Os mais belos sermões de Hugo de São Vítor – Parte 6

Estes dons, irmãos,
são verdadeiramente ungüentos, e recebê-los é a verdadeira unção. Mas também as
virtudes que se originam destes dons são chamados não inconvenientemente de
ungüentos, porque o seu exercício é a unção perfeita que em nós consome os
vermes dos vícios e restitui à saúde os afetos feridos pelos pecados.

Os melhores vestidos
com que Rute se dirige à eira de Booz (Rute 3,3) são as principais boas obras,
as seis obras de misericórdia, que consistem em dar pão aos que têm fome, dar
de beber aos que têm sede, recolher os peregrinos, vestir os nus, curar os
enfermos e visitar os presos (Mat. 25,35-36). Quando alguém alguém se reveste
com estas obras, espiritualmente procede como se se ornamentasse com vestidos
puros e preciosos.

Rute, portanto,
depois de colher e bater as espigas, lava-se, unge-se e veste-se (Rute 3,6)
porque a alma fiel, depois de ter recebido o conhecimento da verdade pelo
estudo e pela meditação das Sagradas Escrituras, lava-se pela compunção,
unge-se pela emulação dos carismas espirituais e pelo exercício das virtudes, e
veste-se pela boa ação. Assim ornamentada, Rute desce à eira (Rute 3,6), o que
significa humilhar-se a si mesma, depois dos benefícios recebidos, na planície
do coração. Se, de fato, pelo orgulho o homem se eleva sobre si mesmo, pela
humildade retorna e desce para si mesmo. Há uma outra humildade que precede a
esta, pela qual nos são conferidos primeiros benefícios; por esta da qual
tratamos agora nos são aumentados estes benefícios.

Noemi pede a Rute
que levante a Booz a capa da parte dos pés e que ali se coloque e se deite
(Rute 3,4). Levantar a capa da parte dos pés significa considerar, investigando
humildemente, o mistério da nossa Redenção; ali co,ocar-se e deitar-se
significa pedir humilde e incessantemente a perpétua união com Cristo pela fé em sua Encarnação. Que
a alma, porém, não presuma de modo algum tanta proximidade e familiaridade se
antes Booz não tiver se satisfeito com a comida e a bebida e não tiver se
deitado no leito da paz e da quietude. Ora, a comida e a bebida de Cristo é,
conforme Ele próprio no-lo diz, fazer a vontade de seu Pai. Isto é o que Ele
mesmo declarou aos seus discípulos:

 “Tenho um
alimento para comer que vós não sabeis”. Jo. 4, 32

 “A minha comida
é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua
obra”.

 Jo. 4, 34

 Portanto, nenhuma
alma ouse de modo algum discutir, tratar ou compreender o mistério de Cristo ou
pedir-lhe a felicidade que dEle emana se primeiro, exibidas santas obras, não o
reconhecer contente e pacífico para consigo. De fato, assim diz a Escritura:

“Que comunicará
o caldeirão para a panela? Quando se colidirem, ela quebrará”. Ecle. 13, 3

 E também o Apóstolo:

“Aquele que
come e bebe indignamente, come e bebe para si a condenação” 1 Cor. 11, 29

 Daqui também ocorreu
que Moisés, após a morte de Nadab e Abiu, repreendendo a Eleazar e Itamar por
não terem comido o bode que havia encontrado queimado, respondeu-lhe Aarão:

 “Hoje foi
oferecida a vítima pelo pecado, e o holocausto diante do Senhor.

 A mim, porém, aconteceu-me o que tu vês; como podia eu comer desta vítima,

 ou agradar ao Senhor nas cerimônias, com o espírito entristecido?” Lev. 10, 19

 E da oração também
está escrito que “Aquele que
afasta o seu ouvido

 para não ouvir a Lei, sua oração será execrável”. Prov. 28, 9

Quem quer que,
portanto, de algum modo queira aproximar-se de Deus, ou pedir-lhe algo, é
necessário que cuide primeiro de sua consciência, exercitando-se, em sua
presença, nas boas obras e serenando-se a si mesmo pela humildade. Por meio
destas coisas Cristo como que se alimentará e saciará pela comida e pela bebida
e então poderemos encontra-Lo descansado para conosco. A comida e a bebida que
Booz tomou, porém, não lhe foram dadas por Rute, mas eram do próprio Booz, já
que nossas obras são um dom de Cristo, e não pertencem à nossa faculdade, mas à
graça celeste, conforme mensina a Epístola aos Romanos, quando nos diz:

 “Não depende do
que quer, nem do que corre, mas de Deus, que usa de misericórdia”. Rom. 9, 16

Deitada aos pés de
Booz, “ele mesmo”, explica Noemi a Rute, “te dirá o que
deves fazer”. Rute 3, 4

Isto se repete
sempre que, fazendo obedientemente aquilo que nosso prelado nos preceitua,
quanto ao demais a unção de Cristo “nos ensina de
todas as coisas”.

I Jo. 2, 27

Vendo Rute deitada
aos seus pés, Booz louva-a por não ter buscado os jovens (Rute 3,10). É assim
também que Cristo louva a alma que com fidelidade se lhe aproxima, não seguindo
os demônios ou os homens réprobos, hábeis e prontos para o mal.

Agora, portanto,
irmãos caríssimos, retornemos a nós mesmos e de tudo isto procuremos
diligentemente aprofundarmo-nos no conhecimento da verdade, inflamarmo-nos ao
amor da bondade, incentivarmo-nos ao exercício da virtude e formarmo-nos ao
efeito da boa obra, para que possamos merecer o prêmio da salvação pela
renúncia de nossas maldades passadas e das sugestões do demônio.

Sigamos nosso
pastor, imitando-o nas coisas que ele fizer com retidão. Unamo-nos a ele, amando-o
verdadeiramente. Obedeçamo-lo, cumprindo com empenho tudo o que ele nos
preceitua. Habitemos com ele em Belém, honestamente convivendo com ele na santa
Igreja.

Colhamos a batamos
as espigas no campo de Booz, e levemo-las à nossa casa, estudando, meditando e
recordando em nossa memória ou nossa consciência, conforme dissemos acima, as
palavras de nosso Salvador. Não respiguemos em campo alheio, repelindo as más
asserções dos hereges.

Lavemo-nos, então,
deplorando nossos crimes; unjamo-nos, emulando os dons espirituais e seguindo
as virtudes, principalmente a caridade, conforme no-lo ensina o Apóstolo.
Vistamo-nos, entregando-nos à execução das seis obras de misericórdia.
Desçamos, finalmente, à eira, humilhando-nos em nosso coração.

Levantemos a capa
com que Booz se cobre da parte dos pés investigando, por uma humilde
consideração, o mistério de nossa Redenção; e ali, pela Paixão que foi o seu
fim, nos coloquemos e deitemos, pedindo-lhe humildemente e sem cessar que nos
conceda que nos unamos a Ele. Insistindo deste modo dEle obteremos, assim como
Rute o obteve de Booz, receber primeiro, pela fé na santa e indivídua Trindade,
três módios de cevada (Rute 2,17); depois, pela perfeição de toda santidade,
mais seis módios (Rute 3,15), e finalmente nos será concedido que nos unamos a
Ele no tálamo nupcial (Rute 4,13), no mundo pelo gozo da doçura interior, no
céu pela glória da bem aventurança.

E que para tanto se
digne vir em nosso auxílio Jesus Cristo, Nosso Senhor, que é Deus, bendito
pelos séculos.

Amén.

 SERMO LVII

 Sobre os Prelados e
os Doutores da Igreja,
segundo o mesmo Livro de
Rute.

Caríssimos, lemos
nas Sagradas Escrituras como, no tempo dos Juízes (Rute 1,1), faleceu Maalon,
marido de Rute, a moabita, deixando-a viúva e sem descendência. Aconselhada por
Noemi, sua sogra, Rute deitou-se aos pés de Booz (Rute 3,7), seu parente
próximo, rogando-lhe humildemente que lhe concedesse unir-se a ele pelo
matrimônio, para não deixar sem descendência a casa de seu esposo (Rute 3,9).
Disse então Booz a Rute:

 “Não nego que
sou teu parente próximo, mas há outro mais próximo do que eu.

 Se ele te quiser receber pelo direito de parentela, está bem. Se, porém, não o
quiser, eu sem dúvida te
receberei”. Rute, 3, 12-13

Rute, nome que
traduzido significa `a que se apressa’, retamente figura a santa Igreja, que se
apressa para cumprir com toda a devoção os preceitos que lhe são dados do céu.
Seu marido entende-se não inconvenientemente ser Cristo, do qual está escrito:

“O que tem a
esposa é o esposo”; Jo. 3, 29

e do qual o bem
aventurado Apóstolo diz:

 “Cristo amou a
Igreja e por ela se entregou a si mesmo, para a santificar, purificando-a no Batismo da água

 na palavra da vida, para apresentar a si mesmo a Igreja gloriosa, sem mácula nem ruga, mas santa e imaculada”. Ef. 5, 25-27

 Para esta esposa seu
esposo de certo modo está morto, na medida em que Cristo, enquanto
homem, cessou de estar e de conviver entre os homens, conforme diz o Apóstolo:

“Humilhou-se a
si mesmo, feito obediente até à morte, e morte de cruz”. Fil. 2, 8

Cristo, de fato,
ainda que tenha ressuscitado entre os mortos, ainda que já não morra e que a
morte não mais domine sobre Ele, pois Ele “vive, e vive
para Deus”, Rom. 6,10

dirigiu-se, porém,
para uma região longínqua, para receber para si o Reino. Por este motivo está
corporalmente ausente e está, de certo modo, como se estivesse morto. Seu
parente próximo, ou melhor, seu parente mais próximo, é agora a assembléia dos
prelados da Igreja. Embora, efetivamente, todos os verdadeiros cristãos possam
retamente ser ditos parentes próximos de Cristo, conforme Ele próprio no-lo
atesta, dizendo:

 “Todo aquele
que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é o meu irmão e
irmã e mãe”; Mat. 12, 50

são, todavia, os
pastores da Igreja, a cujo ministério pertence ensinar, batizar, instruir nos
demais sacramentos, confirmar os que crêem e gerar para Cristo a descendência
espiritual, os que maximamente lhe são mais próximos.

Isaías nos fala da
descendência de Cristo com as seguintes palavras:

“Se oferecer a
sua alma pelo pecado, verá uma descendência perdurável, e a vontade do Senhor em sua mão será governada”. Is. 53, 10

 Cabe ao parente
próximo de Cristo, isto é, ao coro dos santos prelados, providenciar de todos
modos para que, através do ensino, em nenhum tempo lhe falte esta descendência.
De fato, quando os santos doutores ensinam, não geram para si, mas para o
Senhor, porque ao gerarem a prole espiritual através do ensino, não buscam o
seu louvor, mas o de Cristo. E já que todas as coisas que fazem, o fazem para a
glória de Deus, verdadeiramente podem dizer:

 “Não a nós,
Senhor, não a nós, mas ao teu nome dá a glória”. Salmo 113, 9

Assim como o parente
mais próximo de Rute (Rute 4,8), os santos prelados ou doutores da Igreja
também possuem dois calçados interiores, pelo conhecimento da verdade e pelo
amor da virtude, e dois calçados exteriores, pela palavra do ensino e pelo
exemplo da boa obra. Quem estiver desprovido de um ou de ambos destes calçados
não será idôneo para suscitar a descendência para Cristo.

Para que nos
utilizemos não de nossas palavras, mas das dos santos padres, o doutor da
Igreja deve resplandecer tanto pela vida como pela doutrina, pois a doutrina
sem a vida o torna arrogante, e a vida sem a doutrina o torna inútil. O ensino
do sacerdote deve ser confirmado pelas obras, para que aquilo que ensina pela
palavra o demonstre pelo exemplo. É verdadeira, de fato, aquela doutrina à qual
se segue a forma de viver, e nada é mais torpe do que o desprezo em cumprir
pela obra o bem que se ensina. O ensino aproveita com utilidade quando é
efetivamente cumprido.

 Cada doutor,
portanto, deve dedicar-se para que possua tanto os bens da obra como os bens do
ensino, pois qualquer uma destas coisas sem a outra não produz aproveitamento.
De fato, assim como a doutrina sem a vida, também a vida sem a doutrina não é
suficiente. Os prelados devem viver santamente por causa do exemplo e ensinar
piedosamente por causa do ofício que lhes foi confiado, na certeza de que não
se salvarão apenas pela sua própria justiça, pois de suas mãos lhes será
exigida também a alma de seus súditos. De que lhes aproveitará não serem
punidos pelos seus pecados se forem punidos pelos alheios? Estaríamos mentindo,
falando deste modo, se o próprio Senhor, em uma terrível ameaça, não no-lo
tivesse comunicado pelo profeta, dizendo:”Filho do
homem, se, dizendo eu ao ímpio: ‘Infalivelmente morrerás’, tu não lho anunciares e não lhe falares,

 para que ele não se retire de seu caminho ímpio e viva, este ímpio morrerá na sua iniquidade, mas eu requererei de tua mão o seu sangue.

 Se, porém, avisares o ímpio, e ele não se converter de sua impiedade e de seu mau caminho, morrerá ele por
certo na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma.

 Do mesmo modo, se o justo deixar a sua justiça, e cometer a iniquidade,

eu porei diante dele
uma pedra de tropeço;

ele morrerá, porque
tu não lhe advertiste; morrerá no seu pecado, mas eu requererei de
tua mão o seu sangue. Se, porém, avisares
o justo para que não peque e ele não pecar,
viverá a verdadeira vida, porque tu o advertiste, e assim livraste a tua alma”.

Ez. 3, 17-21

É, portanto,
evidente que nem a doutrina sem a vida, nem a vida sem a doutrina é suficiente
para que o prelado possa gerar para Cristo a prole espiritual. Se, porém,
suceder que falte uma destas duas coisas, entre as duas alternativas
imperfeitas será melhor possuir uma santa rusticidade do que uma eloqüência
pecadora. Se, porém, faltarem ambas, este prelado não somente será inútil para
suscitar a descendência para Cristo, como também, como árvore infrutífera que
ocupa a terra, será prejudicial para os que lhe forem confiados. De onde que a
Santa Igreja com mérito não reconhece como parente próximo de Cristo semelhante
pastor que somente de nome, e não também de fato, preside pelo poder e não pela
utilidade, e humildemente pede a Booz, isto é, a qualquer doutor da Igreja,
rico pela palavra de sabedoria e de ciência e forte pelo vigor das virtudes, que
suscite a descendência espiritual para conservar a perenidade do nome cristão
(Rute 3,9). De fato, o doutor da Igreja é parente próximo de Cristo pela graça
da doutrina, mas há ainda

“outro parente
mais próximo do que ele”, Rute, 3, 12

que é o pastor, a
quem foi confiado o cuidado das almas, que é ainda mais próximo pelo dever e
pela obrigação do cuidado pastoral. Este, reverentemente advertido diante dos
anciãos de Belém (Rute 4,2), isto é, diante dos homens mais perfeitos da santa
Igreja, para que se empenhe no ofício de que é incumbido, na medida em que se
recusa em cumpri-lo (Rute 4,6), como que perde, freqüentemente pela providência
da graça divina, ambos os calçados (Rute 4,8), na medida em que recusa a
solicitude de reger pela qual deveria fecundar a santa Igreja por uma prole
espiritual. Em seu lugar, o doutor da Igreja recebe ambos os calçados (Rute
4,10), na medida em que, substituindo-o, instrui incessantemente a santa Igreja
pela palavra e pelo exemplo para que, para a honra de Cristo, seja ela
fecundada pela descendência espiritual. Foi assim que, para o lugar de Judas, o
sínodo dos apóstolos escolheu Matias, e no lugar dos judeus entrou a plenitude
dos gentios, conforme o próprio Senhor o havia predito aos judeus:

“O Reino de
Deus vos será tirado, e será dado a um povo que produza os seus
frutos”. Mat. 21, 43

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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