Os Anjos na Tradição da Igreja (Parte 2)

Deve-se a ele a concepção trinitária sobre a hierarquia angélica; isto é, a divisão da hierarquia celeste em três ordens ou hierarquias, composta cada uma de três coros:

1ª ordem: Três coros: Serafins; Querubins; Tronos.
2ª ordem: Dominações ou Soberanias; Virtudes; Potestades.
3ª. Ordem: Principados ou Autoridades; Arcanjos; Anjos.

S. João Cassiano (350-432), que foi monge e diácono de São João Crisóstomo, depois de haver passado dez anos nos desertos do Egito, fixou´se em Marselha. Nos livros VII e VIII de sua Coliationes (Conferências) analisou a vida dos anjos e dos demônios, afirmando que os demônios não podem arrepender-se; que são cruéis, e que Lúcifer caiu quando se recusou a reconhecer que sua própria beleza era obra do Criador. Uma terça parte dos Anjos o teria acompanhado. Ensinou que a lenda do casamento de Anjos e mulheres é totalmente falsa e completamente impossível e absurda, e que cada homem tem a seu lado um Anjo bom e também um mau (demônio) que o tenta.

São Leão Magno (400-461), Papa e doutor da Igreja, aquele que conseguiu que Átila, rei dos Hunos deixasse a Itália (452) e que os Vândalos sob Genserico respeitassem os habitantes de Roma (455), em suas Cartas e Sermões fala dos anjos e do demônio, a quem Jesus venceu, como homem, para libertar a humanidade de suas garras. Veja este belo texto de S. Leão sobre a Redenção: ‘Mas, o fato, caríssimos, de Cristo ter escolhido nascer de uma virgem não parece ditado por uma razão muito profunda? Isto é, que o diabo ignorasse que a salvação tinha nascido para o gênero humano, e, escapando-lhe que a concepção era devida ao Espírito, acreditasse que não tinha nascido diferente dos outros aquele que ele não via diferente dos outros. Com efeito, aquele no qual ele constatou uma natureza idêntica à de todos tinha, pensava ele, uma origem semelhante à de todos; ele não compreendeu que estava livre dos laços do pecado aquele que ele não viu isento das fraquezas da mortalidade. Porque Deus, que, em sua justiça e em sua misericórdia, dispunha de muitos meios para elevar o gênero humano, preferiu escolher para isso a via que lhe permitisse destruir a obra do diabo, apelando não a uma intervenção de poder, mas a uma razão de equidade. Porque, não sem fundamento, o antigo inimigo, em seu orgulho, reivindicava direitos de tirano sobre todos os homens e, não sem razão, oprimia sob seu domínio aqueles que ele tinha prendido ao serviço de sua vontade, depois que eles, por si mesmos, tinham desobedecido aos mandamentos de Deus. Por isso não era de acordo com as regras da justiça que ele cessasse de ter o gênero humano como escravo, como o tinha desde a origem, a não ser que fosse vencido por meio do que ele mesmo tinha reduzido à escravidão. Para esse fim, Cristo foi concebido de uma virgem, sem intervenção de homem… Ele [o demônio] não pensou que o nascimento de uma criança gerada para a salvação do gênero humano não lhe estava sujeito como o estava o de todos os recém-nascidos.

Com efeito, ele o viu vagindo e chorando, viu-o envolto em panos, submetido à circuncisão e resgatado pela oferenda do sacrifício legal. Mais tarde, reconheceu os progressos normais da infância, e até na idade adulta nenhuma dúvida lhe aflorou sobre o desenvolvimento conforme a natureza. Durante este tempo ele lhe infligiu ultrajes, multiplicou injúrias, usou de maledicências, calúnias, blasfêmias, insultos, enfim, derramou sobre ele toda a violência do seu furor e o pôs à prova de todos os modos possíveis; sabendo com qual veneno tinha infectado a natureza humana, ele jamais pôde crer que fosse isento da falta inicial aquele que, por tantos indícios, ele reconhecia por um mortal. Ladrão atrevido e credor ávaro, ele se obstinou em levantar-se contra aquele que não lhe devia nada, mas exigindo para todos a execução de um julgamento geral pronunciado contra uma origem manchada pela falta, ultrapassou os termos da sentença sobre a qual se apoiava, porque reclamou o castigo da injustiça contra aquele no qual não encontrou falta. Tornando-se, por isso, caducos os termos malignamente inspirados na convenção mortal, e, por causa de uma petição injusta, que ultrapassava os limites, a dívida toda foi reduzida a nada.

O forte é atado com os seus próprios laços, e todo o estratagema do inimigo cai sobre a sua cabeça. Uma vez amarrado o príncipe deste cpa_os_anjosmundo, o objeto de suas capturas lhe foi arrancado. Nossa natureza, lavada de suas antigas manchas, recupera sua dignidade, a morte é destruída pela morte, o nascimento é renovado pelo nascimento, porque, ao mesmo tempo, o resgate suprime nossa escravidão, a regeneração muda nossa origem e a fé justifica o pecador. (Sermão XXII , segundo Sermão do Natal)

São Gregório Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja, foi monge, e como Papa assinou uma trégua com os bárbaros Lombardos; influenciou a vida medieval com seus escritos. Escreveu muitas Cartas e Homilias e a obra Moralia in Job, em 35 livros, na qual fez uma notável análise da luta humana contra o demônio, partindo de considerações sobre o Livro de Jó. São afirmados nessa grande obra: ‘Os Anjos são incomparavelmente mais íntimos de Deus que os homens’. ‘São espíritos e somente espíritos, enquanto o homem é espírito e carne’ (Moralium 1. IV, c III, n 8). ‘Contemplam a Deus face a face’. ‘Comparados com nossos corpos materiais, são espíritos, mas comparados com Deus, que é espírito ilimitado, são de certa forma materiais.’

Satanás foi o primeiro e mais poderoso Anjo. Corresponde ao ‘Behemoth’ que aparece no Livro de Jó. ”Depois de haver caído por sua soberba, Satanás ainda conserva sua natureza angélica, porém perdeu sua felicidade, e vagueia pelo mundo tentando os homens.”

Santo Isidoro de Sevilha (560-636), Bispo e doutor da Igreja, Arcebispo de Sevilha, São Gregório de Tours, bispo, historiador (538´594) e grande defensor da Igreja;

São Beda o Venerável (Doutor da Igreja 670-735), também ensinou sobre os anjos.

São João Damasceno (650-749), sacerdote e doutor da Igreja, de Damasco, na Síria, considerado como o último dos ‘Padres da Igreja’, foi o principal defensor do culto das imagens. Sua doutrina exposta em Sumas é até hoje a teologia oficial das igrejas orientais ortodoxas. No capítulo 3 da obra Pegé gnóseos (Fonte da ciência), afirma: ‘Os Anjos foram criados do nada. São incorpóreos quando comparados com os homens, porém não possuem o mesmo grau de espiritualidade de Deus (puro espírito). Sua exata natureza só pode ser conhecida por Deus’.

‘Estão em um lugar determinado, embora não no espaço: como não são como os homens tridimensionais, a bilocação é para eles um fenômeno de ordem espiritual.” Os Anjos estão, onde atuam, isto é, onde exercem seu poder.’ ‘São imortais pela graça. Contemplam a Deus pela iluminação própria que Deus lhes concede.’ São João Damasceno aceita que haja distinção de graus de iluminação entre eles, e aceita também os nove coros de Anjos. ‘A obra dos Anjos no Céu consiste em louvar a Deus; na terra servem o Senhor e revelam seus mistérios. ‘O conhecimento do futuro lhes advém unicamente da revelação de Deus.’ ‘Os Anjos foram criados antes dos homens e antes mesmo do cosmos.’ O demônio escolheu livremente o mal que era uma espécie de obscuridade no âmbito do inteligível, e negou dessa maneira sua própria natureza. Uma multidão de Anjos que estavam sob seu comando o seguiu na revolta. Esta queda representou para os demônios o que a morte representa para os homens.

Já não podem arrepender-se, como não o podem fazer os homens depois da morte. Os demônios não possuem maior poder sobre os homens e as coisas, que aquele que Deus permite. ‘Não possuem nenhum conhecimento do futuro.’ São João Damasceno, e outros padres gregos, segundo a tese da dormição de Nossa Senhora e a sua imediata Assunção ao céu, afirmou: ‘Não apenas Anjos e Arcanjos, Potestades e Virtudes, mas também os Tronos, Querubins e Serafins, os supremos das hierarquias angélicas, rodeiam o corpo de Maria e cheios de alegria cantam seus louvores’ (Homilia I in Dormitionem) ‘Maria é mais santa que os Anjos, mais bela que os Arcanjos, mais venerável que os Tronos, mais poderosa que as Dominações, mais pura que os Poderes, mais radiosa que os Querubins, mais digna de respeito que os Serafins’. (Na Homília in Jaudem Deiparae)

São Bernardo, doutor da Igreja (1090-1150), em muitos de seus 340 sermões enaltece o culto e a devoção aos Anjos e descreve a contemplação dos mesmos à majestade divina e as homenagens que prestam à glória de Maria. (PL 182, 863-872. 878-884; Serm. 1-2 para a festa de São Miguel: PL 183, 447-454: Serm. sobre a Assunção de Maria). É importante saber que o Sínodo Permanente de Constantinopla, no ano 543, cujas conclusões foram sancionadas pelo Papa Virgílio, condenou a ideia de que o céu, o sol, a lua, as estrelas e as nuvens fossem forças materiais animadas, isto é, uma espécie de Anjos interiores e a opinião de que os demônios tenham sido castigados apenas por um determinado tempo e que no final, se reconciliariam com Deus.

Do Livro: ”Os Anjos” do Prof. Felipe Aquino

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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