Os Padres da Igreja

Não há nenhum período da história da Igreja cuja importância ultrapasse a dos primeiros séculos da era cristã. Essa semente de Cristandade, que, apesar de perseguida e supliciada, foi impelida por uma prodigiosa vitalidade.

Vendo a Igreja nascente, vem-nos à mente a parábola evangélica do grão de mostarda, a menor das sementes, mas que dá vida a uma árvore em que as aves do céu se abrigam e nela fazem seus ninhos…

Pequenino era este grão de mostarda. Entretanto, continha em si o Espírito de Deus
Passados menos de dois séculos, com uma rapidez que nos deixa atônitos, a Igreja fez-se presente em toda parte, lançando raízes tão sólidas que já ninguém as poderá arrancar.

A Boa Nova do Evangelho foi levada a inúmeras terras e germinou de modo prodigioso. Já em meados do século II, são inúmeras as provas da penetração do cristianismo em todas as regiões e em todas as camadas do Império Romano.

Entretanto Jesus Cristo, o autor de tão grande maravilha, não escreveu palavra alguma. A não ser uma vez e sobre a areia. Não fundou nenhuma academia e nunca se preocupou em fixar sobre o papiro as doutrinas que pronunciava. Jesus apenas falou. E com que arte, com que poder! “Jamais homem algum falou como este homem!… (jo 7, 46).

No entanto, ainda não acabara o primeiro século e já o essencial da sua vida e da sua mensagem existia sob forma de livros, de livros que leremos sempre. E o século II não se acabará sem que surja uma verdadeira literatura cristã, destinada a renovar as sementes do espírito. A sua fecundidade intelectual é Admirável e os seus efeitos duram até hoje.

Com a morte do último dos evangelistas termina o tempo da Escritura inspirada; começa agora uma literatura propriamente dita, feita por homens. Mas, como disse Bossuet, por homens “nutridos com o trigo dos eleitos, repletos daquele espírito primitivo que receberam de mais perto e com mais abundância da própria fonte”. Homens que foram instruídos pelo exemplo dos apóstolos e que participaram diretamente da conquista do mundo pela cruz. É ao grupo destes primeiros escritores cristãos que damos o nome de Padres da Igreja.

A origem

O nome Padre nasceu da expressão do amor e da veneração dos primeiros cristãos aos seus bispos. O homem antigo tinha o belo conceito de que seu catequista era o criador de sua personalidade espiritual. Por isso com pleno direito, podia denominá-lo pai e ele chamar-se filho. São Paulo na sua primeira carta aos Coríntios assim dizia:

“Ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; ora fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho. Por isso vos conjuro a que sejais meus imitadores.”

Este nome até o século V se dava em geral, somente aos bispos. Entretanto Santo Agostinho rompeu esta barreira ao citar São Jerônimo, que não era bispo, como testemunho do ensinamento da Igreja em matéria de pecado original, pois a santidade de sua vida seria a garantia da pureza do seu pensamento. (Contra Jul.,1,7 nums.31,34).

Que condições deveria preencher um escritor para lhe ser dado o título de Padre da Igreja?

Rigorosamente são necessárias quatro condições:

1- A ortodoxia doutrinal.
2- Santidade de vida.
3- Aprovação da Igreja.
4- Antiguidade.

No estudo da Patrologia, (Nome dado a ciência teológica que estuda a vida e as obras dos Padres da Igreja), alguns nomes não realizam todas essas condições como Tertuliano, Orígenes, Fausto de Riez e outros. Estes se desorientaram em certa altura da vida e não voltaram à ortodoxia. Mas graças aos grandes serviços que prestaram enquanto se encontraram ortodoxos, não deixaram de ser contados entre os Padres da Igreja.

Seguindo São Jerônimo chamou de escritores eclesiásticos a todos os teólogos da antigüidade que não se enquadram as notas doutrina ortodoxa e santidade de vida. (Vir.III.Prol.;Ep.112,3),

Os padres apostólicos
Existem ainda os chamados Padres Apostólicos que são os continuadores do ensino dos Apóstolos. Estes tocam com suas mãos a origem mais longínqua da tradição cristã. Segundo o dizer de Santo Irineu: “Tinham ainda a voz dos apóstolos nos ouvidos e os seus exemplos diante dos olhos.”

Foram discípulos dos Apóstolos, como estes foram de Cristo, formando deste modo a cadeia ininterrupta da tradição, fonte teológica de inapreciável valor. Estes Padres foram também os primeiros a entender e interpretar a sublime doutrina de Jesus e a citar as Sagradas Escrituras.

A princípio não eram mais que cinco escritores a quem o patrólogo J. B. Cotelier(1672) classificava; tais eram Barnabé, São Clemente de Roma, Santo Inácio de Antioquia, São Policarpo e Hermas. Mais tarde acrescentaram Papias.

Os Padres da Igreja souberam encontrar o exato equilíbrio entre o passado e o futuro, entre os valores da tradição e as audácias do empreendimento. Seus escritos têm um valor extraordinário. Não tinham a intenção de formar um novo estilo literário. Ansiavam, isto sim, formar um novo estilo de vida.

Há páginas em que insistem principalmente na doutrina moral, dão conselhos sobre a forma de nos comportarmos na vida. Convidam a penitência e denunciam as faltas e os erros com um vigor a que nossos tempos já não estão acostumados. As suas obras são ao mesmo tempo morais, místicas e teológicas, todas elas suscitadas pela vida em espírito.

São os monumentos mais antigos da Tradição no que se refere a fé. A matéria de que tratam é imensa; a bem dizer, é tão vasta como o mundo, inesgotável; é o cristianismo inteiro.

A língua

A língua do cristão foi em primeiro lugar a grega. Falada em todo o Oriente e também em Roma, no resto da Itália, na África e no sul da França, principalmente na classe culta. Esta língua, dado a riqueza de seus vocábulos e formas, constituía o órgão mais apto para significar a abundância de ideias próprias ao cristianismo. Mas a partir do século III, o latim foi sem exceção a língua dos Padres do Ocidente. O latim experimentou baixo o influxo da Igreja uma considerável mudança.

A partir do século V, com a invasão dos bárbaros e a desagregação do Império Romano, chega ao fim o primeiro grande período da história da Igreja. A sociedade tomou uma nova orientação. Houve uma profunda modificação na maneira de falar, de escrever e de viver. O idioma latino entra em decadência e começa a dar origem às línguas neolatinas modernas.

É também nesta época que se assinala o fim da era dos Padres da Igreja. No ocidente vai até a morte de Santo Isidoro de Sevilha em 636. No Oriente, até a morte de São João Damasceno em 749.

As virtudes suscitadas por Cristo na alma humana iam encontrar nas jovens nações que haviam de nascer, terreno propício para lançar raízes. Apesar de muitos momentos obscuros, este período virá brotar uma civilização nova, a civilização Cristã da Idade Média.

Se os Padres Apostólicos estão longe de nós no tempo, não estão no espírito. A sua influência será profunda e fertilizante. Até hoje, não há nenhum grande escritor cristão que não recorra a eles de uma forma ou de outra. E se os simples fiéis os venera mais do que os conhece, é importante assinalar em nossos dias a origem desta fonte inesgotável.

Passados vinte séculos, podemos dizer que aquele grão de mostarda, lançado na pobre terra da Palestina pelo Divino Semeador, atingiu as dimensões de uma árvore imensa, a cuja sombra hoje se acolhem todos os povos do mundo.

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Inácio Almeida

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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