Pecado Original: Como entender? – EB (Parte 2)

Paraiso-Adão-e-EvaA doutrina do pecado original pertence estritamente ao patrimônio da fé. Não é lícito reduzir o conceito de pecado original ao de “pecado do mundo”, como se não fosse mais do que o acúmulo de faltas pessoais que se cometeram desde o início da história, fazendo que todo homem seja, desde os seus primeiros anos, seduzindo ao mal.

Os povos primitivos antigos e contemporâneos têm a noção de que os males existentes no mundo não são originais nem devidos ao Criador, mas provêm de uma culpa dos primeiros homens ou de um pecado original; tal crença, tão generalizada como é, pode ser entendida como valioso argumento em favor da doutrina católica.

Para ulterior aprofundamento, veja:

BALLARINI, T., Introdução à Bíblia ll?1. Ed. Vozes Petrópolis, 1975.

BETTENCOURT, E., Ciência e Fé na história dos primórdios. Ed Agir, Rio de Janeiro 1958.

GRELOT, P., Reflexões sobre o problema do pecado original. Ed. Paulinas, 1969.

PAULO VI, Credo do Povo de Deus, 1967.

4. Os povos primitivos

4.1. A “origem” da morte

É assaz comum entre os povos primitivos a crença de que a morte e seus precursores, os males físicos, não pertenciam à ordem de coisas originária neste mundo, mas sobrevieram por efeito de uma desobediência dos homens à Divindade.

Como se entende, os diversos povos exprimem esta proposição com uma roupagem própria, fazendo entrar em cena os personagens mais expressivos e interessantes para a mentalidade de cada tribo. A mensagem, porém, das variadas estórias é sempre a mesma. Ora o fato de que homens localizados nas mais desconexas regiões do globo, detentores hoje de uma cultura que corresponde aproximadamente à dos inícios da humanidade, professem idêntica concepção a respeito da morte e do seu significado, insinua que tal concepção pertence ao patrimônio das noções primordiais do gênero humano.

Eis, pois, algumas dessas narrativas dos povos primitivos, pelas quais se manifesta a consciência de que a Morte é uma “intrusa” neste mundo.

Em New South Wales (África) várias tribos afirmam que os primeiros homens foram destinados a não morrer. Contudo era-lhes proibido aproximar-se de certa árvore oca, em que abelhas selvagens tinham feito a sua colméia. No decorrer do tempo, as mulheres cobiçaram o mel da árvore proibida, até que, belo dia, uma delas, desprezando as admoestações dos homens, tomou do seu machado e o arremessou contra o tronco; imediatamente saiu deste uma enorme coruja. Era a Morte, a qual de então por diante circula livremente sobre o mundo e reivindica para si tudo que ela possa tocar com as asas.

Os pigmeus referem que Deus (Mugasa) a princípio criou dois rapazes e uma jovem, com os quais vivia amigavelmente na floresta, como pai com seus filhos, num lugar de toda bonança: nada faltava aos homens, nem tinham que recear por alguma perspectiva de morte. Mugasa apenas lhes proibira que procurassem ver a sua face. Habitava uma tenda, diante da qual diariamente a jovem tinha que depositar lenha para o fogo e um jarro de água. Um dia, porém, a moça, vencida pela curiosidade, escondeu-se atrás de uma árvore, ficando à espreita do “Pai”, que havia de aparecer. De fato, ela o pôde ver, quando estendia o braço reluzente de ornamentos a fim de apanhar o jarro. A menina alegrou-se então profundamente e guardou o segredo do ocorrido. Mugasa, porém, percebera a desobediência. Chamou os três irmãos à sua presença e lhes censurou a falta, predizendo-lhes que havia de os deixar; para o futuro, a indigência e a morte pesariam sobre eles. Os prantos do grupinho humano não conseguiram deter a sentença; certa noite Mugasa partiu rio acima, e não foi mais visto. Quanto ao primeiro filho que nasceu à mulher, morreu após três dias de existência…

Os Bagandas da África Central contam que Kintu, o primeiro homem, depois de Ter superado vários testes, obteve a licença de se casar com Nambi, uma das filhas de Mugulo (o Céu ou o Alto). O pai da donzela deixou que ela viesse com seu consorte para a terra, trazendo ricos presentes, entre os quais uma galinha; ao despedir-se do casal, mandou que se apressassem por sair, aproveitando o fato de que o irmão de Nambi, chamado Warumbe (a Morte), estava fora de casa; recomendou-lhes, outrossim, não voltassem para apanhar o que quer que tivessem esquecido. Durante a caminhada, porém, Nambi verificou que chegara a hora de dar de comer à galinha; já que esquecera o milho, consentiu então em que Kintu voltasse à casa para buscá-lo. Mugulo, o pai, ao rever o genro, irritou-se pela desobediência; Warumbe (a Morte), estando de novo em casa, fez questão de acompanhar Kintu; toda resistência tendo sido vã, a Morte desceu com o casal para a terra, onde até hoje habita com os homens.

Graciosa é a história que contam os japoneses: o príncipe Ninighi se enamorou pela princesa “Florescente como as flores”. O pai da jovem, que era o Deus da grande Montanha, consentiu em seu casamento, e deixou-a partir com sua irmã mais velha “Alta como as rochas”. Esta, porém, era tremendamente feia, de sorte que o noivo a mandou voltar para casa. Em conseqüência, o velho Deus amaldiçoou o genro, e declarou que sua posteridade seria frágil e delicada como as flores!

Os “Bataks” de Palawan (ilhas Filipinas) contam que o seu deus costumava ressuscitar os mortos. Todavia certa vez os homens o quiseram enganar, apresentando-lhe um tubarão enfaixado como um cadáver. Quando a Divindade descobriu a astúcia, amaldiçoou os homens, condenando-os a ficar sujeitos ao sofrimento e à morte.

No  território de Uganda os “Masai” referem que um dos seres divinos ou Demiurgos deu a um homem a seguinte ordem: todas as
vezes que morresse uma criança, deveria remover o cadáver dizendo: “Homem, morre e vem de novo à vida! Lua, morre, e desaparece definitivamente!” Essas palavras produziam o efeito de ressuscitar. Um dia, porém, o dito comissário da Divindade, posto diante de uma criança que não lhe pertencia, houve por bem desobedecer, invertendo os dizeres da famosa fórmula. Quando na vez seguinte
repetiu a frase certa sobre um de seus próprios filhos, verificou que ela perdera o seu poder. De então por diante acontece que, quando a Lua morre, ela voltou à vida, ao passo que o homem, caindo nas garras da morte, é por esta detido.

4.2. O Demônio Adversário (Satã)pecado_original_1

Que haja um espírito mau, inimigo dos desígnios de Deus, sedutor dos homens, como o conhece o Gênesis, é proposição por vezes sujeita a dúvidas pela mentalidade moderna, a quem o Maligno parece ser criação da fantasia simplória ou primitiva.

Contudo quem investiga a história das religiões não se furta à impressão de que a crença no demônio e na sua ação perniciosa é mais um elemento do patrimônio religioso do gênero humano: afirmam-na os povos primitivos em variadas regiões, dando-nos a supor
que tenha sido professada (como doutrina referente à intrusão da Morte) quando os homens ainda se achavam congregados numa única população.

Note-se que a crença no demônio entre os primitivos se distingue do dualismo persa, gnóstico ou maniqueu, que éfilosofia de povos colocados em grau de civilização muito posterior: o demônio adversário do Deus bom que os homens rudes conhecem, é um ser pessoal revoltado contra o Senhor, mas de certo modo subordinado à Divindade. Ao contrário, o Princípio do mal no dualismo é independente do princípio do bem; afeta a matéria, tornando-a abominável aos indivíduos religiosos (concepção que não se encontra
entre os selvagens).

Eis algumas das histórias que os etnólogos puderam colher ao estudar a religião dos antigos.

Certas tribos da Sibéria, principalmente os tártaros, contam a origem do homem nos seguintes termos: o Grande Oleiro fez de argila um boneco humano, destruído de alma ou sopro vital; plasmou também um cão sem pelo, ao qual deu vida e mandou guardasse cuidadosamente o corpo humano. Dito isto, o Artista se foi; sobreveio então seu adversário Ngaa (a Morte personificada), que assim se dirigiu ao cão: “Hás de sentir frio, pois estás nu. Entrega-me o homem e dar-te-ei uma veste”. Depois de resistir um pouco, o animal cedeu, permitindo a Ngaa apreender a presa e devorá-la. Ao voltar, perguntou o Senhor ao cão: “Onde está o homem?” – “Ngaa o devorou!” Irado, disse então o Grande Oleiro: “Já que permitiste isso, doravante comerás excremento humano!” A seguir, recomeçou a criação formando um homem e  uma mulher, genitores de toda a estirpe humana.

Esta história se apresenta com variantes bem significativas entre os Mordvinos, tribo da Sibéria: Tscham-Pas, o Criador, depois de ter formado o corpo humano a partir do barro, o confiou à guarda do cão, que ainda estava sem pelo. Então Chaitan, o adversário do Ser Supremo, excitou um frio tremendo, que ameaçou de morte o animal; com isto obteve que o guarda lhe entregasse o corpo humano em troca de uma coberta. Chaitan, de posse do homem, pôs-se a cuspir sobre todos os seus poros, dando origem às doenças do organismo; insuflou-lhe também as tendências para o mal e o vício. Sobreveio Tscham-Pas, que repeliu Chaitan e, a fim de curar o homem, voltou para dentro a parte externa do corpo manchada pelos escarros do Inimigo; insuflou-lhe outrossim uma alma boa. As doenças, porém, permaneceram e  permanecem na vítima, assim como as inclinações para o vício, de sorte que o homem hoje se vê dilacerado à luta consigo mesmo, porque à obra do Criador se quis opor o Adversário mau.

A tribo “Arapaho” dos índios Algonquins conta que, quando o Criador estava para terminar a formação do mundo e do homem, apareceu o Inimigo, chamado Nih’asa (“Homem amargo”); este era único sobrevivente de uma geração de seres maus ou canibais, criados antes do gênero humano atual e aniquilado pela Divindade. Nih’asa, pois, com um cajado nas mãos, apresentou-se na assembléia dos homens diante dos quais o Criador terminava a sua obra; pediu o poder de criar e uma parte da terra. O Grande Autor atendeu ao primeiro dos dois rogos, de sorte que Nih’asa estendeu o seu bastão e começou a formar colinas e riachos, com grande surpresa para os homens. O Criador, então, tomou  um pouco de medula de um salgueiro e o lançou na água; o objeto se afundou, mas logo subiu à tona, fenômeno que o Senhor assim comentou: “Vós, homens, haveis de viver dessa forma”, (isto é, morrereis, mas voltareis à vida sem demora). À vista disso, exclamou  Nih’asa: “A  terra não é grande; em breve sofrerá excesso de população. Tenho melhor sugestão”. E tomou um seixo, que atirou na água; a pedra mergulhou para não mais aparecer: “Assim será a vida no Além”, afirmou o Maligno. Voltando-se então para este, disse o Criador: “Pediste uma parte da terra; farei outra região para ti”. E, tendo apanhado um punhado de terra, lançou-a no oceano com as palavras: “Onde essa terra cair, lá estará teu país – além do oceano!”

A história seguinte associa ainda mais claramente o Adversário e a introdução da Morte no mundo. Os Maidus, na Califórnia Central, afirmam que o Criador resolveu outrora poupar os homens da morte: quando estivessem velhos, deveriam ir banhar-se em certo lago, onde rejuvenesceriam. Mostrou-lhes mesmo Kuksu, o primeiro por esse tratamento. O Maligno, porém, denominado Coyote (lobo das planícies, o canis Lyciscus latrans), queria que os homens morressem, pois, dizia ele, neste caso haveria pompas solenes em honra dos mortos, as viúvas se poderiam casar de novo, etc. O Criador acabou cedendo a Coyote, que inaugurou a nova era do mundo mediante uma festa; eis, porém, que, tomando parte dos jogos do programa, o filho de Coyote passou perto de um buraco onde se ocultava uma serpente; mordido pelo animal, morreu, ocasionando grande desgosto a seu pai. Coyote, acometido pelo remorso, resolveu levar o filho ao lago outrora destinado a rejuvenescer os homens; mas em vão o atirou na água, pois o morto não ressuscitou. Tal foi o castigo do Inimigo de Deus, que introduziu a morte no mundo.

Quanto à origem desse Adversário, os primitivos não referem muita coisa. Um ou outro tópico, porém, o mostra subordinado ao Criador.

Conforme os Ahinus, aborígenes do norte do Japão, o Criador, depois de ter formado o mundo, jogou fora os machados de obsidiana (pedra comum nos terrenos vulcânicos) que usara; apodreceram na terra, dando origem aos espíritos maus, os quais são numerosíssimos e têm um chefe supremo. Os Coriacos, tribo da Sibéria setentrional, contam que o Grande Corvo se originou da poeira que costuma cair do Céu sobre a terra, quando o Ser supremo afia o facão de pedra. De acordo com os Algonquins “Wawenock”,
o Gluskabe, que se opõe a Deus, constitui-se dos restos de barro úmido com que o Criador formou o primeiro homem.

Estes mitos dos povos primitivos hoje em dia são estudados atentamente pelos etnológos e historiadores, porque, sob modalidades infantis e caducas traduzem a  filosofia de vida e o patrimônio cultural dos antigos. A Filosofia contemporânea não despreza os mitos, como outrora se fazia, mas procura ler a sua mensagem sapiencial.

O material aqui citado foi colhido no longo repertório de tradições dos povos antigos elaborado por H.. S. Hartland com o título “Death and Disposal of the Dead”, em “Encyclopaedia for Religion and Ethics”, ed. Hhastings IVV 411-414.

Ver  também:

W. Schmidt, Der Ursprung der Gottesidee.  Münster i./W., 6 volumes.

P SCHEBESTA, Die Religion der Primitiven, Em “Christus und die Religionen der Erde. Handbuch der Religionsgeschichhte herausgegeben von FR. Koning” I. Wien 1951, 565s.
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¹ Justiça, no caso, significa “santidade original”.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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