O valor da linguagem simbolista – EB (Parte 2)

b)  o número três
O número três gozava também de grande estima entre os semitas, não somente por ser o primeiro composto ímpar, mas também porque o triângulo equilátero constitui um dos símbolos mais expressivos de firmeza e perfeição; é figura que sobre qualquer de suas bases está sempre em pé, não se deixando de modo nenhum derrubar.
O ternário ocorre com frequência na Escritura, embora mais parcimoniosamente do que o número sete. Sejam aqui mencionados apenas os três filhos de Noé (Gn 6, 10), os três amigos de Jó (2, 11), os três justos de Ezequiel (14, 14), os três companheiros de Daniel (3,23), os três anjos que apareceram a Abraão (Gn 18, 2), os três dias passados por Jonas no ventre do monstro marinho (2, 1)… Em cada um destes trechos, o sentido do número três há de ser analisado à luz do gênero literário adotado pelo hagiógrafo.

c) o número dez
O número dez tornou-se importante entre os antigos pelo fato de que o homem primitivo, ao contar, recorria aos dedos de suas mãos; desta praxe se originou o sistema decimal. Em tais circunstâncias, o número dez foi tido como símbolo de um “todo completo, fechado em si”. É certamente este o significado que lhe compete nas genealogias dos setitas (Gn 5, 1-32) e dos semitas (Gn 11, 10-32): o hagiógrafo, ao mencionar dez Patriarcas em cada uma, de modo nenhum entendia dizer quantas gerações mediaram respectivamente entre Adão e Noé, Noé e Abraão, mas apenas queria referir-se a todos quantos (…) tenha realmente havido, ficando a cifra exata desconhecida tanto ao escritor como ao leitor. O que interessava ao autor sagrado era dizer que entre Adão e Noé, Noé e Abraão, a série dos tempos foi preenchida sem algum acontecimento digno de nota para a historiografia religiosa.

Sejam mencionados ainda:
os dez servos (= um grupo completo), as dez dracmas (= número redondo), as dez virgens (= todos os cristãos), nas parábolas de Cristo (Lc 19, 13; 15, 8; Mt 25, 1);
o catálogo (taxativo, não exaustivo) de dez adversários que não conseguem arrebatar ao cristão o amor de Cristo (Rm 8, 38s.);
a menção de dez vícios (não exaustiva), que excluem do reino de Deus (1Cor 6, 9s );
a série de dez milagres narrados sucessivamente para comprovar a autoridade de Jesus após o importantíssimo sermão sobre a montanha (Mt 8s.);
as dez prescrições dirigidas a quem queira subir à montanha do Senhor (S1 14).13

d)  o número doze
O número doze adquiriu apreço em virtude da divisão do ano em doze meses, divisão que já babilônios e egípcios observavam. Era natural que a cifra, abrangendo um período definido em si, simbolizasse, por sua vez, totalidade ou plenitude.
Na Sagrada Escritura, o número doze é básico para a história do povo de Deus. Este constava de doze tribos, portadoras da fé e da esperança messiânicas; em consequência, o reino messiânico mesmo é frequentemente assinalado pelo número doze. Com efeito, ele se propaga mediante a pregação dos Apóstolos, escolhidos pelo Senhor para constituírem o elo entre as doze tribos (a totalidade) do antigo Israel e a plenitude do novo Israel, agora recrutado dentre todas as nações. Baseado sobre os doze Apóstolos quais pedras fundamentais, o reino messiânico é descrito no Apocalipse como Cidade Santa, a nova Jerusalém, cuja estrutura é impregnada do mesmo número: tem doze portas, guardadas por doze anjos, ornada cada qual por uma pérola e o nome de uma das tribos de Israel; sobre cada qual das pedras da base acha-se o nome de um dos Apóstolos; a cidade, sendo quadrada, tem doze mil estádios de lado; a muralha perimetral mede cento e quarenta e quatro côvados (cf. Ap 21, 12. 14. 16s.20s.). Tais indicações significam o caráter de plenitude, consumação, que toca à nova Jerusalém ou à Igreja de Cristo; esta constitui o reino teocrático por excelência, em que os bens outrora outorgados às tribos de Israel se acham multiplicados e oferecidos a todos os homens.14

3. Enumerações proverbiais e arrendondadas
Dizia-se acima que os números na Sagrada Escritura  por  vezes   não são a expressão de quantidades, mas designam qualidades.
É preciso agora observar que, mesmo ao significar quantidades, são, por vezes, adaptados a artifícios de linguagem; os orientais admitiam facilmente certa latitude ao enunciar uma quantidade. É aos gregos, cuja civilização surgiu posteriormente à dos semitas, que o mundo ocidental deve a tendência à precisão matemática, à exatidão em geral; dos gregos receberam os demais europeus a geometria, a arte das medidas etc. Considerando este particular, os exegetas reconhecem haver na Sagrada Escritura enumerações intencionalmente enfáticas, também enumerações arredondadas, que não correspondem matematicamente à realidade.

Exemplo evidente de uso enfático, proverbial, encontra-se na história de Davi: para louvar a bravura deste guerreiro, cantavam os coros populares:
“Saul matou os seus mil;
Davi, porém, os seus dez mil”,
(1Sm 21, 12)
O sentido do adágio é claro: “por muito aguerrido que tenha sido Saul, Davi ainda o é mais”.
Outro artifício de números, aliás muito expressivo, é a disposição dos elementos enunciados em duas séries: n e n  + 1. Haja vista, por exemplo, o texto de Am 1,3-2, 8:o profeta anuncia a seis povos pagãos e às duas frações do povo eleito (Judá e Samaria) o castigo divino; ora, ao se dirigir a cada um dos réus, usa a fórmula introdutória estereotípica:

“Assim fala o Senhor:
Por causa de três crimes de… (Damasco, Gaza, Tiro…)
 E por causa de quatro crimes,
 Não revogarei o meu decreto (de punição)”.
(Am 1, 3.6.9.11.13; 2, 1.4.6)

A menção gradativa de três e quatro crimes não é de ordem matemática nem, por outro lado, é meramente retórica, mas tem seu significado próprio, proverbial. Com efeito, três, no contexto, possui valor de superlativo; indica que o réu é grandemente culpado.15  A instância quatro, acrescentada logo a seguir, significa que a iniquidade ultrapassa mesmo toda medida e, por isto, provoca irrevogavelmente a punição divina.16

Afirmações em que números são mencionados conforme o esquema n, n + 1 ocorrem frequentemente na Sagrada Escritura, em particular nos livros didáticos ou sapienciais. O artifício servia parte para ajudar a memória dos discípulos (que deviam aprender de cor as máximas sapienciais), parte para dar ênfase ao discurso: em vez de dizer simplesmente e de uma só vez o valor total, o orador preferia enunciá-lo parceladamente, prendendo mais a atenção do ouvinte;17 não raro o orador visava com isto a acentuar o último membro da série, fazendo recair mormente sobre este a força da sua afirmação. Eis alguns exemplos:
a figura um-dois ocorre em Jó 40,5; S1 61, 12;
a figura dois-três, em Jó 33, 29; Am 4, 8; Eclo 26, 19; 50, 25s.;
a figura dois-três-quatro, em Pr 30, 15s.;
a figura três-quatro, em Am 1s.; Pr 30, 18s.21-23.29-31; Eclo 26, 5;
a figura quatro-cinco (associada a dois-três), em Is 17, 6;
a figura cinco-seis, em 2Rs 13, 19;
a figura seis-sete, em Jó 5, 19; Pr 6, 16;
a figura sete-oito, em Ecl 11,2; Mq 5, 4;
a figura nove-dez, em Eclo 25, 7.18

Acontece também que a enunciação seja feita diretamente, sem gradação enfática (cf. Eclo 25, 1-4; Pr 30, 24).19
Ainda se deve observar que certos números na Sagrada Escritura não parecem ser nem indicações matemáticas, nem expressões proverbiais, mas simplesmente cifras aproximativas ou arredondadas. Exemplo marcante é o seguinte: o autor sagrado em 1Rs 7, 23 e 2Cr 4, 2, refere que o mar de bronze, grande piscina colocada por Salomão sobre doze estátuas de bois à entrada do Templo do Senhor, era circular e tinha um perímetro de trinta côvados por dez de diâmetro. No caso, a proporção entre a circunferência e o diâmetro seria simplesmente igual a três; o valor IT, que na matemática é de 3,1416, foi, portanto, expresso redondamente pela cifra três.  Outros exemplos seriam: o total de três mil provérbios que Salomão proferiu em sua vida, de acordo com 1Rs 4, 12; os setenta milhares de vítimas da peste desencadeada sobre o reino de Davi, conforme 2Sm 24, 15. Ao menos segundo bons comentadores, nada há que obrigue a se atribuir sentido literal a estas cifras.

4. Números mal transmitidos
Mais uma observação se impõe na exegese das cifras bíblicas.
Há problemas de números na Sagrada Escritura ocasionados por erros de cópia ou por deficiente conservação do texto sagrado. Está claro que em tais casos a autêntica interpretação se obtém pela aplicação das normas da arte crítica do texto, que em certo grau levam a reconstituir o teor original da página estudada.
Não era difícil que um copista hebraico incorresse em erros na transmissão dos números. As cifras eram assinaladas pelos caracteres do alfabeto; ora estes por vezes se assemelhavam tanto entre si que se podiam facilmente confundir uns com os outros; considerem-se, por exemplo, os sinais:
daleth =  4    e   resh  = 200
vau = 6   e   zain =  7  e  iod =  10
qof =  100  e  resf = 200
                
Eis alguns textos em que as mãos dos copistas introduziram variantes errôneas:
Gn 2, 2. O texto hebraico atual, assim como a tradução latina da Vulgata (séc. V. d.C.), apresentam a forma:
“Deus terminou no sétimo dia a obra que fizera, e repousou no sétimo dia”.
“Ao contrário, as traduções gregas dos LXX (séc. III a.C.) e síria (séc. I/II d.C.) dão a ler:
terminou no sexto dia… e repousou no sétimo…
Dentre estas duas variantes, não se hesita em julgar que a segunda é a original, embora só esteja conservada em traduções. O contexto a exige, e exige imperiosamente. A confusão entre “seis (sexto)” e “sete (sétimo)” se explica facilmente, considerada a afinidade gráfica de 1 (vau = 6) e J (zain =7)
Segundo o texto hebraico de 1Rs 5, 6 (Vg 4, 26) e 2Cr 9, 25, Salomão possuía quarenta mil manjedouras para os seus cavalos. Ora, a tradução grega dos LXX em 2Cr 9,25 fala apenas de quatro mil manjedouras, variante que mais fidedigna parece, embora não atestada pela forma atual do texto hebraico. Os tradutores gregos, no caso, nos terão transmitido o teor de um arquétipo hebraico mais bem conservado do que os nossos.

Em 2Cr 36, 9 (texto hebraico) lê-se que Jeconias tinha oito anos quando começou a reinar, ao passo que as traduções grega e síria, assim como a seção paralela de 2Rs 24, 8 lhe atribuem dezoito anos no início do seu reinado. Eis mais uma divergência que muito provavelmente se há de explicar por deficiente transmissão do texto original.
O texto hebraico hoje conservado de 1Sm 13, 1 se apresenta lacunoso: “Saul tinha a idade de… anos, quando começou a reinar; reinou … anos em Israel”. A causa do efeito não poderia ser indicada com precisão. As traduções dos LXX e da Vg suprem a deficiência, mas de modo descabido, interpretando fontes ou seguindo critérios atualmente desconhecidos. Assim é que dão a ler: “Saul tinha um ano quando começou a reinar; reinou dois anos em Israel”. São Paulo, em At 13, 21, refere outra tradição judaica, a qual assinala a duração de quarenta anos ao reinado de Saul. Diante destas variantes, difícil se torna reconstituir a realidade histórica.
Ao se estudarem os problemas de números na Bíblia Sagrada, é necessário outrossim se levem em consideração as glosas ou interpolações praticadas por mãos posteriores à do autor. Com efeito, acontecia por vezes que, diante de um texto aparentemente obscuro, um leitor desejoso de resolver a presumida dificuldade acrescentava um dado que, em vez de esclarecer, só fazia suscitar um problema exegético; outras vezes o interpolador visava a tornar mais semelhantes entre si dois textos que lhe pareciam afins um com o outro. Assim se originavam complicações para o futuro intérprete da Escritura Sagrada…

Haja vista apenas o seguinte exemplo:
Em 1CR 21, 5, lê-se que sob o rei Davi “todo (o povo) Israel contava com 1.100.000 guerreiros, e Judá 470.000 guerreiros”. Ora o autor de 2Sm 24, 9, em texto paralelo, menciona “800.000 guerreiros em Israel, e 500.000 em Judá”.20
A solução do problema é complexa…
Em primeiro lugar, note-se que algumas recensões gregas de 1CR omitem a cifra de 470.000 guerreiros em Judá. Além disso, observa-se que a primeira cifra (1.100.000 homens armados) se refere a todo o povo de Israel (incluindo a tribo de Judá, a quanto parece). Sendo assim, bons exegetas admitem que o número de 470.000 em 1Cr 21, 5 seja o produto de interpolação.
Eliminada esta cifra, o leitor se vê diante de duas tradições existentes no povo de Deus a respeito do número de soldados do rei Davi: a tradição de 1Cr 21 e a de 2Sm 24. Já que estes dados são indiferentes à mensagem religiosa da Bíblia, o Espírito de Deus não se dignou revelar aos hagiógrafos o número exato de guerreiros, mas permitiu que cada qual referisse simplesmente o que aprendera  por via humana; tais indicações bastavam para transmitir as verdades de índole religiosa que a história de Davi era destinada a comunicar aos leitores.
Feitas, porém, estas observações, ainda se deve reconhecer que qualquer das cifras – 1.300..000 (2Sm 24) ou 1.100.000 homens de guerra (1Cr 21) – é excessiva; supõe um total de quatro ou cinco milhões de cidadãos em Israel nos tempos de Davi – o que é inverossímil. Esta última dificuldade se esvanece se se considera que o termo hebraico “eleph, significando “milheiro”, podia designar a fração de uma tribo, determinada subdivisão administrativa, como é o caso em Jz 6, 15; 1Sm 10, 19; 23, 23; Mq 5, 8. “eleph, milheiro, pois, em linguagem militar, designaria um batalhão (ordinariamente  de mil homens), como centuria em latim significava o batalhão (ordinariamente de cem soldados). Ora pode-se bem admitir que os nomes “eleph (= milheiro) e centuria hajam sido  conservados na linguagem cotidiana, mesmo quando o efetivo dos batalhões já não era respectivamente de mil ou cem homens. Aplicando-se tal hipótese aos textos de 1Cr 21 e 2Sm 24, conclui-se que sob o rei Davi havia 1.100 ou 1.300 batalhões em Israel, sem que cada qual tivesse necessariamente o montante de mil homens. Destarte se chega a plausível solução do problema.
O fato de que Deus haja permitido a introdução de erros de cópia no texto sagrado, assim como a deficiente conservação ou a perda do original de alguns livros, não chega a afetar a mensagem religiosa da Bíblia. Com efeito, relativamente poucas são as variantes de alcance dogmático ou teológico registradas nos códigos sagrados. Assim nos livros do Novo Testamento, que têm sido os mais copiados e estudados no decorrer da era cristã, apontam-se cerca de 200.000 variantes, consignadas num total de aproximadamente 5.000 códigos; destas variantes, porém, a grande maioria versa sobre ortografia, uso ou omissão de preposições, artigos, emprego de sinônimos, posição de palavras na frase, não atingindo o sentido do que o autor sagrado queria dizer. Um pouco menos de 200 variantes tocam o significado do texto em pormenores secundários (cf. Rm 12, 13; Lc 2, 14; 1Ts 2, 7…). Cerca de quinze apenas dizem respeito a assuntos dogmáticos (cf. Mt 1, 16; Mc 1, 1; Lc 22, 19s.; Jo 1, 18; 1Cor 15, 51; 1Tm 3, 16…). Não obstante, para resolver as dúvidas teológicas provenientes de tais oscilações, a Sagrada Escritura mesma fornece outros textos, mais ou menos paralelos, sobre cuja fidelidade literária não pairam questões.21
Destarte a Providência Divina, sem querer impedir as vicissitudes por que naturalmente passam os manuscritos antigos, velou, não obstante, para que a defectibilidade das criaturas deturpasse a mensagem do Criador.  

5. Sentido exclusivo e sentido precisivo
Entre os princípios que norteiam a exegese dos números bíblicos, não se poderia deixar de mencionar mais o seguinte: os semitas às vezes atribuíam às suas enumerações sentido precisivo, não exclusivo, ou sentido taxativo, não exaustivo.       

Que quer isto dizer?
Entre nós, ocidentais modernos, as enumerações costumam ser exatas, excluindo cifra mais elevada do que a referida; aos números, portanto, se acrescenta tacitamente o advérbio “somente, apenas”; dá-se-lhes assim sentido exclusivo, a menos que o contrário se imponha pelo contexto.
O semita, embora usasse deste nosso modo de falar, fazia também enumerações que apenas prescindiam de quantidade maior, sem a excluir; contudo, assim falando, não julgavam  dever advertir o leitor a respeito do artifício. O orador deixava simplesmente de mencionar toda a quantidade, porque nem tudo vinha ao caso ou era de interesse na narrativa. A cifra enunciada correspondia à realidade considerada sob certo aspecto; não excluía, porém, que outro número, mais vultoso, fosse também fiel à realidade (considerada então sob aspecto diverso). Usavam assim o número em sentido precisivo, não exclusivo, absoluto.       

Eis como tal modo de falar repercute em passagens da Sagrada Escritura:
S. Marcos (10, 46-52) descreve como, ao sair de Jericó, o Senhor curou um cego; S. Mateus (20, 30), porém, no texto paralelo, fala de dois cegos. S. Marcos (5, 2) e S. Lucas (8,27) mencionam um homem possesso, que Jesus libertou do demônio, ao passo que S. Mateus (8,28) refere dois homens endemoninhados. Ora, ensina a sã exegese, estas são, outras tantas divergências em que o princípio exposto encontra aplicação.
Também nas suas indicações cronológicas os semitas faziam uso dos termos ora no sentido exclusivo ora no precisivo.

Exemplos deste último têm-se em:
Mt 26, 32: “Depois que tiver ressuscitado, preceder-vos-ei na Galileia”, disse Jesus aos Apóstolos; cf. Mc 14, 28. De modo semelhante anunciaram os anjos às mulheres santas: “Preceder-vos-á na Galileia; lá O vereis” (Mc 16, 17; cf. Mt. 28, 7). Contudo os evangelistas mesmos referem que no dia da ressurreição Jesus se mostrou em Jerusalém não somente às santas mulheres (cf. Mt 28, 9; Jo 20, 11s), mas também aos Apóstolos (cf. Lc 24, 36; Jo 20, l9-26). Disto se conclui que as profecias de aparições na Galileia tinham sentido precisivo, não exclusivo. Em outros termos, significavam: “Na Galiléia certamente vereis a Jesus (e aquelas manifestações serão as principais)”, na “Na Galileia, pela primeira vez, vereis a Jesus”.

Famoso é outrossim o uso bíblico da conjunção “até que”:
Em Mt 1,25 está dito que José não se uniu a Maria “até que desse à luz o seu filho…” Ora, conforme a tradição exegética vigente desde os tempos mais antigos, isto não quer dizer que, após haver Maria dado à luz, José tenha tido com ela comércio conjugal. Portanto, “até que”, no caso, não exclui o “depois que”, apenas “prescinde” ou faz abstração do que aconteceu depois;
O Sl 109,1 anuncia:
“Javé falou a meu Senhor (o Messias):
Senta-te à minha direita,
Até que eu faça de teus inimigos o supedâneo de teus pés”
O  oráculo não significa que, após debelados os inimigos do reino messiânico, o Messias haverá de perder o seu primado ou a sua realeza; tal interpretação contradiria a toda a teologia bíblica. É o que nos leva a dizer que também neste versículo não se deve atribuir ao termo “até que” sentido exclusivo, mas apenas precisivo.
As considerações deste parágrafo visam tão-somente a indicar as principais vias que conduzem à genuína interpretação dos números ocorrentes na Sagrada Escritura. O recurso a tais instrumentos exegéticos há de variar, naturalmente, de caso a caso; dependerá sempre do exame do gênero literário usado pelo hagiógrafo. Este exame manifestará as principais leis de estilo que o autor sagrado tenha seguido ao empregar os números. De antemão, porém, ficará o leitor consciente de que nem todo número na Bíblia quer e deve ser entendido como expressão quantitativa, matemática, da realidade.

***
Notas:

1. “Nomen est omen – O nome é um agouro”, diziam proverbialmente os romanos, herdeiros de idéias orientais.
2. Haja vista o vaticínio proferido sobre Judá:
8. “A ti, Judá, não de louvar os teus irmãos;
Tua mão pesará sobre a nuca dos teus inimigos.
Os filhos de teu pai (= as onze tribos de Israel) se prostrarão diante de ti (= tua descendência).
10. O cetro não será removido de Judá (= coletividade).
 Nem o bastão de comando dentre os seus pés,
 Até que venha Aquele a quem pertence (cetro)
 E a quem os povos obedecerão.
11. Ele (Judá) amarra à videira o seu jerico,
E ao melhor dos troncos o filhote do seu jumento.
Lava a sua veste no vinho e o seu manto no sangue da uva.
E os dentes brancos de leite”. (Gn 49, 8.10-12)
Como se vê, a prosperidade que no futuro deve tocar a Judá e a seus descendentes é descrita em termos referentes ora à tribo inteira (vv. 8.10) ora ao indivíduo apenas (vv. 11s.)
3. Veja-se a respeito B. J. Le Frois, “Semitic Totality Thinking”, em The Catholic Biblical Quarterly, XVII (1955), 2, 315-323.
4.  Cf. W. Robinson, “The Hebrew Concepton of Corporate Personality”, em Beiheft zur Zeitschrift fuer alttestamentiche Wissenschaft, 66 (1936), 53-56.
5. Le Frois, art. Cit., 318.
6. Diz-se que o homem primitivo considera primeiramente no número não a “grandeza, o valor quantitativo”, mas a “figura, o valor qualitativo” do mesmo.
7.É notório que o homem rude só sabe contar servindo-se dos dedos das mãos ou dos artelhos ou ainda de seixos (cálculos), ossinhos, nós feitos em cordame, os quais dão figura concreta, individual, às unidades e aos seus múltiplos (daí o verbo “calcular”, que originariamente significa “manejar cálculos, seixos”).
8.  Cf. T. Boman, Das hebraeische Denken im Vergleich mit dem griechischen, 144s.
9. Cf. Dt4, 26; 8, 1; 11, 8s.; 16, 20; 30, 19; Pr 8, 35s.; 9, 6.11; 14, 27; S1 33, 12-14; Br 3, 14.
10. Cf. E. Bettencourt, Ciência e Fé na História dos Primórdios (rio, 19552), 190s.
11. Já na Babilônia sete (= kissatu) era sinônimo de totalidade,  plenitude. Os caldeus fizeram do setenário um número sagrado, que ocorria freqüentemente nas suas histórias religiosas e nas cerimônias de culto. A figura da mão dotada de sete dedos era na Caldéia símbolo da plenitude da força e do poder, plenitude que é própria da Divindade.      
12.  Em um cântico penitencial babilônico, o orante confessava ter cometido sete vezes sete pecados, isto é, faltas numerosíssimas ou de incomensurável gravidade. Em outra oração, pedia sete vezes perdão.
Cf. J. Hehn, “Siebenzahl und Sabbat bei den Babyloniern und Alten Testament”, em Leipziger semitische Studien, II 5 (1907), 34s.
13. “Na antigüidade, todo santuário apresentava regras próprias, ordinariamente rituais, que deviam observar os que lá quisessem entrar para participar das bênçãos do culto. Em Israel essas regras eram enunciadas nos formulários da liturgia de entrada, todos impregnados de moralismo… Um destes… constitui o salmo 14, salmo em que é realçado o número dez:…
 A tradição israelita conhecia outros formulários que catalogavam em listas de doze os atos e as pessoas que mereciam maldição (Dt 27, 14-27), ou também os atos de obediência à Lei (Ez 18, 5-9)”.
A. Gelin, em L’Ami du Clergê, 57 (1947), 852.
14. O presente estudo, visando apenas a uma iniciação geral na Sagrada escritura, não comporta mais particulares a respeito dos números bíblicos. A interpretação de cada um destes requer estudo exato do respectivo contexto.
15. Haja vista o que se disse sobre o simbolismo do número três a página 81.
16. É bem de notar que, após a dita fórmula introdutória, o hagiógrafo não enumera nem três nem quatro faltas, mas incrimina o erro ou os erros (quantos sejam!) do respectivo povo.
17. Este artifício de ênfase parece tão espontâneo à psicologia humana que ele ocorre também na literatura extrabíblica.
Os filólogos têm comprovado que os números enunciados em tais fórmulas não possuem valor matemático, mas são símbolos, que hão de ser entendidos à luz do simbolismo oriental dos números. Eis, entre outros, um exemplo proveniente de documentos fenícios (ugaríticos), o qual claramente inculca não se deve atribuir às cifras sentido quantitativo:
“Uma terça parte, os homens idôneos, morrerá; uma quarta parte, os príncipes, morrerá; uma quinta parte será vitimada pela peste; uma sexta parte, os jovens herois do mar, será vitimada; uma sétima parte, eis que ela perecerá pela espada”.
Como se vê, as frações enumeradas dão uma soma de 459/420, a qual excede a unidade. Trata-se, pois, de números irreais concebidos para indicar que todas as categorias de responsáveis de determinado povo serão atingidas por flagelos diversos (a última fração é a do sétimo, número da totalidade!).
Cf. A. Bea, “Der Zahlenspruch im Hebraeischen und Ugaritischen”, em Bíblica, 21 (1940), 198.
Note-se também o bis terque de Cícero, o ter quaterque beati de Virgílio.
Não há dúvida, o emprego dos números em provérbios supõe por vezes o valor simbólico dos mesmos de que tratavam as páginas anteriores.
18. A fim de tornar mais significativas as referências acima, transcrevemos um ou outro dos textos citados:

“Eis, Deus faz isso tudo,
 Duas vezes, três vezes, em favor do homem,
A fim de o salvar da morte
 E iluminá-lo com a luz dos vivos”.
 (Jó 33, 29s.)

“A sanguessuga tem duas filhas: Dá, dá!
Três coisas são insaciáveis,
Quatro mesmo nunca dizem: Basta!
A região dos mortos, o seio estéril,
A terra que não se satura de água,
E o fogo que jamais exclama: Basta!”
(Pr 30, 15s.)

“Seis coisas há que o Senhor odeia,
E sete que ele abomina;
Os olhos altivos, a língua enganadora,
As mãos que derramam sangue inocente,
O coração que medita planos pecaminosos,
Os pés apressados a correr ao mal,
 A falsa testemunha que profere mentiras,
 E aquele que dissemina a discórdia entre irmãos.”
 (Pr 6, 16-19)

“Quando o assírio invadir nossa terra
 E seu pé calcar nosso palácio,
 Faremos levantar contra ele sete pastores
 E oito príncipes do povo.”
 (Mq 5, 4)

19. É o que se dá em Eclo 25, 1-4:
“Meu espírito compraz-se em três coisas
Aprovadas por Deus e pelos homens:
A união entre os irmãos, o amor ao próximo,
E um marido que se entende bem com a esposa.
Há, porém, três tipos de pessoas que minha alma detesta
E cuja vida me é insuportável:
Um mendigo soberbo, um ricaço mentiroso,
E um ancião tolo e insensato”.

20. “Israel”, neste último texto, é entendido como o reino cismático do Norte; “Judá”, como o reino do Sul.
21. A respeito ver Curso Bíblico por Correspondência, Módulo 3, da Escola “Mater Eclesiae”, C.P. 2.666 – 20001 Rio (RJ).

D. Estêvão Bettencourt – Osb

    

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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