Os mais belos sermões de Hugo de São Vítor – Parte 5

SERMO LVI

Sobre a Alma
Obediente, segundo a história
do Livro de Rute.Lemos nas páginas do
Velho Testamento que Rute, a Moabita, seguindo a Noemi sua sogra, e obedecendo
aos seus preceitos, mereceu unir-se em matrimônio a Booz, homem poderoso e
rico.

Noemi, nome que
traduzido quer dizer `formosa’ (Rute 1,20), significa também o doutor e pastor
da Igreja ornamentado não apenas exteriormente, mas também interiormente pelos
vários dons da graça celeste, renunciando, segundo o Apóstolo, à oculta
indecência, não caminhando na astúcia e não adulterando a palavra de Deus. Ele
é figurado por uma mulher, pois não cessa de dar à luz e de educar para Deus,
pelo seu ensino, uma prole espiritual. Por isto é que o Apóstolo, escrevendo
aos Gálatas, diz:

 “Meus
filhinhos, por quem eu sinto de novo as dores de parto, até que Jesus Cristo se forme em vós”. Gal. 4, 19

Rute, nome que
traduzido quer dizer `a que se apressa’, significa a alma que obedece
prontamente aos santos conselhos de seu prelado, não buscando pretextos para
demorar-se na execução de seus preceitos, sabendo que

“o Senhor deseja
não tanto holocaustos ou vítimas como quer que se obedeça à sua voz, e que a obediência vale mais do que as vítimas e escutar mais do que oferecer a gordura dos
carneiros, já que a rebelião é
como o pecado da adivinhação, e não querer ser
dócil é como o delito da idolatria”.

1 Sam. 15, 22-3

Rute, portanto, se
apressa verdadeiramente e bem na medida em que a alma obediente inclina
prontamente o ouvido a todas as coisas que lhe são ordenadas, quer elas lhe
pareçam honrosas ou desprezíveis.

A obediência,
entretanto, às vezes é nula, se possui algo de seu; outras vezes é mínima,
mesmo que não possua nada de seu. De fato, se nos é ordenado subir a um lugar
elevado, quem a isto anela esvazia para si a virtude da obediência pelo próprio
desejo. Se, porém, nos é ordenado o desprezo de nós próprios, a não ser que a
alma apeteça isto por si mesma, quem descesse a isto descontente diminuiria
para si o mérito da obediência. Foi por isto que Moisés humildemente recusou o
principado do povo (Ex. 3,11), e Paulo diz audaciosamente:

“Estou pronto
não só para ser atado, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor
Jesus”. Atos 21, 13

Rute, portanto, por
causa de Noemi abandona a sua terra e os seus deuses (Rute 1,14), quando a alma
verdadeiramente obediente, estimulada pelo exemplo ou pela palavra do doutor da
Igreja, deixa para trás todas as coisas terrenas e prazerosas que lhe foram
oferecidas pelos demônios. E a segue inseparavelmente (Rute 1,16), na medida em
que oferece amigavelmente o assentimento aos preceitos de sua doutrina.
Acompanha-a por todos os caminhos pelos quais passa (Rute 1,17) quando o imita
nos vícios que abandona e nas virtudes que exercita. Finalmente, mora com ela
em Belém (Rute 1,19) quando, dentro da santa Igreja, sob o seu conselho ou
governo, convivem santa e honestamente.

Booz, nome que
traduzido quer dizer `fortaleza de Deus’, homem poderoso e de grandes riquezas
(Rute 2,1), que possuía segadores e de quem era o campo em que Rute colheu espigas
(Rute 2,3), significa Cristo. Cremos, de fato, e confessamos com o Apóstolo que
Cristo é virtude de Deus e sabedoria de Deus, e é também homem poderoso, porque

“Foi-lhe dado
todo poder no Céu e na Terra”. Mat. 28, 18

Ele é também homem
de grandes riquezas, porque

“Nele estão
escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência”. Col. 2, 3

Seu campo é a
Sagrada Escritura. Este campo possui cevada pelo Velho Testamento e trigo pelo
Novo Testamento. Os segadores são os pregadores que quotidianamente colhem
neste campo as sentenças pelas quais alimentam os fiéis e os apascentam
esplendidamente. Já os imperfeitos e os enfermos não segam com as foices, mas
recolhem as espigas, porque não entendem as coisas maiores, mas apenas as
menores. Os quais fazem bem em permanecer no campo, assim como Rute, desde a
manhã até à tarde (Rute 2,7), pois trabalham virilmente para que, desde o
próprio início possam chegar à perfeição. De onde que Booz ordenou aos seus
segadores que se estes últimos quisessem colher com eles, isto é, investigar e
compreender as coisas maiores, não os proibissem; antes, ao contrário, que lhes
oferecessem do trabalho de suas foices (Rute 2,15-16), isto é, ordenou-lhes que
não os instruíssem negligentemente mesmo a respeito de suas sentenças. Ordenou
também Booz aos seus segadores que ninguém molestasse a Rute quando recolhesse
as espigas (Rute 2,9), porque deve-se evitar de todos os modos que a alma que
se inicia no bem, isto é, que se aproxima da fé ou é recém chegada à boa
conversação, encontre uma pedra de tropeço. Por isto é que nos diz o Salvador:

 “O que receber
em meu nome um pequenino como este, é a mim que
recebe”. Mat. 18, 5

“Aquele que,
porém, escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria para ele que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de moinh e que o lançassem ao
fundo do mar”. Mat. 18, 6

E, logo adiante: “Vede, não
desprezeis um só destes pequeninos, pois vos declaro que os seus anjos nos céus veem incessantemente a face de meu Pai, que está nos
céus”. Mat. 18, 10

O pequenino é aquele
que se inicia no bem e que ainda não se elevou à fortaleza da virtude ou à
altura da perfeição. Não apenas Jesus, mas também o bem aventurado Paulo se
refere à malícia do escândalo que não deve ser oferecido aos irmãos enfermos:

“Não nos julguemos”, diz o Apóstolo, “pois, uns aos
outros; propondo antes não pôr tropeço ou escândalo ao
vosso irmão”. Rom. 14, 13

 E também:

 “Não queiras
perder, por causa de teu alimento, aquele por quem
Cristo morreu”. Rom. 14, 15

 E a mesma coisa a
repete novamente, quando diz:

 “Se um alimento
serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para não
escandalizar meu irmão”. 1 Cor. 8, 13

E finalmente,
concluindo:

 “Não sejais
motivo de escândalo nem para os judeus, nem para os gentios,

 nem para a Igreja de Deus; como também eu em tudo procuro agradar a
todos, não buscando o meu proveito, mas o de muitos, para que sejam salvos”. 1 Cor. 10, 32-3

Booz também concedeu
a Rute que comesse o pão com as suas moças, que molhasse o seu bocado no
vinagre (Rute 2,14), e que bebesse da água que havia nas sarcínulas (Rute 2,9),
pequenos recipientes em forma de trouxas ou fardéis, pois Cristo, que é
clementíssimo pai de família, de bom grado concede à alma recém convertida o
pão da sã doutrina para que não desfaleça no caminho da virtude e da boa obra,
assim como o vinagre do temor amargamente pungente, do qual está escrito:

 “Crava pelo teu
temor as minhas carnes, pois temi os teus julgamentos”, Salmo 118, 120

para que não se dissipe
na properidade, e a água da refrescante consolação, para que não se quebre na
adversidade. De fato, o pão sustenta, o vinagre punge, a água refrigera.

“Se tiveres
sede”, disse ainda Booz, vai às
sarcínulas, e bebe as águas de que bebem os meus
criados”. Rute 2, 9

A respeito desta
água deve-se notar que se lhe ordena procurá-la nas sarcínulas, pois ao que
livremente oferecer o ombro para apoiar o fardel da virtude a ser exercida e da
boa obra a ser exibida se promete o refrigério da própria consolação divina.
Por isto é que diz o salmista:

“Segundo a
multidão das minhas dores no meu
coração, tuas consolações alegram a minha alma”. Salmo 93, 19E também:

“No dia de
minha tribulação busquei a Deus, de noite estendem-se as minhas mãos para Ele, e não sou enganado.

 Minha alma recusa-se a ser consolada, recordei-me de Deus e fui consolado”, Salmo 76, 3-4

Quando ele diz que
sua alma recusava-se a ser consolada, refere-se à consolação terrena;
acrescentando, porém, que ao recordar-se de Deus foi consolado, nos mostra ter
aceito a consolação divina. QuAqueles que, portanto, se afastam do piedoso ônus
da virtude e da boa obra, defraudam-se a si próprio do refrigério da consolação
do alto. De onde que corretamente se diz da Sabedoria que:

“Não se
encontra na terra dos que vivem nas suavidades”. Jo. 28, 13

Quem quer que
deseje, portanto, beber a água da sabedoria da salvação, dirija-se para os
fardéis, isto é, aos exercícios e ao trabalho da virtude e da boa obra.Booz, porém, fala de
sarcínulas, e não de sarcinas, o que está de acordo com a palavra do Senhor,
quando diz:

“O meu jugo é
suave, e o meu peso é leve”. Mat. 11, 30

O mesmo também no-lo
diz o bem aventurado João:

“Seus
mandamentos não são pesados”. 1 Jo. 5, 3

 De fato, os
mandamentos divinos, que para os réprobos parecem impossíveis de cumprir, para
os principiantes e os enfermos são um pouco pesados, mas para os perfeitos são
comprovadamente leves. Para os que amam perfeitamente a Deus o salmista no-los
demonstra serem leves, ao dizer:

“Corri pelo
caminho dos teus mandamentos, pois dilataste o meu coração”. Salmo 118, 32

Rute tinha, deste
modo, junto aos criados de Booz, pão, vinagre e água, porque a alma
verdadeiramente penitente possui com as almas puras e eleitas dos que creem em
Cristo o pão na doutrina, o vinagre na repreensão e a água na visitação. Este
pão confere a virtude do sustento; o vinagre, a salubridade do temor; a água, o
refrigério da consolação.

Os restos de comida
guardados por Rute (Rute 2,14) podem ser entendidos como algumas palavras
menores da sagrada doutrina que os perfeitos deixam após si, na medida em que
exercitam a si mesmos nas maiores e as distribuem aos outros. As quais menores
Rute guardou de boa vontade, porque para a alma faminta as coisas mínimas e
também amargas parecem grandes e doces.

Booz disse então a
Rute:

“Não vás
respigar em outro campo, nem te afastes deste lugar, mas junta-te com as
minhas moças, e segue-as por onde tiverem segado”. Rute 2, 8

O outro campo, o
campo alheio, é todo livro dos hereges, no qual Booz dissuade Rute de colher
espigas, pois Cristo adverte a alma que se converteu a Ele que não receba as
más asserções dos hereges. A qual alma verdadeiramente se junta às suas moças e
as segue para onde tiverem segado quando, fielmente unida às almas santas, as
imita nas sagradas lições.

Rute, uma
estrangeira, colhe portanto espigas no campo de Booz quando a alma pecadora,
mas convertida, estuda atentamente a palavra de Deus.

 Prossegue a narrativa
declarando que Rute

 “Bateu, depois,
com uma vara e sacudiu as
espigas”. Rute 2,17

Rute bate e sacode
as espigas com uma vara na medida em que, por uma perspicaz meditação, naquilo
em que estuda das Escrituras, distingue corretamente o verdadeiro do falso e a
inteligência espiritual da letra. Colhidas e sacudidas as espigas, estas são
conduzidas até a casa (Rute 2,18), quando aquilo em que Rute lê e medita no
interior de sua santa conversação prepara o efeito da boa obra. A casa em que
vivemos, de fato, significa a nossa conversação. De onde que certo sábio nos
diz:

“Se não te
mantiveres firmemente no temor do Senhor, depressa a tua casa será arruinada”, Ecl. 27, 4

 isto é, será
arruinada a casa da tua boa conversação. Pode-se entender também que conduzir a
messe colhida e batida para dentro de casa significa que as coisas conhecidas e
comprovadas pelo estudo e pela meditação como sendo boas são colocadas no
interior da consciência pelo afeto e pelo efeito da virtude e da boa obra.

Feitas todas estas
coisas, vendo Noemi a grande graça que sua nora havia encontrado junto a Booz,
dá-lhe o conselho pelo qual poderia encontrar junto a este homem graça ainda
maior. Isto significa que todo bom pastor, quando adverte que a alma que a si
lhe foi confiada se robustece pela graça de Cristo, empenha-se cuidadosamente
para que possa conseguir junto a Ele ainda maior graça. É movida por estas
intenções que diz, portanto, Noemi a Rute:

 “Minha filha,
procurarei para ti descanso, e providenciarei para que fiques bem.

Este Booz, com cujas
moças estiveste junto no campo, é nosso parente
próximo, e esta noite padejará a cevada na sua eira. Lava-te, pois, e unge-te, toma os teus melhores vestidos e desce à eira.

Não te veja este homem até que tenha acabado
de comer e beber. Quando for dormir, observa o lugar em que dorme.

 Irás, levantar-lhe-ás a capa com que se cobre da parte dos pés, e ali te colocarás e deitarás. Ele mesmo te dirá o que deves fazer”. Rute 3, 1-4

Ora, sendo Noemi o
pastor da Igreja, Rute o seu súdito e Booz o Cristo, a parentela próxima é a
bondade. Esta proximidade de parentesco não é resultado da relação do sangue e
da carne, mas da afinidade da santidade. Por isto é que nos diz o Salvador:

“Todo aquele
que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão e
irmã e mãe”. Mat. 12, 50

O que também no-lo
diz o bem aventurado João:

“A todos os que
o receberam, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no seu nome, os quais não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus nasceram”. Jo. 1, 12-13

A noite em que Booz padejaria a
cevada é a vida presente, na medida em que é sob o véu dos mistérios e dos
sacramentos que nos damos conta da graça dos dons celestes. É noite também
porque entre nós um não pode enxergar a consciência do outro, e cada um ignora
o que o outro pensa de si. É noite, porque

“Vemos como por
um espelho e em enigma, não ainda face a face; caminhamos pela fé, não ainda a descoberto”. 1 Cor. 13, 12

Nesta noite Booz
padejará a cevada na sua eira porque Cristo não apenas purga diligentemente a
santa Igreja de seus perseguidores ou dos homens de má vontade, como também
purifica cada uma das almas fiéis de seus maus pensamentos e da inteligência
falsa e carnal das Sagradas Escrituras. Rute se lava para encontrar a Booz
(Rute 3,3) quando a alma fiel e obediente pelas suas lágrimas se purifica da
imundície da antiga culpa. É por isto que Jeremias nos aconselha, dizendo:

 “Derrama como
que uma torrente de lágrimas, dia e noite, não te dês descanso, nem repouse a pupila dos teus olhos”. Lam. 2, 18

Os unguentos de que
Rute se utilizou após lavar-se (Rute 3,3) são os diversos dons espirituais.
Assim como os ungüentos aliviam as feridas e as dores dos corpos, assim também
pelos dons sagrados as feridas ou as dores das almas são curadas e aliviadas.
Destes dons o Apóstolo assim nos fala:

 “A cada um é
dada a manifestação do espírito para utilidade; a um é dado pelo Espírito a linguagem da sabedoria a outro a linguagem
da ciência, a outro a fé, a outro o dom das curas, a outro o dom de operar milagres, a outro a profecia, a outro o discernimento dos espíritos, a outro a variedade das línguas, a outro a
interpretação das palavras”. 1 Cor. 12, 7-10

 Deles também Isaías
nos fala, dizendo: “E repousará
sobre Ele o Espírito do Senhor, Espírito de sabedoria e de entendimento, Espírito de conselho
e fortaleza, Espírito de ciência e de piedade, e será cheio do Espírito de temor do
Senhor”. Is. 11, 2-3

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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