Os Cátaros: Quem eram?

Revista
“PERGUNTE E RESPONDEREMOS”

D. Estevão
Bettencourt, osb

Nº 479,
2002, p. 175

 Os cátaros (puros) eram uma seita medieval dualista:
condenavam a matéria como sendo mal e, por isto, eram contrários ao matrimônio
e permitiam o suicídio.  Os membros da seita percorriam as regiões do Sul
da França e do Norte da Itália, pilhando granjas e fazendas e semeando a
desordem.  Em suma, ofendiam não somente a fé cristã, mas também a ordem
pública.  Foram reprimidos por uma Cruzada.

Via Internet está sendo divulgado um artigo intitulado
“Roma e os Movimentos Herétlcos”, de vários autores sob a orientação
de Carlos Antonio Fragoso Guimarães, interessado na Universidade Holítisca
Internacional e no Grupo Espírita Bezerra de Menezes. Entre outros temas,
aborda longamente o Catarismo ou a heresia dos cátaros (puros), fazendo
afirmações discutíveis e silenciando outras, que seriam impor­tantes. Eis por
que, a seguir, comentaremos dizeres do artigo em foco.

É de notar, aliás, que tal artigo tudo considera do ponto do
vista político, como se o Papado tivesse disputado poder e hegemonia na Idade
Antiga e na Medieval. Os Cátaros aparecem nesse cenário como aque­les que
ameaçavam o prestígio político da Sé de Roma.

O  artigo será comentado em três etapas.

1.   Quem
eram os cátaros?

 

1.1     O texto do artigo

“Nas palavras da igreja Romana, no século XII a região
de Languedoc (Sul da França) estava infectada pela heresia de um movimento
nocivo chamado catarismo, “a lepra louca do Sul”.

Embora fosse sabido por todos que os adeptos dessa heresia
eram essencialmente pacíficos, eles constituíam uma grave ameaça a autori­dade
romana, a mais grave que Roma encontraria nos séculos seguintes até a chegada
de Martinho Lutero. Por volta da 1200 havia realmente a possibilidade de que o
catolicismo romano fosse substituído, como forma predominante de cristianismo,
no Languedoc, pelo catarismo, que estava se irradiando para outras partes da
Europa”.

1.2.  Comentário

“Os cátaros eram essencialmente pacíficos”? Não é
o que dizem as melhores fontes históricas. Quem eram eles?

Os cátaros são herdeiros do dualismo oriental maniqueu
segundo o qual a matéria é má e o espírito bom. Começaram a aparecer no Norte
da Itália e no Sul da França no século XI, opondo-se violentamente as
instituições vigentes, baseadas sobre a família (consórcio carnal) e a ordem
civil (ligada a valores materiais). As origens dessa seita não nos são
conhecidas com precisão. O fato é que no século XII estava plenamente instalada
no sul da França, com suas igrejas e sua hierarquia, tendo a cidade de Albi
como um dos seus principais centros (donde o nome de albigenses dado aos
cátaros).

Que ideias moviam esse grupo?

a) O princípio básico é
o dualismo, do qual havia duas modalida­des, sendo a primeira a mais comum:

– o dualismo (catarismo) absoluto professa haver dois
princípios eternos:  um bom, e outro mau. O primeiro deu origem ao mundo
invisível dos espíritos e das almas; o segundo, ao mundo material visível. A
matéria é essencialmente má.

– o dualismo mitigado afirma que o princípio mau regente
desta mundo não é um deus, mas Lucifer ou Satanás, o anjo decaído.

b)      O ser humano é um composto
de corpo material a alma espiritual; donde se segue que a alma está num
cárcare, do qual deve libertar-se mediante expiação de suas faltas.

c) O Deus que se faz presente no Antigo Testamento é
Satanás, o qual assumiu aparências de bondade para ser mais facilmente aceito
pelos israelitas. Alguns setores do catarismo adotavam um ou outro livro do
Antigo Testamento ou ao menos as citações dos mesmos ocorrentes nos escritos do
Novo Testamento.

d) Jesus Cristo não era Deus nem propriamente um homem, mas
um anjo que tomou aparência da homem (teoria esta dita “docetismo”).
A finalidade da sua vinda à Terra não foi a salvação da humanidade mediante
desagravo a reparação, mas foi anunciar aos homens que existe um Princípio bom,
que vive nos céus e se encontra também em cada ser humano.

e)       Disto tudo se segue o
dever rigoroso, para os iniciados, de guardar a castidade perfeita. Nada seria
mais censurável do que o casamento, pois este favorece a união carnal a
procriação … procriação cuja consequência é aprisionar as almas na matéria.
Tais idéias se traduzem bem no seguinte episódio:

Por volta de 1004 um leigo de Vertus, região de Châlons,
chamado Leutard, pregava publicamente o dualismo cátaro; julgava ser ilícito o
casamento, a tal ponto que ninguém se poderia salvar caso permane­cesse no
estado conjugal; ele próprio despediu sua esposa. Em sua luta contra a matéria
quebrou os crucifixos e as imagens dos Santos. Negava a autoridade religiosa e
incitava os camponeses a não pagar o dízimo. Chegaram mesmo a pegar em armas
sob a chefia de Leutard.  A população local denunciou Leutard ao Bispo de
Chalôns como herege e desordeiro. Naquela época, porém não se aplicavam penas
físicas aos hereges; os doutores da Igreja queriam convencê-los com argumentos
e não com as armas de modo que o Bispo ciente do caso Leutard, resol­veu
absolvê-lo como louco !

f) Outra consequência das premissas atrás expostas era o
desprezo da vida humana e o desejo de escapar dela; daí a prática da endura ou
do suicídio, fosse pela fome, fosse de modo violento.

g) Os cátaros se organizaram em “Igreja”, que
compreendia duas categorias: os perfeitos e os crentes. Os perfeitos eram os
que havi­am recebido o consolamentum ou Batismo.  Caso permanecessem fiéis
aos seus deveres e, em particular, a castidade (celibato), teriam morte
tranqüila a sua alma estaria para sempre libertada dos entraves do cor­po.
Poucos eram os que recebiam o consolamentum enquanto goza­vam de boa saúde,
pois este exigia longa preparação; submetia o indiví­duo a rígida Moral e a
gravíssimas ameaças caso não a cumprisse. Eis por que a maioria dos cátaros
ficava na categoria dos crentes e se com­prometiam a receber o consolamentum no
fim da vida.

h)      0 culto cátaro era simples.
Os chefes alimentavam a fé dos cren­tes mediante pregação a alguns ritos, entre
os quais o apparelhamentum ou serviço, espécie de confissão geral, após o qual
um dos perfeitos impunha uma penitência. Mais freqüente era o rito da adoração,
que consistia em ajoelhar-se aos pés de um perfeito para pedir-lhe a bênção.

Eis o que se lê sobre a doutrina dos cátaros em fontes
históricas objetivas e seguras. Daí a pergunta: serão fidedignas as afirmações
da equipe de Carlos Guimarães segundo as quais os cátaros eram
reencarnacionistas e professavam um Deus “não puramente masculino, mas
como tendo, igualmente, princípios femininos”.  – Que significam
estas expressões aplicadas a Deus? Entre outras coisas, falta clareza da
linguagem. Deus é espírito puro (os cátaros que o digam!); por conseguinte nele
não pode haver elementos, que são coisas materiais. Por isso também Deus não
pode ter sexo; não é nem masculino nem feminino, pois sexualidade implica
corporeidade. Nós lhe damos, por convenção, os títulos de “PAI” e
“MÃE”.

2.  A Cruzada anticátara

2.1.  O texto do artigo

“Em 1209 um exército de mais de 10 mil homens desceu do
norte da Europa em direção ao Languedoc, no sul da França, para executar uma
das maiores carnificinas da história humana.  Na guerra que se seguiu, a
população tomou a espada e defendeu com ênfase os cátaros contra o despotismo
católico.  Todo o território da região foi pilhado, e as cidades e
vilarejos arrasados sem dó nem piedade. Só na cidade de Béziers, por exemplo,
15 mil homens, mulheres e crianças foram exterminados, muitos até mesmo dentro
da Igreja.  Quando um oficial perguntou a um representante do Papa como
ele iria reconhecer um herege dos crentes verdadeiros. A resposta foi
“Matai-os todos. Deus reconhecerá os seus”.  O próprio
representante papal escreveu orgulhoso a Inocêncio III que “nem idade, nem
sexo nem posição foram poupados”.

2.2   Comentário

0 autor do texto quer atacar a Igreja sem se certificar de
que os ataques são fundamentados. O episódio final por ele citado é lendário ou
falso como se verá adiante. Isto permite ao leitor pôr em dúvida os dizeres
antecedentes, mencionados sem indicação de fontes, no estilo de outros ataques
à Igreja preconceituosos.

Eis o que uma reflexão objetiva e serena sugere: a expansão
dos cátaros, violenta como foi, não podia deixar do provocar represálias tanto
de parte da Igreja como do lado do poder civil pois impugnava não somente a fé,
mas também a vida conjugal e até a própria vida humana aprovando o suicídio.

Mais: os ataques dos cátaros deviam provocar a réplica do
poder civil também pelo fato de que na Idade Média Igreja e Estado se achavam
unidos: uma ofensa à Igreja era ofensa a uma instituição oficializada pelo
Estado.

Até o século Xl inclusive, a Igreja reprimia os hereges
expondo-lhes a verdadeira fé1 , e, quando parecia oportuno, impondo sanções do
ordem espiritual como a excomunhão e a reclusão claustral. Todavia as
invectivas dos cátaros e de outros hereges no século XII levaram os Bispos a
inculcar as autoridades civis o dever de conter os avanços da here­sia. Daí
resultaram as cruzadas contra os adversários da fé (e da ordem pública) como
algo de necessário ou como obrigação de consciência. Para os medievais a defesa
armada dos valores espirituais não somente era lícita, mas se impunha como
dever do cristão. Este dado deve ser levado em conta pelo historiador que não
queira cometer injustiça contra seus antepassados.

Como dito, há autores que preconcebidamente exageram a
viruilência das guerras religiosas; falam sem citar documentação e sem
discernimento de fontes. Tal é o caso do Carlos Guimarães, que transmi­te a
lenda do Béziers como se fosse fato histórico.

Eis como se podem reconstituir os acontecimentos:

Os cátaros se estabeleceram no forte de Béziers em 1209. A Igreja e o poder
civil tinham interesse em coibir os avanços dos cátaros, pois não somente
deterioravam a fé, mas tumultuavam a vida pública. Por conseguinte os ocupantes
do forte do Béziers foram abordados por vias pacíficas e persuasórias para se
renderem. Como resistissem, o Papa lnocêncio III (1198-1216) ordenou que se
movesse uma Cruzada contra eles.  Ao chegarem diante de Béziers os chefes
dos cruzados encontra­ram a resistir-lhes na cidadela não somente albigenses,
mas também alguns católicos. Não sabendo como distingui-los, diz a anedota,
teriam perguntado ao legado do Papa, Arnaldo Amalric, abade de Cister, o que
haviam de fazer.  E o monge teria dito: “Caedit eos, novit enim
Dominus qui sunt eius – Matai-os todos, pois Deus saberá reconhecer os
seus!”

Tomada a cidadela, houve cruéis cenas de assassínio e
pilhagem. Quanto ao número das vítimas, uns falam em 100 mil, outros em 60 mil,
outros em 20 mil; este último número ainda parece exagerado, porque mais da
metade dos mortos encontrava-se na igreja da Madalena, onde não cabem nem 5 mil
pessoas.

Em qualquer hipótese, a carnificina não foi ordenada pelo
Papa nem sequer pelos chefes militares da expedição, mas por gente que se tinha
introduzido no exército dos cruzados.  Com efeito; a frase atribuída ao
abade de Cister é considerada apócrifa por Augusto Molinier, historia­dor do
Languedoc, bom insuspeito pelo seu notório anticlericalismo: “On doit
déclarer absolument apocryphe ce mot barbare”. Efetivamente, há numerosas
crônicas do século XIII, escritas por testemunhas verídicas do saque do
Béziers, e nenhuma delas registra tal frase. Ele só aparece em obras do
Cesário, monge alemão que escreveu a duzentas léguas do teatro das operações,
confiado em informações de origem albigense. Os historiadores afirmam até que
ela nem podia ser pronunciada, porque o assalto a cidadela foi efetuado por
uma  fração do exército dos cruzados, sem o conhecimento dos principais
chefes.

Como se vê, a história pode ser cultivada de maneira
tendenciosa, de sorte a desfigurar injustamente personagens e instituições. O
leitor e o estudioso de história procurarão sempre averiguar a idoneidade e a
credibilidade das obras que consultam a fim de “não engolir gato por
lebre”!

A propósito:

CEREJEIRA, MANUEL GONÇALVES, A Igreja e o Pensamento
Contemporâneo. Coimbra, 2º ed.  1928.

GAUBERT, HENRI, Les Mots Historiques qui n’ont pas été
prononcés, p. 27s.

GUIRAUD, JEAN,  Histoire partiale.  Histoire
vraie, Tomo I, c. 23s.

2.   Após a guerra anticátara

3.1 O texto do artigo

“A guerra
cruel durou cerca de quarenta anos.  Quando terminou, toda a Europa caiu
numa espécie de modorra e barbárie”.

3.2  Comentário

 Tal afirmação é
abertamente tendenciosa, não cita exemplos ou fatos concretos devidamente
documentados, mas afirma gratuitamente – Eis a apreciação feita por Karl
Bihlmeyer e Hermann Tuechle na sua História da Igreja, vol. II, ed. Paulinas,
1964, pp. 340s

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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