Por que a violência no Antigo Testamento?

BibleMuitos fazem esta pergunta. Pois bem, o frei Inácio Cantalamessa, O.F.M, Capuchinho, Pregador do Papa, na Basílica de São Pedro, no dia 03 de abril de 2015, Sexta-feira Santa disse algo muito interessante. Transcrevo aqui o que ele disse:

“Alguém poderia objetar: mas a Bíblia também não está cheia de histórias de violência? Deus mesmo não é chamado de “Senhor dos Exércitos”? Não é atribuída a Ele a ordem de exterminar cidades inteiras? Não é Ele quem decreta, na Lei mosaica, numerosos casos de pena de morte?

Se tivessem dirigido a Jesus, durante a sua vida, esta mesma objeção, Ele certamente teria respondido o que respondeu sobre o divórcio: “Foi por causa da dureza do vosso coração que Moisés vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim” (Mt 19,8). Também sobre a violência, “no princípio não foi assim”. O primeiro capítulo do Gênesis mostra um mundo onde a violência não é sequer pensável, nem dos seres humanos entre si, nem entre homens e animais. Nem sequer para vingar a morte de Abel, e assim punir um assassino, é lícito matar (cf. Gn 4, 15).

O genuíno pensamento de Deus é expresso pelo mandamento “Não matarás”, e não pelas exceções abertas na Lei, que são concessões à “dureza do coração” e dos costumes dos homens. A violência, depois do pecado, infelizmente faz parte da vida; e o Antigo Testamento, que reflete a vida e deve servir à vida, procura pelo menos, com a sua legislação e com a própria pena de morte, canalizar e conter a violência para que ela não se degenere em arbítrio pessoal. [Cf R. Girard, Delle cose nascoste sin dalla fondazione del mondo, Adelphi, Milão 19963.].

pag_dif_menorPaulo fala de uma época caracterizada pela “tolerância” de Deus (Rm 3, 25). Deus tolera a violência como tolera a poligamia, o divórcio e outras coisas, mas educa o povo para um tempo em que o seu plano original possa ser “recapitulado”, como para uma nova criação. Esse tempo chega com Jesus, que, na montanha, proclama: “Ouvistes o que foi dito: olho por olho, dente por dente; mas eu vos digo: não resistais aos malvados; se alguém vos bater na face direita, oferecei também a outra… Ouvistes o que foi dito: amai o vosso próximo e odiai o vosso inimigo; eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5,38-39; 43-44).

O verdadeiro “sermão da montanha” que mudou o mundo, no entanto, não é aquele que Jesus fez um dia sobre uma colina da Galileia, mas aquele que Ele proclama agora, silenciosamente, na cruz. No Calvário, Ele pronuncia um definitivo “não!” à violência, opondo a ela não apenas a não-violência, mas o perdão, a bondade e o amor. Se ainda houver violência, ela já não poderá, sequer remotamente, remontar a Deus e revestir-se da sua autoridade. Fazer isto significa retroceder na ideia de Deus a estágios primitivos e grosseiros, superados pela consciência religiosa e civil da humanidade.” (Fim da pregação de Cantalamessa).

A história de Israel é a história de uma educação de um povo que vivia no meio dos pagãos, muitos deuses e repletos de costumes errados que penetraram na sua cultura. Esse “limite da cultura”, como diz Bento XVI, não permitia ainda a Deus fazer o povo entende-lo de outra maneira. Então Deus tolera o divórcio, a poligamia, e outros erros que vemos o Antigo Testamento. Mas, devagar, por fases, Deus faz seu povo sair da violência em Seu Nome, até o dia em que Jesus diz no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os mansos”.

Deus é paciente porque é eterno; não tem pressa; Ele sabe que existe um caminho para lidar com a nossa dureza de coração, tibieza de alma e preguiça espiritual; então vai devagar conosco para que não o abandonemos de vez. Na cultura e na moral da época, esse agir “violento” de Deus, era, para o povo, normal e legítimo. Ninguém entende a história se não entende a mentalidade da época em que os fatos aconteceram. Esta é a nossa dificuldade para entender o passado.

No começo da Bíblia, os primeiros capítulos do livro do Gênesis falam da criação e da origem da humanidade: a violência não tem sua origem em Deus. A primeira consequência do pecado é a violência. Em meio à rivalidade, Caim mata Abel. Deus quer acabar com o ciclo infernal da violência e protege Caim; não permite que outros o matem. Mas a violência continua. E aumenta tanto que Deus se arrepende de ter criado o homem. “A terra está repleta de violência por causa dos homens”, diz a Noé. E Deus faz um novo começo, a partir do único justo que encontra: Noé e sua família!

Deus permite que o dilúvio elimine pecadores e pecados. Não é vingança divina; é correção; a Justiça perfeita de Deus, mas não pode deixar indefinidamente que se propaguem o mal, a injustiça, a violência, o pecado. Então, Ele corrige o homem segundo os seus costumes, sua época, sua mentalidade.

Muitas passagens da Bíblia utilizam uma linguagem de imagens. E não podemos, com mentes superficiais, encarar isso com superficialidade. Por exemplo, Deus impediu que Abraão lhe oferecesse seu filho em sacrifício e esta proibição permanecerá. Abraão estava acostumado com sacrifícios humanos aos deuses da Babilônia, de Ur na Caldeia, de onde Deus o tirou. Por isso Ele aceitou sacrificar Isac, mas Deus só estava testando o seu amor.

Outro exemplo: Em Jerusalém, o vale de Geena está amaldiçoado porque reis ímpios acreditavam atrair os favores divinos sacrificando seus filhos e filhas. Deus condena isso, no profeta Jeremias: “Uma coisa dessas eu nunca mandei fazer!” (Jr 7, 31).

Ainda: Deus faz chover fogo sobre Sodoma, para eliminar seu pecado. Ali não havia dez justos pedido por Abraão. Dois Apóstolos (o meigo João e Tiago) queriam, um dia, fazer descer fogo do céu sobre os samaritanos, por terem rejeitados Jesus. O Mestre os repreende: “quero misericórdia!”. “Vocês não sabem que espírito os anima”. Deus não é violento: é justo e protege seu povo.

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Naquele mundo imerso na violência, o povo de Israel, também acostumado com ela, se encontra em estado de guerra ao chegar a Palestina, saindo livre do Egito. Está em jogo a sua independência nacional e também religiosa, por isso, entra em combate com os povos que o cercam. Era algo normal naquele tempo, naquela cultura: a guerra era uma atividade cotidiana. As guerras de Israel têm, portanto, segundo o costume válido, um objetivo sagrado. Deus é o “Senhor dos exércitos” celestiais, e também dos exércitos de Israel que defendem a sua independência religiosa. Dai vai nascer o Salvador de todos os homens.

Outro fato importante, é que Israel está misturado com povos pagãos, cheios de idolatria, e maus costumes, correndo o risco de adotar também os seus deuses, como aconteceu muitas vezes. Por isso, o desejo de “pureza religiosa” levou ao aniquilamento de algumas populações. Mas este tipo de conduta, pouco frequente, teve muitas vezes causas muito mais mundanas.

Israel foi mais vítima da violência que autor dela. A mudança total de perspectivas é anunciada pelas profecias de Isaías do Servo de Deus: “Meu servo justificará muitos e suportará as culpas deles” (Is 53,11).

Portanto, é preciso entender que a violência na Bíblia é a história da educação de um povo, que sai do mundo pagão, violento, para se tornar o povo de Deus, de onde virá a Salvação. Onde não está presente a violência na nossa sociedade, no nosso mundo, e também nos nossos corações? O século XX foi o século mais violento da história. E o XXI já parece ultrapassá-lo.

Se existe ódio, ele se dirige a todas as formas do mal: a rejeição de Deus, a falsidade, a injustiça, o desprezo dos outros, da sua dignidade, dos seus bens. É preciso odiar o pecado e amar o pecador. É o que o autor do salmo citado não podia entender: “Com grande ódio eu os odeio”; é o que Jesus realizou perfeitamente e que seus adversários não entenderam.

Como devemos interpretar, hoje, os inimigos do povo de Deus no Antigo Testamento? Sobretudo as forças do mal que combatem contra Deus, Seu Reino, e contra a Igreja. Não mais serão vencidos pelas forças dos cavalos, das lanças e das espadas, mas pelo poder de Deus, como Jesus ensinou no Sermão da Montanha.

Prof. Felipe Aquino

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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