Os anos obscuros de Jesus – EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 410 – Ano 1996 – p. 298

Em síntese: A Sra. Elizabeth Clare Prophet, guru norte-americana, há vinte anos vem estudando a vida de Jesus e julga poder afirmar; na base de manuscritos tibetanos, encontrados em 1887, que os dizeres de Jesus foram alterados pela Igreja e que Jesus esteve na Índia, no Nepal e no Tibé. Estas teses são desmentidas pela pesquisa dos próprios manuscritos do Novo Testamento, que são cerca de três mil, datados dos primeiros séculos do Cristianismo e reconhecidos pela crítica como fidedignos; o estudo desses manuscritos não permite dizer que houve truncamentos ou modificações substanciais dos mesmos. A hipótese de que Jesus esteve na Índia é desfeita em particular pelos textos de Mc 6, 3s e Mt 13, 55, como também pela tomada de consciência do gênero literário dos Evangelhos; estes não pretendem ser um relato biográfico, mas o eco escrito da pregação dos Apóstolos, que visavam a suscitar a fé dos ouvintes, sem deixar de referir fatos históricos (ver artigo seguinte deste fascículo).

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A revista ISTO É, edição de 3/4/96, pp. 87s, publicou um artigo de Carla Gallo e Gisele Vitoria, que sintetiza o pensamento da Sra. Elizabeth Clare Prophet, guru norte-americana e sacerdotisa ecumênica, 54 anos de idade, que afirma ter Jesus vivido na Índia entre os treze e dezenove anos de idade como também após a sua crucifixão (da qual não terá resultado a morte do Crucificado).

O artigo está cheio de imprecisões ou mesmo erros, que serão apontados nas páginas seguintes.

1. A Sra. Elizabeth suas fontes

A Sra. Elizabeth diz “ouvir a voz de Jesus desde garota”; Jesus a ajuda nas suas pesquisas religiosas. Adepta da reencarnação, afirma que já foi “Santa Marta, seguidora de Cristo, e Santa Clara”. É doutrinado por outro mestre, o Conde de Saint-Germain, que viveu na França do século XVIII e atualmente é mensageiro da Era de Aquário (Nova Era), depois de ter sido outrora Bispo de Paris (século VI) com o nome de Saint-Germain; foi também, em encarnação anterior, São José, pai adotivo do próprio Jesus.

Elizabeth foi nomeada por Saint-Germain “mensageira da Grande Fraternidade Branca”; como tal, ela profere palestras, ensina mantras e orações, que ajudam a espalhar a chama violeta (energia que dá às pessoas maior percepção para entender os ensinamentos cristãos).

Peregrinou por diversas religiões no intuito de esclarecer seu dom sensitivo, quando, aos dezoito anos de idade, se fixou no esoterismo indiano.

As fontes que Elizabeth consulta para explicar a figura de Jesus, são polêmicos manuscritos tibetanos encontrados em 1887 pelo jornalista Nicolas Notovitch no mosteiro budista de Himis em Ladakh. Nesses pergaminhos Jesus teria o nome de Santo Issa, um jovem israelense que aos treze anos de idade teria partido secretamente da casa de sua mãe Maria em Jerusalém, com o objetivo de se preparar para cumprir a sua missão. “Lá os lamas lhe teriam ensinado a compreender os escritos sagrados, a curar com a ajuda da oração e a expulsar espíritos malignos dos corpos dos homens, “diz Elizabeth, citando os manuscritos. Conforme os pergaminhos, Jesus teria voltado para a Palestina, onde foi condenado pelo crime de heresia e crucificado. Apesar das coincidências, até hoje ninguém provou que de fato Santo Issa foi mesmo Jesus Cristo (art. citado, p. 87).

Mais: diz Elizabeth ainda que Jesus não morreu na cruz. “Os apóstolos deram-lhe um tipo de erva que fez com que ele parecesse morto”, garante. “Depois de sobreviver ao martírio, diz o artigo citado, o filho de Deus teria voltado à Índia e lá vivido até os oitenta e um anos. Ao contrário do que prega a Igreja, Cristo não seria um adepto do celibato. Em Caxemira, onde teria vivido o resto de seus dias, Jesus se casou e teve filhos. ‘Quem for à Índia e pesquisar entre as comunidades locais, poderá ter notícias dos descendentes de Cristo’, diz Elizabeth”.

Para a escritora norte-americana, o Novo Testamento pode ter omitido vários fatos e ensinamentos de Jesus por conta dos interesses da Igreja. “Roma quis manter o Messias debaixo de seus pés. Essa nova versão de sua história mostra que ele é universalista, não está limitado ao Cristianismo. Jesus abraçou o budismo, o hinduísmo e viu uma interação entre todas as religiões do mundo’, diz Elizabeth. Esta autora considera ridícula a tese de que Cristo acumulou sabedoria dentro de uma carpintaria” (artigo citado, p. 88).

Elizabeth Prophet assegura que “as palavras de Cristo divulgadas até hoje não são fiéis. A intenção da líder espiritual é justamente trazer à tona os verdadeiros ensinamentos de Jesus” (artigo citado, p. 88).

2. Uma avaliação

1. A pessoa de Elizabeth Prophet é a de uma figura eclética, dada a revelações pessoais, contatos com o além mediante mestres espirituais. Isto a distingue da figura de um (a) intelectual, pesquisador (a) que trabalha em cima de raciocínios lógicos e de provas evidentes ou científicas. Elizabeth Prophet pode ter autoridade na área do esoterismo e do ocultismo, mas não a tem no setor dos eruditos pesquisadores da Bíblia. Aliás, nenhum destes, por mais anticristão ou anticatólico que seja, reconhece manuscritos tibetanos como fontes autênticas para estudar a figura e a doutrina de Jesus.

Pode-se perguntar se Elizabeth estudou a bibliografia grega, a síria, a copta, a armênia relativa a Jesus e datada dos cinco primeiros séculos da era cristã. Estas fontes são da máxima autoridade pela sua antiguidade e pela sua multiplicidade variegada.

2. A autora, aliás, parece conhecer muito pouco a história do texto do Evangelho, pois, segundo o artigo de ISTO É, “apenas quarenta anos depois da morte de Jesus, algumas comunidades cristãs primitivas começaram a escrever manuscritos que, traduzidos por linguistas e historiadores dos séculos X e XI, deram origem ao Novo Testamento”; tal seria o modo de pensar de Elizabeth Prophet. – Ora esta proposição é totalmente descabida, pois existem manuscritos, ao menos fragmentários, do Novo Testamento datado dos séculos II e III; há outros bem mais conservados e extensos dos séculos IVN…Os críticos do texto grego comparam entre si os três mil manuscritos antigos do Novo Testamento e assim confeccionam edições fiéis do texto bíblico, sendo a melhor a de Aland, Black, Martini (The Greek New Testament. United Bible Societies, Nova lorque).

Mais: nos últimos anos têm sido descobertos papiros fragmentários de Mt (Mt 26, dez linhas) e Mc (Mc 6, 52s), que os pesquisadores chegam a datar de meados do século I. Em consequência, as datas de redação dos Evangelhos teriam que ser revistas em favor de maior proximidade de Jesus. Aliás, entre o Senhor Jesus e a redação dos Evangelhos não houve hiato, mas houve, sim, continuidade, pois a pregação do Evangelho nunca cessou; foi realizada primeiramente de viva voz pelos Apóstolos nas regiões da Palestina, da Síria, da Ásia Menor, e aos poucos foi sendo cristalizada por escrito em fragmentos, que são as unidades das quais se originaram os Evangelhos na sua integra ou na sua forma hodierna; (cf. PR 399/1995, pp. 347-353; 288/1996, pp.194-200; 354/1991, pp. 482-494; 388/1994, pp. 386-395).

3. É prova de ignorância dizer que “O Novo Testamento pode ter omitido vários fatos e ensinamentos de Jesus por conta dos interesses da Igreja… Roma quis manter o Messias debaixo de seus pés” (p. 88).

– Os escritos do Novo Testamento foram-se formando no século I independentemente da autoridade da Sé de Roma. {os Apóstolos e Evangelistas (Pedro, Paulo, João, Tiago, Judas, Mateus, Lucas, {Marcos} escreveram com sua autoridade de Apóstolos e Evangelistas, sem que houvesse conflito entre o Bispo de Roma (que seria Pedro ou algum dos seus sucessores: Uno, Cleto, Clemente…} e os autores sagrados)). Uma vez escritos, os textos do Novo Testamento foram copiados e recopiados, podendo-se acompanhar a história dos manuscritos existentes nas principais bibliotecas do mundo; o confronto desses manuscritos revela que não houve truncamento ou “censura” dos mesmos; eles são reproduzidos na sua íntegra com as variantes compreensíveis na obra de todo copista. É falso, portanto, admitir cortes, omissões, retoques nos textos sagrados para atender a interesses da Igreja dos primeiros séculos; só quem não conhece o assunto, pode ousar afirmar tal despropósito. É de notar ainda que os manuscritos do Novo Testamento não são propriedade exclusiva da Igreja; estão espalhados por diversas cidades do mundo, adquiridos por quem se pôde apoderar deles.

4. Mais absurda ainda se torna essa ousadia no caso da Sra. Elizabeth Prophet, que julga que Jesus foi limitado pela Igreja ao Cristianismo; na verdade ” Jesus teria abraçado o budismo, o hinduísmo, e teria visto uma interação entre todas as religiões do mundo”. Esta suposição da Sra. Elizabeth é insustentável, pois o Cristianismo e as religiões da índia são incompatíveis entre si pelo fato de que o Cristianismo é monoteísta ({professa que há um só Deus}, ao passo que o hinduísmo, o bramanismo e o budismo são panteístas ({afirmam que tudo é Deus}. Donde se vê que o ecleticismo de Jesus não seria lógico nem viável. – A Sra. Elizabeth não poderá “trazer à tona os verdadeiros ensinamentos de Jesus”, se prescindir dos três mil códigos e manuscritos utilizados atualmente para se fazer a edição do Novo Testamento; não há acervo de testemunho do texto do Novo Testamento mais seguro e fidedigno do que o acervo utilizado pelos críticos que editam os Evangelhos e as epístolas do Novo Testamento; é tão volumoso e tão significativo esse acervo de manuscritos que dificilmente se conseguirá outro que o iguale em valor e autoridade.

5. Quanto à ideia de que Jesus tenha estado na índia, no Nepal e no Tibé, será discutida no próximo artigo deste fascículo, em que comentaremos a obra de um defensor de tal tese.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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