O trigo e o pão

Da Europa, que se encolhe esgotada pelos dias de hoje, disse uma vez um escritor famoso ser o continente do trigo, tal como da Ásia se diz ser a terra do arroz e da América a terra do milho. Mas a Europa conseguiu dar uma aplicação superlativa a este cereal que nem sequer é natural de lá.

As mais distantes referências nos falam do trigo na Mesopotâmia e no Egito. Farinha sem refino e moída a pedra bruta, pães ásperos e grossos mesclados com terra, sabor insípido e forma simples quase sempre redondas. Não era realmente algo de admirar. E não obstante o pão de trigo sempre foi considerado um excelente alimento, insubstituível junto a qualquer comida e inclusive para ser comido sem acompanhamento. Refeição de pobres e de ricos, que nutria os patrícios romanos e os aristocratas do Antigo Regime, embebida em molhos e untada de cremes, que um simples pastor ou viajante levava em sua bolsa de coro para saciar a fome.

Talvez não seja necessário ler uma enciclopédia para reconhecer que a história do pão ganhar forma e cresce maravilhosamente com o bom fermento do cristianismo. Que pães variadíssimos, macios, assados, misturados com especiarias, frutas e sabores, com outros cereais, alhos, cebolas e alhos-porós, com figos maduros, em suma, bolos e biscoitos! A lista seria demasiada extensa, e o que é melhor, todavia seguem aparecendo fórmulas quase até o infinito, pois tudo depende da criatividade e do virtuosismo culinário, que entre seus ingredientes leva uma pitada de amor ao ofício do padeiro… que sem isto não se faz um bom pão em nenhuma parte do mundo, já que madrugar quando ainda não despontou o sol, todavia, é a pequena gota de mortificação que põe o bom padeiro em seu produto, frequentemente artesanal.
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“Aquela branca partícula… se presta submissa para converter-se em corpo e sangue do Criador do trigo”

Contudo, bem pequena se mostra esta variedade diante da expressividade que o pão de trigo tem de cada povo. Cada região foi capaz de lhe dar seu toque, seu sabor, sua forma e seu cozimento. Nobremente, a farinha parece compreender as mãos que a misturam, amassam, decoram, temperam e assam para deixar-se moldar ao gosto sem pôr nenhum obstáculo, e mais, sem ser nem um pouco exigente, pois nada é mais fácil que aprender a fazer pão. Outra coisa é fazê-lo com qualidade, pondo algo da personalidade, da própria mentalidade, das qualidades da alma, e isto, precisamente, é o que faz do pão nosso de cada dia em nossa civilização cristã mais que uma alimento uma benção.

Benção simplesmente incomensurável se pensamos naquela branca partícula quase transparente e fina, que sem fermento e amassada em água e trigo se presta submissa para converter-se em corpo e sangue do Criados do trigo e das mãos que a amassam. Uma piedosa lenda oriental cristã diz que o trigo foi arrancado furtivamente por Eva do paraíso, talvez pressentindo com fina intuição feminina no que viria a se transformar para a humanidade faminta de Deus na plenitude dos templos e chamada por Ele a divinizar-se.

Por Antonio Borda
Fonte: www.gaudiumpress.org

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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