Opinião: Do pluralismo ao relativismo, por Dom Redovino Rizzardo

No dia 23 de agosto, o Tribunal do Júri de Dourados julgou e condenou os dois assassinos de Edirceu de Oliveira, crime ocorrido a 4 de julho de 2010, motivado, aparentemente, por um maço de cigarros. O que impressionou a quantos se fizeram presentes ao ato – e à população que tomou conhecimento do fato – foram as atitudes dos réus ao longo da sessão. Um deles passou grande parte do tempo rindo e zombando dos familiares do falecido, que assistiam constrangidos à cena.
Na mesma semana, a imprensa internacional divulgou que 68% dos homens do Reino Unidos julgaram aceitável e normal para um jovem o comportamento do príncipe Harry – filho caçula de Diana e de Charles – que, poucos dias antes, num hotel de Las Vegas, nos Estados Unidos, fora visto despido, correndo atrás de mulheres também nuas. A própria família real achou que o rapaz nada fizera de errado.
No dia 22 de setembro, em Campo Grande, realizou-se a “Parada Gay”. Entre as pessoas que assistiam ao desfile, estava uma mãe, acompanhada de seus filhinhos. A alguém que lhe perguntava sobre a conveniência de crianças tão pequenas assistirem ao ato, ela respondeu: «Eu acho muito importante esse tipo de movimento nos dias atuais. Foi por isso que trouxe os meus filhos. Não adianta dizer pra eles que é feio, porque isso é normal. Faz parte da sociedade, e precisamos aprender a respeitar a diversidade».
Três notícias entre milhares de outras mais ou menos semelhantes, que nos falam da nova mentalidade que avança na sociedade atual, quais pontas de um iceberg que cresce de volume a cada dia que passa, destruindo valores e princípios que se pensava fossem intangíveis. O pluralismo cultural – que é uma riqueza – está gerando o relativismo ético – que é um desastre -, incentivando cada pessoa a construir a sua verdade, de acordo com seus interesses.
Um dos personagens que influiu para essa inversão de marcha na história é Friedrich Nietzsche (1844/1900). Seus livros ocupam as estantes na maior parte das universidades, inclusive no Brasil, colaborando para formar a mentalidade de inúmeros estudantes, destinados a ocupar postos de liderança na sociedade, como médicos, juízes, advogados, políticos, professores, etc.
Nietzsche pertencia a uma família que contava, entre seus antepassados, com vários pastores evangélicos. Apesar disso, acabou se tornando um adversário implacável da religião que detectava em amplos segmentos da sociedade de então. Crítico severo da moral imposta pelas Igrejas cristãs – que julgava indigna da pessoa humana -, ao falecer, no dia 25 de agosto de 1900, aos 55 anos, deixou como herança à humanidade uma filosofia de vida que, se assumida em sua radicalidade, só poderia levar ao suicídio, opção que ele mesmo tentou por três vezes ao longo de sua relativamente breve existência.Um dos frutos de seu desejo de fazer do homem a medida de todas as coisas, foi o nazismo, que assumiu e aperfeiçoou suas teses do super-homem e da raça pura. Para ele, o cristianismo é uma religião de escravos, que valorizam e buscam o que ofusca a grandeza humana, discípulos perfeitos de um Jesus fracassado e crucificado. Longe de ser uma “boa nova”, o Evangelho não passa de um acúmulo de mentiras. Como, aliás, toda a Bíblia, ele nada mais é do que uma coletânea de promessas não cumpridas.
Ensinando que «a única diferença entre Deus e eu é que eu existo», a conclusão só podia ser «ter fé é rejeitar a verdade». Diferentemente do que afirma a Bíblia, para ele foi «o homem que criou Deus à sua imagem e semelhança». Com tais premissas “religiosas”, é natural que também outros campos da cultura humana ficassem comprometidos: «O casamento é o término de uma série de pequenas tolices com uma grande estupidez», e «o sexo é uma armadilha da natureza para não se extinguir».
Quem expulsa Deus da sociedade, lhe torna difícil, senão impossível, o caminho para alcançar a verdade e a vida (Cf. Jo 14,6). Mas quem se sente sustentado e guiado por ele, já encontrou a resposta: «Não se iludam: com Deus não se brinca! Cada um colhe o que planta! Quem semeia nos instintos, colhe a corrupção; quem semeia no Espírito, colhe a vida eterna. Por isso, não nos cansemos de fazer o bem, pois, quando chegar o tempo, colheremos!» (Gl 6,7-9).
***Dom Redovino RizzardoBispo de Dourados (MS)
Fonte: Do pluralismo ao relativismo

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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