esse nome:

O Papa Bento I, romano, governou a Igreja de 02 de junho de 575 a 30 de julho de 579;

O Papa Bento II, romano, governou a Igreja de 26 de junho de 684 a 08 de maio de 685;

O Papa Bento III, romano, governou a Igreja de 29 de setembro de 855 a 17 de abril de 858;

O Papa Bento IV, romano, governou a Igreja de 1º de fevereiro de 900 a … julho de 935;

O Papa Bento V, romano, governou a Igreja de 22 de maio de 964 a 04 de julho de 966;

O Papa Bento VI, romano, governou a Igreja de 19 de janeiro de 973 a … junho de 974;

O Papa Bento VII, romano governou a Igreja de … outubro de 974 a 10 de julho de 983;

O Papa Bento VIII, tuscolano, governou a Igreja de 18 de maio de 1012 a 09 de abril de 1024;

O Papa Bento IX, tuscolano, governou a Igreja de 1032 a 1044; 10 de abril a 1º de maio de 1045 e de 08 de novembro de 1047 a 17 de julho de 1058;

O Papa Bento X, romano, governou a Igreja de 05 de abril de 1058 a 24 de janeiro de 1059;

O Papa Bento XI, trevisano, governou a Igreja de 27 de outubro de 1303 a 07 de julho de 1304, foi beatificado;

O Papa Bento XII, francês, governou a Igreja de 20 de dezembro de 1334 a 25 de abril de 1342;

O Papa Bento XIII, gravinense, governou a Igreja de 04 de junho de 1724 a 21 de fevereiro de 1730;

O Papa Bento XIV, bolonhense, governou a Igreja de 21 de agosto de 1740 a 03 de maio de 1758;

O Papa Bento XV, genovês, governou a Igreja de 06 de novembro de 1914 a 22 de janeiro de 1922.

Que o nosso Papa Bento XVI, a quem desejamos longos anos de pontificado, seja também Bento, tanto pela graça quanto pelo nome, “Bendito seja Bento que vem em nome do Senhor”!

Em latim podemos dizer uma frase que bem soa: “Benedictus benedicat benedictum”. Que Bento abençoe o que está bento! Que o Papa Bento, nos confirme na fé, como Vigário de Jesus Cristo e Servo dos servos de Deus.

D. Hugo Cavalcante, OSB 

Fonte: CNBB: http://www.cnbb.org.br/

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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