Orientações pastorais sobre a Renovação Carismática Católica – CNBB (Parte 1)

CNBB
27.11.1994

INTRODUÇÃO

1. Como pastores da Igreja
Católica no Brasil, nós Bispos nos dirigimos a todos os fiéis, propondo uma
reflexão sobre a Renovação Carismática Católica (RCC). De modo especial nos
dirigimos aos fiéis que nela têm encontrado meios de crescimento em sua vida
espiritual e apostólica.

2. O Espírito Santo anima e
sustenta a vitalidade da Igreja em sua dupla dimensão fundamental de comunhão e
missão. Ele suscita, orienta e assiste os grandes acontecimentos eclesiais como
o Concílio Ecumênico, os Sínodos Episcopais, as Conferências dos Bispos e de
outros membros do povo de Deus, as Assembléias Diocesanas e outras… Ele
sustenta também toda a grande obra missionária no mundo. É o mesmo Espírito que
faz brotar sempre novas iniciativas no seio do povo de Deus. Entre os vários
movimentos de renovação espiritual e pastoral do tempo pós conciliar, surgiu a RCC
que tem trazido novo dinamismo e entusiasmo para a vida de muitos cristãos e
comunidades.

3. Como Bispos, procuramos
estar sempre atentos à ação do Espírito, ajudando os cristãos a valorizá-la.
Freqüentemente enfatizamos algum aspecto determinado da vida da Igreja que
necessita de especial estímulo ou cuidado. É assim que, neste ano temos
incentivado nossas comunidades para a celebração do Ano Missionário.
Recentemente refletimos também com as CEBs ajudando-as a prosseguirem fiéis em
seu caminho. Nossa missão nos leva também a ajudar a discernir as verdadeiras
moções do Espírito, incentivando tudo aquilo que contribui para crescimento da
Igreja e a realização da sua missão. Em tudo, a busca da fidelidade deve ser
constante, busca realizada na humildade e em espírito de comunhão.

4. As orientações
fundamentais que aqui propomos para a RCC são válidas e necessárias também para
todas as comunidades em geral e para os demais movimentos e organismos de
Igreja. Todos devemos aprofundar nossa vivência eclesial, valorizando os novos
caminhos que o Espírito suscita e evitando deturpações e atitudes parciais que
dificultam a comunhão eclesial.

5. Nossa reflexão parte de
uma meditação sobre o Espírito Santo no mistério e na vida da Igreja, e se
desdobra a seguir com orientações pastorais sobre a Igreja Particular, a
Leitura e Interpretação da Bíblia, a Liturgia, e as Dimensões da Fé.
Finalizamos com algumas indicações de ordem mais prática e concreta.

6. Este texto é oferecido aos
membros da RCC para ser refletido e aprofundado. Ele quer ser ponto de
referência para um diálogo constante dos pastores com os fiéis nos vários
níveis da vida de Igreja.

O ESPÍRITO SANTO NO MISTÉRIO E NA VIDA DA IGREJA

7. Mistério da Igreja surge
na história pela missão do Filho de Deus e do Espírito Santo. Enviado pelo Pai,
o Verbo Divino assume a natureza humana para instaurar o Reino de Deus na terra
e instituir a Igreja a seu serviço, como “germe e princípio” desse
Reino ( cf. LG, 5b). Enviado pelo Pai e pelo Filho, o Espírito Santo vivifica a
Igreja e a faz crescer como Corpo Místico de Cristo (LG, 8).

8. Estando para consumar a
obra que o Pai lhe confiara, Jesus promete o envio do Espírito Santo que continua
e aprofunda a própria missão de Cristo (cf. Jo 14,17.26). Ele não falará por si
mesmo, mas ensinará e recordará aos discípulos tudo o que Jesus lhes disse (cf.
Jo 14,26). Ele glorificará Jesus porque receberá o que é de Jesus e o
comunicará (cf. Jo 16,14).

9. Em Pentecostes, pela
força do Espírito Santo, os Apóstolos se tornam testemunhas da Ressurreição
(cf. At 1,8; 5,32) e a Igreja-comunhão inicia a sua missão, espalhando-se pelo
mundo com dons e carismas diferentes. “Jesus continua sua missão evangelizadora
pela ação do Espírito Santo, o agente principal da evangelização, através de
sua Igreja”(CNBB, Doc. 45, 255). O Espírito Santo, protagonista de toda
missão eclesial (RMi, 21) leva a Igreja a “evangelizar com renovado ardor
missionário”.

10. O Espírito Santo é o
intercessor que nos introduz na vida da Trindade, para a realização do projeto
de Deus, na adoção filial, na glorificação dos filhos de Deus e da própria
criação (cf. Rm 8,19-27). Faz de cada cristão uma testemunha (cf. At 1,8 e 5,32),
gera dinamismo interior nos Apóstolos, tornando-os os primeiros evangelizadores
na expansão missionária da Igreja, realiza a unidade entre os que creem para
que sejam “um só coração e uma só alma” (At 4,32) e para permanecerem
unidos “na doutrina dos Apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão
e nas orações” (At 2,42). Habitando em nós (cf. Rm 8,9), faz morrer as
obras do pecado (cf. Rm 8,12). Ele comunica a verdadeira paz, que é comunhão na
vida feliz de Deus. É Aquele que “vem em auxilio de nossa fraqueza porque
nem sabemos o que convém pedir” (Rm 8,26).

11. O cristão, pela graça
batismal, é introduzido na intimidade da vida trinitária, partilhando da sua
riqueza na comunidade eclesial. A plena comunhão da Trindade manifesta-se na
Comunidade-Igreja e oferece vida nova (cf. 2 Pd 1,4; Ef 4,24; Col 3,10) de
relacionamento de filhos com o Pai (Gal 4,6).

12. Quem se deixa conduzir
pelo Espírito Santo faz de sua vida um testemunho de Jesus Bom Pastor (cf. Jo
10,10). Não poderá, portanto, retirar-se dos problemas e ambiguidades da
convivência humana, mas buscará construir fraternidade. “Não são os que
dizem Senhor, Senhor que entrarão no Reino de Deus, mas os que fazem a vontade
de meu Pai que está nos céus” (Mt 7,21).

13. O Espírito ensina,
santifica e conduz o povo de Deus através da pregação e acolhida da Palavra, da
celebração dos sacramentos e da orientação dos pastores. Distribui também
graças ou dons especiais “a cada um como lhe apraz” (1 Cor 12,11),
sempre “para a utilidade comum”. Por essas graças, Ele “os torna
aptos e prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios, que
contribuem para a renovação e maior incremento da Igreja (cf. 1 Cor 12,2; LG
12b).

14. O Espírito Santo
distribui seus dons aos fiéis, de tal forma que ninguém possui todos eles, como
ninguém está totalmente privado deles (cf. 1 Cor 12,4ss). Esses dons são sempre
para o serviço da comunidade (cf 1 Cor 14). Não é a experiência dos carismas
que exprime a perfeição da salvação, mas a caridade que deve perpassar toda a
vida do cristão (cf. Mc 12, 28-31; 1 Cor 13). Procura-la é o primeiro e melhor
caminho para a edificação do Corpo de Cristo que é a Igreja (cf. 1Cor
12,31-13,13; LG 42; AA 3).

15. Hoje Ele continua
renovando a Igreja através de múltiplas e novas expressões de fé e coerência
cristã. Podemos enumerar como frutos do Espírito os novos sujeitos da
evangelização; a expansão e vitalidade das CEBs; movimentos de renovação
espiritual e pastoral; a própria RCC; o engajamento de leigos na transformação
da sociedade; a leitura da Bíblia à luz das situações vividas na comunidade; a
liturgia mais participada com a riqueza de seus ritos e simbologia; a busca de
evangelização inculturada; a fidelidade de muitos na vida quotidiana; as lutas
do povo para a implantação dos direitos humanos; a prática da justiça e da
promoção social (cf. CNBB, Doc. 45, 301-302

II. ORIENTAÇÕES PASTORAIS

A) A Igreja Particular

16. O Concílio Vaticano II
ensina que a Igreja Particular é uma porção do Povo de Deus, confiada a um
Bispo para que a pastoreie com a cooperação do presbitério e dos diáconos. Nela
verdadeiramente reside e opera a Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja de
Cristo (cfr. CD 11).

17. “Conforme o próprio
Concílio Vaticano II, a comunidade eclesial é edificada pelo Espírito Santo,
mediante o anúncio da Palavra (Evangelho), a celebração da Eucaristia e dos
outros sacramentos, a vida de comunhão do Povo de Deus com seus carismas e
ministérios, entre os quais sobressai o ministério
episcopal-presbiteral-diaconal, que tem a responsabilidade de garantir os laços
que unem a comunidade de hoje com a Igreja apostólica e com o projeto
missionário, evangelizador, que lhe é confiado até o fim dos tempos”
(CNBB, Doc. 45, nº 196).

18. A liberdade associativa dos fiéis é reconhecida e
garantida pelo Direito Canônico e deve ser exercida na comunhão eclesial. O
Papa João Paulo II, na sua Exortação Apostólica Christifideles Laici (n. 30),
aponta critérios fundamentais para o discernimento de toda e qualquer
associação dos fiéis leigos na Igreja, que podem ser aplicados a todos os
grupos eclesiais:

o primado dado à vocação de
cada cristão à santidade, favorecendo e encorajando “uma unidade íntima
entre a vida prática dos membros e a própria fé” (AA, 19);

a responsabilidade em
professar a fé católica, no seu conteúdo integral, acolhendo e professam do a
verdade sobre Cristo, sobre a Igreja e sobre a pessoa humana;

o testemunho de uma comunhão
sólida com o Papa e com o Bispo, e na “estima recíproca de todas as formas
de apostolado da Igreja” (AA, 23);

a conformidade e a
participação na finalidade apostólica da Igreja, que é a evangelização e
santificação dos homens… de modo a permear de espírito evangélico as várias comunidades
e os vários ambientes (cf. AA 20);

o empenho de uma presença na
sociedade humana a serviço da dignidade integral da pessoa humana, mediante a
participação e solidariedade, para construir condições mais justas e fraternas
no seio da sociedade.

19. Reconhecendo-se a
presença da RCC em muitas dioceses e também a contribuição que tem trazido à
Igreja no Brasil, é preciso estabelecer o diálogo fraterno no seio da
comunidade eclesial, apoiando o sadio pluralismo, acolhendo a diversidade de
carismas e corrigindo o que for necessário.

20. Nenhum grupo na Igreja
deve subestimar outros grupos diferentes, julgando-se ser o único
autenticamente cristão.

21. A RCC assuma com fidelidade as diretrizes e
orientações pastorais da CNBB. A Coordenação Nacional da RCC terá um Bispo
designado pela CNBB, como seu Assistente Espiritual, que lhe dará
acompanhamento e ajudará nas questões de caráter nacional, zelando pela reta
aplicação desta orientações pastorais, sem prejuízo da autoridade de cada Bispo
Diocesano.

22. A RCC assuma também as opções, diretrizes e
orientações da Igreja Particular onde se faz presente, evitando qualquer
paralelismo e integrando-se na pastoral orgânica.

23. Os Bispos e os Párocos
procurem dar acompanhamento à RCC diretamente ou através de pessoas capacitadas
para isso. Por sua vez, a RCC aceite as orientações e colabore com as pessoas
encarregadas desse acompanhamento.

24. Os membros da RCC
participem dos Encontros, Cursos, Círculos Bíblicos e outras atividades
pastorais e de formação promovidos pelas Igrejas Particulares, bem como dos
momentos fortes que marcam a vida eclesial, tais como Campanha da Fraternidade,
Mês da Bíblia, Mês Missionário, Preparação de Natal e outros.

25. Deve-se também
reconhecer a legitimidade de encontros e reuniões específicos da RCC, nos quais
seus membros buscam aprofundar sua espiritualidade e métodos próprios, dentro
da doutrina da fé e da grande comunhão da Igreja Católica.

26. As Equipes de
coordenação da RCC integradas às diversas instâncias pastorais da Igreja
Particular, visem uma comunhão plena com as Comunidades, Associações, Pastorais
Específicas, Serviços e Organismos existentes na Diocese, respeitando-os,
valorizando-os, reconhecendo-os e colaborando com elas na busca de uma
autêntica articulação pastoral (cfr. CNBB, Doc. 45, 295 e 296).

27. Os grupos de Oração
alimentem o espírito de comunhão eclesial, busquem o crescimento na fé e a
perseverança de seus participantes levando-os a um efetivo compromisso na
evangelização engajando-se na Comunidade, Paróquia e Diocese.

28. As tarefas de
coordenação, animação de grupos e de evangelização sejam confiadas a pessoas
adequadamente preparadas e de comprovada vivência cristã.

29. Evite-se na RCC a
utilização de termos já consagrados na linguagem comum da Igreja e que na RCC
assumem significado diferente, tais como pastor, pastoreio, ministério,
evangelizador e outros.

30. O programa recentemente
lançado pela RCC no Brasil, intitulado “Ofensiva Nacional”, assuma o
Objetivo e as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil. Seus
projetos só poderão ser implantados em sintonia com os organismos pastorais da
Diocese.

31. Os convites a pessoas de
outras Dioceses para conferências, palestras, seminários e outros eventos,
sejam feitos com a devida anuência do Bispo Diocesano ou de quem for por ele
indicado.

32. Os manuais de oração,
livros de estudos bíblicos e de formação doutrinal, dada sua importância
pastoral, tenham aprovação eclesiástica.

B) Leitura e Interpretação
da Bíblia

33. A Palavra de Deus é a própria presença do Deus que
fala: “Escrutai as Escrituras… elas dão testemunho de mim” (Jo
5,39). Cristo, Evangelho vivo do Pai, não só é o centro da Bíblia, mas também
seu intérprete (cfr. Lc 24,13-35). A “Igreja venera as divinas Escrituras
como o próprio Corpo do Senhor” (DV, 21). E não apenas transmite a Palavra
de Deus, mas também a interpreta (cf. PCB, 127).

34. A Bíblia manifesta o Plano salvífico de Deus de modo
unitário. Por isso, não se podem utilizar textos ou palavras, sem referência ao
contexto e ao conjunto da Bíblia (cf. PCB, 142).

35. Para não prejudicar uma
reta leitura da Bíblia, é preciso estar atentos para não cair, entre outros,
nos seguintes perigos: 1º) O fundamentalismo, que é fixar-se apenas no que as
palavras dizem “materialmente” sem respeitar o contexto nem a
contribuição das ciências bíblicas; 2º) O intimismo, que é interpretar a Bíblia
de modo subjetivo, e até mágico, fazendo o texto dizer o que não era intenção
dos autores sagrados. Sobre isso, sigam-se as orientações do Magistério,
especialmente o recente documento da Pontifícia Comissão Bíblica sobre a
interpretação da Bíblia na Igreja.

36. É urgente a formação
doutrinal de todos os fiéis, seja para o natural dinamismo da fé, seja para
iluminar com critérios evangélicos os graves e complexos problemas do mundo
contemporâneo (ChL, 60). Dê-se especial importância a formação bíblica, que
ofereça sólidos princípios de interpretação.

37. Estimule-se a prática da
leitura orante da Bíblia (= lectio divina), fazendo dela fonte e inspiração de
nosso encontro com Deus e com os irmãos.

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.