Os Mártires dos Século XX

Em síntese: O presente artigo considera o fato do martírio no século XX, paralelo ao dos primeiros séculos. A igreja quer reconhecer e homenagear os heróis da fé, que sofreram em campos do concentração, prisões e outras ocasiões, e dos quais alguns ainda vivem, merecendo toda a estima dos contemporâneos.

A história se repete. O passado, que parecia definitivamente ultrapassado, retorna com modalidades novas. É o que se dá com a época dos mártires de 64 a 313, em que o Império Romano levou à morte muitos milhares de cristãos. O século XX fez que os cristãos revivessem a era do martírio não mais com anfiteatros e feras, mas em campos de concentração, masmorras solitárias, fuzilamento.., Conforme o Papa João Paulo II, é dever da igreja recordar este fato e comemorar os heróis que faleceram por fidelidade a Cristo em quatro continentes do mundo contemporâneo:

“Estes dois mil anos depois do nascimento de Cristo estão marcados pelo persistente testemunho dos mártires.

Também este século, que caminha para o seu ocaso, conheceu numerosíssimos mártires, sobretudo por causa do nazismo, do comunismo e das lutas raciais ou tribais. Sofreram pela sua fé pessoas das diversas condições sociais, pagando com o sangue a sua adesão a Cristo e à Igreja ou enfrentando corajosamente infindáveis anos de prisão e de privações de todo gênero, para não cederem a uma ideologia que se transformou num regime de cruel ditadura. Do ponto de vista psicológico, o martírio é a prova mais eloquente da verdade da fé, que consegue dar um rosto humano inclusive à morte mais violenta e manifestar a sua beleza mesmo nas perseguições mais atrozes.

Inundados pela graça no próximo ano jubilar, poderemos mais vigorosamente erguer ao Pai o nosso hino de gratidão, cantando: Te  martyrum candidatus laudat exercitus (o exército resplandecente dos mártires canta os vossos louvores). Sim, é o exército daqueles que “lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro” (Ap 7, 14). Por isso, a Igreja espalhada por toda a terra deverá permanecer ancorada ao seu testemunho e defender zelosamente a sua memória. Possa o povo de Deus, revigorado na fé pelos exemplos destes autênticos campeões de diversa idade, língua e nação, cruzar confiadamente o limiar do terceiro milênio. À admiração pelo seu martírio associe-se, no coração dos fiéis, o desejo de poderem, com a graça de Deus, seguir o seu exemplo, caso o exijam as circunstâncias” (Bula Incarnationis Mysterium nº 13).

1. Martírio: que é?

A palavra mártir vem do grego mártys, mártyros, que significa testemunha. O mártir é uma testemunha qualificada que chega ao derramamento do próprio sangue. O Papa Bento XIV assim se exprime:

“O martírio é a morte voluntariamente aceita por causa da fé cristã ou por causa do exercício de outra virtude relacionada com a fé”.

O Catecismo da Igreja Católica § 2473 retoma o conceito:

“O martírio é o supremo testemunho prestado à verdade da fé; designa um testemunho que vai até a morte”.

O Concílio do Vaticano II desenvolve tal noção:

“Visto que Jesus, Filho de Deus, manifestou Sua caridade entregando Sua vida por nós, ninguém possui maior amor que aquele que entrega sua vida por Ele e seus irmãos (cf. 1Jo3, 16; Jo 15, 13). Por isso, desde o início alguns cristãos foram chamados  e alguns sempre serão chamados  para dar o supremo testemunho de seu amor diante de todos os homens, mas de modo especial perante os perseguidores. O martírio, por conseguinte  pelo qual o discípulo se assemelha ao Mestre, que aceita livremente a morte pela salvação do mundo, e se conforma a Ele na efusão do sangue  é estimado pela Igreja com exímio dom e suprema prova de caridade. Se a poucos é dado, todos, porém, devem estar prontos a confessar Cristo perante os homens, segui-lo no caminho da cruz entre perseguições, que nunca faltam à Igreja” (Lumen Gentium nº 42).

A propósito deve-se notar o seguinte: O martírio é uma graça que tem sua iniciativa em Deus. Não compete ao cristão procurar o martírio provocando os adversários da fé. A Igreja sempre condenou esse comportamento, pois seria presunçoso (quem pode Ter certeza de suportar corajosamente os tormentos do martírio?); além do quê, seria provocar o pecado do próximo ou dos algozes.

Para que haja martírio propriamente dito, requer-se que o cristão morra livremente, ou seja, aceite conscientemente o risco de morrer por causa da sua fé. A aceitação da morte pode ser explícita, como no caso em que o perseguidor deixa a escolha entre renegar a fé (ou uma virtude relacionada com a fé) e a morte. A aceitação livre pode ser implícita quando a pessoa sabe que o seu compromisso cristão pode levá-la até a morte e, não obstante, é fiel a esse compromisso.

Para que a Igreja declare oficialmente que alguém é mártir da fé, são efetuadas pesquisas a respeito de:

– a verdadeira causa da morte: pode ser que um cristão seja condenado à morte não por ser cristão, mas por estar envolvido em alguma campanha política ou de outra ordem;

– a livre aceitação da morte por parte da vítima;

– graças ou milagres obtidos por intercessão do(a) servo(a) de Deus.

O processo é iniciado na diocese à qual pertencia a vítima ou na qual ela foi levada à morte. Continua e termina em Roma, na Congregação para as Causas dos Santos.

O martírio é algo tão antigo quanto a pregação da Palavra de Deus. Já ocorreu na história dos Profetas do Antigo Testamento. No século II a.C. os irmãos macabeus sofreram a morte cruenta por causa da sua fé (cf. 2Mc 7, 1-42), assim como o escriba Eleazar (cf. 2MC 6, 18-31). O martírio teve seu ponto alto em Jesus Cristo. Santo Estêvão é o primeiro mártir do Cristianismo após Jesus Cristo (cf. At 7, 55-60). No fim do século I o Apocalipse fala de “imensa multidão”, que ninguém pode numerar, daqueles que lavaram e alvejaram suas túnicas no sangue do Cordeiro” (cf. Ap 7, 9.14). Em síntese, São Paulo afirma que “todos aqueles que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus, serão perseguidos” (2Tm 3, 12).

2. O Martírio no século XX

O martírio, tão presente em nosso século como em nenhum outro, tem suas características próprias, assaz paradoxais:

1) Este é o século em que as autoridades mais se preocuparam com não fazer mártires cristãos. Assim o nacional-socialismo alemão condenou muitos fiéis católicos não por causa da sua fé, mas por motivos políticos. Do lado marxista, Stalin recomendava aos chefes de regime comunistas que nunca pusessem a luta contra a Igreja no plano religioso, mas sempre no plano político, como fazia Himmler na Alemanha. O aparato jurídico soviético dispunha de dezenas de leis e decretos destinados a envolver os religiosos em tramas de ordem civil e política, e nunca de ordem religiosa.

O Cardeal Alexandre Todea, cabeça da Igreja Católica na Romênia, viu a liquidação da Igreja em 1948. Tornou-se pastor clandestino de seus fiéis. Em abril de 1952, em Bucarest, o general Nikolki, chefe da Securitate, chamou-o à sua presença depois que o Cardeal foi descoberto e preso, e disse-lhe:

“Já que ninguém no século XX morre por causa da sua fé, o Sr. Deve reconhecer que quis aniquilar os comunistas”.

Respondeu-lhe o Cardeal: “Antes disso, posso chamar um psiquiatra?”

– “Para quê?”

– “Para averiguar qual de nós dois é louco: o senhor ou eu?”

O Cardeal foi finalmente condenado à morte “como lacaio do Vaticano e inimigo do comunismo, constituindo uma ameaça para o novo estilo de vida que leva ao povo a felicidade”.

2) O martírio incruento… Muitos fiéis foram sujeitos à tortura física, psíquica e moral mais requintada possível sem chegar a morrer. O encerramento em campos de concentração, com todo tipo de maus tratos, podia durar dez, vinte, trinta ou mais anos, exigindo coragem e tenacidade sobre-humanas. E, apesar de tudo, não lograram o título de mártires (apesar de terem sofrido crudelíssimos tormentos). Conta um sacerdote sobrevivente de um campo de concentração:

“Se eu soubesse o que me aguardava no campo de concentração, eu teria preferido ser fuzilado. Mas, ao contrário, eu me alegrei! Se eu tivesse sido fuzilado como tantos outros sacerdotes, teria sido um mártir. Hoje trata-se de beatificar um ou outro deles, e eu, que sofri por muito mais tempo do que eles, ainda posso cometer desatinos sobre a terra”.

3) Há aqueles que morreram desconhecidos, como vítimas de violência e maus tratos. Ninguém o testemunhou para poder proclamar seu heroísmo e sua glória. Não tiveram a graça de confessar frente ao mundo o nome de Jesus, embora tenham morrido por causa dele.

Os mártires do século XX foram, muitas vezes, ignorados… na Alemanha, na URSS, na China, em Cuba… Em parte, isto se deu por causa da censura das notícias que saiam de tais países; não era (nem é hoje ainda) possível saber o que acontece nos bastidores de um país totalitário. Em parte, também se deve à onda de secularismo que tem passado pelas nações em que há liberdade religiosa: o consumismo e o bem-estar têm levado muitos cristãos a querer atenuar a loucura e o escândalo da fé, afastando os homens de Cristo e da Igreja.
3. Um caso especial: a Albânia

3.1. A Perseguição

Em 1945 a Albânia tornou-se uma República Popular sob a chefia de Enver Hoxha, que empreendeu violenta opressão religiosa contra cristãos e muçulmanos. A Igreja Católica então contava 124.000 fiéis num total de um milhão de habitantes, mas a sua irradiação ia muito além do número de fiéis. A perseguição desencadeou-se primeiramente contra os Bispos, os Religiosos e os missionários estrangeiros; os fiéis que os defendiam, foram presos, torturados e, às vezes, mortos por recusarem denunciar publicamente os pretensos crimes do clero. Essa primeira onda persecutória visava também a cortar o relacionamento do clero com a Santa Sé mediante argumentos e promessas sedutoras. Os clérigos resistiram; então Enver Hoxha, a conselho de Stalin, resolveu eliminar radicalmente a Igreja Católica. Em 1948 só restava um Bispo católico em vida nas montanhas do Norte do país. Ficavam ainda umas poucas dezenas de presbíteros, que procuravam atender à Liturgia dominical, passando de uma paróquia a outra sob a permanente ameaça de encarceramento ou de execução sumária.

A situação em breve se modificou quando o governo albanês rompeu com a Iugoslávia; precisava de se consolidar interiormente; daí travar negociações com a Igreja em busca de um modus vivendi. Em 1951 Enver Hoxha aceitou firmar um tratado com Mons. Shilaku, reconhecendo os laços da Igreja na Albânia com Roma. Todavia o texto oficial publicado pelo governo albanês não correspondeu ao que fora estipulado nas conversações. Houve então protestos da parte de sacerdotes, que foram assassinados ou enviados para campos de concentração. Apesar de tudo, o povo católico não renunciava a viver a sua fé.

Entre 1952 e 1967 a situação se estabilizou entre repressão governamental e resistência dos fiéis. Todos os anos um sacerdote ou uma Religiosa morria em prisão ou em campo de concentração. Quem estava em campo de concentração, era retirado, por vezes, para comparecer a uma sessão de humilhação pública nas ruas das grandes cidades.

Aos 6/02/1967 Enver Hoxha dirigiu um discurso a toda a nação, incitando a juventude albanesa a levar a termo a luta “contra as superstições religiosas”. Os guardas vermelhos da Albânia, à semelhança dos da China, foram encarregados dessa revolução cultural. As igrejas, os conventos, as mesquitas foram tomados de assalto, profanados, saqueados, incendiados, destruídos ou transformados em depósitos, lojas ou apartamentos. Em oito meses 2169 lugares de culto foram assim extintos. Aos 22/11/1967, a Gazette, órgão oficial do governo albanês, publicou um decreto que anulava todos os acordos entre confissões religiosas e o Estado. A administração dos sacramentos, os rituais e as preces públicas foram proibidos sob pena de graves sanções. Os últimos membros do clero e os Religiosos foram presos, espancados em público, humilhados, intimados a apostar e, na maioria, enviados para campos de concentração. Não houve, porém, uma única defecção da parte de sacerdotes católicos.

O governo foi mais além… Pôs-se atacar qualquer objeto, símbolo ou gesto que pudesse ter significado religioso até mesmo na intimidade da família. Tenha-se em vista o seguinte caso: os católicos albaneses costumam iniciar suas refeições tomando um copo de raki, sua bebida preferida, e levantando a taça com as palavras: “Louvado seja Jesus Cristo!”. Pois bem, a partir de 1967 tais dizeres podiam custar cinco anos de prisão. Os(as) professores(as) de escolas maternais perguntavam às crianças se sabiam fazer o sinal da cruz; caso alguma criança demonstrasse sabê-lo, os seus genitores eram punidos até com cinco anos de prisão. Era proibido fabricar terços com grãos de girassol, como fazem os camponeses de Albânia. Era interditada a Rádio Vaticana, que todas as noites tinha emissões em língua albanesa. Em 1975 foram excluídos também todos os nomes que pudessem lembrar a religião: Benedito(a), Pedro, Paulo, Maria, Joana…

Não obstante, houve famílias que continuaram a transmitir a fé a seus filhos de maneira secreta. Alguns poucos sacerdotes clandestinos ainda celebravam os sacramentos às ocultas. Nos campos de concentração, os padres batizavam os adultos que o desejassem; caso fossem descobertos, como o foi o Pe. Kurti, eram executados.

Apesar de toda essa repressão religiosa, não se viu surgir o homem novo albanês exaltado pelos discursos de Enver Hoxha; a vida de fé prosseguiu clandestinamente, enquanto o país foi afundando na miséria ainda hoje perceptível.

Uma autêntica filha da Albânia, Madre Teresa de Calcuttá via essa realidade com olhos confiantes na Providência Divina. Assim, ao receber o Prêmio Nobel da Paz de 1979, declarou:

“Creio que a Igreja na Albânia está vivendo a experiência de sexta-feira santa, mas nossa fé nos ensina que a vida de Cristo não terminou na sexta-feira santa, e, sim, se consumou na Ressurreição. Nosso povo albanês há de guardar esta verdade na sua mente. Tal é o segredo da paciência cristã…”

Os primeiros sinais de distensão religiosa ocorreram após a morte de Enver Hoxha. Mas somente em novembro de 1990 (um ano após a queda do Muro de Berlim), o Pe. Simon Jubani um dos raros sobreviventes, celebrou a primeira Missa pública após 1967, correndo ainda o risco da própria vida. Em breve, porém, pôde batizar uma centena de adultos.
O regime comunista recuou, como nos demais países da Europa, e aos fiéis foi concedida a liberdade de crença.

Com dificuldade a Albânia procura reerguer-se. Ainda há violência no interior do país, agravada em 1998 e 1999 pelas guerras nos Bálcãs.

3.2. Algumas das vítimas

1) Cyprian Nika

Cyprian Nika era o padre Provincial dos Franciscanos da Albânia. Após algumas semanas de cárcere e torturas, foi levado à presença de oficiais do Estado para discutir sobre a existência de Deus. Disse-lhes: “Como ser humano pensante, creio que existe algo após esta breve existência na terra, em que o bem e o mal encontrarão a respectiva sanção. Algo que ultrapassa os limites da natureza humana, algo de sobre-humano, de sobrenatural, em que o mal e a injustiça não terão lugar”. Não lhe foi dado acabar o seu discurso, pois os seus interlocutores perderam a paciência e puseram-se a injuriá-lo. Um deles exclamou: “Meu deus é Enver Hoxha!”. O Religioso orou então: “Faça-se a tua vontade!”. Foi fuzilado pouco depois.

2) Daniel Dajani

Quando andava por uma das ruas da cidade de Shkodër com um dos seus seminaristas, o Pe. Daniel Dajani foi interpelado por agitadores, que o insultaram. Continuou a caminhar sem responder. Mas o jovem seminarista, perturbado, não conseguir recuperar a calma. O Pe. Daniel disse-lhe: “Caro Lazër, eles vieram com espingardas, mas foram embora com amor”. Finalmente o Pe. Daniel Foi preso e testemunhou diante dos seus juízes: “Desde a infância tenho fé e estou pronto a morrer para dar testemunho da minha fé”. Foi então executado juntamente com Mozafer Pipa, o jovem advogado muçulmano que o defendera.

3) Ded Macaj

Este jovem sacerdote de 28 anos foi condenado à morte após um processo simulado. Declarou diante do pelotão que o executou: “Perante Deus, em cuja presença vou comparecer em breve, e perante vocês, caros soldados, declaro que sou assassinado tão somente por causa do ódio à Igreja Católica. E eu o digo sem amargura nem ódio para com aqueles que me vão fuzilar”.

4) Mikel Betoja

Este jovem sacerdote clandestino foi depreendido a celebrar a Missa às ocultas numa aldeia. Foi logo condenado a quinze anos de campo de concentração por motivo de “agitação e propaganda”. Professou então sua fé em público. Em consequência a sua sentença foi logo trocada pela de condenação à morte. Executaram-no aos 10/02/74.

5) Ded Malaj

O jovem vigário de Dajç foi fuzilado às margens do lago de Shkodër por Ter continuado a exercer o seu ministério. Os fiéis que o defenderam, foram mandados para campos de concentração. Acontece, porém, que trinta anos depois a aldeia continua fiel à sua fé católica.

6) Leonardo Shajakaj

Sacerdote de 76 anos de idade, recusou dizer o que ouvira em confissão. Foi executado por causa deste “crime” em 1964.

7) Mons. Gjergj Volsj

Fora o mais jovem Bispo do Mundo. Recusou-se a romper com Roma. Foi então preso e torturado durante meses. Na véspera de ser executado, recebeu a visita de sua mãe, que chorou. Mas o filho lhe disse: “Mãe, não chores por causa do teu filho; antes, chora por todo o povo”.
4. O Recenseamento

O Santo Padre João Paulo II nomeou uma Comissão destinada a recensear e conservar a memória dos mártires do século XX. A tal Comissão foi confiada uma tríplice tarefa:

– elaborar um catálogo dos mártires do século XX;

– preparar a comemoração desses mártires (marcada para 7/05/2000);

–  aprofundar a contribuição espiritual que trouxeram à Igreja.

Já mais de dez mil relatos de martírio ocorrido nos diversos continentes chegaram a Roma, alguns redigidos em duas linhas, outros em centenas de páginas; chegaram em cerca de dez línguas diferentes, que é preciso traduzir para o italiano e passar para o computador num programa especial de informática. 45% desses relatos vêm de Conferências Episcopais e 40% de Congregações ou Ordens Religiosas.

Coloca-se uma questão nova a propósito do conceito de mártir: será mártir somente quem morre por ódio à fé ou pode ser tido como mártir aquele que passou anos em cárcere ou em campo de concentração, tendo sofrido cruéis tormentos, mas foi posto em liberdade ainda vivo? Houve, na realidade, Bispos, como Mons. Velychkovskyj na Ucrânia e Mons. Fishta na Albânia, que foram libertados da prisão quando estavam gravemente enfermos por causa das torturas e dos maus tratos e morreram pouco depois; podem ser equiparados aos mártires no sentido clássico?

As respostas enviadas aos questionários emitidos pela Comissão foram assaz diversas. Em setembro de 1998, a Igreja da Espanha tinha mandado 2075 relatórios; a da França, dez. Depois a França enviou mais cinquenta relatórios e a Espanha mais 2000 novos relatórios; a Coréia, 200; a Polônia, 900. Quanto aos países dominados por governo anticatólico (Vietnam, China, Sudão…), têm-se manifestado timidamente – o que bem se entende, dado o controle das autoridades civis.

É de notar ainda que em Jerusalém existe o Instituto Yad-Vashem, fundado em 1953 para recensear os nomes de pessoas não israelitas que ajudaram ou salvaram judeus perseguidos, com risco para a sua própria vida; esses beneméritos recebem o título de “Justos das Nações”, que “amaram o próximo como a si mesmos”. Na Europa 12000 justos foram assim reconhecidos e muitos ainda ficam no anonimato. A justificativa apresentada para a exaltação desses nomes é que “todo aquele que salva uma vida salva o universo todo inteiro”.

5. O Perdão aos Inimigos

Perdoar ao agressor não é fácil, pois o coração humano tem seus ressentimentos espontâneos. Apesar disto, quem percorre os relatos de martírio do século XX observa que muitas vezes o cristão vítima exprime seu perdão aos carrascos e ora por eles. Eis alguns espécimens significativos:

No Líbano o jovem Ghassibé Kayrouz foi assassinado quando se preparava para entrar no Seminário. Numa gaveta de seu quarto, os seus genitores encontraram um texto escrito na véspera de sua morte, que foi lido por ocasião do seu enterro:

“Tenho um só pedido a fazer-lhes: perdoem àqueles que me matarem. Fazei-o de todo o coração, e rogai comigo que meu sangue, mesmo que seja o sangue de um pecador, seja resgate pelos pecados do Líbano, uma hóstia misturada ao sangue das vítimas que tombaram, de procedências e religiões diversas; seja o preço da paz, do amor e do entendimento que foram perdidos por esta pátria e até pelo mundo inteiro. Queiram ensinar às pessoas o amor através da minha morte, e Deus os consolará, proverá às suas necessidades e os ajudará a viver esta vida. Não  tenham medo, não estou pesaroso, nem me sinto triste por deixar este mundo. Só estou triste porque vocês estarão tristes. Rezem, rezem, rezem e amem seus inimigos””

Na Algéria, o Pe. Christian de Chergé, trapista assassinado, escreveu pouco antes da sua morte:

“Quisera, no momento oportuno, ter o tanto de lucidez que me permitisse solicitar o perdão de Deus e dos meus irmãos, assim como eu perdoaria de todo o coração a quem me tivesse atingido”.

Na África do Sul, Malusi Mpumlwana, torturado e, depois, rechaçado, disse ao sair da prisão:

“Quando eles me torturavam, eu pensava: são filhos de Deus e comportam-se como animais. Precisam de que nós os ajudemos a recuperar a humanidade que eles perderam”.

Em El Salvador, o Pe. Navarro, assassinado aos 11/05/1977 com o jovem Luís (de 14 anos), murmurou antes de morrer:

“Morro porque preguei o Evangelho. Sei quem são meus assassinos. Saibam que lhes perdôo”.

Na Albânia, Mark Çuni foi executado aos 6/03/1946, ao mesmo tempo que o Pe. Dajani e seus companheiros. Eis as suas últimas palavras:

“Perdôo a todos aqueles que me julgaram, condenaram e vão executar-me. Digam a minha mãe que ela pague os quinze napoleões de ouro que eu devo a Ludovik Racha. Viva Cristo Rei! Viva a Albânia!”.

Quanto ao Pe. Daniel Dajani, encerrou seus dias dizendo:

“Perdôo a todos os que me fizeram mal…”.

Na Polônia, quando o Cardeal Wyszynski soube da morte do chefe comunista Bierut, que o tinha traído e mandara lançar na prisão, escreveu em seu Diário:

“Nunca mais terei a ocasião de discutir com Boleslaw Bierut. Ele já sabe que Deus existe e que Ele é amor. Doravante Bierut está do nosso lado. Solicitarei do Senhor a misericórdia para o meu perseguidor. Amanhã celebrarei a Missa em sufrágio por ele; desejo absolvê-lo, na confiança de que Deus encontrará na vida do defunto atos que falarão em seu favor. Muitas vezes no cárcere rezei por Boleslaw Bierut! Talvez esta oração nos tenha ligado um ao outro a ponto de ele chamar-me em seu socorro… Os seus colaboradores talvez em breve reneguem Bierut, como isto se deu com Stalin. Eu não o esquecerei. O meu dever de cristão o exige”.

Em Tirana, na Albânia, o Pe. Zef Pilumi, um dos poucos sacerdotes que sobreviveram à perseguição, contou o seguinte:

“Um dia, após o fim da perseguição, um dos meus carrascos veio a esta casa para pedir-me ajuda. Precisava de submeter-se a uma cirurgia e só o podia fazer na Grécia. Trazia consigo a sua carteira de trabalho, que lhe assegurava o salário de aposentado. Disse-me ele que queria dar-me esse dinheiro, caso eu lhe pudesse pagar a viagem para que fosse tratar-se no estrangeiro. Resolvi levar isso ao meu Conselho Paroquial. Todos sabiam que tal homem havia sido meu carrasco. Mas concordamos em pagar-lhe a viagem até Salônica, sem nada receber do seu salário de aposentado. Quando ele voltou da Grécia e veio visitar-me, eu lhe disse que ele nada nos devia; caiu então em prantos. É necessário perdoar, como pede o Evangelho”.

Na Croácia, o Cardeal Stepinac, vítima dos comunistas, escrevia:

“Que a maldade deles não vos impeça de amar vossos inimigos! Uma coisa é a maldade, outra coisa é o homem”.

Ainda na Albânia o Cardeal Mikel Koliqi, após quarenta anos de campo de concentração, de cárcere ou de residência vigiada, declarava:

“Não sinto mágoa alguma. Eu lhes digo francamente: não experimento ressentimento algum. Ao contrário, peço a Deus que perdoa a eles. Para um cristão, a vingança não tem sentido”.

Ainda se pode citar a Sra. Euguenia Guinzbourg. Narra que os seus companheiros de campo de concentração se sentiam fortemente tentados a odiar seus carrascos. Dizia-lhes então:

“Assim procedendo, cairemos num círculo vicioso. Vejam! Eles contra nós, nós contra eles, e de novo eles contra nós… Até quando há de durar o círculo vicioso do ódio? Vamos Ter que sustentar ainda e sempre o triunfo do ódio?”.

Vejamos agora algumas das mais brilhantes figuras de mártires do século XX, além das que examinamos até agora.
6. Outros heróis da fé

Enumeraremos ainda sete vultos dignos do nome de cristãos.

6.1. São Maximiliano Kolbe (+ 1941), franciscano polonês

Era franciscano conventual quando foi levado para o campo de concentração de Auschwitz. O Caso é particularmente interessante, pois Fr. Maximiliano não morreu diretamente por ódio à fé, mas porque se ofereceu para morrer em lugar de um pai de família, terminando assim os seus dias  no Bunker (subterrâneo) da fome. O caso foi examinado pelos peritos da Igreja: verificaram que a morte de Frei Maximiliano fora consequência da sua caridade e não da sua fé; por isto Paulo VI o beatificou na qualidade de confessor da fé ou zeloso pastor, não de mártir; havia, sim, praticado a virtude em grau heróico e, em consequência, morrera. A causa continuou a ser examinada sob João Paulo II, de modo a chegar à seguinte conclusão: Frei Maximiliano, se não morreu por causa da fé, morreu por causa de uma virtude (a caridade) associada à fé; por isto seu caso entra na definição de mártir e, como mártir, foi canonizado em 1982. O fato se justificava claramente: sim, o martírio é a suprema prova de amor a Deus,… amor este que Frei Maximiliano vivenciou de maneira perfeita, impelido pela fé, quando quis tomar o lugar de um pai de família condenado à morte; doando sua vida, tornou-se mártir da caridade, ou seja, testemunha do absoluto amor de Cristo.

6.2. Franz Jägerstätter (+ 1943), leigo austríaco

Nascido em 1907 na Áustria, Franz levou uma vida dissipada durante a juventude. Finalmente descobriu a grandeza da mensagem católica. Por ocasião do Anschluss (anexão da Áustria à Alemanha nazista), foi o único de sua aldeia que teve a coragem de votar contra Hitler. Em 1939, quando estourou a Segunda guerra mundial, declarou que não se alistaria no exército de um regime ateu e anticristão. Apesar de tudo, foi recrutado para combate, mas recusou-se ao porte de armas. Foi encarcerado e resistiu denodadamente a toda pressão nacional-socialista. Aos 6 de julho de 1943 foi transferido para uma prisão em Berlim e condenado à morte por Ter rejeitado uma proposta nazista que lhe salvaria a vida. Foi decapitado aos 9 de agosto de 1943.

6.3. Isidoro Bakanga, leigo congolês

No começo do século XX no Congo um jovem aprendiz de pedreiro descobriu o Cristo anunciado pelos missionários. Tornou-se catequista convicto e irradiou a sua fé. A sua conduta de vida incomodava os homens corruptos que se valiam do Evangelho para explorar seus conterrâneos. O gerente de uma firma colonial mandou espancá-lo até que morresse. Isidoro faleceu perdoando aos seus carrascos. João Paulo II declarou-o bem-aventurado em 1994.

6.4. Ghassibé Kayrouz (+ 1985), leigo maronita libanês

Ghassibé Kayrouz nasceu no Líbano na aldeia de Nahba (província de Bekaa), em que cristãos e muçulmanos viviam em boa paz desde muito tempo. Impressionado pela guerra civil no seu país, entrou na Companhia de Jesus e dedicou-se a apaziguar os ânimos dos compatriotas agressivos. Percebeu que esta missão podia custar-lhe a vida e, por isto, ainda jovem, antes do Natal de 1984, escreveu um testamento em que exprimia a sua fé católica e perdoava de antemão a quem o matasse. Assim ofereceu sua vida por todos os libaneses (muçulmanos e cristãos); dizia: “No céu não terei repouso enquanto a situação permanecer tal no Líbano”. Foi assassinado alguns dias mais tarde.

Pouco depois Nicolas Kluiters, um Religioso holandês que seguira Ghassibé em sua caminhada espiritual, foi degolado e lançado num poço de 97m de profundidade.

6.5. John Bradburne, leigo do Zimbabwe (África)

Nascido em 1920, da família anglicana, no Zimbabwe, John tomou parte heróica na Segunda guerra mundial. Resolveu fazer-se católico e consagrar toda a sua vida à procura de Deus. Durante quinze anos levou vida de peregrino pelas estradas da Europa. Chegou assim até Jerusalém. Tocava flauta e compôs dezenas de milhares de versos em honra da Virgem Maria. Queria ir aonde Deus o chamasse.

Em 1962 voltou para a África, onde queria viver solitário, como eremita. Mas deparou-se com colônias de leprosos, que lhe mudaram o curso da vida. Decidiu dedicar-se a eles, apesar dos diversos obstáculos que encontrava. Era, por uns, tido como louco inofensivo; por outros, como um Santo. A guerra civil estourou no Zimbabwe; então John e uma médica italiana resolveram ficar com os leprosos. A presença e o testemunho de fé cristã desses dois mensageiros incomodava a quem os via de modo que foram assassinados.

6.6. Daphrosa e Cipriano Rugamba, leigos de Rwanda, 1994

Durante o genocídio de Rwanda em 1994, o casal católico Daphrosa e Cipriano muito se empenhou pela reconciliação de Hutus e Tutsis. Cipriano era um artista conhecido. O casal, com seus seis filhos, foi indicado como alvo aos atiradores, que os mataram quando estavam em adoração diante do Ssmo. Sacramento.

6.7. Jesus Jiménez, leigo de El Salvador, 1979

Jesus Jiménez nasceu em El Salvador, de família camponesa. Era muito dado à leitura da Palavra de Deus e à adoração da Eucaristia. O seu pároco, o Pe. Rutilio Grande, confiou-lhe a orientação de uma comunidade eclesiástica de base em 1973. Em breve, porém, estourou a guerra civil e o Pe. Rutilio Grande foi assassinado pela Guarda Nacional. Jesus Jiménez procurou então coordenar as comunidades duramente provadas pela guerra civil, a todos levando o reconforto do Evangelho. A 1º de setembro de 1979 foi assassinado quando voltava de uma reunião pastoral. Contava 32 anos e era pai de quatro filhos. O seu cadáver foi pendurado numa haste e lançado no corredor de um presbitério.

7. Domingo 7 de maio de 2000

A Comissão nomeada pelo Santo Padre preparou uma celebração ecumênica das vítimas da fé no século XX. Deve realizar-se no Coliseu de Roma, em presença do Papa. Os representantes do catolicismo e de ramos cristãos dissidentes reunir-se-ão em número tão avultado quanto possível, para participar dessa cerimônia, cujo programa é assaz denso. Serão publicados em voz alta os catálogos de vítimas das diversas comunidades cristãs; far-se-á o gesto simbólico de transmitir a memória dos mártires à primeira geração do terceiro milênio; será evocada a diversidade dos testemunhos de fé das várias culturas, nações, situações e estados de vida. Comparecerão e serão vivamente saudados alguns grandes confessores da fé, sobreviventes da tremenda tribulação. Por fim, falará o Papa sobre o século XX, no qual voltaram os mártires, e voltaram com eloquência singular.

O próprio Santo Padre justifica e comenta este tipo de celebração ao escrever:

“O testemunho corajoso de numerosos mártires do nosso século, incluídos aqueles que são membros de outras Igrejas e comunidades eclesiais que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica, dá ao apelo conciliar uma força nova; recorda-nos a obrigação de acolher a sua exortação e de a pôr em prática. Nossos irmãos e nossas irmãs, que têm em comum a oferenda generosa de sua vida em prol do Reino dos céus, atestam da maneira mais eloquente que todos os fatores de divisão podem ser ultrapassados no Dom total de si mesmo pela causa do Evangelho” (Enc. Ut Unum Sint).

Uma figura muito expressiva de fidelidade à fé (ortodoxa)¹ é a do Pop (Padre) Alexandre Min, russo, cujos traços biográficos são os seguintes:

Nasceu em Moscou aos 22/01/1935, de família israelita. Foi batizado clandestinamente com sua mãe na comunidade ortodoxa, tendo oito meses de idade. Foi excluído da Universidade por causa de sua fé cristã. Continuou, porém, a estudar e foi ordenado presbítero.

Durante vinte e cinco anos acompanhou a nova geração de jovens soviéticos, procurando apontar-lhes o sentido da vida. Levou centenas de jovens a descobrir Cristo e a Igreja. Escreveu algumas obras que abordam aspectos da fé e da vida no mundo atual e que circulavam em samizdat (clandestinamente) por toda a URSS. Foi submetido a interrogatórios múltiplos por parte da KGB, que lhe propôs sair da URSS, sem que Alexandre o aceitasse.

A partir de 1988, aparece ª Min projetado no cenário público. Exerce grande influência e parece chamado a desenvolver papel mais amplo no surto religioso da Rússia pós-soviética. Foi isto, sem dúvida, que provocou o seu bárbaro assassinato a golpes de machado aos 9/09/1990. Todavia a obra por ele iniciada foi assumida e levada adiante por seus filhos e filhas espirituais.

Possa o testemunho de tantos mártires do século XX lembrar aos cristãos da atualidade que pertencem a uma família de heróis, que, aliás, tem suas origens no século I e deve continuar a ser valente e nobre passando pela geração contemporânea!

¹ Os ortodoxos são cristãos que se separaram da Santa Sé de Roma em 1054 por motivos disciplinares e culturais mais do que por razões teológicas. Professam quase o mesmo Credo que os católicos. Têm a sucessão apostólica, o sacerdócio e a Eucaristia válidos.

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 456, Ano 2000, Pág. 194.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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