O valor da linguagem simbolista – EB (Parte 1)

Após a acerba campanha ou desconfiança que o racionalismo do séc. XIX ocasionou contra o simbolismo diz-se que hoje em dia o mundo ocidental (a cultura europeia e americana) está de novo descobrindo o valor dos símbolos.
Com efeito, os recentes estudiosos da história, da psicologia, e até da psicanálise, afirmam cada vez mais categoricamente que o recurso a imagens e figuras é espontâneo ao indivíduo que pensa e fala; constitui uma exigência da natureza psicofísica do homem. Este adquire, sim, todas as suas noções a partir dos sentidos ou de imagens materiais; e, embora  reflita sobre estas, abstraindo conceitos universais, metafísicos, jamais se pode desvencilhar, nem ao raciocinar nem ao exprimir as suas conclusões, das figuras sensíveis donde parte o seu conhecimento. Mesmo no homem moderno, por mais “racionalista” que pretenda ser, tem sido comprovada a sobrevivência subconsciente de grande número de imagens, símbolos, que são o suporte e veículo de sua ciência. Isto quer dizer também: mesmo o indivíduo mais “realista” vive de imagens; e este simbolismo subconsciente é às vezes mais forte do que a vida consciente do indivíduo. O que o homem pode fazer é apenas camuflar ou mutilar os símbolos; nunca, porém, os consegue eliminar de sua mente. O simbolismo tem por fim exprimir as mais secretas modalidades, os finos matizes dos objetos, ou ainda aquilo que a intuição apreende, mas as fórmulas já não sabem traduzir adequadamente. A imaginação, devidamente utilizada, mostra o que é refratário ao conceito, ao raciocínio. A justo título se diz que o homem que não tem “imaginação” ou dela não quer usar, se separa da realidade profunda da vida e do seu próprio psiquismo; esteriliza a sua atividade e produtividade.

Ora bem se compreende que, principalmente ao se tratar de exprimir verdades religiosas, o simbolismo tenha função importante; as proposições religiosas, por definição, versam em torno de objetos transcendentes, que a razão e os conceitos humanos não podem definir de maneira cabal e exaustiva. Assim se explica que a Escritura Sagrada, aproveitando a inclinação inata do homem (mesmo do varão culto) ao simbolismo, faça uso deste (e uso assaz frequente) para transmitir verdades sobrenaturais.

Podem-se encontrar conclusões de estudos modernos sobre o assunto na obra de Mircea Eliade, Images et Symboles (Paris, 1951).

Nome e Números na Sagrada Escritura

O uso do nome e dos números no texto da Bíblia não constitui senão uma expressão a mais, e bem característica, do gênio semita, que as páginas anteriores apresentavam. Dada a importância de que se reveste o tema para a interpretação do Livro sagrado, vai-lhe dedicado o presente capítulo.

§ 1.º  A Filosofia do Nome

A maneira como os autores bíblicos se referem ao nome, seja de Deus, seja das criaturas, chama a atenção; só se pode explicar à luz de ideias dos orientais, que o Espírito Santo houve por bem respeitar.

E quais seriam essas ideias?

O nome, para os antigos, não era uma designação arbitrariamente anexa ao seu portador. Ao contrário, tinham-no como a caracterização do indivíduo, a expressão da íntima essência ou de um atributo, de uma função do portador.1 Alguns povos chegavam mesmo a conceber o nome como parte integrante do indivíduo e como coisa misteriosa, dotada das energias próprias do respectivo sujeito. Em consequência, os indivíduos poderosos, autoridades, herois, guerreiros, das nações antigas e de tribos atuais não civilizadas não revelavam nem revelam o seu nome, a fim de não comunicar a sua força íntima, o segredo do seu sucesso. Em virtude destas concepções, o nome, na linguagem oriental antiga, podia designar simplesmente o ser ou a vida do indivíduo nomeado.

É de notar, por exemplo, que na principal narrativa babilônica da origem do mundo, para significar que o céu e a terra não existiam, o autor diz que não eram nomeados. “Não ter nome” vem a ser o mesmo que “não ter existência”.

Tais idéias eram compartilhadas pelo povo de Israel, ocasionando na Sagrada Escritura modos de falar a nós estranhos, dos quais os mais dignos de nota são os seguintes:

1. O nome revela o íntimo do portador.

É o que se verifica na história de Davi, a quem Abigail se dirige nestes termos:

“Não tenha o meu Senhor cuidados para com… Nabal, pois este é o que o seu nome indica; seu nome é “o Tolo”, e nele há Tolice” (1Sm 25, 25)

Consequentemente, “mudar o nome” de alguém significa “assinalar-lhe nova função, novo destino na vida”. É o que Deus às vezes faz ao confiar aos homens um encargo de relevo:

Abram = “Pai elevado” torna-se Abraham =  “Pai de multidão”
(Gn 17, 5);

Jacó =  “Suplantador” torna-se Israel =  ‘Homem forte contra Deus”    (Gn 35, 10);

Raquel chama seu segundo filho Benoni  “filho de minha dor”, nome que Jacó substitui por Benjamim =  “filho da direita” (Gn 35, 18);

José, após haver salvo da fome o Egito, fica sendo Tsaphnath-Paneach =  “Provedor da vida”, em egípcio (Gn 41, 45);

o Senhor Jesus muda o nome de Simão, futuro fundamento da Igreja, para Cephas = “Pedra, Pedro” (Jo 1, 42).

2. O nome é identificado com a própria pessoa ou a existência do respectivo portador:

Conforme Eclo 6, 10, nada vem à existência sem que previamente haja sido pronunciado o respectivo nome. Ao contrário, a criança que nasce morta tem o seu nome recoberto pelas trevas (Eclo 6, 4; cf. S1 40,6).
 Por ocasião do recenseamento preceituado pelo Senhor, Moisés contou nomes ou indivíduos de cada tribo de Israel, como refere o texto de Nm 1, 2-42.

Em Ef 5, 3, S. Paulo pede que a fornicação e outros vícios não sejam nomeados entre os cristãos; o que só pode significar:… não tenham existência, não sejam praticados.

3. Em particular nos oráculos proféticos, “ser chamado…” é a mesma coisa que “ser…” Assim:

o futuro Messias será chamado (= será realmente)   “Conselheiro admirável, Deus forte, Pai eterno, Príncipe da paz” (Is 9, 5);

o Deus de Israel é chamado (e é, sem dúvida) ” Deus de toda a terra” (Is 54, 5);

Jesus Cristo, conforme o anjo, deveria ser chamado (= seria) “Filho do Altíssimo, Filho de Deus” (Lc 1, 32.35);

S. João Batista seria dito “Profeta do Altíssimo”, função que de fato desempenhou (Lc 1, 76);

os pacíficos serão chamados (= serão) “filhos de Deus” (Mt 5, 9; cf. Mt 5, 19);

a Casa de Deus tem por nome (por conseguinte, é) “Casa de oração” (Mt 21, 3; cf. Is 56,7);

Jerusalém, segundo os profetas seria chamada (porque deveras se tornaria) “Cidade fiel” (Is 1, 26), não mais “Abandonada”, mas “Minha complacência pousa sobre ela” (Is 62,4), “Desejada, Cidade não abandonada” (Is 62, 12), “Cidade da verdade, Montanha santa” (Zc 8, 3).

4. O nome sendo empregado como sinônimo da pessoa, atribuem-se lhe órgãos e atividade:

“Eis que o nome de Javé vem de longe,
Sua cólera arde, pesada nuvem se levanta.
Seus lábios respiram o furor
E sua língua é como fogo devorador.
Seu sopro se assemelha à torrente que transborda,
E sobe até a nuca”. (Is 30, 27s)

5. “Conhecer alguém pelo nome” é conhecer de maneira muito íntima, com especial carinho e interesse. Com efeito, dizia Deus a Moisés:

“Ainda farei o que pedes, pois encontraste graça aos meus olhos, e te conheço por teu nome” (Êx 33, 17; cf. 33, 12);

o Bom Pastor chama as ovelhas pelo nome e as ama a ponto de dar a vida por elas, declara Jesus em Jo 10, 3.11 (note-se o paralelismo entre os dois verbos!).

6. Visto que o nome era tido como portador da energia, da eficácia, do respectivo sujeito, “colocar o nome” de uma pessoa sobre outra ou sobre alguma coisa equivalia a “envolver tal pessoa ou coisa dentro do raio de ação do nomeado, pôr sob a proteção” ou também “tornar a pessoa ou o objeto posse, propriedade do nomeado”.

Assim é que, quando o sacerdote abençoava a multidão, “colocava o nome de Javé sobre o povo, e o Senhor o abençoava realmente” (Nm 6, 27);

o templo de Jerusalém é dito “o lugar que Deus escolheu para aí fazer habitar o seu nome” (Dt 12, 5.11.21; 16, 2.6.11);

por ocasião da travessia do deserto (êxodo do Egito), Deus prometeu enviar ao seu povo um anjo tutelar, “no qual estaria o nome de Javé” (cf. Êx 23, 2Os.);

num tempo de calamidade, sete mulheres procuram um homem e lhe pedem que seja o nome deste proferido sobre elas, a fim de que possam usufruir da tutela desse varão (cf. Is 4, 1);

aqueles que escrevem o nome de Javé sobre a própria mão, declaram-se com isto servos de Javé pertencentes unicamente ao Senhor (cf. Is 44,5; Ap 13, 16; 14,9);

se à cidade de Rabá se desse o nome do General Joab, a mesma ficaria sendo posse deste chefe israelita (cf. 2Sm 12, 28);

o monarca vencedor não raro mudava o nome dos homens subjugados, a fim de significar que doravante estariam sujeitos ao poder do novo soberano (cf. 2Rs 23, 34; 24, 17);

os homens por vezes desejam saber o nome de personagem misterioso que lhes aparece; este, porém, se nega a revelá-lo, pois, conforme a mentalidade vigente, a entrega do nome seria a consignação do poder próprio (cf. Gn 32, 30; Jz 13, 6).

Dadas estas concepções em Israel, a Lei de Moisés proibia terminantemente os usos mágicos, supersticiosos, do nome de   Deus, abusos que se verificavam nos cultos pagãos (proferindo o nome da Divindade, os magos julgavam poder dispor da força de Deus, coagindo o mesmo a socorrer os homens!). Qualquer pronunciar vão, irreverente, do nome de Deus era rigorosamente vedado pela Torá (cf. Êx 20, 7; 22, 17; Lv 20, 27; Dt 5, 11; 18, 9-13). Destarte Javé tolerava no seu povo um pressuposto da cultura oriental, herdado dos caldeus, antenatos de Abraão; o pressuposto era deficiente, sujeito a ser removido mais tarde…  Contudo o Senhor, tolerando, zelava rigorosamente para que tal concepção não afetasse a verdadeira fé e o legítimo culto de Deus.

Será preciso, porém, referir ainda outra modalidade da “Filosofia do nome” vigente entre os orientais, a qual também teve sua influência na redação de algumas passagens escriturísticas. Ei-la:

O nome de um indivíduo podia designar toda a linhagem do mesmo; as qualidades de um Patriarca prolongando-se na posteri¬dade desse varão, o semita não via dificuldade em aplicar o nome do pai à coletividade dele descendente. Destarte é que “IsraeI, Jacó” designam a nação eleita inteira em Is 41, 8; “Esaú” e “Jacó” representam dois povos em M1 1, 2s.; nos oráculos de Gn 49, os nomes dos filhos de Jacó significam ora uma pessoa, ora uma tribo; o autor sagrado transfere a sua atenção daquela a esta e vice-versa, sem o indicar explicitamente.2

  Os exegetas modernos explicam este modo de falar pela tendência dos orientais a pensar segundo categorias coletivas (pelo thinking in totalities, conforme os ingleses, o ganzheitliches Denken, conforme os alemães): os semitas costumavam julgar um indivíduo em função do todo a que pertencia.3 Na raiz deste fenômeno parece estar a chamada “lei da participação”, vigente entre os povos antigos, lei em virtude da qual se admitia a comunicação de qualidades da parte ao todo e do todo à parte,4 de sorte que a pessoa que nomeava um indivíduo se podia estar referindo a toda uma coletividade e vice-versa.

A “lei da participação” (na medida em que ela é verídica) explica bem que a mulher revestida do sol, tendo a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça, de que fala Ap 12, possa simbolizar tanto a Igreja (coletividade) como a Santíssima Virgem Maria (pessoa individual). S. João, ao redigir Ap 12, terá intencionado referir-se à Igreja, que dá o Cristo ao mundo e ao mesmo tempo luta contra o Dragão até o fim dos tempos. Eis, porém, que a função da Igreja, Mãe e Virgem, lutadora e vitoriosa, já foi no início da era cristã compendiosamente realizada em Maria Santíssima; esta é, por conseguinte, a pessoa individual que por excelência representa a coletividade da Igreja, participando dos predicados desta. Por isto, S. João, ao aludir a esta em Ap 12, a terá apresentado realçando os traços que lhe são comuns com Maria Santíssima.

Fenômeno semelhante se verifica em alguns salmos: toda a coletivi¬dade de Israel aí aparece como que concentrada na pessoa do seu rei. Este representa o povo, não como simples lugar-tenente, mas como se “o povo inteiro nele estivesse, e ele, por sua vez, fosse o povo”5  (cf. S1 59; 107; 137; 143).

Em conclusão: será necessário recorrer à mentalidade particular dos semitas para interpretar, ao menos em muitos casos, o significado que toca ao nome nas páginas da Sagrada Escritura. Também este aspecto da mentalidade oriental foi utilizado pelo Espírito Santo para exprimir a mensagem perene da Palavra de Deus!

§ 2.º  Os números nos textos Bíblicos

As cifras, por sua vez, suscitam, na Escritura Sagrada, questões múltiplas e árduas…

Acontece que, em algumas passagens, chamam a atenção por referir quantias extraordinariamente elevadas ou também insignificantes, que pouco fidedignas parecem; tomam assim caráter aparentemente fantástico. Em outros casos, são as variantes dos textos (bíblicos ou profanos) paralelos entre si ou a oscilação dos manuscritos antigos que provocam dificuldades de interpretação: entre duas ou três cifras indicadas pelas fontes, é preciso optar, e não se sabe sempre que critério seguir.

Ora, para resolver tais problemas, é indispensável que tenha o leitor em mente alguns princípios gerais, abaixo discriminados.

1.  Os números símbolos de qualidades
Os números figuram muitas vezes na Sagrada Escritura não como indicações de quantidade, mas como enunciações de qualidades; são a expressão de um juízo que o autor formula a respeito de tal ou tal sujeito. Nesses casos, está claro que as cifras se mostram inverossímeis para quem as queira entender como expoentes matemáticos; tornam-se, porém, altamente significativas para quem conheça a mentalidade do autor e a afinidade que os antigos estabeleciam entre certos números e determinadas qualidades.

A tendência a associar cifras e certos predicados ou também a certos seres (a Divindade, os espíritos, o homem, as criaturas inferiores…) é muito antiga, tão antiga mesmo quanto o uso de contar. Ela se baseia no fato de que os números estão essencialmente ligados com a ideia de regularidade, periodicidade, harmonia e, também, diferenciação, quebra. Além disto, a série dos números apresenta algo de misterioso para o homem: ela parece poder prolongar-se sem que este a consiga acompanhar; as combinações dos números entre si parecem ultrapassar a capacidade do espírito humano. É o que faz com que espontaneamente se liguem com os números as ideias de “Transcendente, Divino” ou “Mais Forte, Mais Pujante”.
Fenômenos significativos neste setor são os seguintes: mesmo entre povos primitivos cuja faculdade de contar é muito limitada, os pastores sabem exatamente verificar a falta de um ou mais animais nos seus rebanhos; com efeito, o proprietário de quatrocentas ou quinhentas ovelhas, ao ver o gado voltar do pasto para o aprisco, percebe de longe se alguma falta e sabe dizer qual ou quais as que se tenham perdido. Da mesma forma, o caçador primitivo, ao convocar os seus numerosos cães para a caça, é capaz de verificar a ausência de um só que seja. E – note-se bem – isto se dá sem que tais homens saibam contar além de uma ou poucas dezenas!

Os estudiosos explicam estes fenômenos pelo fato de que, para o homem primitivo, cada unidade está intimamente associada a notas individuais de um sujeito; pouco dotados de capacidade de abstração, os homens rudes não jogam com unidades abstratas, despojadas das notas concretas com que se realizam na natureza, mas toda unidade lhes fica na mente, inseparável de determinados predicados individuais. Basta então que o homem rude tenha boa memória (e, em geral, esta não falta nas tribos de civilização pobre), para que proceda praticamente como se soubesse contar. Sim; o pastor primitivo guarda na memória as notas características de cada animal; estas notas todas reunidas dão uma configuração de conjunto ao rebanho, configuração que define o rebanho. Em conseqüência, quando o aspecto do grupo é mutilado, o proprietário, em virtude da sua memória, o percebe e sabe dizer quais as notas que faltam no conjunto, ou seja, quantos e quais indivíduos desapareceram. Em tais fenômenos, bem se vê que a observação da qualidade precede a da quantidade ou cifra;6 o homem “conta” ou faz como se contasse, porque associa com cada unidade e com o conjunto das unidades predicados característicos.7 Entende-se então que, de maneira geral, ele venha a conceber cada cifra intimamente relacionada com alguma qualidade.

Esta “Filosofia do número”, porém, no decorrer dos tempos, parece fadada a cair em desuso. Normalmente em cada tribo a civilização e a vida cotidiana se vão tornando mais e mais complexas; a memória então já não é capaz de reter tudo que caracteriza os múltiplos indivíduos com que o homem lida; forma-se, em consequência, a noção de unidade abstrata, e de cifras de índole meramente quantitativa, matemática, destituídas de significado filosófico ou moral (sem atribuição de qualidades).8

2.  Alguns aspectos do simbolismo dos números
O “simbolismo dos números” acima explicado era patrimônio da sabedoria não só dos famosos pitagóricos e platônicos (gregos), mas também dos povos orientais e, diga-se explicitamente, dos israelitas. Eis as principais expressões desta mentalidade na Sagrada Escritura.

A – O simbolismo do número como tal
O número por si costuma significar ordem, harmonia. É o que explica a afirmação de Sb 11, 20: Deus tudo dispôs “conforme medida, número e peso”. É também o que ilustra a admoestação de Jesus: “Mesmo os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais!” (Mt 10, 30); o Senhor, com isto, ensina que a Providência Divina dispõe ordenadamente até as mínimas circunstâncias da vida humana.

Por conseguinte, a história dos justos é geralmente apresentada dentro de um quadro numérico, ou seja, com a indicação de datas ou cifras equivalentes a datas – coisa que frequentemente falta na linhagem dos ímpios.

Exemplo típico disto verifica-se nas genealogias dos cainitas (prevaricadores) e setitas (fiéis a Deus) em Gn 4, 17-24 e 5, 1-32: enquanto naquela não se encontra a menção de um só número, o nome de cada um dos descendentes de Sete é acompanhado de cifras, que lhe servem de moldura (o número de anos em que começou a gerar, a duração total de sua vida…). Algo de semelhante se dá na linhagem dos semitas, portadores da promessa messiânica, em Gn 11, 10-32. Tal uso dos números significa que a vida destes justos era harmoniosa, correspondente ao ideal que Deus lhes traçara.

Jó, desejando que o dia de seu nascimento não fosse contado entre os dias do ano, não fazia outra coisa senão proferir sobre o mesmo uma fórmula de maldição (cf. Jó 3, 6).

Já que os números frequentemente indicam qualidades, entende-se que as expressões de plural na Sagrada Escritura não designam sempre multidão, extensão, mas intensidade de um predicado.

É o que se verifica, por exemplo, na genealogia dos Patriarcas bíblicos: a extraordinária longevidade (centenas de anos) que lhes vem atribuída, exprime enfaticamente a alta venerabilidade que competia a esses homens; à figura de um Patriarca parece, sem dúvida, pertencer longa vida, que lhe confira experiência e autoridade. Em outros termos: longa vida é, conforme os autores israelitas, prêmio que Deus outorga à virtude;9 donde se segue que extraordinária longevidade tem por pressuposto extraordinárias virtudes. O declínio da longevidade à medida que se passam os tempos, desde Adão até Abraão, é sinal de que a corrupção, o pecado, vão exercendo cada vez mais os seus efeitos no gênero humano; o mal se alastra mais e mais, e o bem estar, a felicidade diminuem no mundo.10

Ocorrem no texto hebraico da Sagrada Escritura substantivos em forma plural que inegavelmente designam o único Deus, o Deus de Israel. Assim:

“Elohim, plural de “El, Deus ou Forte (?) (Gn 5, 22; 6, 9.11;7, 18;
Dt 4, 35; Is 46, 9);
Qedoshim, plural de Qadosh, Santo (Js 24, 19; Os 12, 1; Pr 9, 10; 30, 3);
“Elyonim, plural de “Elyon, Excelso (Dn 7, 18).

Estas formas de plural não indicam multiplicidade de sujeitos ou deuses, mas são maneiras de realçar a qualidade expressa pelo respectivo nome: a fortaleza, a santidade, a sublimidade do único Deus. Aplicando a Deus os termos concretos “Fortes, Santos, Excelsos”, os israelitas queriam dizer que o Senhor é a Fortaleza, a Santidade, a Sublimidade mesma (em hebraico, o conceito abstrato era expresso pelo plural do termo concreto).

Aliás sabe-se que também os povos pagãos, referindo-se a uma Divindade, empregavam formas de plural. O deus lunar Sin era chamado ilani scha ilani, os deuses dos deuses, isto é, o deus supremo. Os vassalos cananeus do Egito dirigiam-se ao Faraó mediante a fórmula ilania, “os seus deuses”.

B – O simbolismo peculiar de alguns números
Dentre os números, gozavam de preferência os ímpares. Julgava-se em certos círculos (mormente no pitagorismo, a partir do séc. VI  a.C.) que o número um é por excelência o Princípio não produzido, perfeito; o número dois, que se origina pela intervenção do vazio ou do intervalo na unidade, parecia essencialmente imperfeito. Em geral, os números pares eram considerados inferiores, moles ou femininos, quebradiços, por admitirem divisão em duas partes inteiras; ao contrário, os números ímpares, opondo-se a isto, eram tidos por fortes, viris, perfeitos.

a) O número sete
O número sete é dos mais dotados de valor simbólico na mentalidade antiga e na Escritura Sagrada.
O significado importante do septenário entre os orientais compreende-se pelo fato de que estes povos dividiam o tempo conforme as fases da lua. Em Israel, a estima geral dedicada ao número sete parecia sancionada pela própria Bíblia, que reconhecia e promulgava, já em suas primeiras páginas, a distribuição do tempo em semanas (cf. Gn 1, 1-2, 4a).
Visto que o número sete determina períodos mais ou menos completos, definidos, da vida humana, atribuíam-lhe o significado de totalidade, plenitude e perfeição.11 É com este sentido que ele ocorre, por exemplo,

aa) nas fórmulas de contratos e juramentos: Abraão deu a Abimeleque sete ovelhas como penhor de que cumpriria sua palavra (cf. Gn 21,30). De resto, os hebreus derivavam o verbo shaba, prestar juramento, dizer palavra firme, da mesma raiz que sheba sete;

bb) sempre que se queira exprimir a totalidade, tão grande quanto seja; assim o discípulo de Cristo há de perdoar setenta vezes sete vezes, isto é, indefinidamente, sempre que haja ocasião para isto (cf. Mt 18, 2ls.; Lc 17, 4).12  O autor de Pr 24, 16 se refere a sete (= todas as) quedas do justo. Veja-se ainda Gn 4, l5.24 (a vingança de Caim e a de Lameque).
Um fenômeno literário interessante ainda solicita atenção: no texto hebraico de 2Sm 12, 6 lê-se que o homem que haja roubado uma ovelha é obrigado a restituir quatro outras (de acordo com a lei formulada em Êx 20, 37; cf. Lc 19, 8). Eis, porém, que os judeus de Alexandria, ao traduzirem o trecho para o grego, em lugar de “quatro” puseram “sete ovelhas”. Esta tradução, à primeira vista, é estranha; contudo ela se explica muito bem, se se penetra na mentalidade dos tradutores: no caso, longe de atribuir a “sete” significado quantitativo, matemático, quiseram por meio deste número indicar melhor o que o texto original subentende, a saber: que se há de fazer a compensação cabal, exata do furto cometido (de resto, em Pr 6, 31 está dito que o ladrão deve restituir sete vezes o que roubou!);
cc) quando se quer indicar um dia ou um ano de repouso, de renovação, ano que mais se assemelhe à perfeição da vida celeste; tal dia ou tal ano é determinado pelo número sete (sétimo dia ou sábado, sétimo ano ou ano sabático, ano jubilar ou qüinquagésimo[7 x 7 + 1]). Cf. Gn2, 2; Êx 20, 10; Lv 25, 1-17.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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