Pedagogia moderna: foco na inteligência apenas?

Nas últimas
décadas, notam-se louváveis esforços no sentido de resgate da visão do homem
como um todo na educação, como Howard Gardner, professor de Neurologia na
Boston School of Medicine e de Psicologia na Harvard University, com sua
“Teoria das inteligências múltiplas” (1983), em que a inteligência
humana é apresentada como tendo várias facetas, ampliando os horizontes
pedagógicos que haviam se restringido apenas às inteligências linguística e
lógico-matemática. Estas por sinal são a base também para os testes de QI
(Quociente Intelectual), hoje muito contestados, e com razão, porém, tanto em
voga até há pouco. Encontramos casos curiosos de testes de QI aplicados a
esportistas célebres que os apontaram no limite da debilidade mental… Outras
inteligências – ou seja, talentos, capacidades e habilidades mentais – deveriam
igualmente ser trabalhadas, segundo Gardner, como a visual/espacial, a corporal/cinestésica,
a musical, a interpessoal e a intrapessoal. Por que matemática, por exemplo,
seria mais importante do que música? Concepção essa mais holística, que é
aceita geralmente pelos educadores contemporâneos. Um progresso, sem dúvida.
Embora, diga-se de passagem, não esteja ainda nossa legislação educacional
devidamente atualizada quando permite que os exames de reclassificação se
restrinjam às disciplinas de português e matemática simplesmente. Quantos
futuros artistas e esportistas que quiçá serão famosos, um dia, não estarão
sendo prejudicados hoje?

Porém, o
foco da atenção da grande maioria dos educadores modernos é o mecanismo da
inteligência, o funcionamento do cérebro, a epistemologia no homem, o que não é
suficiente, pois não abarca a pessoa inteira. Procura-se reduzir o homem à
matéria, não considerando estudos científicos recentes que revelam como a
percepção e as atividades mentais são metaneuronais.

Se a
percepção é metaneuronal, com maior razão o deve ser a atividade mental, o
pensamento. A primeira atividade mental é a formação de conceitos ou idéias,
operação que consiste em eliminar o acidental de uma coisa, para ficar com sua
essência. […] Portanto, devemos concluir que: se para chegar à abstração
prescindimos de toda informação sensorial, que é a que nos proporcionam os
neurônios, o processo de abstração há de ser metaneuronal. […] Se não é o
cérebro o que se encarrega de abstrair, quem é o responsável desta função?
Segundo Aristóteles […] é o entendimento agente, que como atividade anímica
que é, não reside no cérebro mas corresponde à pessoa, composto substancial de
corpo e alma (SANZ, 2007: 140-141, tradução nossa).

Naturalmente,
as novas descobertas no campo da psicologia e da neurologia são muito úteis,
porém, segundo aponta a antropologia cristã, há uma falha capital ao não se
considerar a alma humana e o primordial papel da vontade na educação de uma
criança. Estuda-se o corpo humano, sobretudo o cérebro e seu funcionamento;
ignora-se a alma. Sobretudo ignora-se a realidade dos efeitos do pecado
original nas potências da alma: inteligência, vontade e sensibilidade. Sendo o
homem principalmente alma, a qual, como espírito, é superior à matéria, não se
considera o que de mais importante há no ser humano. Daí, a crônica
insuficiência notada na pedagogia moderna, nos seus múltiplos e variados
sistemas de ensino.

Com todo o
avanço técnico, não é recorrente a queixa entre os educadores quanto à baixa
qualidade dos estudantes, e do nível de aprendizagem? Quem ousaria afirmar que
os jovens de hoje aprendem mais e estão mais preparados que seus pais ou avós,
na mesma idade?
Pelos frutos se conhece a árvore, diz o provérbio popular.

Pe. Ricardo
Basso, EP

 

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.