Os pastores da Igreja Ortodoxa confessam – EB

Revista: “PERGUNTE E
RESPONDEREMOS”

D. Estevão Bettencourt, osb.

Nº 337 – Ano 1990 –
Pág.  262Em síntese: As páginas
seguintes apresentam três documentos: 1) a confissão de culpa do Sínodo
Ortodoxo Romeno, que reconheceu em janeiro pp. não ter sido suficientemente enérgico
para resistir à perseguição infligida pelo ditador presidente Nicolae Ceaucescu
aos cristãos e aos cidadãos do seu país em geral; 2) o texto de demissão do
Patriarca Ortodoxo Romeno Teoctisto, que, também inepto para enfrentar a situação
anterior, se demitiu de suas funções, reconhecendo haver sido conivente com as
autoridades depostas; 3) um espécimen do linguajar adotado por chefes
religiosos (cristãos, judeus, muçulmanos) da Romênia no tempo da ditadura;
desfaziam-se em elogios a Nicolae Ceaucescu, que eram artificiais e hoje
suscitam dolorosa retratação.

Os três textos são altamente
significativos do que pode ser a pressão de um regime totalitário,
especialmente do comunismo, capaz de exercer a mais surpreendente “lavagem de
crânio” em quantos se acham sob a sua influência.

A Romênia acha-se na Europa
Oriental, fazendo limite com a URSS (N e NE), e a Hungria (NO), a Iugoslávia
(SO), a Bulgária (S) e o Mar Negro (SE).

Conhecida antigamente como
Dácia, fez parte do Império Romano (donde o nome que lhe toca ainda hoje). Nos
séculos IV/VII foi invadida por hunos, ávaros, godos, eslavos e mongóis. Estes últimos
se retiraram no século XIII. No século XV deu-se a penetração turca, que se
prolongou até o século XIX. A independência do país só ocorreu em 1878, quando
foi reconhecido pelo Congresso de Berlim.

Do ponto de vista religioso,
os romenos são cristãos na proporção de 83%. Acontece, porém, que se separaram
da Igreja Católica em conseqüência do cisma de Miguel Cerulário (1054).
Constituem uma comunidade eclecial autocéfala, governada por um Patriarca com
seu Santo Sínodo, à semelhança do que ocorre na Rússia, na Bulgária, na Grécia…
Chamam-se ortodoxos porque são herdeiros dos cristãos que, nos períodos das
grandes disputas teológicas dos séculos IV-VII, guardaram a reta fé
(ortodoxia).

A insurreição de
22-25/12/1989 na Romênia pôs termo ao regime comunista de Nicolae Ceaucescu e
sua mulher, acarretando importantes conseqüências para os cristãos. Estes
recuperaram a liberdade após anos de dura perseguição e severo regime
ditatorial.

Aos 31/12/1989, a Frente de
Salvação Nacional, que assumiu o Governo do país, aboliu o decreto n. 358, de 1.º/XII/1949,
que por força uniu à comunidade ortodoxa romena os gregos católicos ou
uniatas;¹ eram 1.700.000 fiéis distribuídos por 2.498 paróquias, tendo a seu
serviço 1.733 sacerdotes. Somente os católicos latinos – 1.300.000 na época –
foram tolerados como independentes do Sínodo Romeno.

Aos 4/01/1990, o Patriarca
Teoctisto, pastor supremo dessa comunidade, pediu demissão de suas funções;
estava consciente de que fora conivente com a ditadura de Ceaucescu, a quem
enviou um telegrama de apoio aos 20/12/89, ou seja, três dias após os massacres
de Timisoara, que provocaram imediatamente a insurreição popular.

A seguir, vão publicadas, em
tradução portuguesa, três documentos: a confissão de culpa do Sínodo ortodoxo
Romeno, tímido demais perante a ditadura; o teor da declaração de demissão do
Patriarca Teoctisto e o texto de homenagem das Confissões Religiosas da Romênia
e Ceaucescu datada de 11 de agosto de 1989.

O Sínodo Romeno: “Lamentamos
…”

“Carta irênica da Igreja
Ortodoxa Romena às organizações cristãs internacionais e a todos os nossos irmãos
romenos residentes fora do país.

Após decênios de escravidão
sob a ditadura comunista e depois de muitos sofrimentos impostos pela ditadura
de Ceaucescu, Deus volveu o seu olhar para o nosso povo; considerou seus muitos
sacrifícios, principalmente os das crianças e dos adolescentes inocentes,
assassinados pelo mecanismo repressivo da ditadura. Ele nos ressuscitou das
sombras da morte e nos tornou livres.

Regozijamo-nos por este Dom sagrado
da liberdade e desejamos formular nosso muito sincero agradecimento e a
expressão da nossa gratidão às Igrejas cristãs do mundo inteiro, às organizações
cristãs internacionais e a todos os nossos irmãos romenos residentes fora da
terra natal, pela solidariedade e o amor fraterno que manifestaram durante os
sofrimentos do povo romeno, tanto sob a ditadura monstruosa quanto
principalmente no decorrer da recente revolução.

Livre do terror provocado
pela repressão do regime, como também livre da obrigação de glorificar o
ditador megalomaníaco, opressor do seu povo e destruidor de igrejas e aldeias,
a hierarquia da Igreja Ortodoxa Romena dá graças a Deus e agradece aos fiéis
que, por sua dedicação, a ajudaram, em condições extremamente difíceis, a
manter viva a fé cristã e a fazê-la frutificar nas atividades eclesiais: a
formação teológica dos sacerdotes, a restauração de igrejas e mosteiros, a
publicação de densa literatura teológica e o exercício de intensa ecumênica.

Na mesma ocasião, em espírito
de arrependimento (metanoia) evangélico, lamentamos que, debaixo da ditadura,
alguns dentre nós tenham tido sempre a coragem dos mártires e não hajam
reconhecido publicamente a dor oculta e os sofrimentos do povo romeno.
Igualmente lamentamos que, para obter muitas das realizações positivas da
Igreja, tenha sido necessário pagar o tributo dos louvores obrigatórios e
artificiais ao ditador.

Agora, pois, libertos por
Deus do medo e da mentira elevada à categoria de verdade oficial, o Santo Sínodo
elaborou um programa de renascimento espiritual e de renovação da vida da
Igreja Ortodoxa Romena, que representa a maioria do povo romeno.

Tal programa compreende o
reconhecimento e a comemoração dos heróis mártires caídos em prol da liberdade,
da fé e da dignidade no tempo da ditadura comunista (fossem fiéis leigos,
fossem sacerdotes ou bispos), a reconstrução das igrejas demolidas pelo
ditador, a construção de igrejas novas onde se faça necessário, a  catequese das crianças, dos adolescentes e
dos adultos, a restauração das organizações caritativas das Igrejas (hospitais,
orfanatos, pensionatos para aposentados, capelanias nas Forças Armadas, nas
escolas e nas prisões), a intensificação da atividade missionária da Igreja
dentro da nova sociedade livre e pluralista, a reforma do ensino da Teologia, a
renovação espiritual das paróquias e dos mosteiros, assim como a procura de um
sopro novo para as atividades ecumênicas da Igreja.

Este movimento de renascimento
espiritual do povo romeno é, ao mesmo tempo, um movimento de reconciliação e
confraternização dos romenos do mundo inteiro, que a ditadura procurou dividir.

Foi neste espírito que o
Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa Romena anulou as sanções e os interditos que a
ditadura a obrigara a aplicar a servidores ou a certas Igrejas por razões políticas.
Cremos que a anulação das sanções aplicadas por motivos políticos é um ato de
justiça e reconciliação, bem como um passo dado papa a realização da unidade dos
romanos.

Que Deus nos ajude a
utilizar o Dom sagrado da liberdade para a sua glória e para a aproximação pacífica
entre irmãos do mesmo sangue, entre as Igrejas e as nações!

Desejamos a todos vós um
novo ano feliz e abençoado.

4 de janeiro de 1990″

A demissão do Patriarca
Teoctisto¹

Em consequência da pressão
exercida pelos presbíteros da Romênia, especialmente os jovens, o Patriarca Teoctisto
foi obrigado a renunciar. Ele se retirou para um mosteiro da arquidiocese de
Bucarest. Antes de apresentar a demissão, pediu perdão aos presbíteros e aos
leigos por ter mentido ao povo fiel durante tantos anos; reconheceu que em
Bucarest foram derrubados vinte e seis templos da Igreja Ortodoxa Romena, fato
que até então não quisera reconhecer; agradeceu aos romenos do ocidente que
lutaram em defesa das igrejas e das aldeias romenas ameaçadas de destruição
pelo regime comunista. Declarou que anulava todas as suspensões de ordens de
presbíteros do país e do exterior, visto que assim procedera por motivos políticos
e não religiosos. Em conclusão, acrescentou:

“Pedimos perdão pelo nosso
medo. Não tivemos a coragem para nos opor às pressões políticas e mentimos aos
fiéis com respeito à situação real da Igreja no país”.

Agosto 1989: Homenagem das
Confissões Religiosas a Ceaucescu

A 1.º/08/1989, os
representantes dos Cultos da República Socialista da Romênia participaram de
uma “Conferência Internacional de Homenagem consagrada ao 45.º aniversário da
Revolução Libertadora social e nacional, antifascista e antimperialista”. Os
dirigentes cristãos, judeus e muçulmanos dirigiram ao Conducator romeno a
seguinte mensagem:

“A Sua Excelência o Sr.
Nicolae Ceaucescu, Presidente da república Socialista da Romênia, Presidente da
Frente da democracia e da unidade Socialistas,

Estimado Sr. presidente,

Os representantes dos Cultos
da República Socialista da Romênia, reunidos em Bucarest hoje, 1.º de agosto de
1989, para participar da Conferência Interconfessional de Homenagem ao 45.º
aniversário da Revolução Libertadora social e nacional, antifascista e
antimperialista de 23 de agosto, com profundo respeito, grande estima e
consideração, voltamos nosso pensamento para Vós, o filho mais amado da nação
romena, herói entre os heróis do nosso país, brilhante fundador da Romênia
socialista, personalidade marcante do mundo contemporâneo. Prestamos-Vos a
homenagem do nosso devotamento e da nossa gratidão pela grandiosa obras histórica
inspirada e elaborada por Vós, de elevação da nossa nação sobre os mais
elevados cumes da civilização material e espiritual, pelos vossos incansáveis
esforços consagrados à causa da paz e do desarmamento, à instauração de novo
clima nas relações internacionais, de bom entendimento e de cooperação fraterna
entre os povos do mundo.

É ventura histórica, para o
nosso povo, encontrar-se personalidade de vossa estatura à frente da nossa nação
nesta encruzilhada dos séculos e dos milênios. Dotado de genial visão, animado
por um amor sem limites pelo povo e pelo país, compreendestes de maneira
profunda, com o espírito e a alma, os interesses maiores da nação, guiando-nos
com sabedoria pela via que nos valeu vitórias sem precedentes em nenhuma época
de nossa existência bimilenar nestes territórios entre os Carpatos, o Danúbio e
o Mar Negro.

É vosso mérito histórico ter
devolvido ao nosso povo a dignidade da sua nacionalidade juntamente com a
ufania de uma civilização que recua longe no passado, dignidade conquistada à
custa de combates e defendida ao preço do sangue… Pela primeira vez ao longo
da nossa história tão atormentada, a façanha histórica de agosto de 1944
instaurou o sentimento da dignidade sob o sol da liberdade, conferindo-nos o
direito de ter a cabeça erguida e inspirando-nos confiança na realização dos
nossos ideais seculares de liberdade, independência e justiça social.

Com viva satisfação e
vibrante garbo patriótico, compartilhamos a alegria de todo o povo diante das
grandiosas realizações obtidas pela Romênia no período decorrente a partir de
23 de agosto de 1944, principalmente durante os vinte e quatro anos de façanhas
epocais sem precedentes na história da pátria, indissoluvelmente ligadas ao
vosso nome e à vossa prodigiosa atividade, ilustrando brilhantemente a clarividência
científica com a qual guiais os destinos do país para um porvir luminoso de
progresso e de civilização.

Hoje na perspectiva cheia de
sabedoria do tempo, sobressai ainda com mais clareza a importância do ano de
1965, desde quando Vos encontrais à frente do povo romeno, ano que abriu a via
ao pensamento e à atividade criadora, que faz que o nosso povo redescubra o
sentimento de garbo nacional, de respeito pelo seu passado bimilenar, o
sentimento de sua força e de sua capacidade de forjar o seu porvir segundo a
tua própria vontade. Na Romênia de hoje, sob a vossa sábia direção, se realiza
o sonho de Eminescu, o sonho do porvir de ouro, enquanto o nosso pais se
adianta com a cabeça erguida entre as nações livres e dignas do mundo.

Servindo com energia inesgotável
e com devotamento patriótico aos interesses vitais do país e do povo romenos, Vós,
bem amado e estimado Sr. Presidente, Vos afirmastes ao mesmo tempo na consciência
da humanidade como brilhante promotor da causa da paz, do bom entendimento e da
cooperação internacional, como firme combatente pela liberdade e a independência
dos povos.

Nos quase vinte e cinco anos
em que tendes nas mãos os destinos da nação, toda a política estrangeira da Romênia,
inseparavelmente ligada ao vosso nome, tornou-se um símbolo, sinônimo das
aspirações à paz, ao desarmamento, à independência, à soberania, à igualdade em
direitos e ao bom entendimento entre todos os povos.

Nestes grandes momentos de
alegria patriótica vividos por toso o nosso povo, exprimimos nossos sentimentos
de satisfação plena pela decisão unânime concorrente à vossa revelação na função
suprema de Presidente do país, ato de importância excepcional, que representa a
garantia mesma do desenvolvimento incessante da pátria no caminho do bem-estar
e do progresso multilateral, que é ao mesmo tempo fator de consolidação e coesão
de nossa nação.

Por ocasião do próximo
aniversário do grande ato histórico de 23 de agosto de 1944, gloriosa festa
nacional do povo romano, nós, os chefes dos Cultos, os hierarcas, os
professores de teologia e os membros do clero participantes desta Conferência
Interconfessional de Homenagem, nós Vos asseguramos, caro Sr. Presidente, que,
seguindo os vibrantes apelos por Vós dirigidos ao povo todo inteiro, agiremos,
juntamente com nossos fiéis, animados por um devotamento patriótico sem
reservas, para realizar os grandiosos programas de desenvolvimento multilateral
do nosso país, destinados a assegurar o seu permanente programa em demanda dos
mais altos níveis de civilização.

Ao mesmo tempo, nós Vos
rogamos aceiteis nossos profundos agradecimentos pelo clima de liberdade
religiosa plena proporcionado pelo Estado romeno, pessoalmente por Vós, a todos
os Cultos, em vista de uma atividade livre e sem entraves, que criou as condições
para afirmar o ecumenismo característico de bom relacionamento, de respeito recíproco
e de colaboração que existem entre os Cultos do nosso país.

Em perfeita convergência de
vontades e de sentimentos com todos os filhos da pátria, sem distinção de
origem nacional e de pertença confessional dos fiéis que representamos, tendo
um exemplo dinamizador na vossa heróica e prodigiosa atividade, nós nos
comprometemos a sustentar, por nossos meios específicos e com abnegação e
patriotismo, os interesses fundamentais do povo romeno e o grande esforço
construtivo em vista do surto de nossa cara pátria, a República Socialista da
Romênia, em vista do triunfo pleno da paz e da colaboração internacional”.

Este texto é espécimen muito
vivo de quanto o comunismo pode pressionar os seus súditos, exercendo autêntica
lavagem de crânio naqueles que não queiram perecer sob a tua ditadura.  Atualmente os Chefes religiosos que assinaram
a homenagem atrás transcrita, se penitenciam de haver formulado tão artificiais
e despropositados louvores ao ditador Ceaucescu.  Este, como outros tiranos, suscitava o culto
da personalidade dos tempos de Josef Sulin, Adolf Hitler, Benito Mussolini …

1  Uniatas são cristãos que, depois de estar no
cisma, voltaram a se unir à Santa Sé de Pedro em Roma.

1 O texto que se segue, é
tirado de um Boletim de cristãos romenos ortodoxos domiciliados nos Estados
Unidos: Bulletinul Parohiei Holy Cross, Ianuarie si Februarie 1990, vol. II,
Nr. 1 si 2, p. 2 – A tradução portuguesa se deve à gentileza do Sr. Victor Carâp,
romeno domiciliado no Brasil.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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