Os Mortos nos Falam?

Certas correntes de pensamento afirmam haver a possibilidade de comunicarmos com os mortos. Dizem mesmo existir fitas magnéticas registram a locução de espíritos desencarnados; haveria também fotografias de espíritos que se materializam. A Igreja estaria proibindo o intercâmbio com os mortos; isso, porém, não significaria que o fenômeno não existe realidade, segundo dizem A esse propósito, faremos quatro observações.

1. Não nos precipitemos!

Ao ouvirem notícias de coisas novas e extraordinárias, muitos são  propensos a lhes dar crédito imediato. Ora, isso é desaconselhado; é preciso averiguar os fundamentos das “novidades”, principalmente quando se trata de ciências humanas. Nos últimos decênios, os estudos de psicologia e parapsicologia têm progredido tanto, que muitos fenômenos outrora atribuídos ao além são explicados pela atividade do próprio psiquismo.

O psiquismo humano é complexo e surpreendentemente rico  em potencialidades, que vão sendo mais e mais descobertas, de modo a dissipar as teorias do espiritismo e do falso misticismo. Aderir às explicações espíritas significa, muitas vezes, não estar em dia com as mais recentes pesquisas científicas, por mais que os espíritas aleguem estar apoiados na ciência moderna.

A Igreja é sábia quando rejeita a dita “comunicação com os mortos” provocada por médiuns. Seria superstição, freqüentemente condenada pela Sagrada Escritura (Ver Lv 19,31; 20,6.27; Dt 18,11; Is 8,19…). A condenação não se deve à suposição de que os mortos evocados são incomodados  pelos vivos, mas à evidência de que se trata de crença errônea, sem fundamento na realidade, como veremos a seguir.

De resto, há diferença grande entre a evocação dos mortos, praticada pelo espiritismo, e a invocação dos santos, usual no catolicismo. A evocação se faz mediante artes próprias, tidas como “certeiras”; ao contrário, a invocação dos santos é espontânea e não tem garantia de eficácia mágica. As aparições de santos reconhecidas pelo catolicismo nada têm de previsto e provocado, mas são totalmente inesperadas e esporádicas.

2.  As “vozes do além”

A tônica de algumas publicações recentes é a notícia de que os espíritos desencarnados emitem sua linguagem (recorrendo a diversos idiomas), que pode ser gravada em fita magnética. A propósito, observemos o seguinte: o fenômeno das vozes gravadas se reduz ao que se chama de “psicofonia”, isto é, linguajar proveniente do psiquismo do próprio médium. Pode haver duas explicações para a produção de tais vozes:

a) Notemos, logo de início, que há pessoas capazes de modificar a sua voz, imitando qualquer ancião ou criança, homem ou mulher; basta lhes ter ouvido uma única vez tais pessoas falarem.

Ora, a imitação de voz alheia pode também ser  obtida pela ventriloquia: sem mexer os lábios nem a língua, sem mesmo ter consciência do que faz, o ventríloquo emite sons por sua laringe, com toda a variedade de tons e entonações.

A sua voz se modula de tal modo, que parece provir de lugares estranhos ou distantes: de sob um móvel, de trás de uma janela fechada, de uma porta fechada, como se pudesse se infiltrar através de paredes ou obstáculos.

A ventriloquia supõe, da parte do médium ou experimentador, a sugestão. Com efeito, o médium, crendo na possibilidade de ouvir vozes do além, concentra-se, faz silêncio, esquece o mundo que o cerca; exprime de si para si o desejo de entrar em contato com o além, e formula perguntas concretas a familiares ou personagens já falecidos. Tais perguntas exigem respostas; estas são tiradas do inconsciente do próprio operador; que tem sua pantomnésia ou memória de tudo (o inconsciente nada esquece).

O ventríloquo pode dizer coisas que nunca diria conscientemente, porque contrárias ao seu habitual modo de pensar. Isso se explica pelos fenômenos para-psicológicos de cisão da personalidade (o indivíduo nutre em si tendências opostas, das quais uma é habitualmente reprimida, mas nele existe realmente) ou de prosopopeia (o indivíduo se identifica com uma personalidade que ele admira ou que ele tem em mira consciente ou inconscientemente). Assim, o ventríloquo se revela bem diferente do que ele costuma ser, não porque tenha incorporado um espírito do além, mas porque tira do seu inconsciente sentimentos e imagens latentes.

b) Outra maneira – mais rara – de explicar tal fenômeno se chama “ventriloquia subliminar”. Ei-la: ensinam os parapsicólogos que o ser humano emite o que se chama “telergia”, ou seja, uma energia que atua à distância, fora do corpo humano; tal energia pode mover copos, móveis, quadros, etc, produzindo a telecinésia, como também pode provocar pancadas e batidas (o que se chama “tiptologia”). Ora, a telergia pode se condensar em ectoplasma, ou seja, em massa que toma a configuração de imagens que o indivíduo tem em sua mente: assim já se produziu um papagaio ectoplasmático; produziram-se também muitos outros fantasmas ou corpos resultantes da condensação de energia e moldados segundo as imagens da mente do respectivo médium.

Admitamos, então, que determinado médium produza uma laringe ectoplasmática dotada de cordas vocais; estas poderão vibrar como vibra uma laringe natural, emitindo sons, desde que um sopro passe por elas… Admitamos também que o médium emita um ectoplasma configurado à imagem de um morto de que se recorda esse médium. Poderá fazer passar por tal ectoplasma os sons que, consciente ou inconscientemente, ele, mé­dium, profere.

Notemos, ainda, que a linguagem procedente do “morto” ou do ectoplasma configurado ao morto parece diferir muito do modo de pensar habitual do médium (o que dá a entender que não é o médium que está falando). Ora, isso se explica, como dito, pela cisão de personalidade ou pela capacidade que temos de representar duas ou três personalidades sucessivas. O próprio médium, portanto, emitiria através do ectoplasma os sons correspondentes a tendências latentes dentro dele, destoantes das suas costumeiras tendências.

Mais: a telergia possui certo tipo de magnetismo; em conseqüência pode produzir efeitos que o gravador registra. Assim se explicam as fitas gravadas, portadoras de “vozes do além”. Deve-se, porém, observar que gravações são geralmente muito fracas ou quase imperceptíveis; requer gravadores de boa qualidade. Mesmo assim, parece que não chegam a pressionar o ouvido em condições normais; são muito curtas, nunca excedendo o total de dez sílabas. Os próprios médiuns espiritas reconhecem que uma gravação de dez minutos pode levar dez horas para ser devidamente decifrada e analisada.

Além disso, os sons gravados só se tornam inteligíveis caso se supor que procedem de idiomas diversos, pois é preciso procurar em línguas diferentes os vocábulos que correspondem a tais ou tais sons. O estilo desses dizeres, por vezes, nem sequer é o de um telegrama, no qual, apesar brevidade, há sempre um nexo lógico.

3. As “fotografias de defuntos”

Por “escotografia” se entende a arte de fotografar objetos invisíveis que, apesar de incapazes de impressionar nossa retina, deixariam seus vestígios nas chapas fotográficas. Geralmente, esses seres invisíveis são identificados com os mortos – o que torna o assunto muito sensacional.

Que dizer a respeito? Na verdade, nos são mostradas, em livros e revistas, numerosas fotografias de “espíritos desencarnados”, que parecem provar a existência da escotografia.

Antes do mais, devemos dizer que foram verificados muitos casos de truque e fraudulência na produção de tais fotografias. Imaginemos que o mistificador quer conseguir a imagem de um morto ao lado da fotografia de uma pessoa real: ele pode fotografar a pessoa em foco sobre o fundo de cortinas dotadas de algum artifício (é fácil pintar ou desenhar nas cortinas silhuetas com soluções de sulfato de quinino, de fluoresceína ou poções de marrão da Índia, de frexo…). Invisíveis ao olho nu, as silhuetas aparecem sobre o filme fotográfico, se se coloca o clichê sob a luz do flash ou (antigamente) de um cartucho de magnésio.

Pode também o fotógrafo utilizar um filme no qual já esteja gravada alguma imagem misteriosa, que o público identificará com a fotografia de tal ou tal defunto (muitas vezes, são imagens tão vagas que podem ser identificadas com o pai, o irmão, o cunhado… de quem as analisar).

Todavia, nem todos os casos são de truque. Com efeito, falamos de telergia; esta pode se condensar e se exteriorizar, dirigida pela imaginação pela vontade do respectivo indivíduo. Ora, quando alguém é fotografado pode estar consciente ou inconscientemente pensando em outra pessoa ou em algum objeto; esse pensamento se configura pela telergia num ectoplasma que é invisível a olho nu, mas que aparecerá na chapa fotográfica. O ectoplasma volta a ser absorvido pela pessoa que o emitiu.

Digamos, a propósito, que existem coisas totalmente invisíveis a olho nu que podem ser fotografadas. Por exemplo, num quarto ao qual têm acesso os raios ultravioletas do espectro solar, uma fotografia pode ser tirada por meio dessa “luz escura”. Num quarto assim iluminado, os objetos são claramente visíveis para a lente da câmera escura; podem ser reproduzidos num clichê sensível, sem que a mínima claridade seja percebida pelo olho humano.

Eis dois casos relatados por Antônio Elegido, na Revista de Parapsicologia, n° 17, págs. 19s: “O agricultor Filipe tinha uma pequena plantação na cidade de Santa Helena (GO), onde vivia com sua esposa Marta e seu filho Eduardo, de cinco anos de idade. Apaixonou-se, porem, por uma mulher de nome Laura, com a qual começou a ter relações. Por influência desta, Filipe sua esposa e o filho, enterrando-os no jardim de sua própria casa; oficialmente, dizia Filipe aos seus vizinhos que ele fora abandonado pela esposa legítima e pelo filho. O caso foi comentado pelos amigos, mas sem conseqüências; Filipe passou a viver abertamente com Laura e se transferiu para outra cidade.

Certo domingo, porém, Filipe quis levar Laura ao povoado de origem, onde posaram para uma fotografia. Na quarta-feira seguinte, quando Filipe voltou para procurar o retrato, levou grande susto. Com efeito, além do casal viam-se duas figuras transparentes; Filipe fixou o olhar sobre a fotografia e reconheceu sua esposa e o filho que ele assassinara. Logo caiu de joelhos confessou o crime. Laura teve tempo de fugir. Mas Filipe enlouqueceu”.

Outro caso: “Sebastião Sá Barreto, ex-diretor da equipe de futebol Leão XIII, de Recife (PE), morreu em 1969 em conseqüência de trombose. Em 1970 sua filha se casou e, como se compreende, foram tiradas fotografias da cerimônia. Ora, nessas fotos apareceu a imagem de Sebastião. Parentes, amigos e colegas o identificaram pelo corte de cabelo, pelas orelhas muito abertas e pela maneira relaxada de se sentar. Como explicar o fato, já que Sebastião não pertencia mais ao mundo dos terrestres? Todos os participantes da cerimônia reconheceram que, no decorrer desta, seus pensamentos estavam voltados para o pai da noiva, recém-falecido. O pensamento se concretizou num ectoplasma ou numa ideoplastia, que representava o vulto do falecido!”

Acrescentam os estudiosos que as faculdades para-psicológicas pertencem ao inconsciente do nosso psiquismo. Por isso, o consciente não pode utilizar essas faculdades a não ser de modo excepcional ou rudimentar. É mais fácil que apareçam na escotografia as imagens inconscientes do que as conscientes.

4. A “experiência da senha”

Em suma, a refutação da tese de que os mortos nos falam pode ser obtida mediante a famosa experiência da senha. Com efeito, tem acontecido que certas pessoas, em vida terrestre, indicam a seus familiares ou amigos uma determinada senha (= sinal) que utilizarão para se identificar quando voltarem à terra depois de “desencarnados”. Ora, nenhum desses casos foi bem sucedido; nunca se viu a utilização da referida senha por parte do falecido.

Eis famoso exemplo: o romancista José Bento Monteiro Lobato, antes de sua morte, ocorrida em 1948, deixou duas senhas em envelopes lacrados uma com Dra. Ruth Fontoura, filha do proprietário dos Laboratórios Farmacêuticos Fontoura de São Paulo; e outra, com o juiz Dr. José Godofredo de Moura Rangel, também romancista e grande amigo
de Monteiro Lobato.

O psicógrafo Chico (Francisco Cândido) Xavier afirma receber mensagens de Monteiro Lobato, que ele psicografa. Ora, tais escritos psicografados não mencionam nenhuma das duas senhas deixadas aos amigos, a tal ponto que no catálogo de escritos de Chico Xavier; confeccionado pela Comissão de Divulgação do Livro Espírita, não foi citado Monteiro Lobato entre as centenas de nomes de espíritos que estariam escrevendo pelas mãos de Chico Xavier.

Em particular, a não utilização da senha deixada ao Dr. Godofredo Rangel é atestada pelo Dr. Cecílio Karam, diretor de publicidade do jornal federal A Noite, de São Paulo: “Tendo sido amigo do saudoso Monteiro Lobato e seu companheiro na luta do petróleo, e tendo conhecimento do pacto entre ele e Godofredo Rangel, desejo dar o meu testemunho em relação a este acontecimento. Realmente, houve o acordo entre ambos, e ficou assentado que o primeiro entre eles que morresse, enviaria do além uma mensagem ao sobrevivente.

Combinaram estabelecer cada qual uma senha, para evitar possíveis fraudes; as senhas foram guardadas em envelopes lacrados e encerradas em cofre. Falecido Lobato e sendo algum tempo depois publicada uma mensagem atribuída a ele, recebida por Chico Xavier, apressou-se Godofredo a examiná-la. Declarou, a seguir, à imprensa: ‘Não é o estilo de Monteiro Lobato, e a senha combinada não foi utilizada’. Os jornais fizeram comentários” (Ver Revista da Parapsicologia, n° 29, págs. 29-32).

Eis como se dissipam as ilusões de comunicação com os mortos.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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