Os Mistérios da Cabala – Parte 1

Em síntese: A Cabala é uma corrente de pensamento judaica
que se diz detentora de uma doutrina esotérica revelada por Henoque ao
Patriarca Abraão e que passou para Moisés. Este a redigiu em estilo simbólico,
servindo-se da língua egípcia, e entregou de viva voz os segredos da
interpretação a homens de sua confiança. Tais sábios seriam os iniciados que
formam a tradição cabalística. Esta funde entre si elementos bíblicos, traços
de neoplatonismo panteísta e outros dados “místicos” do Oriente
antigo. Detêm-se especialmente na interpretação dos números, números que muitas
vezes resultam das letras constitutivas de nomes, adjetivos, verbos… – A
Cabala é altamente imaginosa; consegue, porém, penetrar no grande público, por
sua promessa de conhecimentos ocultos e preciosos.

Cabala vem do hebraico qaballah (= tradição ou transmissão).
Designa a doutrina esotérica dos judeus, que se foi formando aos poucos desde o
início da era cristã e no século XII d.C. atingiu a sua configuração mais
elaborada. Resulta da fusão de genuínos elementos bíblicos (o texto sagrado é
básico nas especulações cabalísticas) com o neoplatonismo panteísta e outros
elementos “místicos” da antigüidade e da Idade Média.

Que é a Cabala?

Os cabalistas assim explicam a origem da Cabala:

Henoque (cf. Gn 5, 21-24) ensinou ao Patriarca Abraão (séc.
XIX a.C.) uma doutrina oculta, que Abraão transmitiu oralmente a seus filhos e
netos. No século XIII a.C. Moisés redigiu por escrito esses ensinamentos no
livro da Lei ou no Pentateuco.

Acontece, porém, que Moisés fora iniciado nos mistérios do
Egito. Por isto escreveu em estilo simbólico servindo-se da língua egípcia,
língua que havia chegado ao mais alto grau de perfeição. Moisés previa que a
sua mensagem, pura como era, não se conservaria nas mãos do seu povo, que
peregrinava pelo deserto. Por isto, tencionando evitar falsas interpretações,
confiou as chaves do entendimento de seus escritos a homens seguros, de
fidelidade comprovada; entregou-lhes de viva voz os esclarecimentos necessários
para uma autêntica compreensão da Torá (Lei).

 

Os discípulos de Moisés confiaram esses ensinamentos
secretos a outros homens, que os passaram adiante. Assim, de geração em
geração, chegou até nós essa doutrina esotérica ou oculta que os rabinos chamam
Cabala.

Moisés tinha acesso ao templo egípcio de Tebas, que continha
os arquivos sacerdotais da extinta raça vermelha ou atlântida e os da seita de
Ram, que tinha sede na Índia. Moisés, portanto, foi iniciado em todos esses
conhecimentos, como também nos mistérios da raça negra, guardados no templo de
Jetro, seu sogro, que foi o último sobrevivente dos sacerdotes dessa raça (cf.
Ex 3, 1). Assim a tradição oral que Moisés deixou aos seus discípulos continha
o essencial de todos os ensinamentos ocultos que existiam na face da terra.

Dizem também os cabalistas que Moisés escreveu em caracteres Vattam;
todavia no século VI a.C. o sacerdote Esdras os substituiu pelos caracteres
hebraicos atualmente utilizados. Isto deve ter criado distância entre o texto
primitivo e o texto atual do Pentateuco. A genuína interpretação deste foi
entregue por Moisés não à tribo sacerdotal (levítica), mas a comunidades leigas
de profetas e videntes, das quais a principal foi a dos essênios.

Para se conservar inalterado o texto sagrado, os profetas
davam normas aos leitores e copistas, normas que se derivavam do esoterismo de
Israel e que hoje se chamam a Massorah. Esta, juntamente com outras tradições
secretas (Michná, Gemará, Targum), constitui a Cabala judaica.

 

A Cabala pode ser
teórica ou prática.

A Cabala teórica ensina algo sobre o mistério da Divindade,
a criação e a queda dos anjos, a origem do mundo em sete dias, a criação e a
queda do homem, os caminhos para a restauração deste… O seu livro principal é
o Zohar ou Livro do Esplendor, escrito por Simeão bem Jochai sob ordem vinda do
Alto.

A Cabala prática ou mágica é conservada nos manuscritos
chamados Clavículas de Salomão. Procura orientar o comportamento humano,
observando símbolos sagrados, especialmente as letras hebraicas, às quais é
atribuído valor numérico e valor qualitativo. Em conseqüência, fizeram-se
baralhos ou séries de cartas, portadoras de imagens simbólicas e números; essas
cartas, tiradas segundo certas regras, devem definir o caráter e o
comportamento das pessoas interessadas. O mais importante de tais baralhos é o
Tarô, que consta de 22 símbolos (Arcanos Maiores).

As Clavículas de Salomão têm 36 talismãs e 72 figuras
análogas às do Tarô. Examinemos isto de mais perto.

O significado das
letras

Eis como a Cabala define o valor das letras do alfabeto
hebraico:

Aleph (A), sendo o primeiro som que a criança articula e a
primeira letra do alfabeto, significa unidade e princípio; designa causa,
poder, estabilidade. Tem o valor numérico 1.

Beth (B) significa a paternidade, o Criador. Valor numérico:
2.

Ghimel (G) é o sinal de organismo ou do corpo com seus
órgãos e suas funções. Valor numérico: 3.

Daleth (D) designa abundância, nutrição. Valor numérico: 4.

He (H) é símbolo de fôlego, princípio vivificante, alma,
espírito. Valor numérico: 5.

 

Vau (V) é o símbolo da luz do intelecto e da clareza de
conceitos. Valor numérico: 6.

Zain (Z) designa a tendência a um fim determinado e a causa
final. Valor numérico: 7.

Heth (Ch) exprime equilíbrio e trabalho. Valor numérico: 8.

Teth (T) indica teto, abrigo, refúgio e os dois princípios
(o bem e o mal). Valor numérico: 9.

Jod (J) simboliza a Divindade; é a imagem da eternidade e do
poder ordenador. Valor numérico: 10.

Khaph (K aspirado) é o símbolo de afinidade, coesão, molde,
modelo. Valor numérico: 20.

Lamed (L) designa extensão, expansão, possessão. Valor
numérico: 30.

Mem (M) indica fecundidade, maternidade, água, líquido.
Valor numérico: 40.

Nun (N) é símbolo de filho, fruto, geração. Valor numérico:
50.

Samekh (S) simboliza o movimento circular, a circunferência,
o universo. Valor numérico: 60.

Ayin (OE) significa ruído, vento, o que é confuso, falso.
Valor numérico: 70.

Pe (P ou PH) representa o pensamento, a palavra, a boca.
Valor numérico: 80.

Tsade (Ts) simboliza vontade, ordem, sugestão. Valor
numérico: 90.

Koph (K ou Q) designa golpe, ferida, dano; também escrita e
letra. Valor numérico: 100.

Resh (R) designa a cabeça, a origem, a repetição. Valor
numérico: 200.

Shin (Ch) é a imagem do movimento, da transformação, da
duração relativa. Valor numérico: 300.

Tau (Th) é o sinal dos sinais; simboliza a abundância, a
proteção e a perfeição. Valor numérico: 400.

Como se vê, o simbolismo das letras é assaz vago e flexível,
prestando-se a conclusões e aplicações múltiplas, de acordo com o modo de ver
subjetivo do leitor ou do intérprete. Mas nem todos os autores cabalistas
concordam entre si ao explicar o simbolismo das letras.

 

A Cabala ensina também que existe uma influência dos céus
sobre a terra, influência que é designada pelas 22 letras do alfabeto hebraico.
Por conseguinte, distinguem os cabalistas três segmentos no alfabeto:

1) Da letra Aleph à letra Jod, é designado o Mundo Invisível
ou Angélico, as inteligências soberanas, que recebem as influências da Luz
Eterna.

2) Da letra Kaph até Tsade, designam-se os anjos que habitam
o mundo visível e regem os astros existentes no espaço cósmico. Recebem luz da
Sabedoria Divina, que criou os corpos celestes.

3) Da letra Koph ao Tau, é simbolizado o mundo elementar ou
o mundo dos homens, cuja sorte é regida também por anjos.

Cada letra do alfabeto hebraico corresponde a um tipo de
inteligência superior ou de anjo. Examinemos agora como a Cabala joga com
letras e números.

Exercícios cabalísticos

Na base de que letras e números correspondem entre si, a
Cabala realiza diversas operações, das quais destacamos a adição e a redução.

A adição consiste em somar todos os algarismos que compõem
um número superior aos nove primeiros; por exemplo, 12, numa adição
cabalística, dá 1 + 2 = 3.

A redução consiste em achar o número pequeno que resulta da
adição progressiva; por exemplo 365 reduz-se a 5, porque 365 = 3 + 6 + 5 = 14,
e 14 = 1 + 4 = 5. Vejamos como estas operações podem levar a descobrir
coincidências, definir temperamentos de pessoas e sua conduta (conforme a
Cabala), Por exemplo,

Pai em hebraico diz-se AB. Ora AB é A (=1) e B (=2); donde
3.

Mãe em hebraico diz-se AM. Ora AM é A (=1) e M  (= 40).

 

Somando pai e mãe, vamos ler:    
1  +  2

                                                  
1  +  40

                                                       
44

 

Mas 44 é 4 + 4 = 8. Ora 8 é também a soma dos valores
numéricos de leLeD¹, geração. Com efeito, l = 10, L = 30, D = 4. Donde 10 +
30 + 4 = 44. E 44 = 4 + 4 = 8.

Donde se vê, conforme a Cabala, que existe uma
correspondência entre pai-mãe e geração.

 

2) Também  o nome de Deus (lHVH) reduz-se ao número 8.
Com efeito, l = 10; H = 5; V = 6; H = 5. Donde 10 + 5 + 6 +5 = 26. E 26 = 2 + 6
= 8.

Conclui-se então que a geração se liga não somente a pai e
mãe, mas também a Deus.

3) O ano dos antigos era lunar, tendo 355 dias. É o que
parece indicar o próprio nome hebraico ShaNaH = ano. Sim; Sh = 300; N = 50; H =
5. Donde 300 + 50 + 5 = 355.

4) A primeira palavra da Escritura Sagrada é Be Re A SH Y TH
= no princípio. Consta de seis consoantes ou semiconsoantes: B, R, A, SH, Y,
TH. -Ora essas seis consoantes correspondem às seis fases (ou aos dias) da
criação do mundo, conforme GN 1, 1-2, 4.

5) O nome de Deus (lHVH) pode ser escrito também sob a forma
IEVE (deformação de Javé). Ora os cabalistas dispunham essas quatro letras de
modo artificioso ou triangular, a saber:

 

l

l   E

l   E   V

l   E   V   E

A seguir, faziam a soma:

 

       l = 10 . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . 10

     lE = 10 + 5 . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . 15

   lEV = 10 + 5 + 6  . . . . . . . . . . . .
. . . . . . .  21

 lEVE =  10 + 5 + 6 + 5 . . . . . . . . . . . . .
. . .  26

                                                                    
72

 

Daí dizer-se que 72 anjos ou gênios presidem às 72 divisões
do céu, às 72 partes do corpo humano. Os  72 gênios têm, a partir do
primeiro, respectivamente os seguintes nomes:  Vehuiah, Jebiel, Sitael,
Elemiah, Mahasiah, Lelahel, Acaiah, Caetmel…

A correspondência entre números e letras faz-se atualmente
também nas línguas de alfabeto diferente do hebraico ou nas línguas modernas.¹
Assim, por exemplo, dizem os cabalistas do século XX:

O navio Titanic foi destruído por um bloco de gelo aos
14/04/1912, perecendo então centenas de riquíssimos passageiros. Ora o nome
TITANIC tem o seguinte valor numérico: T = 100; l = 9; T = 100; A = 1; N = 40;
l = 9; C = 3. Donde a soma é 262. E 262 = 2 + 6 + 2 = 10. O número 10
corresponde ao arcano X do Tarô, cujo significado é: “Elevação dos
humildes e queda dos orgulhosos”. Pois bem; o TITANIC estava cheio de
gente orgulhosa. Por isto naufragou!

Mais: a data do naufrágio também era azarenta, conforme a
Cabala: 14 de abril (4.º mês) de 1912. Somando tais números, vamos ter: 14 + 4
+ 1912 = 1930. E 1930 é 1 + 9 + 3 + 0 = 13. Pois bem; 13 é o número do Arcano
da Morte no Tarô!

Ainda outro jogo pode ser feito. Somando-se os algarismos
contidos na data 14/04/1912, tem-se: 1 + 4 + 4 + 1 + 9 + 1 + 2 = 22. Ora 22 é o
número do Arcano da Loucura ou da catástrofe final no Tarô.

Noções complementares

A Cabala admite a reencarnação, necessária para que a alma
humana se possua purificar e atingir a felicidade celeste, que consiste na
plena união com Deus. Acredita também que no início da história houve o que se
chamaria “pecado original” ou uma desobediência do homem a Deus;
movido pela serpente da tentação ou a concupiscência, Adam-Kadmon (= o Homem
primitivo) cedeu ao amor egoísta de si, abandonando a divindade.

Para voltar a esta, o homem conta com práticas mágicas ou
com a magia branca, que atrai a influência de espíritos superiores. Todos os
seres humanos são dotados de faculdades mágicas em graus diferentes; todavia
não costumam cultivá-las. Existe também a magia negra, que utiliza as forças
invisíveis para cometer o mal; é condenável, por que os demônios que ajudam o
magro negro na execução das suas práticas abomináveis, o levam à perdição.

O mago pode entrar em comunicação com os espíritos
superiores para receber deles instruções e sabedoria. Para o conseguir, deve
passar por uma preparação mística, isolar-se do mundo e, com o auxílio do
sagrado tetragrama (JHVH), entrar em estado de inspiração mediúnica. A Cabala
reconhece curas mágicas, a  influência dos astros e dos talismãs, os
fenômenos hipnóticos, a licantropia (a ação de um homem-lobo ou lobisomem), e o
sabbath das bruxas (os demônios teriam cópula com mulheres na noite de Sábado para
domingo).

Conclusão: vê-se que a Cabala é um tecido de proposições
imaginosas, destituídas de fundamento histórico, literário ou científico.
Abrange a Numerologia, a astrologia, a magia, a comunicação com os espíritos do
além, o curandeirismo… Há quem tencione, na Cabala, diagnosticar doenças,
detectar a personalidade de alguém, predizer o futuro, orientar o comportamento
dos clientes, etc.

Comparando entre si os autores cabalistas, verificamos que
nem sempre concordam entre si ao indicar o significado dos números e das letras
do alfabeto. A interpretação destes sinais é altamente subjetiva e pessoal,
pois ao mesmo sinal se podem atribuir mensagens diferentes ou mesmo
contraditórias. Embora tão fragilmente construída, a Cabala atrai muita gente,
porque parece oferecer soluções prontas e eficientes por vias sobre-humanas a
pessoas que estão cansadas ou céticas em relação à ciência e perícia dos
homens, ou também a pessoas que põem a razão de lado para atender à fantasia
desenfreada.

É para desejar que todo homem, ao receber uma mensagem
“maravilhosa”, exerça uma crítica sadia e pergunte quais as
credenciais de tal mensagem ou em que fundamentos lógicos e objetivos se
apoia… E verá que muita fantasia se dissipará.

¹ Notemos que as vogais não eram escritas pelos hebreus, de
modo que não as contavam.

¹ Em Português, temos: a = 1; b = 2; c = 3; d = 4… i (j,
y) = 9;… n = 40.. u (v, w) = 200 … z = 400.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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