Os cristãos e a data da Páscoa – EB

D. Estevão Bettencourt . osb – Mosteiro de S.Bento – Rio de Janeiro

Em síntese: A maior festa
dos cristãos, que é a Páscoa, vem atualmente celebrada em duas datas
diferentes. Isto tem suscitado vivo desejo, de todas as partes interessadas, de
sanar a divergência. Para tanto, reuniu-se grande assembléia de cristãos em
Alep (Síria), de 5 a
10 de março [de 1997], dispostos a pôr termo à diferença. O ano 2001 é
considerado o ano ideal para se fixar uma data comum, pois naquele ano a data
de Páscoa, calculada segundo os dois procedimentos em vigor, será a mesma para
todos: 15 de abril. Os participantes do Encontro enviaram a todas as
comunidades eclesiais do mundo uma tabela propondo a unificação da data de
Páscoa e indicando a possível data da grande festa para os vinte e cinco
primeiros anos do século XXI, caso a idéia seja aceita.

A maior festa cristã, que é
a Páscoa, vem atualmente celebrada em duas datas diferentes. Em 1997, por
exemplo, os católicos e a maioria dos protestantes a celebraram no dia 30 de
março, ao passo que os ortodoxos orientais e alguns protestantes a celebraram
quase um mês mais tarde, ou seja, a 27 de abril. Esta diferença decorre de um
desacordo no tocante à reforma do calendário efetuada pelo Papa Gregório XIII
no século XVI.

Vejamos, pois, os
antecedentes do problema e o atual modo de o colocar.

CALENDÁRIO: O QUE É?

Calendário provém do termo
latino Calendae e da raiz grega kal, a qual significa chamar (donde kalein =
chamar, em grego; calare, em latim). Em latim, o uso da palavra era restrito à
linguagem sacral, servindo para designar a convocação do povo para o
Campidoglio, feita por um dos sacerdotes quando a Lua entrava em sua fase
crescente, convocação que visava a comunicar ao público os dias das nonas (isto
é, do quarto crescente) e dos idos (da Lua cheia). Calendae, conseqüentemente,
passou a significar o primeiro dia do mês (dia da convocação); por extensão, o
mesmo termo designava mais tarde o mês inteiro. Calendarium vinha a ser, entre
os romanos, o registro no qual os banqueiros anotavam os juros no primeiro dia
de cada mês. Por fim, calendarium tomou o significado atual, designando o
sistema de medir o tempo, sistema nitidamente relacionado com os fenômenos
astronômicos. Principalmente a religião (em suas diversas fases e modalidades)
se interessou pelo calendário, pois todos os povos tiveram sempre consciência
de que o tempo é algo de sagrado, que convém observar fielmente.

 2. O CALENDÁRIO GREGORIANO

O Calendário Gregoriano
supõe o calendário chamado “juliano”. Este, por sua vez, foi
ocasionado por certo impasse ocorrente na contagem do tempo em Roma.

Nos primeiros tempos de
Roma, os meses eram de 29 ou 30 dias, contando-se, a partir de Numa Pompílio
(715-672 a.C.),
doze meses num ano. Mais tarde, Roma adotou o ano civil de 365 dias, com seus
meses de 28, 30 e 31 dias, ficando apenas uma diferença de aproximadamente 6
horas entre ano civil e o ano trópico.

Sob Júlio César, a diferença
acumulada entre um e outro destes já era de 85 dias. O Imperador resolveu então
remediar a situação, decretando que o ano de 46 a.C. (708 de Roma) teria 85
dias a mais (donde se originou o chamado annus confusionis, ano de confusão). A
seguir, conforme o parecer do astrônomo alexandrino Sosígeno, resolveu que de
então por diante se atribuiriam ao ano civil 365 dias e 6 horas (quando na
verdade o ano trópico consta de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos);
pelo que, de quatro em quatro anos se acrescentaria ao ano um dia complementar
chamado dia bissextil. Este nome se deve ao fato de que a inserção se fazia
entre 23 e 24 de fevereiro; ora, o dia 24 de fevereiro sendo o Sextus calendas
martii, o dia intercalado ou suplementar, passou a ser bissextus calendas
martii, e o ano correspondente tomou o nome de ano bissextil.

O Calendário juliano assim
concebido era sistema assaz esmerado. Contudo, a diferença de menos de 12
minutos que nele distanciava o ano civil do ano trópico, havia de provocar a
diferença de um dia em 128 anos. No tempo de César, após a reforma, o equinóxio
da primavera caía no dia 24 de março; 128 anos mais tarde, caía no dia 23 de
março; 256 anos depois, no dia 22 do mesmo; por ocasião do concílio de Nicéia
(325) estipulou-se o dia 21 de março. Em fins do séc. XVI o equinóxio da primavera
já cairia perto do dia 11 de março; caso o processo continuasse, as estações do
ano viriam a se deslocar por completo dos seus meses habituais. Sendo assim,
bispos e sábios medievais, conscientes de tais falhas, pediam reforma do
calendário vigente.

Em 1232, o monge escocês
João de Holywood, em sua obra “De anni ratione”, sugeria mudança no
sistema de intercalação do dia bissextil. Rogério Bacon (?1294), no seu
“Opus maius ad Clementem IV”, propunha ao Pontífice uma reforma do calendário.
O Papa Clemente VI em 1345 encarregou dois matemáticos franceses de a estudar.
Os Concílios de Constança (1414) e Basiléia (1436) também trataram do assunto.
Sixto IV (?1484) chamou a Roma, a fim de estudar a reforma, o famoso astrônomo
Regiomontano (João Müller de Königsberg), o qual, porém, morreu antes de
terminar o seu projeto. O Papa Leão X, no Concílio V de Latrão (1513-1517), deu
novo impulso à reforma do calendário. Por fim, o Concílio de Trento pediu-a
expressamente ao Papa.

Gregório XIII (1572-85),
assim solicitado, abriu um concurso entre os astrônomos, valendo-se da
colaboração dos mais famosos matemáticos da época (os irmãos Aloísio e Antônio
Lílio, o dominicano Inácio Danti, o jesuíta alemão Cristóvão Clau e o espanhol
Pedro Chaón); após deliberar longamente sobre as fórmulas apresentadas, o
Pontífice houve por bem dar preferência à de Aloísio e Antônio Lílio; mandou
então em 1577 cópias do projeto a todos os príncipes e Estados católicos.
Apoiado por estes, publicou finalmente, cinco anos mais tarde, aos 24 de
fevereiro de 1582 (pela bula “Inter gravissimas”), o novo calendário
(ou calendário “novo estilo”, em oposição ao calendário “velho
estilo”).

A primeira norma da reforma,
visando a extinguir a diferença entre ano civil e ano trópico, mandava que a quinta-feira
4 de outubro de 1582 fosse imediatamente seguida da sexta-feira 15 de outubro
do mesmo ano (tal medida não provocaria hiato entre os dias da semana); assim,
doravante o dia 21 de março coincidiria, como supunha o concílio de Nicéia I
(325), com o equinóxio da primavera.

Era preciso, porém, evitar a
repetição do desajuste… Já que este provinha do fato de que o ano civil era
desde Júlio César (e continuava sendo) considerado 1/128 de dia (11 minutos e
12 segundos) mais longo do que o ano trópico (isto é, mais ou menos três dias
em 400 anos), Gregório XIII dispôs não fossem considerados bissextos os anos do
século não divisíveis por 400 (assim em todo período de 400 anos, três dias
eram supressos). Por conseguinte, seriam bissextos os anos de 1600, 2000, 2400,
não porém, os de 1700, 1800, 1900, 2100. Este corretivo (chamado equação solar)
tornar-se-ia plenamente eficaz pelo prazo de mais de 3.000 anos: de 3.320 em
3.320 anos, porém será preciso suprimir um dia.

A reforma gregoriana aos
poucos foi sendo adotada pelos povos cultos. Na Espanha, em Portugal e em parte
da Itália a supressão de dez dias fez-se na mesma data que em Roma. Na França
ela se realizou pouco depois: o dia seguinte ao domingo 9 de dezembro de 1582
foi contado como segunda-feira 20 do mesmo. A Polônia adotou a mudança em 1586;
a Hungria, em 1587. Nos Estados protestantes, porém a resistência fez-se
sentir: a Alemanha só aceitou o calendário “novo estilo” em 1700; a
Inglaterra, em 1752.

Quanto aos cristãos
cismáticos orientais, ainda seguem o calendário juliano, ao menos na Liturgia.
É de crer, porém, que não tardarão a reconhecer as vantagens do calendário
corrigido. Antes de empreender a sua reforma, Gregório XIII, aliás, consultou o
Patriarca de Constantinopla sobre o assunto; mas, longe de obter resultado, seu
sistema foi explicitamente condenado por um sínodo oriental em 1593. Contudo em
1923 o patriarcado de Constantinopla, as circunscrições eclesiásticas de
Atenas, Chipre, da Polônia (cismática) e da Romênia adotaram o calendário
gregoriano para designar ao menos as suas festas fixas (o dia seguinte a 30 de
setembro foi dito 14 de outubro de 1923). Em 1948, o sínodo
“pan-ortodoxo” de Moscou resolveu deixar liberdade de escolha, no
caso, a todas as comunidades cristãs da órbita soviética. De resto, têm-se
registrado nos últimos tempos adesões notáveis: a Turquia adotou o calendário
gregoriano em 1924; o Japão já o introduzira em 1873; a China, em 1912; a
Bulgária, em 1916. Muçulmanos e israelitas ainda não o reconhecem no plano
religioso.

 3. E A DATA DA PÁSCOA?

Para pôr termo a hesitações
existentes nos primeiros séculos, o Concílio geral de Nicéia em 325 determinou
que a Páscoa seria celebrada no domingo seguinte à primeira Lua cheia após o
equinóxio da primavera do hemisfério Norte (21 de março). Com o passar dos
séculos, porém, a contagem do equinóxio da primavera foi-se defasando, como
dito atrás. Daí a reforma promulgada pelo Papa Gregório XIII em 1582, reforma
que não foi aceita pelos cristãos ortodoxos orientais e outros povos. Todavia,
já que tal divergência hoje em dia se manifesta como algo de totalmente
despropositado, as comunidades cristãs de diversas partes do mundo procuram
saná-la.

Em conseqüência, reuniu-se
em Alep (Síria), de 5 a
10 de março de 1997, uma assembleia de representantes da Comunhão Anglicana, da
Igreja Ortodoxa Armênia, do Patriarcado de Constantinopla, das Igrejas
Evangélicas do Oriente Médio, do Patriarcado Grego-ortodoxo de Antioquia e de
todo o Oriente, da Federação Luterana Mundial, do Conselho das Igrejas do
Oriente Médio, das Igrejas dos Velhos-Católicos da União de Utrecht, do
Patriarcado de Moscou, do Conselho Pontifício para a União dos Cristãos, dos
Adventistas do Sétimo Dia e do Conselho Ecumênico das Igrejas. Elaboraram uma
proposta que permitia fixar uma data comum para a festa da Páscoa apoiando-se
sobre as determinações de Niceia e os dados astronômicos mais precisos da
atualidade. O ano 2001 é considerado como ano ideal para se fixar uma data
única, pois naquele ano a Páscoa, calculada segundo os dois procedimentos em
vigor, cairá no mesmo dia, a saber: 15 de abril. A proposta desta assembleia
foi enviada a todas as comunidades eclesiásticas do mundo inteiro juntamente
com uma tabela a indicar as possíveis datações de Páscoa para os vinte e cinco
primeiros anos do século XXI, caso a ideia seja aceita.

É para desejar que a
proposta logre pleno êxito, pois assim estaria removido mais um ponto de
discórdia entre os cristãos, resultante de desacordos do passado, que
atualmente não tem significado algum, mas, ao contrário, empalidece o
testemunho cristão do mundo de hoje.

 

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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