Oriente Médio olha para frente

Encontro ecumênico debate situação da região

ROMA, domingo, 13 de março de 2011 (ZENIT.org) – A comunidade de leigos de Santo Egídio de Roma costuma reunir nesta época do ano estudiosos muçulmanos e cristãos e líderes políticos e religiosos para uma conferência de um dia sobre a situação no Oriente Médio.Cada participante expõe suas observações sobre a região e propõe esperanças, mas o evento deste ano, ocorrido em 23 de fevereiro, foi especialmente esperançoso e oportuno, diante dos atuais acontecimentos no mundo árabe.

Muitos expoentes expressaram a esperança de que as mudanças ocorridas tragam à região a oportunidade de abraçar finalmente a liberdade religiosa e a democracia, sem ignorar o problema dos extremistas que ocupam altos níveis do poder.

O ministro italiano de Assuntos Exteriores, Franco Frattini, abriu a conferência advogando por mais fundos da União Europeia para o diálogo entre cristãos e muçulmanos na região, “dinheiro que deveria ser gasto e que seria bem gasto”.

Destacou também a oportunidade para esses países de avançarem rumo à democracia, adotando os princípios da liberdade religiosa nas novas constituições.

“Isto só é possível”, afirmou, “se vier do povo e não de Bruxelas ou de Roma”, e “um dos benefícios agregados poderia ser o fim da emigração dos cristãos da região”.

O cardeal Antonios Naguib, patriarca copta católico de Alexandria, disse que os cristãos e os muçulmanos têm “raízes espirituais em comum, que são uma ponte e um terreno frutífero onde cooperar”.

Ele destacou que a vocação da Igreja é o serviço e que cada membro é chamado a realizá-lo na própria vida, “sem sincretismo nem relativismo, mas com humildade, respeito, sinceridade e amor”.

Apesar das diferentes noções que as religiões têm do homem, dos seus direitos e liberdades, o cardeal disse que “devemos pegar a estrada e definir juntos as bases para agir em comum, pelo bem-estar das nossas sociedades e dos nossos países”.

“Os direitos humanos são um terreno que compartilhamos”, acrescentou, chamando os cristãos e muçulmanos a “trabalharem unidos por um novo amanhecer no Oriente Médio”, apoiados pela oração, pelo entendimento e pelo amor fraterno em todo o mundo.

Mohammed Sammark, intelectual muçulmano sunita e co-secretário geral do Comitê Nacional para o Diálogo entre Cristãos e Muçulmanos no Líbano, expôs um ponto de vista realista.

Sammark destacou que os cristãos, que já sofreram muito sob os regimes autocratas do Oriente Médio no passado, poderiam agora ver-se diante de um futuro mais brilhante, mas dependente da “questão crítica” de saber se a liberdade política virá acompanhada da liberdade religiosa.

“Ainda existem incertezas demais”, afirmou, especialmente quanto ao modo a ser escolhido pelos novos governos para tratar das realidades regionais e da liberdade religiosa. Sammark destacou que os levantamentos não aconteceram por motivações religiosas ou antiamericanas, antiimperialistas ou antissionistas.

“Os gritos de ordem falavam estritamente de liberdade, democracia, dignidade, transparência, fim da corrupção, império da lei e do estado de direito, slogans vinculados diretamente aos direitos e valores humanos”, disse. “Esta é a essência das mudanças que estão em curso no Oriente Médio”.

Sammark não quis dizer, porém, que os islâmicos não “venham a tentar pular para o assento do piloto” e mudar os ideais dos manifestantes, nem que as mudanças sejam fáceis. Comparou os fatos com “um tremendo terremoto político e social”. E disse esperar muitas réplicas antes da volta à normalidade.

“A nossa esperança é que essas manifestações e levantamentos se baseiem no reconhecimento da identidade nacional e no respeito aos direitos plenos da cidadania”, comentou, antes de concluir: “Não haverá Oriente Médio sem cristãos e muçulmanos que se complementem, construindo a mesma civilização e compartilhando a mesma identidade nacional”.

Lançando luz sobre um possível caminho a seguir, Tarek Mitri, professor grego-ortodoxo da Universidade Americana de Beirute, destacou que, no contexto das relações entre cristãos e muçulmanos, seria essencial que a democracia e os direitos humanos “fossem intimamente relacionados com a cidadania e com o estado de direito”.

“Os direitos humanos, como a liberdade religiosa, nunca devem ser promovidos de maneira seletiva ou instrumentalizada no contexto da dominação externa, nem utilizados por um grupo de pessoas contra outro”, advertiu.

“É crucial afirmar a sua indissolubilidade para conciliar os direitos individuais com os direitos das comunidades, porque a genuína cidadania não pode coexistir com a homogeneização política das comunidades.”

Mitri, ex-ministro de cultura do Líbano, destacou que a pluralidade política nas comunidades promove a cidadania, mas só pode ser conseguida pelos políticos que governam em vez de dominar, e que “promovem a política cívica”.

Dois oradores presentes na Praça Tahrir durante a derrocada do regime de Mubarak deram depoimentos como testemunhas oculares do aspecto esperançador da sublevação.

Mohammed Esslimani, professor de teologia muçulmana sunita na Arábia Saudita, leu seu próprio informe sobre o acontecimento, dizendo que algumas das coisas que viu nunca tinham sido vistas antes no mundo árabe, como o fato de todas as religiões, partidos políticos e grupos de etnias e nacionalidades agirem juntas no que ele considerou como uma espécie de “sufi” (termo islâmico para o que é místico).

“A convivência foi muito bonita e espontânea, sem interferências externas”, disse. Foi a expressão de uma civilização real, com raízes na fé autêntica e plena, surgida de sábios ensinamentos do passado e na amargura do presente. “Um lindo mosaico formou-se, cheio de vida, que serviu de inspiração para o mundo inteiro”.

Disse ainda que alguns meios de comunicação deram informações falsas e reiterou que a Praça Tahrir “mostrou uma união real” entre cristãos e muçulmanos. Afirmou ter visto uma jovem de crucifixo que ofereceu sua echarpe de grife para que um muçulmano usasse como almofada de oração, além de um cristão que retransmitia as palavras de um imã para duas mil pessoas, que não conseguiam escutar o pregador.

Muhammad Rifaa Al-Tahtawi, ex-porta-voz da Universidade Al-Azhar do Cairo, recordou que os muçulmanos poderiam ajudar a proteger os cristãos para poderem rezar e vice-versa.

“Tivemos um ressurgimento do espírito do Egito e do Oriente, que é um espírito de união”, disse Tahtawi. “Todo mundo deixou de lado as desavenças e se concentrou num objetivo uno: a democracia, a prosperidade, a justiça e os valores comuns”.

Por Edward Pentin

http://www.zenit.org/article-27474?l=portuguese

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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