Os Bispos da França e a AIDS – EB (Parte 2)

O Sr. Bispo
de Saint-Brieuc et Tréguier, Mons Lucien Fruchaud, tentou atenuar o alcance da
posição de Mons. Rouet nos seguintes termos:

“Lamento
que estejam apresentando essa contribuição da Comissão Social do Episcopado
como posição que manifesta uma ruptura com o ensinamento da Igreja ou uma
oposição à Santa Sé”. Trata-se de uma visão mesquinha e indevida dos objetivos
da Col12issão Episcopal. Tem-se aí uma apresentação falsa.

Lamento que
estejam apresentando o uso do preservativo como uma autorização largamente
concedida a todos em todas as circunstancias . Uma leitura atenta do texto
mostra que não é isto em
absoluto. No texto que ele assina pessoalmente, diz Mons.
Rouet:

‘Como o
preservativo pode ser admitido nos casos em que uma atividade sexual já
integrada na personalidade precisa de evitar um risco grave, assim também é
preciso afirmar que esse meio não propicia educação para a sexualidade adulta
‘. Eu gostaria de que não deformem este texto e não digam simplesmente que a
Igreja permite o uso do preservativo, sem apresentar todas as observações que
vêm antes e depois da secção acima” (Boletim SNOp, órgão oficial do
Episcopado Francás, n° 981, 23/02/1996, p. 5).

Como se vê,
tanto Mons. Rouet como seu colega no episcopado rejeitam a generalização da
permissão de uso do preservativo.

3.
COMENTÁRIOS PUBLICADOS NA IMPRENSA EUROPEIA

Compreende-se
que o pronunciamento de Mons. Albert Rouet tenha provocado surpresa e reações.
Geralmente os comentadores o entenderam como abertura para o uso do
preservativo, contrariando a doutrina oficial da Igreja. Desta interpretação
surgiram, de um lado, aplausos e, de outro lado, críticas.

3.1. Os
Aplausos

O Prof. Luc
Montagnier, descobridor dos dois vírus H IV da Aids, julga que o documento dos
Bispos franceses representa “uma evolução importante”:

“O
documento da Comissão Social do Episcopado condiz com o que muitos médicos e
cientistas pensam, a saber: o preservativo é um meio mecânico de evitar a
infecção, mas não é o único. A este título, significa uma evolução importante”.

Nunca
dissemos que o preservativo é o único meio de evitar a infecção pelo vírus da
Aids. Sempre enfatizamos, porém, que esse meio não deveria ser excluído por
motivos religiosos. Ao mesmo tempo, sempre lembramos que o essencial é chegar a
ter relacionamento sexual duradouro, de modo a reduzir os riscos da infecção.
Isto implica repetir quanto é urgente atuarmos junto aos mais jovens e os
responsabilizar” (Le Monde 13/02/96).

É de notar
que o Próf. Montagnier, embora apoie o uso do preservativo, reconhece que há
outra solução para o problema da Aids, a saber: um comportamento sexual estável
e duradouro por parte do homem e da mulher. -Infelizmente esta tomada de
posição é fraca, pois em hipótese alguma o preservativo se justifica, como se
dirá mais adiante.

o Dr. Marc
Gentilini, Presidente do Comitê Católico dos Médicos Franceses, declarou:

“Eu me
regozijo com este avanço, que apaga algumas ambigüidades. Aliás, fui
interrogado repetidamente pela Comissão Social do Episcopado Francês, que
redigiu o texto. . .

Julgo que o
preservativo é uma questão de saúde pública. No plano moral, a Igreja Cató1ica
pode ser contrária ao preservativo como meio contraceptivo, que impede a
transmissão da vida; Ela, porém, não pode ser contrária ao preservativo como
meio que impede a transmissão da morte” (Le Monde, 13/02/1996).

Na verdade,
o preservativo está longe de proporcionar “sexo seguro” ou de impedir
a transmissão da morte, como será explanado no artigo subsequente deste
fascículo.

3.2. As
Críticas

Mons.
Alessandro Maggiolini é o Bispo de Como (Itália) e um dos redatores do
Catecismo da Igreja Católica. Concedeu entrevista ao jornal Corriere della Sera
de Milão, 14/02196, em que se expande com muita franqueza sobre a atitude da
Comissão Episcopal Francesa.

Mostrou
discordar, afirmando’: “Um fato, ao menos, é evidente: não são capazes de
se comunicar”. Transcrevemos tal entrevista em tradução brasileira:

Repórter:
“Eminência, Mons. Rouet disse que fizeram uma interpretação forçada do
documento. Está de acordo?”

Mons.
Maggiolini: “O jornal Le Monde não pode ter inventado tudo. Evidentemente
o texto do documento é ambíguo. Não o podem justificar dizendo: ‘Sim, está
escrito assim, mas n6s quer/amos dizer outra coisa. ou as pessoas falam com
clareza, ou é melhor calar-se.

Pergunto a
mim mesmo como é possível, usando o estilo daquele documento, falar de Jesus
Cristo”.

R:
“Onde estão as ambiguidades?”

M.M.:
“Detenhamo-nos, por exemplo, na passagem: ‘O preservativo pode ser
admitido nos casos em que uma atividade sexual já integrada na personalidade
precisa de evitar um risco grave’. Que significa isto? Do ponto de vista da
Igreja, se alguém tem a ti vida de sexual integrada na personalidade, é pessoa
já madura a ponto de compreender que, se sofre de Aids, deve escolher a
castidade. Se não o consegue, paradoxalmente, é mais merecedora de perdão a
pessoa que usa o preservativo sem ter uma atividade sexual integrada na
personalidade, ou seja, quem não tem uma visão de fé”.

R.:
“Portanto, a proposta dos Bispos franceses é uma saída que gera
confusão?”

M.M.:
“Sim. Mesmo que tenha havido um erro de boa fé ou um modo err6neo de
exprimir-se, os Bispos cairam na armadilha dos meios de comunicação social, que
ignoram totalmente o magistério da Igreja para atirar-se sobre este pormenor: o
preservativo, a pílula… Depois pergunto a mim mesmo: havia necessidade de um
documento sobre Aids e preservativos?”

R.: “Eminência não pode negar que se trata de um problema dramático concernente a
milhões de pessoas. Como pode defini-lo como sendo um pormenor? E como pode
dizer que um documento sobre tal tema não é indispensável?”

M.M.:
“Veja: o problema é outro. Não se pode anunciar a Moral antes de anunciar
a fé. Que sentido tem falar de normas morais a um mundo que não crê mais nem
mesmo em Deus? É necessário recomeçar do a-b-c da fé: Deus, Cristo, a Igreja.
Depois de haver falado de tais realidades, devem-se propor ; a quem crê, as
normas morais, que são conseqüências da fé. Verdade é que tais normas são
compreensíveis também à reta razão, mas é sob a luz da fé que o homem
compreende melhor o valor, por exemplo, de certo modo de viver a
sexualidade”,

R.: “É
necessário propor sempre a castidade? Também a quem sofre de Aids e talvez seja
casado?”

M.M.:
“A castidade é ideal ao qual devemos tender”.

R.:
“Mas muitos leigos exultaram ontem por causa da ‘abertura’ dos Bispos
franceses. Por exemplo, o cotidiano Libération e o Manifesto”. ,

M.M.:
“Desculpe-me; isso faz-me sorrir. Precisam da benção do Papa para usar os
preservativos? Por que aqueles que dizem não crer; fazem questão de que a
Igreja dê o aval ao seu comportamento? Isso parece-me ser uma posição que, mais
do que contrária à fé, contraria a razão ”

3.3.
Ponderando…

Quem lê os
depoimentos pró e contra os preservativos, tem a impressão de que a
problemática se coloca nos seguintes termos:

– ou fazer
concessões à plena liberdade sexual, que é a maior matriz de Aids, julgando-se
incoercível a onda pansexualista e erotizante do momento. Essa onda, que
arrasta muitos e muitos cidadãos, seria o critério da moralidade. Por conseguinte,
nada haveria a dizer contra a permissividade sexual; antes, seria necessário
capitular perante a sua pujança; apenas se procurariam evitar as consequências
daninhas dos parceiros infectados. Donde a legitimação da
“camisinha”.

– ou tentar
remar contra a onda permissiva e lembrar o valor e a dignidade da castidade.
Esta não significa necessariamente a abstenção de sexo, mas o uso do sexo
segundo as leis da natureza, ou seja, dentro do casamento, respeitando-se as
funções biológicas respectivas. – Esta é uma posição corajosa, a única
realmente sadia, pois qualquer violação da natureza está sujeita à réplica da
própria natureza (quem come, quem bebe, quem fuma demais… está sujeito a
adoecer). É esta a resposta da Igreja à epidemia da Aids. Parece ultrapassada,
utópica, desumana…

Ultrapassada
pela moda contemporânea, sim, mas não à luz do verdadeiro bem da humanidade; a
Igreja se faz tutora da dignidade e do autêntico progresso moral dos homens.

Utópica,
talvez sim, aos olhos de muitos que julgam imbatível a onde libertina
contemporânea. Pode-se verificar, porém, que alguns grupos jovens, saturados
pela libertinagem, apregoam atualmente a castidade. O falso prazer acaba
causando tédio, pois, entre outras coisas, destrói a personalidade no seu
físico e no seu psíquico.

Desumana,
sim, à primeira vista,… tanto quanto “desumano” é o Não que a mãe
diz ao filho propenso às travessuras. É um desumano que diz Não aos impulsos
cegos do ser humano, mas diz um Sim mais pleno ao ideal e à dignidade
intelectual da pessoa.

Ademais é
de notar que o preservativo não favorece a garantia de “sexo seguro”
que a propaganda lhe atribui. Há interesses espúrios

e
comerciais na difusão dos preservativos e anticoncepcionais. O subsequente
artigo deste fascículo abordará os resultados de pesquisas realizadas sobre a
eficácia do preservativo.

A Igreja
ousa sustentar a posição mais difícil, sujeita à burla e ao escárnio, mas a
única verdadeiramente razoável, procurando assim prestar um serviço à
humanidade.

Em
particular, consideremos o argumento dito do

4. MAL
MENOR

Quem
justifica o preservativo, raciocina freqüentemente a partir do princípio do
“mal menor”. Com efeito; o uso do preservativo seria um mal, mas um
mal menor do que transmitir a Aids por contato sexual. A Moral clássica daria
base a tal argumento, ao estabelecer o princípio do mal menor: entre dois males
a escolher, o cristão deve escolher o mal menor.

Que dizer?

– O
princípio é válido, sim, (mas somente quando não há terceira opção ou quando
alguém 1) (não pode deixar de agir e 2) é estritamente obrigado a escolher
entre dois males, sem outra alternativa.

Ora, no
caso do preservativo:

1) ninguém
é obrigado a ter relações sexuais contagiantes ou de risco;

2) entre o
uso do preservativo e o perigo de contagiar o parceiro, há uma terceira opção:
a abstinência sexual. É certo que esta pode parecer irrisória, defasada, mas,
na verdade, é a única solução correta;

torna-se
possível, desde que alguém se convença do seu valor, sem se deixar levar na
armadilha e na dialética dos meios de comunicação social. Por conseguinte, não
se aplica ao caso do preservativo o princípio do mal menor.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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