Pecado Original: Como entender? – EB (Parte 1)

Paraiso-Adão-e-EvaEm síntese: O pecado original originariamente é o Não dito pelos primeiros pais ao convite de Deus que chamava o gênero humano a um estado sobrenatural ou de filiação divina. Tal estado se caracterizava pela posse da graça santificante e dos dons conexos (conjunto que se chama, em linguagem teológica, “justiça original”).

Tendo perdido a justiça original, os primeiros pais só puderam gerar prole carente de tais dons. É esta carência, em consequência da qual o ser humano é desarmonioso ou desregrado em seu íntimo, que se chama “pecado original originado” na criança; este não é culpa propriamente dita, como a dos primeiros pais, mas uma dissonância em relação ao modelo traçado por Deus. – A doutrina assim concebida toca pontos de fé definidos pela Igreja e está isenta de qualquer objeção por parte das ciências naturais.

O tema “pecado original” já foi abordado em PR (120/1969 pp. 518-529). Volta à baila neste fascículo, a fim de completar quanto foi dito sobre o livro de C. Mesters: “Paraíso Terrestre: Saudade ou Esperança?, estudaremos o texto bíblico em seus aspectos linguísticos e humanos, e procuraremos ouvir o que a respeito tem dito a Igreja no decorrer dos séculos.

O Paraíso Terrestre

O primeiro ponto a encarar é o do paraíso terrestre (Gn 2,8-15). A Bíblia nos fala de um jardim ameno, irrigado por quatro rios: o Fison, o Geon, o Tigre e o Eufrates. Os estudiosos têm procurado localizar esse paraíso: o Tigre e o Eufrates são rios da Mesopotâmia muito conhecidos, mas o Geon e o Fison não podem mais ser identificados. Foram propostas, no decurso dos tempos, cerca de oitenta sentenças para situar o paraíso terrestre. Hoje em dia, porém, os estudiosos julgam que esse “jardim bíblico” não significa um lugar determinado, mas tão somente o estado de harmonia e felicidade a que o homem foi elevado logo depois de criado.

Com efeito, o rio é, para os antigos, símbolo de vida e fecundidade. Quatro é o número que designa a totalidade das coisas deste mundo; por conseguinte, quatro rios significam o bem-estar interior e exterior de que gozavam os primeiros pais logo após a criação.

Na verdade, quem lê atentamente o texto bíblico, verifica-se que os primeiros homens gozavam de dons especiais constitutivos da “justiça original”¹; esta compreendia:

1) A filiação divina ou a graça santificante ou a elevação do homem à condição do filho de Deus, chamado a participar da vida e da felicidade do próprio Deus. É o que se deduz do texto sagrado, o qual indica claramente que Adão vivia na amizade com o Criador. Este Dom é dito “sobrenatural”, isto é, ultrapassa todas as exigências de qualquer criatura.

2) Os dons preternaturais, isto é, ampliavam as perfeições da natureza:

a) a imortalidade, pois em Gênesis (2,7; 3,3s.19) a morte é apresentada como consequência do pecado; isto significa que, antes do pecado, o homem não morreria dolorosa e tragicamente como hoje morre;

b) a impassibilidade ou ausência de sofrimentos, pois estes decorrem da sentença contraditória de Gênesis (3, 16);

c) a integridade ou a imunidade de concupiscência desregrada, visto que os primeiros pais, antes do pecado, não se envergonhavam da sua nudez (cf. Gn 2,25; 3,7-11); os seus instintos ou afetos estavam em consonância com a razão e a fé; não havia neles tendências contraditórias;

d) a ciência moral infusa, que os tornava aptos a assumir as suas responsabilidades diante de Deus. Os dons da justiça original não implicam que os primeiros homens fossem formosos; terão sido dons meramente interiores, compatíveis com a configuração rude e primitiva que as ciências naturais atribuem aos primeiros seres humanos.

A Bíblia menciona no paraíso duas árvores: a da ciência do bem e do mal e a da vida (Gn 2,9). Hoje em dia, sabe-se pelo estudo das literaturas antigas que a árvore era um símbolo religioso assaz frequente; é, pois, em sentido simbólico que entendemos as árvores de Gn 2. A árvore da ciência do bem e do mal designa um preceito ou um modelo de vida que daria ao homem a ciência ou a experiência concreta do que são o bem e o mal. Era justo que Deus indicasse ao homem um modelo de vida, pois o homem, elevado à filiação divina, não se deveria reger apenas por critérios racionais ou naturais, mas deveria seguir uma norma de vida incutida pelo próprio Deus. Devemos renunciar a pedir pormenores desse modelo de vida. – Quanto à árvore da vida, pode-se crer que ela dava ao homem o fruto da vida perpétua ou o sacramento da imortalidade; o homem saberia assim que a imortalidade é um dom de Deus.

2. O pecado dos primeiros pais

1. Em Gênesis (3, 1) entra em cena a serpente como “o mais astuto de todos os animais do campo”. Tal serpente é imagem do demônio tentador. O livro da Sabedoria (2,23) diz que “Deus não fez a morte, mas esta entrou no mundo por inveja do demônio”; e Jesus, aludindo a Gênesis 3, chama o Maligno “homicida desde o início, mentiroso e pai da mentira” (Jo 8,44). O demônio é um anjo, que Deus criou bom. Mas que se rebelou contra o Criador por soberba (vê-se que desde as suas primeira páginas a Escritura supõe e afirma a existência dos anjos, especialmente a dos anjos maus). O autor sagrado quis simbolizar o Maligno mediante a figura da serpente, porque esta frequentemente na S. Escritura representa o homem malvado e fraudulento (Gn 49,17; Is 59,5; Mq 7,17; Jó 20,14-16; Sl 140 [141,4]). Mais: é de observar que a serpente era, para os cananeus (antigos habitantes da terra de Israel), uma divindade associada à fecundidade e à vida; ora, precisamente para condenar essa figura, o autor talvez tenha apresentado o tentador sob forma de serpente; assim a descrição da serpente paradisíaca assumia, para o israelita, o valor de admoestação contra a sedução dos cultos idólatras que cercavam a verdadeira religião.

Não é necessário admitir que a mulher tenha visto uma serpente diante de si, mas pode-se dizer que o diálogo entre o tentador e a mulher foi meramente interno, como acontece geralmente nas tentações ao pecado.

2. Em Gênesis (3,6s) está dito que os primeiros pais comeram da fruta proibida. Isto quer dizer que desobedeceram a Deus ou não aceitaram o modelo de vida que o Senhor lhes havia apontado.

A raiz desse pecado foi a soberba. Notemos que a serpente, ao tentar os primeiros pais, disse explicitamente: “No dia em que comerdes […] os vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, versados no bem e no mal” (Gn 3,5). Precisamente o homem quis ser como Deus, capaz de definir o que é  o bem e o que é o mal, sem ter que pedir normas ao Senhor. A soberba é o pecado do espírito, o único que os primeiros homens, portadores da harmonia original, podiam cometer. A soberba se exteriorizou em determinado ato, que não podemos identificar.pecado_original_1

Há quem diga que o primeiro pecado foi o de ordem sexual. Argumentam afirmando que 1) ciência ou conhecimento na Bíblia significa por vezes o relacionamento sexual (cf. Gn 4,1.17.25); 2) os primeiros pais estavam nus, e não se envergonhavam um do outro (2,25), mas após o pecado se recobriram (3,7); 3) a mulher foi punida pelas dores do parto (3,16). A propósito observamos: 1) quando se trata do relacionamento sexual, o texto sagrado diz “conhecer sua esposa” (cf. Gn 4,1.17..25), ao passo que em Gênesis (2,17; 3,5) se lê “conhecer o bem e o mal”; 2) o aparecimento da concupiscência sexual e a vergonha se seguem à culpa e não a precedem, como seria lógico no caso de um pecado sexual; 3) a mulher, punida pelas dores do parto, foi atingida em sua função específica de mãe, como o homem, condenado a ganhar o pão ao suor da sua fronte (3,19), foi atingido em sua função típica de trabalhador; não há, pois, necessidade de recorrer a pecado sexual para explicar o tipo de punição da mulher.

Vejamos agora:

3. As consequências do pecado

Enumeremos as consequências do pecado: 1) em relação aos primeiros pais e 2) em relação aos seus descendentes.

1. Em relação aos primeiros pais, o pecado acarretou a perda da justiça original, ou seja, da filiação divina e dos dons que a acompanhavam. O texto sagrado (Gn 3,7) diz que, após o pecado, “abriram-se-lhes os olhos e reconheceram que estavam nus”” Essa nudez é, antes do mais, o despojamento interior ou a perda dos dons originais; a concupiscência ou a desordem das paixões se manifestou; por isto sentiram a necessidade de se vestir a fim de encobrir a sua natureza desregrada. Não há dúvida, a diversidade de tendências dentro do homem é algo decorrente da própria natureza humana (sensível e espiritual, ao mesmo tempo); todavia ela estaria superada se o homem não tivesse pecado em suas origens; ela hoje existe como consequência do pecado. Da mesma forma, os homens perderam o dom da imortalidade (ou o poder não morrer); sem dúvida, a morte é um fenômeno natural, inerente à criatura, mas a sua realidade hoje é consequência do primeiro pecado, conforme a S. Escritura (cf. Rm 5,12.19). O mesmo se diga em relação ao sofrimento; é um dos precursores da morte.

O pecado acarretou também a desarmonia no mundo irracional que cerca o homem; este já não é o ponto de convergência das criaturas inferiores; ao contrário, estas muitas vezes prejudicam o homem e lhe negam a sua serventia; tendo-se rebelado contra Deus, o homem sente contra si a rebelião das criaturas inferiores.

Depois da queda, o  Senhor Deus quis interrogar os primeiros homens (Gn 2,8-13). As respostas são bem características de quem é culpado: o homem, antes de confessar, acusa, com certa covardia, a esposa como causa da sua desgraça (3,12); da mesma forma, a mulher acusa a outrem, a serpente (3,130. Ambos silenciam o verdadeiro motivo da sua desobediência: a soberba ou o desejo de serem iguais a Deus, arbitrando entre o bem e o mal ou definindo a sua própria regra de vida. Na  verdade, o pecado acovarda o homem e separa-o do seu semelhante e mesmo mais íntimo amigo.

Todavia o Senhor não quis apenas condenar os pecadores. Ao mesmo tempo, propôs-lhe a esperança da reconciliação que é chamada, no caso, “o protoevangelho” (ou o primeiro Evangelho). (Ler Gn 3,14s). A sentença sobre a serpente não recai sobre o animal irracional, mas sobre o tentador: “rastejar  e comer a poeira da terra” são imagens que significam derrota (os vencedores, na antiguidade, colocavam os adversários derrotados no chão, debaixo de seus pés); o texto sagrado quer assim dizer que o demônio é um lutador já vencido; poderá maltratar os fiéis de Deus no decorrer da história, mas pode estar certo de sua derrota final. Para corroborar esta afirmação, o Senhor promete colocar inimizade entre a serpente (o tentador) e a mulher, entre a descendência da serpente (os homens maus) e a descendência da mulher (os homens bons) – o que significa: promete reconciliar a mulher e os seus descendentes são os homens bons, que não seguem as sugestões do tentador; todavia o papel da mulher e o de sua descendência só se tornaram plenos e perfeitos em Maria e em seu Filho Jesus Cristo; por isto o protoevangelho alude indiretamente a Maria e a Jesus Cristo, prometendo a vitória do Senhor Jesus sobre o Maligno através da Cruz e da Ressurreição.

2. Em relação aos descendentes dos primeiros pais, o pecado original tornou-se algo de hereditário. Dizemos que todos os homens nascem com a culpa original. Todavia é preciso entender que não se trata de culpa pessoal ou de pecado voluntário nos descendentes de Adão e Eva. Nestes o pecado original consiste na ausência dos dons originais (graça santificante, dons preternaturais), que os primeiros pais deviam ter guardado e transmitido, mas não puderam transmitir porque pecaram. A criança que hoje nasce, devia nascer com a graça santificante, mas isto não acontece; ela nasce destoando do exemplar ou do modelo que o Senhor lhe tinha assinalado; essa dissonância (que implica a concupiscência desordenada e a morte) é que se chama, por analogia, “pecado original” nos pequeninos.

Por que Deus quis que a culpa dos primeiros pais assim repercutisse nos seus descendentes? Seria Deus vingativo? A criança, que não pediu a eventualidade de nascer, muito menos pediu nascer com pecado!

Em resposta, diremos: toda criança que vem ao mundo, nasce dentro de um contexto social, geográfico, do qual é solidária; assim há crianças que nascem no Brasil, outras na China, outras em Biafra, outras na Europa; há crianças que nascem no século XX, outras nasceram no século II a.C., outras no século X d.C. Cada uma  traz a herança da família, do lugar e da época em que nasce. Essa solidariedade é palpável, também no seguinte caso: imaginemos um pai de família que numa noite perde todos os seus bens numa jogatina de cassino; os filhos desse homem não têm culpa, mas hão de carregar as consequências (miséria, fome…) decorrentes do desatino de seu pai. Ora a solidariedade mais fundamental que cada um de nós traz, é a solidariedade com os primeiros pais; se estes perderam os dons originais, nós, sem culpa nossa, somos afetados por essa perda – o que é muito lógico. Vê-se, pois, que a transmissão do pecado original não se deve a intenção vingativa de Deus, mas é  consequência da índole mesma da natureza humana.

Há, porém, quem julgue que o ato de gerar é pecaminoso se por ele se transmite o pecado dos primeiros pais. – responderemos que o ato biológico de gerar foi instituído pelo próprio Criador; em si ele nada tem de pecaminoso; transmite a natureza como se acha nos genitores; tal ato não é a causa do pecado original ou do estado desregrado em que nascem as crianças, nem pode exercer influxo sobre tal estado. O ato biológico de gerar poderia transmitir também a graça santificante se os primeiros pais a tivessem conservado. – O que a geração não dá, isto é, a graça santificante, a  regeneração ou o Batismo o deve dar. Por isto, é que não se deve protrair o Batismo das crianças. O segundo  Adão, Jesus Cristo, readquiriu a filiação divina para o gênero humano e a comunica mediante o Batismo.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estêvão Bettencourt, osb
Nº 285 – Ano 1986 – p. 79

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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