Os mais belos sermões de Hugo de São Vítor – Parte 4

A sexta via de
Jerusalém é a abstinência, na qual de um lado encontra-se a parcimônia e, de
outro, a sobriedade. A parcimônia é contrária à glutonaria, e a sobriedade à
embriaguez. Nas Escrituras encontram-se muitos exemplos de jejuns e
abstinências, dos quais os principais são os jejuns de Moisés, Elias, e de
Nosso Senhor e Salvador. Resplandece nos ninivitas quão grande é o fruto do
jejum e da abstinência, os quais, por uma abstinência de três dias, aplacaram a
ira divina e no lugar da destruição com que haviam sido ameaçados, mereceram o perdão
(Jon. 3).

A sétima via da
santa cidade é a continência ou castidade. Esta de um lado tem a pureza do
coração, e de outro a pureza do corpo; ou também, de uma parte a pureza do
pensamento e de outra a pureza da ação. Resplandece nas viúvas e nas virgens
quão grande é o fruto e o bem desta virtude, da qual as viúvas possuem o
sexagésimo e as virgens o centésimo fruto.

Denominamos,
caríssimos, corretamente estas virtudes de vias ou, para sermos mais precisos,
de `plateas’ na língua latina, isto é, caminhos largos, adequados para a
habitação, próprios para a caminhada e a corrida espiritual, assim como também
para todo negócio espiritual, pois todo caminho que conduz à vida, ainda que
para os principiantes ou mesmo para os aproveitados pareça estreito e árduo,
para os adiantados e perfeitos é comprovadamente largo e plano. É por isto que
diz o Salmista:

“Corri pelo
caminho dos teus mandamentos, pois dilataste o meu coração”. Salmo 118, 32

 E também:

“De toda a
perfeição vi o fim; teu mandamento, porém, é imensamente amplo”.

Salmo 118, 96

 De fato, quem quer
que possua a perfeita caridade, a qual “lança fora o temor” (I Jo.
4,18), considera doce toda a tentação ou adversidade que lhe possa ocorrer , e
pode dizer ainda com o Apóstolo:

“Os sofrimentos
do tempo presente não têm proporção com a glória vindoura que se manifestará em nós”. Rom. 8, 18

 Eis o motivo pelo
qual sobre a caridade está escrito no Cântico dos Cânticos que

 “O amor é mais
forte do que a morte, o zelo do amor é tenaz como o inferno, suas lâmpadas são lâmpadas de fogo e de chamas.

As muitas águas não puderam extinguir a caridade, nem os rios terão força para a submergir. Ainda que o homem dê todas as riquezas de sua casa pelo amor, ele a desprezará como um nada”. Cant. 8, 6-7

Na cidade espiritual
há também uma torre fortíssima, da qual está escrito:

 “O nome do
Senhor é uma torre fortíssima, a ele se acolhe o justo, e encontra um refúgio elevado”. Prov. 18, 10

Sabei, caríssimos,
que quaisquer homens que defendam sua cidade não têm tanta confiança nos
cavalos, nas armas, nas portas, nos muros, ou também em suas forças quanto a
têm na torre de sua cidade. Ao fugirem e procurarem abrigo é a torre o seu
único refúgio e a sua única segurança. Assim também, para os fiéis que pelejam
contra os inimigos espirituais, a única esperança e a única segurança não
somente na adversidade como também na prosperidade é a invocação do nome
divino. De fato, não ignoram que

 “Aquele que
invocar o nome do Senhor será salvo”. Joel 2, 32

 Daqui procede
igualmente que a santa Igreja universal tenha em suas instituições invocar em
primeiro lugar o nome do Senhor ao iniciar as preces divinas, proclamando com
fé e confiança:

“Deus, vinde em
meu auxílio”. Salmo 69, 2

 Jerusalém espiritual
tem também duas portas, das quais a primeira e inferior é a fé católica. A
segunda e superior é a contemplação divina. Destas duas portas está escrito:

 “Entrará e
sairá, e encontrará pastagem”. Jo. 10, 9

 Na primeira porta
encontraremos a pastagem da graça, na segunda encontraremos a pastagem da
glória.

É possível
entender-se, ademais, de diversas passagens da Escritura, assim como de
declarações de outros escritores e viajantes, que a própria Jerusalém
terrestre, segundo a sua antiga localização, estava assentada sobre um declive.
Assim como esta, porém, também aquela cidade que é a vida espiritual está
assentada sobre um declive e possui seus degraus de uma porta a outra, degraus
pelos quais subimos das coisas inferiores às superiores, de modo que, subindo
por cada um destes nos afastamos das coisas terrenas e nos aproximamos das
celestes.

Os que querem viver
santamente, portanto, deverão primeiro entrar pela fé. Depois, pelo crescimento
da justiça, deverão subir até à contemplação das coisas celestes. O primeiro
degrau, portanto, está na primeira porta, ou melhor, esta mesma porta é o
primeiro degrau ou a primeira escada da subida. Elevados, assim, do que é
terreno, devemos em primeiro lugar por o pé na primeira escada, que é a fé. Em
segundo, devemos subir da fé à esperança. Em terceiro, subir da esperança à
caridade. Em quarto, subir da caridade ao exercício das demais virtudes,
principalmente ao do setenário das principais virtudes, as que nos são
descritas naquele lugar do Evangelho onde se diz:

 “Bem
aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

Bem aventurados os
mansos, porque possuirão a terra.

 Bem aventurados os
que choram, porque serão consolados.

 Bem aventurados os
que tem fome e sede de justiça, porque serão saciados.

 Bem aventurados os
misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

Bem aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus.

 Bem aventurados os
pacíficos, porque serão
chamados filhos de Deus”. Mt. 5, 1-9

Em quinto devemos
subir do setenário das principais virtudes ao senário das boas obras, aquele
que nos é descrito no lugar do Evangelho onde Cristo nos diz:

“Tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber, era peregrino, e me recolhestes; estava nú, e me vestistes, enfermo, e me visitastes; no cárcere, e me fostes visitar”. Mt. 25, 35-36

Em sexto devemos
subir do senário das boas obras ao ensino. A justiça e a idoneidade se comprova
no homem quando quem faz o bem também o ensina aos outros. Deste modo ele se
torna imitador do Salvador, do qual está escrito:

“Falei de todas
as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar”. Atos 1, 1

O ensino, porém,
realiza-se algumas vezes de dois modos, a saber, pelas palavras e pelos
milagres. Por isso é que dos primeiros e dos maiores pregadores está escrito:

“Eles, tendo
partido, pregaram por toda a parte, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a sua pregação com os milagres que a acompanhavam”. Mc. 16, 20

Em sétimo lugar
devemos subir do ensino à contemplação. Destas escadas ou destes degraus de
subida está escrito:

 “Para lá
subiram as tribos, as tribos do Senhor, testemunhas de Israel, para confessarem o nome do Senhor”. Salmo 121, 4

E também, em outro
lugar:

“Bem aventurado
o homem cujo auxílio vem de ti, as subidas dispôs em seu coração.  No vale das lágrimas, no lugar onde o Legislador o tiver colocado, Ele lhe dará a bênção.

Caminharão de virtude em virtude, e verão o Deus dos deuses em Sião”. Salmo 83, 6-8

Quem tiver subido
por estes degraus até à porta da contemplação, que está colocada na parte mais
alta e como que na saída da cidade, sairá ele próprio espiritualmente, e
sobressairá, para que de Jacó se transforme em Israel, de Lia em Raquel, de
Fenena em Ana, e de Marta em Maria, e aqueles que tiverem praticado as boas
obras possam transformar-se nos que contemplam a divindade. Por isto é que diz
o profeta Jeremias:

“É bom para o
homem ter levado o jugo desde a sua mocidade; sentar-se-á sozinho, pois se levantará sobre si mesmo”. Lam. 3, 27-8

 Por isto também é
que se encontra escrito no Cântico dos Cânticos:

“Saí, filhas de
Sião, e vêde o Rei Salomão, com o diadema com o qual sua mãe o coroou no dia de seu casamento, e na alegria de seu coração”. Cant. 3, 11

Daqui vem igualmente
que diga o Salmista:

 “Ali está o
jovem Benjamim, em grande elevação de mente”. Salmo 67, 28Apressemo-nos,
portanto, irmãos caríssimos, para que depois do trabalho da obra possamos sair
para o repouso e a liberdade da contemplação, para que possamos admirar, ainda
que de longe, o rei em seu esplendor e a nossa pátria. Subamos de virtude em
virtude conforme convém à salvação, para que pelo setenário da subida que
descrevemos, possamos chegar ao octonário das bem aventuranças.

E que para tanto se
digne vir em nosso auxílio Jesus Cristo, Nosso Senhor, que é, acima de todos, o
Deus bendito, pelos séculos dos séculos.

 Amén.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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