O Tempo do Advento – Parte 4

2 – A
FIGURA DA PREPARAÇÃO: JOÃO BATISTA
Isaías está presente em João Batista, como
João Batista está presente naquele a quem preparou o caminho e que dirá dele:
“Não surgiu entre os nascidos de mulher outro maior que João
Batista”.
São Lucas nos conta com
detalhe o anúncio do nascimento de João (Lc 1, 5-25).
Esta estranha entrada em cena
de um ser que se tornará um dos mais importantes da realização dos planos
divinos é muito do estilo do Antigo Testamento. Todos os seres vivos deviam ser
destruídos pelo dilúvio, mas Noé e os seus foram salvos na arca. Isaac nasce de
Sara, já em idade avançada para dar à luz. Davi, jovem e sem técnica de
combate, derruba Golias.
Moisés, futuro guia do povo de
Israel, é encontrado em uma cesta (designada em hebraico com a mesma palavra
que arca) e salvo da morte. Desta maneira, Deus quer destacar que Ele mesmo
toma a iniciativa da salvação de seu povo.
O anúncio do nascimento de
João é solene. Realiza-se no marco litúrgico do templo.
Desde a designação do nome do
menino, “João”, que significa “Yahvé é favorável”, tudo é
concreta preparação divina do instrumento que o Senhor elegeu.
Sua chegada não passará
despercebida e muitos se alegrarão com seu nascimento (Lc 1, 14); abster-se-á
de vinho e bebidas embriagantes, será um menino consagrado e, como prescreve o
livro dos Números (6, 1), não beberá vinho nem licor fermentado. João já sinal
de sua vocação de asceta. O Espírito habita nele desde o seio de sua mãe. A sua
vocação de asceta une-se à guia de seu povo (Lc 1, 17).
Precederá o Messias, papel que
Malaquias (3, 23) atribuía a Elias. Sua circuncisão, fato característica,
mostra também a eleição divina: ninguém em sua parentela tem o nome de João (Lc
1, 61), mas o Senhor quer que seja chamado assim mudando os costumes. O Senhor
é quem o escolheu, é ele quem dirige tudo e guia seu povo.

Benedictus Deus Israelei
O nascimento de João é motivo
de um admirável poema que, por sua vez, é ação de graças e descrição do futuro
papel do menino. A Igreja canta esta poema todos os dias no final das Laudes
reavivando sua ação de graças pela salvação que Deus lhe deu e em
reconhecimento porque João continua mostrando-lhe “o caminho da paz”.

João Batista é sinal da
irrupção de Deus em seu povo. O Senhor o visita, o livra, realiza a aliança que
havia prometido. O papel do precursor é muito precioso: prepara os caminhos do
Senhor (Is 40, 3), dá a seu povo o “conhecimento da salvação.Todo o afã
especulativo e contemplativo de Israel é conhecer a salvação, as maravilhas do
desígnio de Deus sobre seu povo. O conhecimento dessa salvação provoca nele a
ação de graças, a benção, a proclamação dos benefícios de Deus que se expressa
no “Bendito seja el Senhor, Deus de Israel”.
Esta é a forma tradicional de
oração de ação de graças que admira os desígnios de Deus. Com estes mesmos
termos o servidor de Abraão bendiz a Yahvé (Gn 24, 26). Assim também se
expressa Jetró, sogro de Moisés, reagindo ao admirável relato do que Yahvé
havia feito para livrar Israel dos egípcios (Ex 18, 10). A salvação é a remissão
dos pecados, obra da misericordiosa ternura de nosso Deus (Lc 1, 77-78).
João deverá, pois, anunciar um
batismo no Espírito para remissão dos pecados. Mas este batismo não terá apenas
esse efeito. Será iluminação. A misericordiosa ternura de Deus enviará o
Messias que, segundo duas passagens de Isaías (9, 1 e 42, 7), retomadas por
Cristo (Jo 8, 12), “iluminará os que jazem entre as trevas e sombra da
morte” (Lc 1, 79).O papel de João, “preparar o caminho do
Senhor”. Ele o sabe e designa a si mesmo, referindo-se a Isaías (40, 3),
como a voz que clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor”. Mais
positivamente ainda, deverá mostrar àquele que está no meio dos homens, mas que
estes não o conhecem (Jo 1, 26) e a quem chama, quando o vê chegar:
“Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1, 29).João
corresponde e quer corresponder ao que foi dito e previsto sobre ele. Deve dar
testemunho da presença do Messias. O modo de chamá-lo indica que o l Messias
representa para ele: é o “Cordeiro de Deus”.
O Levítico, no capítulo 14,
descreve a imolação do cordeiro em expiação pela impureza legal. Ao ler esta
passagem, João, o evangelista, pensa no servidor de Yahvé, descrito por Isaías
no capítulo 53, que carrega sobre si os pecados de Israel. João Batista, ao
mostrar a Cristo a seus discípulos, o vê como a verdadeira Páscoa que supera a
do Êxodo (12, 1) e da qual o universo obterá a salvação.Toda a grandeza de João
Batista vem de sua humildade e ocultamento: “É preciso que ele cresça e
que eu diminua” (Jo 3, 30).

Todos verão a salvação de
Deus
O sentido exato de seu papel,
sua vontade de ocultamento, fizeram do Batista uma figura sempre atual através
dos séculos. Não se pode falar dele sem falar de Cristo, mas a Igreja não
lembra nunca a vinda de Cristo sem lembrar do Precursor. O Precursor não está
unido apenas à vinda de Cristo, mas também à sua obra, que anuncia: a redenção
do mundo e sua reconstrução até a Parusia. Todos os anos a Igreja nos faz atual
o testemunho de João e de sua atitude frente a sua mensagem. Deste modo, João
está sempre presente durante a liturgia de Advento. Na realidade, seu exemplo
deve permanecer constantemente diante dos olho das Igreja. A Igreja, e cada um
de nós nela, tem com missão preparar os caminhos do Senhor, anunciar a Boa Notícia.
Mas recebê-la exige a conversão. Entrar em contato com Cristo supõe o
desprendimento de si mesmo. Sem esta ascese, Cristo pode estar no meio de nós
sem ser reconhecido (Jo l, 26).

Como João, a Igreja e seus
fiéis têm o dever que não cobrir a luz, mas de dar testemunho dela (Jo 1, 7). A
esposa, a Igreja, deve ceder o posto ao Esposo. Ela é testemunho e deve
ocultar-se diante daquele a quem testemunha. Papel difícil o estar presente no
mundo, firmemente presente até o martírio. como João, sem impulsionar uma
“instituição” em vez de impulsionar a pessoa de Cristo. Papel
missionário sempre difícil o de anunciar a Boa Notícia e não uma raça, uma
civilização, uma cultura ou um país: “É preciso que ele cresça e que eu
diminua” (Jo 3, 30). Anunciar a Boa Notícia e não uma determinada
espiritualidade, uma determinada ordem religiosa, uma determinada ação católica
especializada; como João, mostrar a seus próprios discípulos onde está para
eles o “Cordeiro de Deus” e não cercá-los como se fôssemos nós a luz
que vai iluminá-los.Esta deve ser uma lição sem presente e necessária, bem como
a da ascese do deserto e a do recolhimento no amor para dar melhor testemunho.
A eloquência do silêncio no
deserto é fundamental a todo verdadeiro e eficaz anúncio da Boa Notícia.
Origens escreve em seu comentário sobre São Lucas (Lc 4): Quanto a mim, penso
que o mistério de João realiza-se no mundo ainda hoje”. A Igreja, na
realidade, continua o papel do Precursor; nos mostra Cristo, nos encaminha à
vinda do Senhor.Durante o Advento, a grande figura do Batista apresenta-se viva
para nós, homens do século XX, a caminho do dia de Cristo. O próprio Cristo,
retomando o texto de Malaquias (3,1), fala-nos de João como
“mensageiro” (4); João designa a si mesmo como tal. São Lucas descreve
João como um pregador que chama à conversão absoluta e exige a renovação:
“Que os vales se levantem, que montes e colinas se abaixem, que o torcido
se endireite, e o escabroso se iguale. Será revelada a glória do Senhor e todos
os homens a verão juntos”. Assim se expressava Isaías (40, 5-6) em um
poema tomado por Lucas para mostrar a obra de João. Trata-se de uma renovação,
de uma mudança, de uma conversão que reside, sobre tudo, em um esforço para
voltar à caridade, ao amor aos demais (Lc 3, 10-14). Lucas resume em uma frase
toda a atividade de João:

“Anunciava ao povo a Boa
Notícia” (Lc 3, 18).
Preparar os caminhos do
Senhor, anunciar a Boa Notícia, é o papel de João e ele nos exorta a que nós
desempenhemos. Hoje, este papel não é mais simples nos tempos de João e incumbe
a cada um de nós.
O martírio de João teve sua
origem na franca honestidade com que denunciou o pecado. João Batista anunciou
o Cordeiro de Deus. Foi o primeiro a chamar Cristo desta maneira.
Citemos aqui o belo Prefácio
introduzido em nossa liturgia para a festa do martírio de São João Batista, que
resume admiravelmente sua vida e seu papel:
“Porque ele saltou de
alegria no ventre de sua mãe, ao chegar o Salvador dos homens, e seu nascimento
foi motivo de alegria para muitos. Ele foi escolhido entre todos os profetas
para mostrar às pessoas o Cordeiro que tira o pecado do mundo. Ele batizou no
Jordão o autor do batismo, e a água viva tem desde então poder de salvação para
os homens. E ele deu, por fim, seu sangue como supremo testemunho do nome de
Cristo”.

3 – A FIGURA DA
ESPERANÇA: VIRGEM MARIA

A primeira vinda do Senhor
realizou-se graças a ela. E, por isso, todas as gerações a chamamos
Bem-aventurada. Hoje, que preparamos, a cada ano, uma nova vinda, os olhos da
Igreja se voltam a ela, para aprender, com estremecimento e humildade
agradecida, como se espera e como se prepara a vinda do Emanuel: do Deus
conosco. Mais ainda, para aprender também como se dá ao mundo o Salvador.
Sobre o papel da Virgem Maria
na vinda do Senhor, a liturgia do Advento oferece duas sínteses, nos prefácios
II e IV daquele tempo:
“…Cristo Senhor nosso,
a quem todos os profetas anunciaram, a Virgem esperou com inefável amor de Mãe,
João o proclamou já próximo e o apontou depois entre os homens. O próprio Senhor
nos concede agora nos preparar com alegria para o Mistério de seu Nascimento,
para encontrar-nos assim, quando ele chegar, velando em oração e cantando seu
louvor”.
“Nós vos louvamos, nós
vos bendizemos e vos glorificamos pelo Mistério da Virgem Mãe. Porque, se do
antigo adversário nos veio a ruína, no seio da Filha de Sião germinou aquele
que nos nutre com o pão celestial, e fez brotar para todo o gênero humano a
salvação e a paz. A graça que Eva nos arrebatou nos foi devolvida em Maria. Nela, mãe de
todos os homens, a maternidade, redimida do pecado e da morte, abre-se ao dom
de uma vida nova. Assim, onde havia crescido o pecado, superabundou vossa
misericórdia em Cristo nosso Salvador. Por isso nós, enquanto esperamos a vinda
do Cristo, unidos aos anjos e aos santos, cantamos o hino louvor…”
A Virgem Imaculada foi e
continua sendo a personagem dos personagens do Advento: da vinda do Senhor. Por
isso, cada dia, durante o Advento, evoca-se, agradece, canta-se, glorifica-se e
enaltece àquela que foi a aceitou livremente ser a mãe de nosso Salvador
“o Messias, o Senhor” (Lc 2,11).
Três textos dos tantos que um
é em honra à Bem-aventurada Mãe de Deus, em todo este Mistério preparado e
realizado. São da solenidade de santa Maria Mãe de Deus:

“Que admirável troca! O
Criador do gênero humano, tomando corpo e alma, nasce de uma virgem e, feito
homem sem concurso de varão, nos dá parte em sua divindade” (antífona das
primeiras Vésperas).
“A Mãe eu à luz o Rei,
cujo nome é eterno; a que o gerou tem ao mesmo tempo a alegria da maternidade e
a glória da virgindade: um prodígio tal jamais visto, não será visto novamente.
Aleluia” (antífona de Laudes).
“Pelo grande amor que
Deus tem para conosco, mandou-se seu próprio Filho em semelhança de carne de
pecado: nascido de uma mulher, nascido sob a lei. Aleluia” (antífona do
Magníficat primeiras Vésperas).
A partir da segunda parte do
Advento, a preponderância da Mãe Imaculada é tão grande, que ela aparece como o
centro do Mistério preparado e iniciado. Assim as leituras evangélicas do IV
Domingo, nos três ciclos, estão dedicadas a Maria. E nas missas próprias dos
dias 17 a
24, correspondentes às antífonas da O, tudo gira ao redor dela. E com razão.

“Os profetas anunciaram
que o Salvador nasceria de Maria Virgem” (Tercia) – “O anjo Gabriel
saudou Maria, dizendo: Ave, chia de graça, o Senhor está contigo, bendita és tu
entre as mulheres” (Sexta) – “Maria disse: O que significa esta
saudação? Fico perplexa perante estas palavras de que darei à luz um Rei sem
perder minha virgindade” (Nona).

Nas vésperas do primeiro
domingo de Advento, a antífona do Magnificat é tirada do evangelho da
anunciação: “Não temas, Maria, porque encontraste graças diante de Deus.
Conceberás em teu seio e darás á luz um filho”.
Na segunda-feira desta
primeira semana, nas vésperas, a antífona do Magnificat será: “O anjo do
Senhor anunciou a Maria e ela concebeu do Espírito Santo”.
Nas vésperas da quinta-feira
se canta: “Bendita és tu entre as mulheres”. Nas vésperas do segundo
domingo de Advento: “Ditosa tu, Maria, que creste, porque o que te foi
dito o Senhor cumprirá”. Nas laudes da quarta-feira há uma leitura tirada
do capítulo 7 de Isaías: “Vede: a Virgem concebeu e dará à luz um filho,
lhe porá o nome Emmanuel…”. O responsório da sexta-feira depois da
segunda leitura do ofício, é tirado do evangelho da anunciação em Lc 1, 26,
etc… E poderíamos continuar com uma longa enumeração.
Esta enumeração interessa
porque mostra como a presença da Virgem é constante nos Ofícios de Advento, bem
como na memória da primeira vinda de seu Filho e na tensão de sua volta no fim
dos tempos.
Embora o Natal seja para Maria
a festa mais indicada de sua maternidade, o Advento, que prepara esta festa, é
para ela um tempo de escolha e de particular preparação

Palavras do então Cardeal
Ratzinger (hoje, Papa Bento XVI) sobre o Advento
 Sentido do advento
«O Advento e o Natal
experimentaram um incremento de seu aspecto externo e festivo profano tal que
no seio da Igreja surge, da própria fé, uma aspiração a um Advento autêntico: a
insuficiência desse ânimo festivo por si só se deixa sentir, e o objetivo de
nossas aspirações é o núcleo do acontecimento, esse alimento do espírito forte
e consistente do qual nos fica um reflexo nas palavras piedosas com as quais
nos felicitamos nas festas. Qual é esse núcleo da vivência do Advento?

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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