Permanecei em Mim

76631437.2V8PCjoB.rosary3São João evangelista coloca no discurso de Jesus na Santa Ceia, no capítulo 15, uma recomendação de Jesus, fundamental para todo cristão: “Sem Mim nada podeis fazer” (João 15,5). Nada é nada; isto é, sem estarmos unidos a Jesus não podemos fazer a vontade de Deus em nossa vida, não podemos dar frutos para Deus, seja na vida profissional, familiar, no apostolado, etc. Jesus diz que o Pai é glorificado se dermos frutos e nos tornarmos seus discípulos (v.8). “Permanecei em Mim, e Eu permanecerei em vós” (v.4).

Jesus nos deixou uma parábola muito esclarecedora para entendermos isso: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Videira vem de vida. Todo ramo que não der fruto em Mim, Ele o cortará; e podará todo o que der fruto, para que produza mais fruto” (v 1-2). Deus mesmo providencia para que possamos dar frutos; Ele cuida de nossa alma como um bom jardineiro cuida do seu jardim. Arranca as ervas daninhas e poda os galhos sem vida.

Para que possamos dar frutos para Deus, ser “luz do mundo e sal da Terra”, Jesus insiste: “Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim será lançado fora, como o ramo. Ele secará e hão de ajuntá-lo e lançá-lo ao fogo, e queimar-se-á.

É o próprio Jesus quem nos escolheu para sermos seus discípulos e darmos frutos para Deus: “Não fostes vós que me escolhestes, mas eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça.” (v.9)

Nós não somos fonte de vida; a recebemos de Jesus; Ele quer que tenhamos “vida interior”, isto é, comunhão íntima com Deus que habita em nós, como em um templo, como disse São Paulo (cf. 1Cor 3,16; 6,19), desde que não haja nela pecado mortal que afasta Deus. Eles querem morar em nós: “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele nossa morada” (Jo 14,23).

Sem a consciência de que Deus habita em nós, e sem uma vida de comunhão e intimidade com Ele, o cristão não dá fruto, seu apostolado não atinge as pessoas, sua fé fraqueja, as provações o desanimam e as tentações o derrubam. Deus é a nossa força e fortaleza, canta o Salmista inúmeras vezes. Com Deus tudo é possível. “Se permanecerdes em mim, e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que quiserdes e vos será feito” (v.7). Santa Teresa de Ávila dizia: “Teresa e algumas pessetas nada pode, mas Teresa, algumas pessetas e Jesus, tudo pode”.

Mas como viver em união com Jesus? Ele mesmo providenciou muitos meios. Um deles é a meditação de Sua Palavra nos Evangelhos, onde Ele nos fala, nos interroga, nos exorta e corrige; e damos nossa resposta a Ele. Sua palavra nos transforma porque é “viva e eficaz” (Hb 12,4). É um meio poderoso de oração.

Podemos também aquecer nossa alma na intimidade com Deus com a meditação de bons livros, como, por exemplo, a “Imitação de Cristo”, a “Imitação de Maria”, e outros livros de boa espiritualidade. O importante é que todo dia a alma seja alimentada na meditação e na oração. Uma alma que não reza e não medita, não respira, não tem vida, perde toda a força espiritual.

Outro meio que Jesus nos deixou – o mais importante – é a Eucaristia. Por ela, Ele mesmo sacia a nossa sede e mata a nossa fome, com o Pão da vida eterna. Ele disse: “Quem come a minha carne, bebe o meu sangue tem a vida eterna… permanece em Mim e Eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a Minha carne viverá por Mim” (Jo 6,54-57). Pela Eucaristia Jesus vive em nós e nos dá a sua força.

Quem comunga bem, em estado de graça, e faz a Ação de Graças, ao menos uns quinze minutos após a Comunhão, tem uma comunhão com Jesus que nada pode superar. Infelizmente, muitos comungam mal, sem as disposições necessárias, por isso, não colhem seus frutos; e a Comunhão fica algo mecânico.imitacao_menorf

Outra fonte de comunhão íntima com Jesus é estar com Ele diante do Sacrário. Nós não o vemos, mas Ele nos vê, nos ouve, nos conhece. É o momento de adoração, intercessão, louvor, ação de graças, e o momento de intimidade com Ele, colocando em Seu coração todos os problemas, angustias, lutas, dúvidas, decisões a serem tomadas, etc. Ele está ali à nossa disposição, mas nos esquecemos Dele. Tem muitas graças a distribuir, mas são poucos que vem a Ele.

Nosso apostolado só será frutuoso, só tocará as pessoas e as converterá, se dermos a elas o que recebemos de Jesus, na oração e na meditação; porque, de nós mesmos, nada temos a dar aos outros. Sem isso, nossas palavras e atos são inócuos. É por isso que muitos apostolados são vazios, sem poder, sem alegria.

Também nos momentos de provação e de trabalho podemos estar unidos a Jesus. Ele nos convida a carregar com Ele a cruz salvadora. “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie-se a si mesmo, tome a sua cruz, a cada dia e Me siga” (Lc 9,23). Nos momentos de luta Jesus está ao nosso lado, ainda que não sintamos a Sua presença; mas a fé nos garante isso. “Eis que estou convosco todos os dias…” (Mt 28,20). Pare alguns instantes durante do dia e volva seu olhar para Jesus que está na sua alma.

Nos irmãos encontramos Jesus. Ele disse que está no menor dos pequeninos; se identifica, sobretudo, com quem sofre; e quando socorremos o irmão que sofre, fazemos comunhão com Jesus. Mas a caridade só pode ser realizada com quem tem uma alma aquecida pela oração, pela contemplação e meditação. Sem isso, a própria caridade se esvazia, não é realizada por amor a Deus, não passa de filantropia.

Jamais nos esqueçamos deste aviso: “Sem Mim nada podeis fazer”. O Salmista nos lembra de que: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os seus construtores. Se o Senhor não vigiar a cidade, em vão a guardam os sentinelas” (Sl 126,1).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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