Os mais belos sermões de Hugo de São Vítor – Parte 1

 (1096 – 11 fev.
1141)

– traduzidos do
original latino da obra ‘Sermones Centum’

constante na
Patrologia Latina de Migne vol. 177 pgs.
899-1210 – Texto disponível
para Download no site de Introdução ao
Cristianismo

segundo a obra de Santo Tomás de
Aquino e Hugo de S. Vitor

http://www.cristianismo.org.br

http://www.terravista.pt/Nazare/1946/

http://www.accio.com.br/Nazare/1946/

Índice

Prólogo

Sermo 4

– Sobre a Natividade
da Virgem Maria.

Sermo 23

– Aos Sacerdotes
reunidos em Sínodo.

Sermo 39

– Sobre a Cidade
Santa de Jerusalém, segundo o sentido moral.

Sermo 56

– Sobre a Alma
Obediente, segundo a história do Livro de Rute.

Sermo 57

– Sobre os Prelados
e os Doutores da Igreja, segundo o mesmo

  Livro de Rute.Sermo 60

– Sobre todos os
Santos.

Sermo 61

– Sobre a Obra dos
Seis Dias.

Sermo 70

– Sobre o dia de
Pentecostes

Sermo 84

– Sobre a perfeição
e as alegrias da Igreja militante e triunfante,

  por ocasião da festa de Santo Agostinho.

Sermo 88

– Sobre o Mandamento
do Amor.

 Sermo 95

– Sobre a Mesa da
Proposição descrita em Êxodo, em louvor das

  Sagradas Escrituras.

Sermo 100

– Por ocasião da
festa da Santa Cruz.

Hugo de São Vitor

SERMONES CENTUM

PrólogoIrmãos caríssimos, a
Escritura nos testemunha que a palavra de Deus é

“lâmpada para
os nossos passos e luz para os nossos caminhos” Salmo 118, 105

Devemos, pois,
entregar-nos todos ao estudo das Sagradas Escrituras por todos os meios que nos
forem possíveis, pela leitura, pela meditação, pela escuta, pelo ensino e pela
escrita, e isto principalmente nós, que somos companheiros de claustro, que
renunciamos ao tumulto dos negócios e para cá viemos para atender apenas à
tranqüilidade da contemplação. De sua virtude a bem aventurada Maria, irmã de
Marta, nos oferece um exemplo muitíssimo evidente, pois dela, sentada aos pés
do Senhor com os ouvidos atentos, bem diversamente de sua irmã muito ocupada com
uma diversidade de afazeres, lemos que, em sua sede pelas palavras que lhe
dizia, o próprio Senhor foi testemunha de haver escolhido a melhor parte,
exemplo louvável e admirável de virtude que muitos desprezam. Entre estes
encontramos alguns que em outro tempo foram capazes de compreender a alegria
que emana das Escrituras por um entendimento que lhes havia sido dado do Céu;
no entanto, agora ouvimos terem caído em uma tal enormidade de vícios e
imundície de costumes que as suas almas desgostaram-se da Palavra de Deus a
ponto de abominar este alimento espiritual, aproximando-se assim das portas da
morte. Estes devem ser considerados hoje mais como estando entre os Egípcios do
que entre os Israelitas, e mais entre os cidadãos de Babilônia do que entre os de
Jerusalém. Vemos, porém, a outros que, pelo empenho de seu estudo, com o
auxílio da graça de Cristo, abandonaram uma vida de depravação e alcançaram
tanta bondade na virtude e tão grande honestidade nos costumes que em sua luz
podemos conhecer mais claramente ter sido realizado o que estava escrito na
Salmo:

“Enviou o
Senhor a sua Palavra, e os curou, e os livrou de sua ruína”. Salmo 106, 20

Que todos nós,
portanto, sejamos exortados ao estudo da Palavra de Deus. Sejam exortados também,
aqueles que a conhecem mais profundamente, ao seu ensino. Aqueles que a
conhecem menos sejam exortados à sua escuta, mas que em todos nós se verifique
o que havia sido profetizado por Isaías, quando disse

“Será varejada
a oliveira, e ficarão umas poucas azeitonas, e alguns rabiscos.

 Estes, porém, levantarão a sua voz, e cantarão louvores. Por isto, glorificai ao Senhor em sua doutrina”. Is. 24, 13-15

Em outra ocasião já
tive a oportunidade de reunir para vós alguns dos ensinamentos que florescem no
verdejante campo das divinas escrituras. Nos sermões que se seguem desejo agora
propor-vos algo através do que possais exercitar o vosso entendimento. Deveis,
porém, saber que não devemos entregar-nos em todo o nosso tempo apenas ao
estudo, pois, segundo Salomão,

“Todas as
coisas tem o seu tempo, e todas elas passam debaixo do céu segundo o termo que a cada uma foi
prescrito”.

 Ec. 3,1

Há, portanto, um
tempo para estudar, e há um tempo para meditar. Há um tempo para investigar a
verdade para que se enriqueça o entendimento, há um tempo para exercitar a
virtude para sanar os nossos afetos, e há também um tempo para praticar a boa
obra para que se auxilie o próximo. Há um tempo para orar e um tempo para
cantar, há um tempo para assistir ao ofício divino e um tempo para dedicarmos a
qualquer outra coisa necessária. De todas estas coisas, como uma abelha que
retira o seu mel de flores diversas, devemos colher para nós a doçura de uma
suavidade interior, para que possamos consumar, através de uma vida santa, o
favo de uma melíflua justiça.

SERMO IV

Sobre a Natividade
da Virgem Maria “Ave, Estrela
do Mar”

Irmãos caríssimos, o
mundo presente é um mar. À semelhança do mar, ele fede, incha, é falso e
instável. Fede pela luxúria, incha pelo orgulho, é instável pela curiosidade.
Faz-se necessário, pois, irmãos caríssimos, possuir um navio e as coisas que
pertencem ao navio se quisermos atravessar sem perigo um mar tão perigoso.
Importa que tenhamos um navio, um mastro, uma vela e duas traves entre as quais
se estende a vela, uma trave superior e uma trave inferior, assim como um
sinalizador ao alto pelo qual possamos avaliar a direção do vento. Devemos
possuir cordas, remos, leme, âncora e a comida que nos for necessária. Tenhamos
também uma rede, com a qual possamos pescar algum peixe. Vejamos, porém, o que
todas estas coisas significam.

O navio significa a
fé, que em Abraão teve início como em sua primeira tábua. Com Isaac e Jacó o
navio aumentou consideravelmente. Depois deles o navio passou a crescer com a
propagação das dez tribos. Quanto maior o número dos que criam, tanto mais se
dilatava o navio da fé. Mais ainda se dilatou em seguida, após a passagem do
Mar Vermelho, recebendo os filhos de Israel a Lei de Deus e multiplicando-se na
terra prometida. Vindo depois Cristo e padecendo pelo gênero humano, ouviu-se
em toda a terra o som da pregação apostólica, e este navio muito se dilatou com
a multidão dos povos que nele entravam. No tempo do Anti Cristo, esfriando-se a
caridade de muitos, excluir-se-ão os falsos fiéis e o navio será acabado na sua
parte superior e mais estreita. E assim como em Adão foi colocada na proa a
primeira tábua da fé, assim o último justo será na popa a sua última tábua.

Certamente todos
aqueles que, desde o início, atravessaram proveitosamente o mar do tempo
presente, todos aqueles que escaparam de seus perigos, todos os que alcançaram
o porto da salvação, todos eles navegaram no navio da fé, e foi por ele que
realizaram a travessia.

Pela fé Abel
ofereceu a Deus uma hóstia mais agradável do que Caim, pela qual obteve o
testemunho de sua justiça e pela qual, já falecido, ainda falava. Pela fé Henoc
agradou a Deus, e foi transladado. Pela fé Noé construíu uma arca para a
salvação de sua casa. Pela fé, ao ser chamado, Abraão obedeceu dirigir-se ao
lugar que lhe haveria de ser dado. Pela fé Sara, a estéril, recebeu a
capacidade de conceber. Pela fé Isaac abençoou cada um de seus filhos. Pela fé
José, ao morrer, lembrou-se do retorno dos filhos de Israel à terra prometido,
e lhes ordenou para lá transportarem os seus ossos. Pela fé Moisés foi
escondido ao nascer. Pela fé negou ser filho da filha do Faraó. Pela fé
celebrou a Páscoa. Pela fé os filhos de Israel atravessaram o Mar Vermelho. Pela
fé se derrubaram os muros de Jericó. E que mais ainda direi? O dia não será
suficiente para falar dos santos da antiguidade que pela fé venceram reinos,
operaram a justiça, alcançaram as promessas. Destes alguns fecharam as bocas
dos leões, como Daniel. Outros extingüiram o ímpeto do fogo, como os três
jovens; outros convalesceram de sua enfermidade, como Jó e Ezequias;
tornaram-se fortes na guerra, como Josué e Judas Macabeu; por meio de Elias e
Eliseu algumas mulheres receberam de volta seus falecidos que ressuscitaram.
Outros foram cortados, não aceitando serem livrados da morte temporal em troca
da transgressão da Lei, como os sete irmãos cujo martírio lemos no Segundo
Livro dos Macabeus. Outros foram apedrejados como Jeremias no Egito e Ezequiel
na Babilônia; foram cortados, como Isaías; mortos pela espada, como Urias e
Josias, ou andaram errantes, como Elias e outros eremitas (Heb. 11, 4-38). E
todos estes, e muitos outros, atravessaram pela fé os perigos do mundo
presente, e foram encontrados provados pelo testemunho da fé.

As tábuas deste
navio são as sentenças das Sagradas Escrituras, e para sua fabricação algumas
destas tábuas nos são trazidas pelo Velho Testamento e outras pelo Novo. Os
pregos, pelos quais se unem estas tábuas, isto é, pelos quais se unem estas
sentenças, são os escritos dos santos, pelos quais são colocadas em
concordância as coisas contidas em ambos os testamentos. Estas tábuas são
cortadas pelo estudo e aplainadas pela meditação.

O mastro, que se
dirige para o alto, significa a esperança, pela qual nos erguemos à busca e ao
conhecimento das coisas celestes, conforme está escrito:

“Buscai as
coisas do alto, não vos interesseis pelas terrenas, pensai nas coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus
Pai”. Col. 3, 1-3

A vela é a caridade,
que se estende para a frente, para a direita e para a esquerda. Estende-se para
a frente pelo desejo das coisas futuras; para a direita pelo amor dos amigos,
para a esquerda pelo amor dos inimigos. As duas traves superior e inferior significam
a rezão e a sensualidade; a superior é a razão, e a inferior é a sensualidade.
A caridade deve firmar-se superiormente pela razão, na qual deve permanecer
imovelmente presa; inferiormente, porém, deve ficar presa mas movendo-se, pois
por ela deve exercitar-se na boa obra. É assim que é feito no navio material,
porque a trave superior não se move, mas sim a trave inferior.

O sinalizador
superior do vento significa o discernimento dos espíritos. Para isto o
sinalizador, ou o que quer que o substitua, é colocado sobre o mastro, para que
através dele se distinga o vento ou a direção de onde ele sopra. Deste
sinalizador, isto é, do discernimento dos espíritos, foi escrito:

“Examinai os
espíritos, para ver se são de Deus”. I Jo. 4, 1

E também: “A outro é dado
o discernimento dos espíritos”. I Cor 12, 10

As cordas são as
virtudes, a humildade, a paciência, a compaixão, a modéstia, a castidade, a
continência, a constância, a mansidão, a bondade, a prudência, a fortaleza, a
justiça, a temperança. Estas cordas, isto é, as virtudes, devem pelo seu
exercício ser sempre estendidas para que por elas possa firmar-se o mastro da
nossa esperança. De fato, não há mastro da esperança que possa manter-se firme
se estiver ausente o exercício das virtudes.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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