Os mais belos sermões de Hugo de São Vítor – Final

E que para tanto se
digne vir em nosso auxílio Jesus Cristo, nosso Senhor, que é Deus bendito,
pelos séculos dos séculos.

Amén.

SERMO XCV

Sobre a Mesa da
Proposição descrita em Êxodo, em louvor das
Sagradas Escrituras.

Lemos em Êxodo, a
respeito da mesa da proposição, ter dito o Senhor a Moisés:

“Farás também
uma mesa de madeira de cetim, que tenha dois
côvados de comprimento, um côvado de largura
e côvado e meio de altura. Cobri-la-ás de ouro
puríssimo, far-lhe-ás um lábio
de ouro em roda, e (porás) sobre o
mesmo lábio uma coroa entalhada, de quatro dedos de
altura; e, sobre esta, uma outra coroa
aureolada. Farás também quatro
argolas de ouro, e as porás nos
quatro cantos da mesma mesa, uma em cada pé. As argolas de ouro
estarão da parte de baixo da
coroa para se meterem por
ela varais, a fim da mesa poder
ser transportada.

Farás varais de
madeira de cetim, e os cobrirás de
ouro; servirão para
transportar a mesa. Prepararás também
acetábulos, vasos preciosos,
turíbulos e taças de ouro
puríssimo, em que se deverão
oferecer as libações. Porás sempre sobre a
mesa os pães da proposição na minha presença”. Ex. 25, 23-30

Que é mesa é esta,
irmãos caríssimos, se não a Sagrada Escritura? Pois quantas são as vezes em que
ela nos exorta a bem viver, tantas são as vezes em que ela nos oferece o pão da
vida.

Lemos que esta mesa
foi feita de madeira de cetim, pois, assim como a verdade da Sagrada Escritura,
não deveria corromper-se pelo envelhecimento. À semelhança desta mesa, as
Escrituras possuem também dois côvados de comprimento, pois nos ensinam as duas
partes da fé, pelas quais cremos no Criador e no Redentor. Possuem igualmente
um côvado e meio de altura, pois nos ensinam qual é a altura da esperança e o
início da contemplação. Possuem, finalmente, um côvado de largura, quando nos
ensinam qual é a amplitude da caridade. Assim as Sagradas Escrituras, tal como
a mesa, possuem comprimento, altura e largura, na medida em que nos ensinam
perfeitamente a fé, a esperança com o início da contemplação, e a caridade.

Esta mesa espiritual
é toda coberta de ouro, pois ela resplandece não apenas pelos seus milagres,
mas também pela caridade da sabedoria celeste. Seu lábio são as bocas dos
doutores, que a circundam em toda a roda porque nada,em lugar algum, foi
deixado pelos santos doutores sem correção. Pela autoridade que emana das
Sagradas Escrituras, repreendendo de todos os lados aos maus pelo mal, e
ensinando aos bons o melhor, são, efetivamente, os santos doutores, como o
lábio ao redor desta mesa.

As duas coroas que
se seguem, das quais uma é dita entalhada e a outra é dita aureolada,
significam os dois bens do homem justo, o primeiro dos quais está neste mundo e
o outro no céu. A primeira destas coroas, de fato, é a justiça, e a segunda é a
recompensa eterna; a primeira é o mérito e a segunda é o prêmio; a primeira é a
boa consciência e a segunda é a glória que se lhe há de seguir. E ambos estes
bens comparam-se corretamente a uma coroa, seja porque são perfeitos, seja
porque efetivamente nos conferem a coroa.

A primeira coroa foi
preceituada entalhada, pois o efeito da boa obra no tempo presente é múltiplo e
variado, e possuindo quatro dedos de altura, porque a justiça dos santos,
operando pela graça do Espírito Santo, ergue-se pelo exercício das quatro
virtudes principais. Nos dedos estão figurados os dons do Espírito Santo e, no
número quaternário, as quatro virtudes da prudência, fortaleza, justiça e
temperança. Unida ao lábio da mesa, esta coroa nos mostra que a justiça se
consuma segundo as exortações dos santos doutores.

Sobre a primeira
coroa, porém, havia uma outra aureolada. É assim também que a glória não apenas
segue, como também excede a justiça. Foi preceituada aureolada, pois pelo ouro
significa-se o fulgor da contemplação. Note-se que ela nos é descrita não como
sendo de ouro, mas aureolada; as Escrituras nos insinuam, por meio deste
diminutivo, o quanto é pequeno, diante da plenitude do bem que se lhe há de
seguir, tudo o que agora pode por nós ser apreendido, mesmo pela contemplação.
As Escrituras, de fato, nos narram Isaías ter visto o Senhor sentado sobre um
alto e elevado trono. Desta visão que teve do Senhor o profeta nos diz que

“as coisas que
estavam abaixo dEle preenchiam todo o Templo”. Is. 6,1

 Ora, se as coisas
que estavam abaixo dEle preenchiam todo o Templo, quem poderá considerar quais
e quantas são, e o que são as coisas que estão nEle? Eis, pois, o motivo pelo
qual daquela recompensa eterna que nos é apresentada como uma coroa superior e
aureolada encontramos também escrito:

“Dai, e
dar-se-vos-á; uma medida boa, cheia,

 recalcada e acogulada vos será lançada no
seio”. Luc. 6,38

O princípio desta
mesa, ou desta coroa aureolada, pode ser discernido e apreendido por alguns já
no tempo desta vida presente pela contemplação; completar-se-á, contudo, na
vida futura, quando o próprio Deus, que é a recompensa e a coroa dos justos,
for visto não como por um espelho ou em enigmas, mas face a face.

Em primeiro lugar,
pois, coloquemos a mesa; depois o seu lábio; em terceiro, a coroa entalhada; em
quarto, a coroa aureolada. A mesa é a Escritura, o lábio são as exortações dos
doutores, a coroa entalhada a justiça dos santos, a coroa aureolada a
retribuição eterna.

As quatro argolas
são os quatro livros dos Evangelhos, que são chamados com propriedade de
argolas, pois, sendo circulares, significam o que é perfeito. Os Evangelhos, de
fato, nos trazem a perfeita doutrina da fé e das obras, do mérito e do prêmio.
Colocam-se nos quatro cantos da mesa, um em cada pé, na medida em que, pela sua
autoridade e pela sua perfeição fortificam os quatro sentidos das Escrituras e
as tornam aptas para que, em seus quatro sentidos, sejam levadas pela pregação
do Evangelho às quatro partes do mundo. Esta mesa, de fato, possui quatro pés
porque as palavras do oráculo celeste podem ser entendidas em seu sentido
histórico, alegórico, moral ou anagógico.

A história ocorre
quando, através do sentido manifesto das palavras usadas, nos é narrado
literalmente como algo sucedeu em seus fatos ou dizeres. É deste modo que nos é
narrado como o povo que saiu do Egito salvou-se pelo sangue do cordeiro, e como
um tabernáculo foi erguido no deserto.

A alegoria ocorre
quando por palavras ou por coisas são significados os mistérios da presença de
Cristo e da sacralidade da Igreja. A profecia de Isaías, no lugar onde se lê:

“Sairá uma vara
do tronco de Jessé, e uma flor brotará de sua raiz”, Is. 11,1

é uma alegoria que
se utiliza de palavras. Significa o mesmo que dizer que da estirpe de Davi
nascerá a Virgem Maria, e que de sua estirpe nascerá o Cristo. No povo de
Israel salvado do Egito pelo sangue do cordeiro encontramos uma alegoria que se
utiliza de coisas; significa a Igreja, libertada da condenação do demônio pela
paixão de Cristo.

O sentido moral se
realiza quando, por palavras manifestas ou de modo figurativo, há um discurso
que quer nos corrigir ou instituir nos costumes. Quando o Apóstolo João nos
diz:

“Filhinhos, não
amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade”, I Jo 3, 18

temos o sentido
moral manifesto. Quando lemos no Eclesiastes:

“Os teus
vestidos sejam em todo o tempo brancos, e não falte o óleo que unja a tua
cabeça”, Ecl. 9,8

estamos diante das
Escrituras utilizando-se figurativamente das palavras para nos proporem o
discurso moral.

A anagogia, isto é,
algo que conduz ao que é elevado, é um discurso que, seja com palavras
manifestas, seja figurativamente, versa sobre a recompensa eterna e a vida do
céu. “Bem aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt.
5,8): eis a anagogia utilizando-se de palavras manifestas. “Bem
aventurados aqueles que lavam as suas vestes no sangue do Cordeiro, para terem
parte na árvore da vida e entrarem pelas portas da cidade” (Apoc. 22,14):
temos aqui outra anagogia; esta se utiliza, porém, figurativamente das palavras.

Colocam-se,
portanto, quatro argolas nos quatro pés da mesa para que, introduzidos nelas os
varais, a mesa possa ser carregada, pois os quatro sentidos da Escritura se
unem aos livros dos Evangelhos para que, pela sua autoridade, a própria
Escritura possa ser ensinada pelos doutores em toda a parte. Estas argolas são
de ouro porque os livros dos Evangelhos brilham pela sabedoria de Deus, que é
Cristo. As argolas também situam-se abaixo das coroas, tanto da primeira como
da segunda, porque pela ordem primeiro vem a doutrina do Evangelho; depois, à
doutrina seguir-se-á a justiça, e à justiça seguir-se-á a glória. Os varais,
pelos quais a mesa é carregada, são aqueles que ensinam, pelos quais são
anunciadas as Escrituras. São de madeira de cetim, pois é justo que aqueles que
devem ensinar aos demais a santidade, vivam eles próprios sem a corrupção dos
vícios. Refulgem pela sabedoria divina; são também por isto recobertos de ouro.

 

“Prepararás
também acetábulos, vasos preciosos, turíbulos e taças de ouro puríssimo”:
estes vários recipientes em que se deveriam oferecer as libações são as várias
distinções da palavra de acordo com a capacidade dos ouvintes. Pois nem tudo
convém a todos. A palavra dirigida ao sábio deve sê-lo de modo diverso daquela
que é dirigida ao ignorante. Assim também, é de modo diverso que devem ser
ensinados o rico e o pobre, o são e o enfermo, o ancião e o moço, o homem e a
mulher, o solteiro e o casado, o prelado e o súdito. Os acetábulos são os
ensinamentos mordazes, os vasos preciosos são a doutrina fecunda e abundante,
os turíbulos são a oração devota, as taças de ouro puríssimo são a elevada
ciência. Todos estes recipientes pertencem à mesa do tabernáculo para o
oferecimento das libações, pois toda esta diversidade de coisas, ensinadas
segundo a diversidade dos ouvintes, são encontradas todas nas Sagradas
Escrituras e estimulam o coração dos que as ouvem a oferecerem a Deus o desejo
das boas obras.

 

“E porás sobre
a mesa os pães da proposição na minha presença”: os pães da proposição são
as palavras da sabedoria celeste, corretamente chamadas de pães da proposição,
porque a palavra da salvação deve permanecer sempre manifesta para todos os
fiéis, e na Igreja jamais deverá faltar a palavra de auxílio. Através dos
pregadores que vivem na Sua presença, o Senhor quis que a Igreja estivesse
perpetuamente repleta destes bens, preparados para todos aqueles que têm fome e
sede de justiça, até o fim dos tempos.

Esta mesa, irmãos
caríssimos, é repleta de todas as riquezas, servida de todas as delícias. Se
quereis ,pães e peixes, tomai nela “cinco pães e dois peixes” (Mt.
14,17), ou certamente “sete pães e alguns peixinhos” (Mt 15, 34). Com
aqueles saciaram-se cinco mil homens, e com os seus restos encheram-se doze
cestos; com estes saciaram-se quatro mil homens, e com seus restos encheram-se
sete alcofas. Tomai, portanto, estes e aqueles pães, e também estes peixes,
ainda que poucos, e sabei que o alimento abundará e sobejará. Se quiserdes
carne, tomai “um novilho gordo” (Luc. 15, 23), “touros e animais
cevados” abatidos para vós (Mt. 22,4). Se quiserdes o sabor, tomai o
“grão de mostarda, que é na verdade a menor de todas as sementes, mas
lançado à terra cresce e se torna maior do que todas as hortaliças” (Mt.
13, 32). Se quiserdes manteiga e mel, comei ambas com o Emmanuel, para que
saibais com ele “rejeitar o mal e escolher o bem” (Is. 7, 15). Se
quiserdes frutos de gêneros diversos, tomai-os todos, “de toda a
qualidade, os novos e os velhos”, que a esposa guardou para o esposo
(Cant. 7, 13), e comei as nozes do “jardim das nogueiras” (Cant. 6,
10). Se quiserdes bebida, tomai o vinho escolhido, do qual foi escrito:

“Tu, porém,
tiveste guardado o bom vinho até
agora” Jo. 2, 10.

 Se quiserdes ainda
mais bebida, “comprai sem
dinheiro e sem nenhuma troca, vinho e leite”, Is. 55,1

e bebei com a esposa
“vosso vinho com o vosso leite” (Cant. 5, 1). Se desejais saborear o
néctar, tomai as consolações de Deus, pois

 “A tua
misericórdia, Senhor, foi o meu auxílio. Segundo a multidão das minhas dores em meu coração, tuas consolações alegraram a minha alma”. Salmo 93, 19

Se quiserdes aromas,
tomai “os cipres com
o nardo, o nardo e o açafrão, a cana aromática e o cinamomo, com todas as árvores do Líbano, a mirra e o aloés, com todos os primeiros unguentos”. Cant. 4, 13-14

E sendo perigoso, e
torpe também, que estando próximos de tal e tamanha mesa. definhemos
moribundos, vítimas da fome, e encontremos a morte por inanição, a própria
Escritura nos convida, dizendo:

“Comei, amigos,
e bebei, e inebriai-vos, caríssimos”, Cant. 5, 1

isto é, com todas as
coisas que agora, pela graça, são servidas para nós nesta mesa, para que
depois, pela glória, as possamos possuir ainda mais perfeitamente.

E que, para tanto,
digne-se vir em nosso auxílio Jesus Cristo, Nosso Senhor.

Amén.

SERMO C

Por ocasião da festa da Santa Cruz.

“Tendo Jesus
tomado o vinagre, disse: ‘Tudo está
consumado’. E, inclinando a
cabeça, rendeu o
espírito” Jo. 19, 30

As palavras que
propusemos, caríssimos, são curtas mas excelentíssimas, pois são as que nos
descrevem a consumação da nossa redenção. Na morte de Cristo consumaram-se
todos os enigmas das figuras antigas que a Ele se referiam, e todos os
vaticínios dos profetas que sobre Ele profetizaram. De onde que o próprio
Senhor disse aos apóstolos:

“Eis que vamos
para Jerusalém, e será cumprido  tudo o que está escrito pelos profetas relativo ao Filho do homem”. Luc. 18, 31

“Tudo está
consumado”: na morte de Cristo, segundo a significação alegórica,
consumou-se Deus ter feito Eva do lado de Adão que dormia (Gen. 2,21-22), pois
isto significava que do sangue que fluía do lado de Cristo morto seria redimida
a santa Igreja. Consumou-se Caim pela inveja ter matado a Abel seu irmão (Gen.
4,3-8), pois isto foi sinal de que o povo judeu, pela sua inveja, teria
entregue Cristo para ser crucificado por Pilatos. Consumou-se, segundo a
mística significação, Abraão ter colocado Isaac seu filho sobre um altar
coberto de lenha para oferecê-lo a Deus (Gen. 22,1-4), pois isto figurava que o
gênero humano ofereceria a Cristo, nascido de si segundo a carne, na cruz.
Consumou-se, segundo a mesma significação, Deus ter libertado os filhos de
Israel da servidão do Egito na morte do Cordeiro Pascal (Ex. 12,1-13), pois isto
designava que os israelitas espirituais seriam libertados do jugo dos demônios
pela morte de Cristo. Consumou-se Moisés ter adoçado as águas amargas com sua
vara (Ex. 15,22-25) e feito jorrar as águas da pedra (Ex. 17,1-7), pois isto
significava que Cristo, pela amargura de sua morte, converteria para nós a
austeridade da Lei em doçura, e que de si, verdadeira pedra, faria jorrar para
nós as águas espirituais. Consumou-se o bode expiatório ter levado para o
deserto os pecados do povo (Lev. 16,20-22), pois isto era símbolo de Cristo que
tomaria os nossos pecados. Consumou-se a mulher de Sarepta ter juntado duas
madeiras (I Reis 17,12), pois isto expressava que a gentilidade haveria depois
de receber a fé na paixão de Cristo. Consumou-se o anjo Rafael ter ligado, nas
núpcias de Tobias, o demônio pelo fel retirado do peixe (Tobias 8,3), pois isto
significava que Cristo, tendo bebido fel e amargurado pela morte, venceria o
demônio. Consumaram-se os vaticínios dos profetas. Consumou-se o que Moisés
disse:

 “É maldito de
Deus aquele que está pendente do lenho”. Deut. 21, 23

Por isto é que o
Apóstolo diz que

“Cristo
remiu-nos da Lei,  feito maldição por nós, porque está escrito:

 ‘Maldito todo aquele que está pendurado no lenho'”. Gal. 3, 13

 Consumou-se o que
disse Davi:

“Deram-me fel
por comida, e em minha sede deram-me vinagre para beber”. Salmo 68, 22

Consumou-se também o
vaticínio de Isaías, quando disse: “Eu o feri por causa da maldade de meu povo”; Is. 53, 8 e também:

“Foi oferecido
porque Ele mesmo o quis”. Is. 53, 7

Muitos enigmas de
figuras se consumaram, caríssimos, e consumaram-se muitas predições de profetas
que figuravam e anunciavam a morte de Cristo. Quem, porém, poderá enumerar a
todos, e para que isto aproveitaria? Tudo está consumado. Tudo o que antes da
morte de Cristo convinha fazer consumou-se na morte de Cristo.

A morte de Cristo é
para nós, portanto, a perfeita restauração da vida, é para nós a reconciliação
divina. A morte de Cristo é a remoção da culpa, a morte de Cristo é a
atribuição da justiça, a morte de Cristo é para nós o fechamento do inferno, a
morte de Cristo é a abertura do céu, a morte de Cristo é a destruição da pena,
a morte de Cristo é a recuperação da glória. Portanto, “tudo está
consumado”.

 Está consumado tudo
o que pertence à extensão do mal; está consumado tudo o que pertence à
consumação do bem. Está consumado o que foi predito pelo justo Simeão (Luc.
2,25-35). Está consumado o que profetizou Caifás, ainda que fosse réprobo (Jo.
11,49-52). Está consumado o que o detestável Judas prometeu aos fariseus (Mc.
14,10-11). Está consumado o que Pilatos, injusto juiz, injustamente julgou que
deveria ser feito (Luc. 23,24). Está consumado o que o infeliz judeu escolheu
para a sua própria perda (Mt. 27,25). Está consumado o que Deus proveu para
nossa utilidade. Está consumada a Lei. Está consumada a profecia. Está
consumado o anúncio angélico. Está consumado o que os justos esperaram no
mundo. Está consumado o que depois aguardaram nos infernos. Está consumado que,
santamente vivendo, mereceram possuir o céu. Portanto, “tudo está
consumado”.

Está consumada em
nós a justiça pela graça, e pela justiça será consumada a glória. A justiça
está consumada no efeito, a glória está consumada na causa. Todos, de fato, os
que verdadeiramente crêem em Cristo já são justos, bem aventurados na causa,
bem aventuráveis no efeito. O apóstolo Paulo nos fala da causa desta bem
aventurança quando assim se refere a Cristo:

“Consumado, tornou-se para todos os que lhe obedecem causa de salvação
eterna”. Heb. 5, 9

“E se o
Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dos mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou a Jesus Cristo dos
mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio de seu Espírito, que habita em
vós”. Rom. 8, 11

Corretamente diz,
portanto, o Evangelho que “Tendo Jesus
tomado o vinagre, disse: ‘Tudo está
consumado’. E, inclinando a
cabeça, rendeu o
espírito”.

O gosto do vinagre
significa o amargor da morte, a inclinação da cabeça a dignidade da humildade,
enquanto que a rendição do espírito é a consumação da redenção humana. Na morte
de Cristo, pois, consumaram-se todas as coisas, na medida em que no presente
consuma-se a justiça e no futuro consumar-se-á a glória. Quando?

“Quando este
corruptível se revestir de incorruptibilidade, e quando este mortal se revestir de
imortalidade”; I Cor. 15, 53-4

Quando, de fato, “Aparecer
Cristo, que é a vossa vida, então também vós
aparecereis com Ele na glória”. Col. 3, 4

Porém, caríssimos,
não podemos descrever suficientemente, nem louvar dignamente a paixão de Cristo
e a redenção do gênero humano. Voltemos, por isso, para nós mesmos o nosso
discurso e examinemos se, no que comporta a nossa pequena medida, seguimos os
vestígios de Cristo tolerando o mal. E já que hoje celebramos a solenidade da
santa cruz e fazemos lembrança da Paixão do Senhor, parece justo que nos
exortemos mutuamente a respeito da paciência:

“Se, de fato,
sofremos com Ele, reinaremos com Ele e se participarmos
de suas dores  estaremos também juntos nas suas
consolações” Rom. 8, 17 (II Tim. 2, 11)

O que a esposa,
considerando atentamente, diz:

“O meu amado é
para mim como um ramalhete de mirra, colocado sobre o meu peito”. Cant. 1, 12

Procuremos,
portanto, entrar pela porta estreita, subir pelo caminho árduo, porque não há
em outro lugar entrada para a justiça, nem subida para a glória.

Caríssimos, estando
já consumado para nós neste livro este centésimo sermão, consideremos também
com ele consumado este mesmo livro. Procuremos consumar, portanto, as coisas
que estão escritas neste sermão e neste livro, crendo, esperando e amando, para
que mereçamos chegar à glória suprema.

E que para tanto se
digne vir em nosso auxílio Jesus Cristo, nosso Senhor, que é Deus bendito, pelo
séculos dos séculos.

Amén.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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