Os sete salmos penitenciais

A Gaudium Press publicou ontem 02/07/12 um interessante artigo sobre os sete salmos penitenciais. Vale a pena fazemos esta leitura:

O que são os sete salmos penitenciais?
Existem na natureza certos fenômenos metereológicos dos quais bem podemos tirar uma grande lição para a nossa vida espiritual. Com efeito, ao contemplarmos um belo pôr-do-sol, ou a feeria de cores de um magnífico arco-íris, ou, quiçá, a alvura espetacular de um campo totalmente nevado, nossas almas louvam o Criador por todos os dons da Criação. Nos unimos, então, à Ele pela consideração maravilhada destes prodígios naturais: ditos espetáculos bem representam a união da alma justa com o Criador.

Porém outros fenômenos, completamente distintos dos que acima foram vistos, bem representam a Justiça Divina, Majestosa e Implacável para com o pecador empedernido. Assim a vemos representada nas ferozes tempestades, nos ensurdecedores – mas quão deslumbrantes – trovões, e ainda, no tremendo e destruidor furacão…

É justamente esta Divina Implacabilidade do Criador que vemos representada em alguns salmos das Sagradas Escrituras! “Se tiverdes em conta nossos pecados, Senhor, quem poderá subsistir diante de vós?” (Sl 129, 3); “Vossa cólera nada poupou em minha carne, por causa de meu pecado nada há de intacto nos meus ossos” (Sl 37, 4); “Em vossa cólera não me repreendais, em vosso furor não me castigueis” (Sl 6, 2): estes e alguns outros salmos nos demonstram a Inexorabilidade de Deus para com aqueles que não se arrependem dos seus delitos… Mas será somente esse aspecto que o leitor encontrará na leitura dos salmos penitenciais, essas verdadeiras e valiosas jóias de literatura? Nos salmos penitenciais encontramos rios de sabedoria, louvor e perdão.

O livro dos Salmos, uma obra sapiencial Sabedoria. Os salmos que acabamos de contemplar compõem, junto com muitos outros, o livro dos Salmos. Originariamente intitulava-se como sendo o livro dos Hinos, e com a tradução dos LXX passou a denominar-se tal qual o conhecemos. Junto com os livros de Jó, os Provérbios, o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos, o da Sabedoria e o Eclesiástico, o Livro dos Salmos compõe no Antigo Testamento a classe dos livros cognominados como Sapienciais. Assim são denominados porque por meio deles podemos tomar os pressupostos necessários para, a partir das criaturas, conhecermos a Deus. Neles encontramos a nota comum de conselhos como que divinos para se ter uma vida justa, e, por meio desta, estar em paz com o Criador. Eles ensinam a viver com sabedoria.

No caso concreto do livro dos Salmos, ele é composto por 150 salmos que foram redigidos nas mais diversas épocas, e por vários autores… Primeiramente eram todos eles atribuídos àquele que é conhecido como o “Cantor dos Salmos de Israel” (2Sm 23, 1): o Profeta David. Posteriormente verificou-se que seria mais correto afirmar que os salmos foram escritos não apenas por um, mas por diversos autores. Assim vemos, então, em alguns a pluma do Grande David, que marcou não só a história do povo hebreu, mas sim a do mundo por ser um dos antepassados de Nosso Senhor; em outros salmos, encontramos a pena de personagens tragados pelo anonimato da História – dos quais nem sequer se conhece a vida – como a Asaf, Heman e os filhos de Coré; e em outros salmos, anônimo é o autor. Mas toda esta questão é secundária, tendo-se em consideração a beleza, o intuito e os vários modos com os quais foram escritos os salmos.

Modos de louvar a Deus Com efeito, nota-se em todos os salmos um tema freqüente: é que foram escritos de forma poética com o intuito de louvar e reverenciar a Deus, mostrando ao homem o modo dEle agir e atuar ao longo de toda a História – seja por meio de prêmios ou castigos -, desde o momento da Criação, e até mesmo na vida cotidiana de todos os pobres mortais. Em alguns salmos, encontramos especialmente uma nota de súplica por alguma catástrofe que está para se realizar, e que se roga a Deus para que não se concretize; já em outros, o tônus é de ação de graças por um benefício recebido… Podemos destacar, entre tantos e tantos outros modos com os quais os salmos foram escritos, aqueles salmos que louvam especialmente a majestade de Deus, como o salmo 113 (1-4): “Louvai, ó servos do Senhor, louvai o nome do Senhor. Bendito seja o nome do Senhor, agora e para sempre. Desde o nascer ao pôr-do-sol, seja louvado o nome do Senhor. O Senhor é excelso sobre todos os povos, sua glória ultrapassa a altura dos céus”; ou, então, aqueles que possuem um caráter litúrgico, que eram utilizados nas festas do antigo Israel e nas peregrinações à Jerusalém: “Que alegria quando me disseram: Vamos à casa do Senhor… Eis que nossos pés já se detêm diante de tuas portas, ó Jerusalém!” (Sl 122, 1-2).

Há, ainda, alguns salmos que contém – de modo singular – um pedido de perdão… Possuem um caráter de arrependimento, contrição e sacrifício, nos quais apresenta-se nitidamente o rigor da Divina Justiça para com o pecador empedernido em suas faltas – e aos quais bem podemos comparar às terríveis catástrofes da natureza vistas a pouco… São, justamente, os salmos que a piedade católica denominou como Penitenciais.

Clamorosos pedidos de perdão. São denominados Salmos Penitenciais os que a Vulgata enumera como sendo os salmos 6, 31, 37, 50, 101, 129 e 142. Ditos salmos possuem, mais que os demais, sentimentos de penitência, com os quais o Salmista comprova a gravidade do seu pecado e roga a Deus o perdão imerecido… Vemos claramente nestes sete salmos a Majestade Divina que é insultada com a torpeza do pecado. E pari-passu a isto verificamos o verdadeiro – e quão pungente – exemplo do Salmista, que se arrepende inteiramente da má ação cometida, e implora a Deus indulgência para com os seus delitos. A partir desta atitude de contrição, nasce uma outra súplica: a de que Deus aplaque a Sua Santa ira, e considerando a Infinita Bondade Divina, roga o Salmista que Deus abrande o castigo!

Desde tempos imemoriais adotou a Santa Igreja a estes sete salmos para utilizá-los como uma “fonte penitencial”: por meio deles incutir nos fiéis o verdadeiro espírito do arrependimento dos pecados, e, deste modo, fazer com que todos se penitenciem das suas faltas. O resultado é que ditos salmos figuram em vários momentos na vida da Igreja, seja no Ofício Divino, seja na Sagrada Liturgia, tanto na recitação diária e silenciosa, como no cântico em coro… Orígenes afirmava que o motivo que levou a Igreja a eleger sete salmos penitenciais equivalia a sete modos pelos quais se adquire o perdão dos pecados, que seriam: por meio do batismo, do martírio, pelas esmolas, perdoando os pecados alheios, convertendo o próximo, pela efusão da caridade, e por fim, pela própria penitência.

Por Diácono Felipe Isaac Paschoal Rocha, EP

Fonte: http://www.gaudiumpress.org/content/38244

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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