Parusia ou a próxima volta de Cristo – EB (Parte 1)

por Léo Persch

Em síntese: O livro do Pe. Léo Persch procura ilustrar as passagens de Daniel e do Apocalipse, aparentemente proféticas, à luz das revelações particulares atribuídas ao Senhor Jesus e a sua Mãe Santíssima; Medjugorje, Pe. Gobbi e Vassula Ryden seriam luzeiros para se entenderem os textos sagrados. Em consequência, Pe. Persch professa a volta de Cristo para breve (ano 2000), a fim de instaurar sobre a terra um reino de paz e bonança espiritual; esse evento, diz ele, será precedido de terríveis catástrofes, que punirão os maus e deixarão os bons incólumes.

A estas proposições se deve opor o caráter e subjetivo da interpretação da Bíblia por parte do autor; não leva em conta o gênero literário dos escritos apocalípticos de Daniel e de São João. Além do quê, é temerário dar tanto peso a revelações particulares como se fossem a continuação ou explicitação da revelação pública e oficial feita à Igreja por Jesus e pelos autores sagrados. A índole subjetiva e imaginosa da obra do Pe. Persch prejudica a sua credibilidade. – Dizemos isto sem pretender desmerecer o zelo do autor pelo reafervoramento de vida dos fiéis cristãos. Este zelo missionário é muito válido, mas vem sendo exercido sem base suficiente na Palavra de Deus.

O Pe. Léo Persch é Professor universitário em Pelotas (RS). Publicou em 1994 um livro que está causando impacto, a respeito da parusia ou da próxima volta de Cristo¹. Distingue este evento daquilo que se costuma chamar “o fim do mundo”. Admite na base de textos bíblicos (Daniel e Apocalipse principalmente) relidos à luz de revelações particulares (Medjugorje, Pe. Gobbi, Vassula Ryden) a iminente volta do Senhor Jesus para instaurar um reino de paz e bonança espiritual na terra; antes, porém, deste período feliz, registrar-se-ão, como sinais precursores, terríveis catástrofes e tribulações nos próximos anos, ficando a humanidade reduzida a um terço de seu montante. O livro tem aspecto de erudição, pois apela para numerosos textos bíblicos conjugados entre si. A leitura de tal obra pode incitar o leitor que lhe dê crédito, a uma atitude cada vez mais piedosa ou a conversão mais radical, mas também pode suscitar um clima de apavoramento e terror, que, em vez de beneficiar, prejudica a vida espiritual de muitos fiéis.

Dada a importância de tal livro, consagramos-lhe as páginas subsequentes deste fascículo.

DUAS ADVERTÊNCIAS PRELIMINARES

Metodologia

A obra do Pe. Léo Persch utiliza vários textos bíblicos. Todavia não leva em conta o sentido original, o gênero literário e a intenção dos autores sagrados; interpreta-os como se fossem textos modernos, que podem ser entendidos segundo as categorias de pensamento do homem de hoje. O autor parece mesmo desconfiar da exegese dita “científica” (cf. p. 161).

Eis, porém, que é regra de sadia exegese procurar, antes do mais, o significado preciso do texto original; é necessário entender o texto como o autor sagrado o entendia e daí depreender a mensagem que ele queria transmitir. A inspiração do texto bíblico por parte do Espírito Santo não equivale a ditado mecânico; supõe sempre as categorias de pensamento do escritor oriental, antigo. Estas, portanto, têm que ser, primeiramente, detectadas e reconhecidas para que se possa compreender genuinamente a página bíblica. Este procedimento exegético tem sido enfaticamente recomendado pela Igreja desde Pio XII (encíclica Divino Afflante Spiritu, 1943) até o Concílio do Vaticano II, que em sua Constituição Dei Verbum  ditou as normas seguintes:

“Já que Deus na Sagrada Escritura através de homens e de modo humano, deve o intérprete da Sagrada Escritura, para bem entender o que Deus nos quis transmitir, investigar atentamente o que os hagiógrafos de fato quiseram dar a entender e aprouve a Deus manifestar por suas palavras.

Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, devem-se levar em conta, entre outras coisas, também os gêneros literários. Pois a verdade é apresentada e expressa de maneiras diferentes nos textos históricos, proféticos ou poéticos ou nos demais gêneros de expressão. Ora é preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias, o hagiógrafo, conforme a situação de seu tempo  e de sua cultura, quis exprimir e exprimiu por meio dos gêneros literários então em uso. Pois, para entender devidamente aquilo, que o autor sagrado quis afirmar por escrito, é necessário levar em conta sejam aquelas usuais maneiras nativas de sentir, de dizer e de narrar que eram vigentes nos tempos do hagiógrafo, sejam as que em tal época se costumavam empregar nas relações dos homens entre si” (nº 12).

Verdade é que muitos dos exegetas científicos desde o fim do século XVIII têm cedido ao racionalismo, a ponto de esvaziarem por completo o texto bíblico. É o que vem provocando a réplica do chamado “Fundamentalismo”, que se apega à letra do texto como ele soa em suas versões vernáculas e se fecha aos estudos de linguística, arqueologia, história antiga… Ora o Fundamentalismo é posição extremada, errônea, como o racionalismo, pois ignora o mistério da condescendência divina, que assume as modalidades da linguagem e da cultura dos homens antigos para falar à humanidade. Assim se lê num documento da Pontifícia Comissão Bíblica mintitulado “A Interpretação da Bíblia na Igreja” e citado de 15/4/1993:

“O problema de base da leitura fundamentalista é que, recusando levar em consideração o caráter histórico da revelação bíblica, ela se torna incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O Fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus. Ele se recusa a admitir que a Palavra inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, ele tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado, palavra por palavra, pelo Espírito e não chega a reconhecer que a palavra de Deus foi formulada numa linguagem e numa fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Ele não dá atenção às formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e leva a marca de situações históricas muito diversas.

O Fundamentalismo insiste também indevida sobre a inerrância dos pormenores nos textos bíblicos, especialmente em matéria de história ou de pretensas verdades científicas. Muitas vezes ele torna histórico aquilo que não tinha a pretensão de historicidade, pois ele considera como histórico tudo aquilo que é narrado ou contado com os verbos em tempo pretérito, sem a necessária atenção à possibilidade de um sentido simbólico ou figurativo” (l F).

Por conseguinte, nem racionalismo nem fundamentalismo… Mas é necessário que o exegeta proceda sempre em duas etapas:

– procure, mediante os recursos da lingüística, da arqueologia, da história antiga… definir o sentido do texto original ou aquilo que o autor humano queria dizer;

– a seguir, coloque esses resultados no conjunto das proposições da fé. A Sagrada Escritura é um longo discurso de Deus, homogêneo, que tem suas linhas centrais e seus acordes, que devem projetar luz sobre cada secção desse discurso. É o que São Paulo chamava “a analogia da fé ou a proporção da fé” (Rm 12,6). Este fé é vivida e proclamada pela Igreja, cujo magistério recebeu de Cristo a garantia da autenticidade (cf. Jo 14, 26: 16, 13-15).

Assim o estudioso católico chega ao entendimento exato do texto sagrado. Não incute suas idéias ao texto (o que seria fazer in-egese), mas deduz do texto a mensagem objetiva (faz ex-egese).

Quem assim não procede, corre o risco de subjetivismo ou de interpretações pessoais, semelhantes às que ocorrem no protestantismo.

As Revelações Particulares

A originalidade do livro do Pe. Persch está em ilustrar os textos bíblicos de Daniel e do Apocalipse (principalmente) a partir das revelações particulares ocorridas em Medjugorje ou nos escritos do Pe. Gobbi e de Vassula Ryden. Essas revelações seriam
roteiro para se entender a mensagem da Escritura.

A propósito observamos:

1) Nenhuma revelação particular é endossada oficialmente pela Igreja. Esta não pode colocar no mesmo plano a revelação feita por Jesus Cristo e pelos autores bíblicos e qualquer revelação ocorrida em caráter particular após a era dos Apóstolos. A revelação oficial e pública termina com a geração dos Apóstolos; cf. Lumen Gentium nº 25; Dei Verbum nº 4. Em conseqüência torna-se difícil crer que Deus queira continuar a explicitar a revelação outrora feitas pelas Escrituras servindo-se de revelações não oficiais ou fazendo destas o complemento daquelas.

As revelações particulares, quando genuínas, geralmente corroboram o Evangelho, incutindo duas notas importantes: oração e penitência. Assim em Salette, em Lourdes, em Fátima… Qualquer outra predição, principalmente se é muito minuciosa, torna-se suspeita. É não raro a satisfação que os “videntes” dão à sua própria curiosidade de saber o decurso do futuro; imaginam-no como se fosse revelado por Deus. Independentemente dessas minúcias, ficará sempre válida a exortação à conversação e à oração, tão recomendada pelo Evangelho e corroborada pelos sinais dos tempos atuais; estes pedem que os cristãos muito especialmente sejam o sal da terra, a luz do mundo (cf. Mt 5, 13s), o fermento na massa (cf. Mt 13,33). A consideração dos nossos tempos, portanto, deve levar ao afervoramento da vida dos cristãos, abstração feita de  predições sinistras.

Examinemos agora o teor do livro do Pe. Persch.

O Conteúdo do Livro

O Pe. Persch distingue a iminente volta de Cristo e o fim do mundo. Cristo há de vir em breve para instaurar um reino de paz e bonança espiritual, que não porá o fim à história da humanidade (não chega a definir a duração desse reino de paz ou não chega a professar o milenarismo). Assim o autor respeita a recusa do Senhor, que não quis revelar a data do juízo final (cf. Mc 13, 32; At 1, 7); julga, porém, que Ele manifestou a data da sua Segunda vinda; cf. pp. 33-37.

Qual seria essa data?

Não é indicado o ano preciso. Mas o autor afirma: “Depois do atual Papa, o Anticristo e o desenrolar do Apocalipse” (p. 123).

O Anticristo é detido pela força do Cristianismo, representada muito especialmente pelo Papa João Paulo II. Este é o obstáculo que impede a plena manifestação do mistério da iniquidade (cf. 2Ts 2,3-8); há de ser removido esse obstáculo.

Precedendo a volta de Cristo, estão acontecendo, e acontecerão com mais virulência, grandes males sobre a terra, e Léo Persch fala de acontecimentos dramáticos (pp. 19-21); a Maçonaria (p. 103), a Nova Era (pp. 103-117) seriam forças desencadeadas para  provocar a perseguição dos cristãos em nossos dias; a AIDS é um dos flagelos preditos pelo Apocalipse (cf. p. 127); o Apocalipse terá falado de produtos tóxicos, armas químicas, biológicas, nucleares… (cf. pp. 127-137).

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 397 – Ano 1995 – p. 242

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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