Os congregacionalistas

Os congregacionalistas são um ramo protestante cuja designação se deve à sua forma de governo: é a congregação quem decide, “democraticamente”, acerca dos seus interesses. Vamos examiná-los mais de perto.

Origem

Para descrever a origem dos congregacionalistas, devemos recuar até o século XVI na Inglaterra. Em 1534, o rei Henrique VIII rejeitou a autoridade do Papa e se proclamou “Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra” fundando assim o anglicanismo. O monarca, porém, não tencionava modificar nem o credo nem a liturgia da Igreja nacional, apesar da pressão que os reformadores luteranos e calvinistas do continente europeu exerciam sobre ele.

Sob o seu sucessor Eduardo VI (1547-1553), tanto o calvinismo o luteranismo tiveram entrada na Inglaterra, influenciando o anglicanismo. Deu-se, porém, uma freada nesse processo sob a rainha Maria, a Católica (1553-1558); este reinado, todavia, foi breve, dando lugar ao de Elisabete (1558-1603), que favoreceu a protestantização da Igreja na Inglaterra; contudo, a rainha não queria extinguir a hierarquia episcopal e nem renunciar à liturgia tradicional.

Insurgiram-se, então, ministros pastores anglicanos descontentes, que desejavam ir mais longe nas reformas eclesiásticas. Queriam, sim, “purificar” tanto o credo como as práticas da Igreja Anglicana, despojando-a mais e mais das suas tradições católicas.

Tais reformadores se chamavam “puritanos”. Alguns deles se tornaram independentes do anglicanismo oficial. Assim, por exemplo, Robert Browne, que em 1580 pregou e realizou a separação de um grupo de cristãos fervorosos. Estes se declararam isentos de qualquer imposição doutrinária disciplinar; deveriam ser considerados todos iguais entre si e livres prestação da Bíblia.

O sistema de Browne era fortemente individualista. Por isso trazia em si os gérmens de sua desagregação. Com efeito, dois anos de fundado, tal grupo se dividiu por motivos de dissensões internas. Em 1584, Browne abandonou a sua obra e foi para a Escócia, onde foi como clérigo separatista.

Posto em liberdade, Browne voltou para a Inglaterra, renunciou suas idéias de independência e, em 1591, foi reintegrado como clérigo anglicano. Viveu, ainda, 42 anos como reitor de uma paróquia da  Igreja Anglicana.

As teses de Browne foram reassumidas por John Greenwood, Henry Barrow e Francis Johnson, que em 1592 fundaram uma comunidade de independentes congregacionalistas. Congregacionalstas, porque afirmavam que a Igreja consta de grupos (congregações) de cristãos santos sob direção própria e independentes de qualquer controle.

Perseguidos na Inglaterra, esses separatistas emigraram para a Holanda em 1608. Aí tiveram que enfrentar dura luta econômica para se manterem. Conscientes de que não poderiam permanecerem na Holanda, nem na Inglaterra resolveram, após 12 anos de exílio nos Países-Baixos, transferiu-se para os Estados Unidos da América.

Em 1620 chegaram em Plymouth (EUA) 102 pilgrim fathers (pais peregrinos), levados pelo famoso navio Mayflower, depois de viagem acidentada por causa do mau tempo, que os impediu de chegar ao Estado de Virgínia, ao qual se destinavam.

Nos Estados Unidos, encontraram outros grupos não-conformistas refugiados (presbiterianos, batistas…), com os quais entraram em rivalidade. No Estado de Massachusetts, os congregacionalistas se tornaram Igreja estatal ou oficial até 1833; nesse ínterim, perseguiram os demais reformados não-­conformistas, o que era verdadeira contradição. Na Inglaterra, haviam-se oposto à ideia de uma Igreja de Estado e, por isso, haviam sido perseguidos; na América, porém, faziam o mesmo papel que eles haviam repudiado na Europa!

Com o tempo, a tendência a se unirem em federação se fez notar entre os congregacionalistas, apesar da sua índole fortemente individualista. Em 4861, fundou-se o International Congregational Council. Em 1957, a Congregational Christian Churches e a Evangelical and Reformed Church se uniram na United Church of Christ.

Doutrina

Os congregacionalistas professam os grandes princípios do calvinismo, à semelhança dos batistas. Têm, porém, sua organização eclesiástica própria: cada congregação local está habilitada a se governar mediante os seus representantes eleitos. Um dos textos mais típicos desta denominação é a Declaração de Savoia, elaborada por um sínodo de independentes ou congregacionalistas em 1658; eis as suas linhas principais:

– O Senhor chama os eleitos individualmente, mas lhes pede que se associem, a fim de se edificarem e celebrarem o culto público. Cada congregação local é a Igreja no Sentido pleno do termo, e não está sujeita a nenhuma jurisdição exterior.

– Os funcionários da Igreja, pastores, mestres, presbíteros e diáconos são escolhidos por voto dos membros da congregação e postos à parte, solenemente, enquanto os irmãos jejuam e oram; são investidos em suas funções pela imposição das mãos dos mais velhos da congregação. Quando surgem problemas graves na vida de uma comunidade, pode se consultar um sínodo de congregações associadas; todavia, essa assembléia apenas oferece conselhos, pois não tem autoridade para mandar e nem punir.

Como se compreende, tal espírito de independência e a falta de autoridade central ou de vínculo jurídico entre as congregações expuseram o congregacionalismo a cisões, assim como ás incursões do racionalismo e de correntes heterogêneas.

Diversas congregações, por exemplo, penetradas pelo racionalismo, passaram a professar o unitarismo em Deus, negando a Santíssima Trindade e, consequentemente, a divindade de Jesus Cristo. Está cisão doutrinária fez com que, em 1833, se separassem os congregacionalistas unitários dos congregacionalistas unitários  ortodoxos.

Avaliação

A história do congregacionalismo nos lembra a triste sorte que geralmente toca aos Cristãos que cedem ao individualismo e ao subjetivismo em matéria religiosa: vão-se afastando cada vez mais das fontes do cristianismo, a ponto de, por vezes, só guardarem o nome de cristãos. É, entre outros, o caso das testemunhas de Jeová, que examinaremos mais para frente.

Foi precisamente para evitar as cisões devido ao individualismo, às vezes fantasioso e errôneo, que o Senhor Jesus quis instituir o primado de Pedro e de seus sucessores. A Pedro disse Jesus: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti a fim de que tua fé não desfaleça… Confirma teus irmãos” (Lc 22,31s). É o ministério de Pedro, assistido pelo Senhor Jesus e o Espírito Santo, que garante a unidade da doutrina e da moral da Igreja, conservando-as fiéis ao Evangelho original.

Por isso São Cipriano (+258) diante das ameaças ele cisma no século III, ensinava: “Não pode possuir veste inconsútil de Cristo aquele que divide e dilacera a Igreja”; ou ainda: “Não pode ter Deus por Pai no céu quem não tem a Igreja por Mãe na terra”. Posteriormente, dizia muito sabiamente Santo Agostinho: “Na cátedra da unidade colocou Deus a doutrina da verdade”. Cientes disso, os fiéis católicos reconhecem o valor de estarem na barca de Pedro, onde Jesus navega com os seus.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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