Paz, qual delas?

No dia 31 de maio de 2011, entrou em vigor no Mato Grosso do Sul a lei que estabelece a realização do “Dia da Paz”. A data, celebrada a 21 de setembro, foi escolhida pela ONU como o dia da não-violência e do cessar-fogo. Assinala ainda a abertura de sua Assembleia geral e, em nosso país, uma visível conexão com a festa da árvore e o início da primavera.

A programação montada para o Estado prevê a realização de atividades artísticas, científicas, culturais, esportivas e religiosas, destinadas a demonstrar os benefícios que a paz e a conciliação trazem para a sociedade.

Na mesma ocasião, foi instituído o prêmio “Paz e Cultura”, concedido a cidadãos ou entidades que se distinguem na promoção de valores humanos e sociais capazes de sustentar um desenvolvimento sadio a harmonioso para todos, começando pelos marginalizados e excluídos.

Na noite do dia 20 de setembro, o auditório da Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul se demonstrou pequeno para conter o grande número de pessoas que se reuniu para participar da primeira e solene sessão em comemoração ao evento. Na ocasião, foi entregue o troféu “Paz e Cultura” ao professor Aleixo Paraguassu, fundador do “Instituto Luther King”, uma entidade que oferece cursos para alunos negros, índios e portadores de necessidades especiais, que se preparam para prestar o vestibular.

Outras quinze pessoas receberam o diploma de honra ao mérito. Dentre elas, quatro sacerdotes, uma religiosa e o abaixo-assinado. O fato demonstra que, apesar das lacunas e limitações que a afetam como organização humana que também é, a Igreja Católica se mantém fiel ao Fundador, para quem os verdadeiros filhos de Deus são os que promovem a paz (Cf. Mt 5,9).

O clima que se respirava durante a solenidade foi de alegria, fraternidade e esperança, provando que, quando os homens se deixam guiar pelos valores depositados por Deus em seus corações, o que neles resplandece é a beleza e a pureza de sua origem divina.

Um dos deputados que batalhou pela implantação do “Dia da Paz” no Mato Grosso do Sul foi Laerte Tetila. O objetivo que o levou a abraçar a causa foi «agradecer aos verdadeiros construtores da paz, que desenvolvem um trabalho constante nas comunidades pelo exemplo, pela palavra e pela ação. Promover a paz é promover o equilíbrio, o bem-estar, o respeito, a saúde e a estruturação da família».

De acordo com suas palavras, a proposta partiu da escritora e poetisa sul-mato-grossense Delasniéve Daspet. Conhecida no Estado por várias iniciativas culturais e sociais, foi uma das homenageadas da noite. Em seu discurso de agradecimento, ela lembrou que a reconciliação social é fruto da pacificação interior: «O nosso coração tem que estar em paz; caso contrário, ninguém consegue levá-la adiante».

Quanto a mim, perguntei-me mais vezes o que terá levado a deputada Mara Caseiros a propor o meu nome para fazer parte dos “agraciados”? Refleti muito sobre o assunto, até mesmo porque nem toda paz é abençoada por Deus. Existe uma paz perniciosa, que nasce do medo de se comprometer – e de apanhar! -, que leva suas vítimas a ficar em cima do muro, tentando agradar a gregos e a troianos. Em poucas palavras, é a paz dos cemitérios, onde a morte impera sobre a vida.

Até para Jesus a diferença é abissal: «A paz que eu vos dou não é a mesma que o mundo oferece» (Jo 14,27). A paz de Jesus é compromisso com a verdade e a justiça. É fruto do amor e do perdão. Transforma a tolerância em acolhida. Por isso – e por muito mais – exige coragem e autodomínio.

E qual é a paz que busquei ao longo dos dez anos de permanência na Diocese de Dourados? Não sei se é pela graça com que Deus me sustenta ou pela timidez que me acompanha desde a infância, o que sei é que acredito muito mais no diálogo do que na imposição, na comunhão do que na divisão, nas pontes do que nos muros, no amor do que no enfrentamento. Para tanto, foi-me sempre de ajuda uma sentença de Chiara Lubich, a apóstola da unidade. Apesar da simplicidade de sua enunciação, ela traduz o caminho escolhido pelo próprio Deus: «É preferível o menos perfeito em unidade com os irmãos, do que o mais perfeito em desunião com eles; pois a perfeição não está nas ideias ou na ciência, mas no amor».

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por Dom Redovino Rizzardo, cs
Bispo de Dourados – MS

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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