Pecado Original: como entender?

Em síntese: O pecado original originariamente é o Não dito pelos primeiros pais ao convite de Deus que chamava o gênero humano a um estado sobrenatural ou de filiação divina. Tal estado se caracterizava pela posse da graça santificante e dos dons conexos (conjunto que se chama, em linguagem teológica, “justiça original”).

Tendo perdido a justiça original, os primeiros pais só puderam gerar prole carente de tais dons. É esta carência, em consequência da qual o ser humano é desarmonioso ou desregrado em seu íntimo, que se chama “pecado original originado” na criança; este não é culpa propriamente dita, como a dos primeiros pais, mas uma dissonância em relação ao modelo traçado por Deus. A doutrina assim concebida toca pontos de fé definidos pela Igreja e está isenta de qualquer objeção por parte das ciências naturais.

O tema “pecado original” já foi abordado em PR 120/1969 pp. 518-529. Volta à baila neste fascículo, a fim de completar quanto foi dito sobre o livro de C. Mesters: “Paraíso Terrestre: Saudade ou Esperança?” Estudaremos o texto bíblico em seus aspectos linguísticos e humanos, e procuraremos ouvir o que a respeito tem dito a Igreja no decorrer dos séculos.

O Paraíso Terrestre

O primeiro ponto a encarar é o do paraíso terrestre (Gn 2,8-15). A Bíblia nos fala de um jardim ameno, irrigado por quatro rios: o Fison, o Geon, o Tigre e o Eufrates. Os estudiosos têm procurado localizar esse paraíso: o Tigre e o Eufrates são rios da Mesopotâmia muito conhecidos, mas o Geon e o Fison não podem mais ser identificados. Foram propostas, no decurso dos tempos, cerca de oitenta sentenças para situar o paraíso terrestre. Hoje em dia, porém, os estudiosos julgam que esse “jardim bíblico” não significa um lugar determinado, mas tão somente o estado de harmonia e felicidade a que o homem foi elevado logo depois de criado.

Com efeito, o rio é, para os antigos, símbolo de vida e fecundidade. Quatro é o número que designa a totalidade das coisas deste mundo; por conseguinte, quatro rios significam o bem-estar interior e exterior de que gozavam os primeiros pais logo após a criação.

Na verdade, quem lê atentamente o texto bíblico, verifica-se que os primeiros homens gozavam de dons especiais constitutivos da “justiça original”¹; esta compreendia:

1) A filiação divina ou a graça santificante ou a elevação do homem à condição do filho de Deus, chamado a participar da vida e da felicidade do próprio Deus. É o que se deduz do texto sagrado, o qual indica claramente que Adão vivia na amizade com o Criador. Este Dom é dito “sobrenatural”, isto é, ultrapassa todas as exigências de qualquer criatura.

2) Os dons preternaturais, isto é, ampliavam as perfeições da natureza:

a) a imortalidade, pois em Gn 2,7; 3,3s.19 a morte é apresentada como consequência do pecado; isto significa que, antes do pecado, o homem não morreria dolorosa e tragicamente como hoje morre;

b) a impassibilidade ou ausência de sofrimentos, pois estes decorrem da sentença contraditória de Gn 3, 16;

c) a integridade ou a imunidade de concupiscência desregrada, visto que os primeiros pais, antes do pecado, não se envergonhavam da sua nudez (cf. Gn 2,25; 3,7-11); os seus instintos ou afetos estavam em consonância com a razão e a fé; não havia neles tendências contraditórias;;

d) a ciência moral infusa, que os tornava aptos a assumir as suas responsabilidades diante de Deus. Os dons da justiça original não implicam que os primeiros homens fossem formosos; terão sido dons meramente interiores, compatíveis com a configuração rude e primitiva que as ciências naturais atribuem aos primeiros seres humanos.

A Bíblia menciona no paraíso duas árvores: a da ciência do bem e do mal e a da vida (Gn 2,9). Hoje em dia, sabe-se pelo estudo das literaturas antigas que a árvore era um símbolo religioso assaz frequente; é, pois, em sentido simbólico que entendemos as árvores de Gn 2. A árvore da ciência do bem e do mal designa um preceito ou um modelo de vida que daria ao homem a ciência ou a experiência concreta do que são o bem e o mal. Era justo que Deus indicasse ao homem um modelo de vida, pois o homem, elevado à filiação divina, não se deveria reger apenas por critérios racionais ou naturais, mas deveria seguir uma norma de vida incutida pelo próprio Deus. Devemos renunciar a pedir pormenores desse modelo de vida. – Quanto à árvore da vida, pode-se crer que ela dava ao homem o fruto da vida perpétua ou o sacramento da imortalidade; o homem saberia assim que a imortalidade é um dom de Deus.

2. O pecado dos primeiros pais

1. Em Gn 3, 1 entra em cena a serpente como “o mais astuto de todos os animais do campo”. Tal serpente é imagem do demônio tentador. O livro da Sabedoria (2,23) diz que “Deus não fez a morte, mas esta entrou no mundo por inveja do demônio”; e Jesus, aludindo a Gn 3, chama o Maligno “homicida desde o início, mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44). O demônio é um anjo, que Deus criou bom. Mas que se rebelou contra o Criador por soberba (vê-se que desde as suas primeira páginas a Escritura supõe e afirma a existência dos anjos, especialmente a dos anjos maus). O autor sagrado quis simbolizar o Maligno mediante a figura da serpente, porque esta frequentemente na S. Escritura representa o homem malvado e fraudulento (Gn 49,17; Is 59,5; Mq 7,17; Jó 20,14-16; Sl 140 [ 141 ], 4). Mais: é de observar que a serpente era, para os cananeus (antigos habitantes da terra de Israel), uma divindade associada à fecundidade e à vida; ora, precisamente para condenar essa figura, o autor talvez tenha apresentado o tentador sob forma de serpente; assim a descrição da serpente paradisíaca assumia, para o israelita, o valor de admoestação contra a sedução dos cultos idólatras que cercavam a verdadeira religião.

Não é necessário admitir que a mulher tenha visto uma serpente diante de si, mas pode-se dizer que o diálogo entre o tentador e a mulher foi meramente interno, como acontece geralmente nas tentações ao pecado.

2. Em Gn 3,6s está dito que os primeiros pais comeram da fruta proibida. Isto quer dizer que desobedeceram a Deus ou não aceitaram o modelo de vida que o Senhor lhes havia apontado.

A raiz desse pecado foi a soberba. Notemos que a serpente, ao tentar os primeiros pais, disse explicitamente: “No dia em que comerdes… os vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, versados no bem e no mal” (Gn 3,5). Precisamente o homem quis ser como Deus, capaz de definir o que é  o bem e o que é o mal, sem ter que pedir normas ao Senhor. A soberba é o pecado do espírito, o único que os primeiros homens, portadores da harmonia original, podiam cometer. A soberba se exteriorizou em determinado ato, que não podemos identificar.

Há quem diga que o primeiro pecado foi o de ordem sexual. Argumentam afirmando que 1) ciência ou conhecimento na Bíblia significa por vezes o relacionamento sexual (cf. Gn 4,1.17.25); 2) os primeiros pais estavam nus, e não se envergonhavam um do outro (2,25), mas após o pecado se recobriram (3,7); 3) a mulher foi punida pelas dores do parto (3,16). A propósito observamos: 1) quando se trata do relacionamento sexual, o texto sagrado diz “conhecer sua esposa” (cf. Gn 4,1.17..25), ao passo que em Gn 2,17; 3,5 se lê “conhecer o bem e o mal”; 2) o aparecimento da concupiscência sexual e a vergonha se seguem à culpa e não a precedem, como seria lógico no caso de um pecado sexual; 3) a mulher, punida pelas dores do parto, foi atingida em sua função específica de mãe, como o homem, condenado a ganhar o pão ao suor da sua fronte (3,19), foi atingido em sua função típica de trabalhador; não há, pois, necessidade de recorrer a pecado sexual para explicar o tipo de punição da mulher.

Vejamos agora

3. As consequências do pecado

Enumeremos as consequências do pecado: 1) em relação aos primeiros pais e 2) em relação aos seus descendentes.

1. Em relação aos primeiros pais, o pecado acarretou a perda da justiça original, ou seja, da filiação divina e dos dons que a acompanhavam. O texto sagrado (Gn 3,7) diz que, após o pecado, “abriram-se-lhes os olhos e reconheceram que estavam nus”” Essa nudez é, antes do mais, o despojamento interior ou a perda dos dons originais; a concupiscência ou a desordem das paixões se manifestou; por isto sentiram a necessidade de se vestir a fim de encobrir a sua natureza desregrada. Não há dúvida, a diversidade de tendências dentro do homem é algo decorrente da própria natureza humana (sensível e espiritual, ao mesmo tempo); todavia ela estaria superada se o homem não tivesse pecado em suas origens; ela hoje existe como consequência do pecado. Da mesma forma, os homens perderam o dom da imortalidade (ou o poder não morrer); sem dúvida, a morte é um fenômeno natural, inerente à criatura, mas a sua realidade hoje é consequência do primeiro pecado, conforme a S. Escritura (cf. Rm 5,12.19). O mesmo se diga em relação ao sofrimento; é um dos precursores da morte.

O pecado acarretou também a desarmonia no mundo irracional que cerca o homem; este já não é o ponto de convergência das criaturas inferiores; ao contrário, estas muitas vezes prejudicam o homem e lhe negam a sua serventia; tendo-se rebelado contra Deus, o homem sente contra si a rebelião das criaturas inferiores.

Depois da queda, o  Senhor Deus quis interrogar os primeiros homens (Gn 2,8-13). As respostas são bem características de quem é culpado: o homem, antes de confessar, acusa, com certa covardia, a esposa como causa da sua desgraça (3,12); da mesma forma, a mulher acusa a outrem, a serpente (3,130. Ambos silenciam o verdadeiro motivo da sua desobediência: a soberba ou o desejo de serem iguais a Deus, arbitrando entre o bem e o mal ou definindo a sua própria regra de vida. Na  verdade, o pecado acovarda o homem e separa-o do seu semelhante e mesmo mais íntimo amigo.

Todavia o Senhor não quis apenas condenar os pecadores. Ao mesmo tempo, propôs-lhe a esperança da reconciliação que é chamada, no caso, “o proto-evangelho” (ou o primeiro Evangelho). Ler Gn 3,14s… A sentença sobre a serpente não recai sobre o animal irracional, mas sobre o tentador: “rastejar  e comer a poeira da terra” são imagens que significam derrota (os vencedores, na antiguidade, colocavam os adversários derrotados no chão, debaixo de seus pés); o texto sagrado quer assim dizer que o demônio é um lutador já vencido; poderá maltratar os fiéis de Deus no decorrer da história, mas pode estar certo de sua derrota final. Para corroborar esta afirmação, o Senhor promete colocar inimizade entre a serpente (o tentador) e a mulher, entre a descendência da serpente (os homens maus) e a descendência da mulher (os homens bons) – o que significa: promete reconciliar a mulher e os seus descendentes são os homens bons, que não seguem as sugestões do tentador; todavia o papel da mulher e o de sua descendência só se tornaram plenos e perfeitos em Maria e em seu Filho Jesus Cristo; por isto o proto-evangelho alude indiretamente a Maria e a Jesus Cristo, prometendo a vitória do Senhor Jesus sobre o Maligno através da Cruz e da Ressurreição.

2. Em relação aos descendentes dos primeiros pais, o pecado original tornou-se algo de hereditário. Dizemos que todos os homens nascem com a culpa original. Todavia é preciso entender que não se trata de culpa pessoal ou de pecado voluntário nos descendentes de Adão e Eva. Nestes o pecado original consiste na ausência dos dons originais (graça santificante, dons preternaturais), que os primeiros pais deviam ter guardado e transmitido, mas não puderam transmitir porque pecaram. A criança que hoje nasce, devia nascer com a graça santificante, mas isto não acontece; ela nasce destoando do exemplar ou do modelo que o Senhor lhe tinha assinalado; essa dissonância (que implica a concupiscência desordenada e a morte) é que se chama, por analogia, “pecado original” nos pequeninos.

Por que Deus quis que a culpa dos primeiros pais assim repercutisse nos seus descendentes? Seria Deus vingativo? A criança, que não pediu a eventualidade de nascer, muito menos pediu nascer com pecado!

Em resposta, diremos: toda criança que vem ao mundo, nasce dentro de um contexto social, geográfico, do qual é solidária; assim há crianças que nascem no Brasil, outras na China, outras em Biafra, outras na Europa; há crianças que nascem no século XX, outras nasceram no século II a.C., outras no século X d. C… Cada uma  traz a herança da família, do lugar e da época em que nasce. Essa solidariedade é palpável, também no seguinte caso: imaginemos um pai de família que numa noite perde todos os seus bens numa jogatina de cassino; os filhos desse homem não têm culpa, mas hão de carregar as consequências (miséria, fome…) decorrentes do desatino de seu pai. Ora a solidariedade mais fundamental que cada um de nós traz, é a solidariedade com os primeiros pais; se estes perderam os dons originais, nós, sem culpa nossa, somos afetados por essa perda o que é muito lógico. Vê-se, pois, que a transmissão do pecado original não se deve a intenção vingativa de Deus, mas é consequência da índole mesma da natureza humana.

Há, porém, quem julgue que o ato de gerar é pecaminoso se por ele se transmite o pecado dos primeiros pais, responderemos que o ato biológico de gerar foi instituído pelo próprio Criador; em si ele nada tem de pecaminoso; transmite a natureza como se acha nos genitores; tal ato não é a causa do pecado original ou do estado desregrado em que nascem as crianças, nem pode exercer influxo sobre tal estado. O ato biológico de gerar poderia transmitir também a graça santificante se os primeiros pais a tivessem conservado. O que a geração não dá, isto é, a graça santificante, a  regeneração ou o Batismo o deve dar. Por isto, é que não se deve protrair o Batismo das crianças. O segundo  Adão, Jesus Cristo, readquiriu a filiação divina para o gênero humano e a comunica mediante o Batismo

A doutrina do pecado original pertence estritamente ao patrimônio da fé. Não é lícito reduzir o conceito de pecado original ao de “pecado do mundo”, como se não fosse mais do que o acúmulo de faltas pessoais que se cometeram desde o início da história, fazendo que todo homem seja, desde os seus primeiros anos, seduzindo ao mal.

Os povos primitivos antigos e contemporâneos têm a noção de que os males existentes no mundo não são originais nem devidos ao Criador, mas provêm de uma culpa dos primeiros homens ou de um pecado original; tal crença, tão generalizada como é, pode ser entendida como valioso argumento em favor da doutrina católica.

Para ulterior aprofundamento, veja:

BALLARINI, T., Introdução à Bíblia ll?1. Ed. Vozes Petrópolis, 1975.

BETTENCOURT, E., Ciência e Fé na história dos primórdios. Ed Agir, Rio de Janeiro 1958.
GRELOT, P., Reflexões sobre o problema do pecado original. Ed. Paulinas, 1969.
PAULO VI, Credo do Povo de Deus, 1967.

4. Os povos primitivos

4.1. A “origem” da morte

É assaz comum entre os povos primitivos a crença de que a morte e seus precursores, os males físicos, não pertenciam à ordem de coisas originária neste mundo, mas sobrevieram por efeito de uma desobediênciados homens à Divindade.

Como se entende, os diversos povos exprimem esta proposição com uma roupagem própria, fazendo entrar em cena os personagens mais expressivos e interessantes para a mentalidade de cada tribo. A mensagem, porém, das variadas estórias é sempre a mesma. Ora o fato de que homens localizados nas mais desconexas regiões do globo, detentores hoje de uma cultura que corresponde aproximadamente à dos inícios da humanidade, professem idêntica concepção a respeito da morte e do seu significado, insinua que tal concepção pertence ao patrimônio das noções primordiais do gênero humano.

Eis, pois, algumas dessas narrativas dos povos primitivos, pelas quais se manifesta a consciência de que a Morte é uma “intrusa” neste mundo.

Em New South Wales (África) várias tribos afirmam que os primeiros homens foram destinados a não morrer. Contudo era-lhes proibido aproximar-se de certa árvore oca, em que abelhas selvagens tinham feito a sua colméia. No decorrer do tempo, as mulheres cobiçaram o mel da árvore proibida, até que, belo dia, uma delas, desprezando as admoestações dos homens, tomou do seu machado e o arremessou contra o tronco; imediatamente saiu deste uma enorme coruja. Era a Morte, a qual de então por diante circula livremente sobre o mundo e reivindica para si tudo que ela possa tocar com as asas.

Os pigmeus referem que Deus (Mugasa) a princípio criou dois rapazes e uma jovem, com os quais vivia amigavelmente na floresta, como pai com seus filhos, num lugar de toda bonança: nada faltava aos homens, nem tinham que recear por alguma perspectiva de
morte. Mugasa apenas lhes proibira que procurassem ver a sua face. Habitava uma tenda, diante da qual diariamente a jovem tinha que depositar lenha para o fogo e um jarro de água. Um dia, porém, a moça, vencida pela curiosidade, escondeu-se atrás de uma árvore, ficando à espreita do “Pai”, que havia de aparecer. De fato, ela o pôde ver, quando estendia o braço reluzente de ornamentos a fim de apanhar o jarro. A menina alegrou-se então profundamente e guardou o segredo do ocorrido. Mugasa, porém, percebera a desobediência. Chamou os três irmãos à sua presença e lhes censurou a falta, predizendo-lhes que havia de os deixar; para o futuro, a indigência e a morte pesariam sobre eles. Os prantos do grupinho humano não conseguiram deter a sentença; certa noite Mugasa partiu rio acima, e não foi mais visto. Quanto ao primeiro filho que nasceu à mulher, morreu após três dias de existência…

Os Bagandas da África Central contam que Kintu, o primeiro homem, depois de Ter superado vários testes, obteve a licença de se casar com Nambi, uma das filhas de Mugulo (o Céu ou o Alto). O pai da donzela deixou que ela viesse com seu consorte para a terra, trazendo ricos presentes, entre os quais uma galinha; ao despedir-se do casal, mandou que se apressassem por sair, aproveitando o fato de que o irmão de Nambi, chamado Warumbe (a Morte), estava fora de casa; recomendou-lhes, outrossim, não voltassem para apanhar o que quer que tivessem esquecido. Durante a caminhada, porém, Nambi verificou que chegara a hora de dar de comer à galinha; já que esquecera o milho, consentiu então em que Kintu voltasse à casa para buscá-lo. Mugulo, o pai, ao rever o genro, irritou-se pela desobediência; Warumbe (a Morte), estando de novo em casa, fez questão de acompanhar Kintu; toda resistência tendo sido vã, a Morte desceu com o casal para a terra, onde até hoje habita com os homens. Graciosa é a história que contam os japoneses: o príncipe Ninighi se enamorou pela princesa “Florescente como as flores”. O pai da jovem, que era o Deus da grande Montanha, consentiu em seu casamento, e deixou-a partir com sua irmã mais velha “Alta como as rochas”. Esta, porém, era tremendamente feia, de sorte que o noivo a mandou voltar para casa. Em conseqüência, o velho Deus amaldiçoou o genro, e declarou que sua posteridade seria frágil e delicada como as flores!

Os “Bataks” de Palawan (ilhas Filipinas) contam que o seu deus costumava ressuscitar os mortos. Todavia certa vez os homens o quiseram enganar, apresentando-lhe um tubarão enfaixado como um cadáver. Quando a Divindade descobriu a astúcia, amaldiçoou os homens, condenando-os a ficar sujeitos ao sofrimento e à morte.

No  território de Uganda os “Masai” referem que um dos seres divinos ou Demiurgos deu a um homem a seguinte ordem: todas as vezes que morresse uma criança, deveria remover o cadáver dizendo: “Homem, morre e vem de novo à vida! Lua, morre, e desaparece definitivamente!” Essas palavras produziam o efeito de ressuscitar. Um dia, porém, o dito comissário da Divindade, posto diante de uma criança que não lhe pertencia, houve por bem desobedecer, invertendo os dizeres da famosa fórmula. Quando na vez seguinte repetiu a frase certa sobre um de seus próprios filhos, verificou que ela perdera o seu poder. De então por diante acontece que, quando a Lua morre, ela voltou à vida, ao passo que o homem, caindo nas garras da morte, é por esta detido. 4.2. O Demônio Adversário (= Satã)

Que haja um espírito mau, inimigo dos desígnios de Deus, sedutor dos homens, como o conhece o Gênesis, é proposição por vezes sujeita a dúvidas pela mentalidade moderna, a quem o Maligno parece ser criação da fantasia simplória ou primitiva.

Contudo quem investiga a história das religiões não se furta à impressão de que a crença no demônio e na sua ação perniciosa é mais um elemento do patrimônio religioso do gênero humano: afirmam-na os povos primitivos em variadas regiões, dando-nos a
supor que tenha sido professada (como doutrina referente à intrusão da Morte) quando os homens ainda se achavam congregados numa única população.

Note-se que a crença no demônio entre os primitivos se distingue do dualismo persa, gnóstico ou maniqueu, que é filosofia de povos colocados em grau de civilização muito posterior: o demônio adversário do Deus bom que os homens rudes conhecem, é um ser pessoal revoltado contra o Senhor, mas de certo modo subordinado à Divindade. Ao contrário, o Princípio do mal no dualismo é independente do princípio do bem; afeta a matéria, tornando-a abominável aos indivíduos religiosos (concepção que não se encontra entre os selvagens).

Eis algumas das histórias que os etnólogos puderam colher ao estudar a religião dos antigos.

Certas tribos da Sibéria, principalmente os tártaros, contam a origem do homem nos seguintes termos: o Grande Oleiro fez de argila um boneco humano, destruído de alma ou sopro vital; plasmou também um cão sem pelo, ao qual deu vida e mandou guardasse cuidadosamente o corpo humano. Dito isto, o Artista se foi; sobreveio então seu adversário Ngaa (a Morte personificada), que assim se dirigiu ao cão: “Hás de sentir frio, pois estás nu. Entrega-me o homem e dar-te-ei uma veste”. Depois de resistir um pouco, o animal cedeu, permitindo a Ngaa apreender a presa e devorá-la. Ao voltar, perguntou o Senhor ao cão: “Onde está o homem?”

“Ngaa o devorou!” Irado, disse então o Grande Oleiro: “Já que permitiste isso, doravante comerás excremento humano!” A seguir, recomeçou a criação formando um homem e  uma mulher, genitores de toda a estirpe humana.

Esta história se apresenta com variantes bem significativas entre os Mordvinos, tribo da Sibéria: Tscham-Pas, o Criador, depois de ter formado o corpo humano a partir do barro, o confiou à guarda do cão, que ainda estava sem pelo. Então Chaitan, o adversário do Ser Supremo, excitou um frio tremendo, que ameaçou de morte o animal; com isto obteve que o guarda lhe entregasse o corpo
humano em troca de uma coberta. Chaitan, de posse do homem, pôs-se a cuspir sobre todos os seus poros, dando origem às doenças do organismo; insuflou-lhe também as tendências para o mal e o vício. Sobreveio  Tscham-Pas, que repeliu Chaitan e, a fim de curar o homem, voltou para dentro a parte externa do corpo manchada pelos escarros do Inimigo; insuflou-lhe outrossim uma alma boa. As doenças, porém, permaneceram e permanecem na vítima, assim como as inclinações para o vício, de sorte que o homem hoje se vê dilacerado à luta consigo mesmo, porque à obra do Criador se quis opor o Adversário mau.

A tribo “Arapaho” dos índios Algonquins conta que, quando o Criador estava para terminar a formação do mundo e do homem, apareceu o Inimigo, chamado Nih’asa (“Homem amargo”); este era único sobrevivente de uma geração de seres maus ou canibais, criados antes do gênero humano atual e aniquilado pela Divindade. Nih’asa, pois, com um cajado nas mãos, apresentou-se na
assembléia dos homens diante dos quais o Criador terminava a sua obra; pediu o poder de criar e uma parte da terra. O Grande Autor atendeu ao primeiro dos dois rogos, de sorte que Nih’asa estendeu o seu bastão e começou a formar colinas e riachos, com grande surpresa para os homens. O Criador, então, tomou  um pouco de medula de um salgueiro e o lançou na água; o objeto se afundou, mas logo subiu à tona, fenômeno que o Senhor assim comentou: “Vós, homens, haveis de viver dessa forma”, (isto é, morrereis, mas voltareis à vida sem demora). À vista disso, exclamou Nih’asa: “A  terra não é grande; em breve sofrerá excesso de população.

Tenho melhor sugestão”. E tomou um seixo, que atirou na água; a pedra mergulhou para não mais aparecer: “Assim será a vida no Além”, afirmou o Maligno. Voltando-se então para este, disse o Criador: “Pediste uma parte da terra; farei outra região para ti”. E, tendo apanhado um punhado de terra, lançou-a no oceano com as palavras: “Onde essa terra cair, lá estará teu país – além do oceano!”

A história seguinte associa ainda mais claramente o Adversário e a introdução da Morte no mundo. Os Maidus, na Califórnia Central, afirmam que o Criador resolveu outrora poupar os homens da morte: quando estivessem velhos, deveriam ir banhar-se em certo lago, onde rejuvenesceriam. Mostrou-lhes mesmo Kuksu, o primeiro por esse tratamento. O Maligno, porém, denominado Coyote (lobo das planícies, o canis Lyciscus latrans), queria que os homens morressem, pois, dizia ele, neste caso haveria pompas solenes em honra dos mortos, as viúvas se poderiam casar de novo, etc. O Criador acabou cedendo a Coyote, que inaugurou a nova era do mundo mediante uma festa; eis, porém, que, tomando parte dos jogos do programa, o filho de Coyote passou perto de um buraco onde se ocultava uma serpente; mordido pelo animal, morreu, ocasionando grande desgosto a seu pai. Coyote, acometido pelo remorso, resolveu levar o filho ao lago outrora destinado a rejuvenescer os homens; mas em vão o atirou na água, pois o morto não ressuscitou. Tal foi o castigo do Inimigo de Deus, que introduziu a morte no mundo.

Quanto à origem desse Adversário, os primitivos não referem muita coisa. Um ou outro tópico, porém, o mostra subordinado ao Criador.

Conforme os Ahinus, aborígenes do norte do Japão, o Criador, depois de ter formado o mundo, jogou fora os machados de obsidiana (pedra comum nos terrenos vulcânicos) que usara; apodreceram na terra, dando origem aos espíritos maus, os quais são numerosíssimos e têm um chefe supremo. Os Coriacos, tribo da Sibéria setentrional, contam que o Grande Corvo se originou da poeira que costuma cair do Céu sobre a terra, quando o Ser supremo afia o facão de pedra. De acordo com os Algonquins “Wawenock”, o Gluskabe, que se opõe a Deus, constitui-se dos restos de barro úmido com que o Criador formou o primeiro homem.

Estes mitos dos povos primitivos hoje em dia são estudados atentamente pelos etnológos e historiadores, porque, sob modalidades infantis e caducas traduzem a  filosofia de vida e o patrimônio cultural dos antigos. A Filosofia contemporânea não despreza os mitos, como outrora se fazia, mas procura ler a sua mensagem sapiencial.

O material aqui citado foi colhido no longo repertório de tradições dos povos antigos elaborado por H.. S. Hartland com o título “Death and Disposal of the Dead”, em “Encyclopaedia for Religion and Ethics”, ed. Hhastings IVV 411-414.

Ver também:

W. Schmidt, Der Ursprung der Gottesidee. Münster i./W., 6 volumes.

PSCHEBESTA, Die Religion der Primitiven, Em “Christus und die Religionen
der Erde. Handbuch der Religionsgeschichhte herausgegeben von FR.
Koning” I. Wien 1951, 565s.
¹ Justiça, no caso, significa “santidade original”.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb.
Nº 285 – Ano 1986 – Pág. 79.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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