Os mais belos sermões de Hugo de São Vítor – Parte 8

Nestes também
cumpre-se o testemunho de Moisés, que diz destes homens:

”Os que se
aproximam dos pés do Senhor, recebem de sua doutrina”. Dt. 33, 3

Os pés do Senhor, de
fato, são os santos doutores, que pelo seu ensino conduzem o coração dos que os
ouvem. Recebem por meio deles a doutrina do Senhor aqueles que se aproximam com
humildade de seus pés, porque está escrito:

“Aquele que
anda com os sábios, será sábio; o amigo dos
insensatos, porém,

 tornar-se-á semelhante a eles”. Prov. 13, 20

Continua o Cântico:

“A cana
aromática e o cinamomo”.

 A cana é uma pequena
árvore aromática, de casca robusta e purpúrea, útil para curar as doenças das
vísceras. Pode significar, portanto, todos os que pelo temor de Deus, que é
princípio da sabedoria, se arrependem de seus pecados e que, pela verdadeira
confissão, purificam as vísceras de seus corações espirituais do pernicioso
amontoado dos torpes pensamentos. De fato, os que se arrependem verdadeiramente
se tornam como aqueles que pela cana aromática são curados das doenças de suas
vísceras quando, pela perfeita confissão do que se oculta em suas mentes, se
purificam de sua maldade. São, portanto, cana aromática todos aqueles que, pela
graça do arrependimento, da confissão, ou mesmo de admoestações mais eficazes,
expelem as doenças interiores dos pecados ocultos, tanto em si mesmos como nos
outros.

O cinamomo é uma
árvore pequena, odorífera, doce, de cor cinzenta, duas vezes mais útil para uso
medicinal do que a cana aromática. Chama-se cinamomo porque sua casca se forma
ao modo da cana. E porque a cana, quando cortada para este fim, costuma emitir
sons na boca das crianças, pode-se designar pelo cinamomo a confissão dos
santos sacerdotes, como Jerônimo, Gregório, Agostinho e Ambrósio, e todos os
que foram como eles. De fato, na medida em que estes não apenas creram pelo
coração para a justiça, mas também pela boca confessaram para a salvação (Rom.
10,10), estendendo para longe a escuta da salvação, podem-se entender pelo
cinamomo, cuja casca se forma circunflexa ao modo da cana sonora, os santos
confessores. Assim como, portanto, entendemos pela cana aromática os
arrependidos e aqueles que, pela verdadeira confissão, expelem de seus corações
as doenças dos pecados, assim também, pelo cinamomo, entendemos os santos
confessores.

“Com todas as
árvores do Líbano”.

Líbano, traduzido,
significa a ação de alvejar. As árvores do Líbano, ademais, se destacam entre
todas as árvores pelo modo como crescem para o alto. Assim é que encontramos,
na profecia de Ezequiel, que para poder descrever-se a sublimidade, ou melhor,
a soberba de Assur, esta foi comparada às árvores do Líbano:

“Eis Assur como
o cedro no Líbano, formoso pelos ramos, frondoso pela folhagem e excelso pela altura, e entre as suas densas ramadas elevou a sua
copa”. Ez. 31, 3

Pelas árvores do
Líbano, portanto, pode-se convenientemente entender o coro das santas virgens,
que se erguem para o alto pela elevação de sua pureza, e que, pelos dons da
mesma, mais alto do que os demais se aproximam dos bens celestes. De fato, a
perfeição das virgens é mais celeste do que terrena. Sua vida é mais angélica
do que humana, pois a virgindade tem como que um parentesco com os anjos. As
árvores do Líbano são as santas virgens como Inês, Cecília, Ágata, Lúcia e
todas as outras cujos nomes não podem ser aqui enumerados. A santa mãe Igreja,
com todas as plantas precedentes, possui também as árvores do Líbano, porque
juntamente com os santos mencionados possui também as santas virgens,
alvejantes pela sua pureza e elevando-se sublimemente aos bens celestes.

“A mirra e o
aloés”.

Estas duas espécies
possuem tal amargor que quando se ungem os corpos com elas, ficam protegidos da
putrefação. Como a mirra, porém, possui maior força do que o aloés, por causa
disto entendemos por ela a continência e pelo aloés a abstinência. A
abstinência, de fato, é pesada, mas a continência é ainda mais pesada. A mirra
e o aloés repelem os vermes e a podridão dos corpos; a continência e a
abstinência repelem as corrupções dos vícios do coração e do corpo. Ou, mais
corretamente, entendemos melhor nesta passagem pela mirra e pelo aloés os
próprios continentes e abstinentes que se exercitam a si mesmos por estas
virtudes.

“Com todos os
primeiros unguentos”.

Os primeiros
ungüentos são os dons principais, isto é, a caridade e a profecia. O apóstolo
Paulo, após enumerar os dons espirituais, acrescenta:

 “Vou
mostrar-vos um caminho ainda mais
excelente. Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade, seria como o bronze
que soa, ou o címbalo que tine; nada seria, nada me aproveitaria”. I Cor 12,1;13,1-3

E a seguir, pouco
depois:

 “Agora, pois,
permanecem a fé, a esperança e a caridade, mas a maior delas é a caridade”. I Cor. 13, 13

“Segui a
caridade”, diz ainda São Paulo, “emulai os dons espirituais”(I
Cor. 14,1), isto é, amai os dons divinos.

“Sobretudo,
porém, a profecia”, I Cor. 14, 1isto é, o ensino.
Assim, em primeiro lugar São Paulo nos recomenda a caridade; recomenda, depois,
que profetizemos, isto é, que ensinemos, pois o ensino é aquilo que mais
próximo reside do fruto da caridade.

Caríssimos, estas
são as riquezas espirituais da santa mãe Igreja, deste jardim tão fértil, desta
fonte da qual emana tanta riqueza. Imitemos, caríssimos, a mãe Igreja em todas
estas coisas, para que com ela mereçamos contemplar o esposo em seu esplendor,
e com a esposa alcancemos a glória no céu. Tenhamos também nós um paraíso de
romãs, padecendo constantemente adversidades por Cristo e compadecendo-nos
cotidianamente dos oprimidos. Tenhamos cipres, regendo-nos com discernimento.
Tenhamos o nardo, submetendo-nos humildemente aos nossos prelados; o açafrão,
expelindo nossos pecados pelo pranto e pela confissão de nossos corações; o
cinamomo, entoando ação de graças pelos benefícios recebidos; as árvores do
Líbano, exibindo obras de pureza; a mirra, contendo-nos dos afagos da carne; o
aloés, abstendo-nos também das comidas lícitas; e todos os primeiros unguentos,
pela posse dos principais dons.

Esta é a via, por
ela caminhemos, para que possamos chegar à felicidade que possuem milhares de
santos.

E que para tanto se
digne vir em nosso auxílio Jesus Cristo, Nosso Senhor, que é Deus, bendito
pelos séculos.

Amén.

SERMO LXI

 Sobre a Obra dos
Seis Dias

“No princípio
criou Deus o céu e a terra”. Gen. 1,1

No primeiro dia fêz
Deus a luz primordial, no segundo o firmamento, no terceiro congregou as águas
inferiores em um único lugar, no quarto fêz os luminares, no quinto as aves e
os peixes, no sexto os animais. Criado, pois, o mundo, ordenado e ornamentado,
e preparado primeiro tudo o que fosse necessário, cômodo e agradável ao corpo
do homem, naquele mesmo sexto dia fêz também Deus o homem, constituindo-o
senhor de tudo e possuidor de todas as coisas. Deste modo, embora tenha sido
criado posteriormente no tempo, por causa de sua dignidade, o homem é anterior
e superior a todas as demais criaturas. Deus fêz, efetivamente, o mundo
sensível por causa do homem, para que o mundo estivesse submetido ao seu corpo,
o corpo ao espírito, e o espírito ao Criador.

Preparou também o
Criador dois bens para o homem, visto ele ter sido feito de uma dupla natureza.
Um destes bens era visível, o outro invisível; um era corporal, o outro
espiritual; um transitório e outro eterno, ambos plenos e perfeitos em seus
gêneros. O primeiro destes bens foi feito para o corpo, o segundo para o
espírito, para que pelo primeiro os sentidos do corpo fossem favorecidos à
alegria e pelo segundo os sentidos da alma se saciassem pela felicidade. Para o
conforto do corpo e para a alegria do espírito, os bens visíveis haviam sido
feitos para o corpo e os invisíveis para o espírito. O primeiro destes bens foi
concedido por Deus para que fosse gratuitamente possuído; o segundo foi
prometido para que fosse buscado pelo mérito. O bem que era visível foi
concedido gratuitamente, para que, pelo dom gratuito, ficasse demonstrada a
excelência da promessa; e o que era invisível foi proposto para que fosse
buscado pelo mérito, para que pudesse também ser demonstrada a fidelidade de
quem o prometia. Depois que o homem, porém, obscurecido pelas trevas do pecado,
perdeu o olho da contemplação, a totalidade das coisas visíveis não somente
continuou a lhe oferecer o amparo para a sustentação do corpo, como também
passou a lhe prestar o auxílio para a apreensão do conhecimento divino. De fato,
está escrito:

“As coisas
invisíveis de Deus, depois da criação do
mundo, tornaram-se visíveis ao entendimento pelas coisas que
foram feitas”. Rom. 1, 20

Três são as coisas
invisíveis de Deus: a potência, a sabedoria e a benignidade, e destas três
procede tudo o que foi feito. A potência cria, a sabedoria governa, a
benignidade conserva. Estas três coisas, porém, assim como em Deus são
inefavelmente apenas uma única, assim também não podem ser separadas nas
operações exteriores de Deus. Nelas a potência divina cria pela benignidade com
sabedoria, a sabedoria governa pela potência benignamente e a benignidade
conserva pela sabedoria com poder. A imensidade das criaturas manifesta a
potência divina, a beleza a sua sabedoria, e a utilidade a sua benignidade. A
criação das coisas visíveis é um grande dom de Deus e um grande bem para homem
pois por elas o corpo é sustentado e a alma, iluminada pela contemplação das
mesmas, é admiravelmente sublimada ao conhecimento, à admiração e ao amor de
seu Criador.

Efetivamente, o Deus
escondido chega à notícia do homem de quatro maneiras, das quais duas são
interiores e duas são exteriores. Interiormente, pela razão e pelo desejo;
exteriormente, pela criatura e pela doutrina. A razão e a criatura pertencem à
natureza, o desejo e a doutrina pertencem à graça.

Ditas estas coisas,
e tendo mencionado brevemente a obra dos seis dias, vejamos que ensinamentos
morais se encontram escondidos nas mesmas e investiguemos com diligência o que
nos poderá ser de proveito para a nossa edificação.

“No princípio
criou Deus o céu e a terra”. Gen. 1,1

O céu é o espírito,
a terra é o corpo. Pelo céu, de fato, pode-se convenientemente entender o
espírito do homem, formado à imagem e semelhança de Deus, criado para o
conhecimento, para o amor e para a busca e a posse dos bens celestes. Pela
terra entendemos o corpo do homem, que é de terra, e à terra muito brevemente
haverá de retornar, conforme se encontra escrito:

“Tu és terra, e
à terra hás de voltar”. Gen. 3,19

Céu, que na língua
latina se diz coelum, vem de celare, que significa ocultar.O céu,assim, é o
espírito, porque ao seu bel prazer nos oculta as coisas que há nele, do mesmo
modo como também está escrito:

 “Qual dos
homens conhece as coisas que são do homem, senão o espírito do homem, que está nele?” 1 Cor 2,11

A terra, por sua
vez, é o corpo, porque cotidianamente esmagado, -teritum na língua latina-, até
que à terra retorne. O céu, também, é o espírito e a terra é o corpo porque
assim como o céu é mais sublime e mais sólido do que a terra, assim também o
espírito é mais excelente do que o corpo.

O mundo, em seu caos
primordial, é o homem em sua iniqüidade. Assim como, de fato, no mundo ainda
envolvido no caos primordial não havia nem luz nem aparência de ordem futura,
assim também para o homem submetido à iniqüidade nem a luz brilha pelo
conhecimento da verdade, nem a ordem se faz presente pela disposição da
eqüidade.

Em meio ao caos Deus
cria, no primeiro dia da vida espiritual, a luz primordial, quando, pelos raios
de uma luz interior, ilumina o pecador imerso na confusão de seus diversos
pecados, para que conheça não só o que ele é como também e o que deve ser, e se
disponha a si mesmo segundo a norma do reto viver. A luz primordial significa,
portanto, o conhecimento do pecado.

O firmamento entre
as águas superiores e inferiores é o discernimento entre os vícios e as
virtudes. As águas inferiores, de fato, designam os vícios, e as águas
superiores as virtudes. Coloca-se um firmamento entre ambas as águas quando
pela virtude do discernimento distingüem-se as virtudes dos vícios e os vícios
das virtudes.

Sucede-se depois a
congregação das águas que estavam sob o firmamento. A congregação das águas
significa o domínio dos vícios. Os vícios, de fato, não podem nesta vida ser
inteiramente evacuados ou eliminados dos recônditos da natureza humana por
causa de seus aguilhões que residem naturalmente em nós; devem, portanto, o
quanto for possível, mediante o auxílio da graça divina, ser dominados,
diminuídos e reduzidos a um único lugar, para que não se disseminem pelo todo,
tudo ocupem e corrompam, impedindo nossos sentidos da busca da verdade, nossos
desejos do exercício da virtude e nossos membros da exibição da boa obra. Assim
como, de fato, a terra ocupada pelas águas não pode germinar, assim nós,
imersos nos vícios, não entenderemos o sentido da busca da verdade, nem
desejaremos o exercício das virtudes ou poderemos usar de nossos próprios
membros para a exibição das boas obras. As águas, congregadas em um só lugar,
fazem com que o ar se torne claro e aquecido e com que a terra germine porque,
dominados os vícios, a nossa alma brilha pelo conhecimento, aquece-se pelo
amor, e a carne frutifica pela boa ação.

A criação dos
luminares significa, removida a nebulosa cegueira da ignorância, a perfeita
visão da verdade. O Sol pode significar o conhecimento das coisas que pertencem
à Santa Igreja; as estrelas o conhecimento das coisas que pertencem a qualquer
criatura ou a qualquer alma fiel.

Os peixes, que vivem
no mundo inferior, isto é, nas águas, significam as solicitudes das boas ações,
exercidas entre as ondas escorregadias da vida. As aves, que voam nas alturas,
significam a contemplação dos bens celestes, pela qual nos elevamos das coisas
inferiores às superiores.

Os animais
terrestres significam os sentidos de nosso corpo, pois os animais tem os
sentidos em comum com os homens. Ademais, quando nossos sentidos corporais,
antes corrompidos pela vaidade, são restaurados pela graça divina, eles se
tornam em nós como os animais feitos por Deus no sexto dia da obra da criação.

Realizadas que foram
todas estas coisas, por último é criado o homem à imagem e semelhança de Deus
pois, ordenadas desta maneira em nós todas as coisas pelas virtudes e pelas
boas obras, o pecador, que antes era deforme e dessemelhante pela culpa,
torna-se conforme e consemelhante a Deus pela justiça. O homem, assim criado, é
finalmente transportado para o paraíso das delícias, pois o pecador regenerado
no mundo pela graça é sublimado ao céu pela glória.

Eis, irmãos
caríssimos, um outro mundo. Tanto este mundo maior como o mundo sensível foram
criados antes de todos os dias. Nos três primeiros ambos foram ordenados e nos
três seguintes ambos foram ornamentados.

Vejamos, pois,
caríssimos, se assim como possuímos a existência pela criação, também possuímos
a ordenação pela graça, e o ornamento pela excelência da vida. Vejamos se
existe em nós a luz primordial pelo conhecimento dos nossos pecados, se existe
o firmamento pelo discernimento dos vícios e das virtudes, se as águas se
congregam pelo domínio dos vícios, se as árvores e a erva verde germinam pelo
exercício das virtudes. Vejamos também se há em nós luminares pelo conhecimento
da verdade, se há peixes pela exibição das boas obras, aves pelo vôo da
contemplação, animais por uma sensualidade já imaculada. Vejamos se em nós a
dignidade humana foi restaurada pela justiça, aquela mesma que havia sido foi
deformada pela culpa, e se, finalmente, podemos constatar que tudo quanto
fizemos “é imensamente bom”, Gen. 1,31

para que possamos
descansar com Deus e em Deus pela boa consciência.

Se for tudo assim,
também pela glória poderemos nelas descansar, para que se cumpra em nós o que
se encontra em Isaías, onde se diz:

“De sábado em
sábado, toda a carne virá prostrar-se diante de mim e me adorará, diz o Senhor”. Is. 66,23

E que, para tanto,
digne-se vir em nosso auxílio Jesus Cristo, Senhor Nosso, que é Deus, bendito
por todos os séculos.

Amén.

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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