O Sacrifício da Missa – Parte Final

A vítima desse sacrifício da
Missa, por ser esse holocausto o mesmo oferecido há dois mil anos e tornado
presente – eis que para Deus não há limites de espaço e tempo -, é Jesus
Cristo, sob as espécies e aparências de pão e vinho.

Finalidades do sacrifício

Todo sacrifício, seja ele
legítimo (isto é, ordenado ao verdadeiro Deus: o da Antiga Aliança e o da Nova,
inaugurada por Cristo e perpetuada na Missa) ou não (oferecido a falsas
divindades), tem quatro finalidades básicas.

A primeira delas é a
adoração. Num sacrifício, adoramos a Deus, reconhecendo-O como Senhor de tudo e
Rei de nossas almas. Submissos que somos a Ele, reconhecemos Sua soberania
sobre nós, oferecendo algo, como que O presenteando. Na Cruz, Cristo foi a
oferta dada a Deus. A morte de Cristo, de um modo sobrenatural e misterioso,
agradou a Deus, Seu Pai, e foi como que um presente a Ele (notemos que Deus não
é um carrasco, mas Seu agrado pelo sacrifício de Seu Filho deve-se a que, por
ele, o plano original é restaurado, e também porque a obediência de Cristo
tornou possível que todos nós O obedeçamos). Na Missa, por sua vez, eis que é o
mesmo sacrifício tornado presente, Cristo é ofertado ao Pai. Em nosso rito
romano, podemos entender perfeitamente essa entrega de adoração, nas palavras
do sacerdote: “Por Cristo, com Cristo, e em Cristo, a vós, Deus Pai
Todo-Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e a toda a glória,
agora e para sempre.” É por essa razão que somente o celebrante, o sacerdote,
pode recitar essas palavras, a que os fiéis respondem com um solene “amém”. Se
o sacerdote o é pela íntima vinculação com o único, eterno e supremo sacerdócio
de Jesus Cristo, através do Sacramento da Ordem, somente ele pode agir, in
persona Christi, adorando a Deus da mesma forma com que Nosso Senhor O adorou
por Sua morte. O padre, digamos assim, embora não seja teologicamente preciso,
“faz as vezes de Cristo”.

O segundo fim que quer em um
sacrifício é a ação de graças a Deus por todas as graças e bênçãos recebidas. A
entrega de Jesus foi, também, um agradecimento ao Pai, e isso é renovado na
Santa Missa. Tanto esse caráter é essencial no sacrifício, sobretudo no
verdadeiro e único sacrifício da Cruz e do altar, que a expressão “ação de
graças” se diz, em grego, eucharistia.

Também o sacrifício deve ser
impetratório, de súplica a Nosso Senhor por favores divinos, novas graças e
bênçãos. Morrendo na Cruz, Jesus pediu ao Pai uma graça específica em favor
daqueles que O estavam matando: “Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que
fazem” (Lc 23,34) A Missa, por ser o sacrifício de Cristo tornado presente, é a
ocasião propícia para fazermos violência ao céu e clamarmos para que Deus nos
seja solícito em atender nossas preces.

Por fim, o sacrifício tem um
caráter propiciatório. No Antigo Testamento, se ofereciam cordeiros pelos
pecados do povo. Na Nova Aliança, fundada por Cristo em Sua Santa Igreja
Católica, Ele próprio foi oferecido, tal qual o Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo. Esta Aliança é definitiva, e ela é que nos rege, de modo que
na Santa Missa, sua perpetuação até que Nosso Senhor retorne, Cristo se
oferece, não novamente, pois se trata do mesmo e único sacrifício, mas de uma
nova maneira, incruenta, e sob a aparência de pão de vinho – na verdade, Seu
Corpo e Sangue verdadeiros. A propiciação na Missa revela-nos que é a ira de
Deus sobre nós, injustos, maus e pecadores, que é aplacada, dando-nos a
misericórdia do Senhor que enviou Seu Filho “para que todo aquele que nele crer
não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16), e a conseqüente remissão dos
pecados.

“A natureza sacrificial da
Missa, que o Concílio de Trento solenemente afirmou (cf. Sessão XXII, 17 de
setembro de 1562: DS 1738-1759), em concordância com a universal Tradição da
Igreja, foi de novo proclamada pelo Concílio Vaticano II, que proferiu sobre a
Missa estas significativas palavras: ‘O nosso Salvador, na última ceia,
instituiu o sacrifício eucarístico do Seu Corpo e Sangue para perpetuar o
sacrifício da Cruz através dos séculos até a Sua volta, e para confiar à
Igreja, Sua Esposa muito amada, o memorial de Sua morte e Ressurreição.’
(Constituição “Sacrossanctum Concilium”, 47) O que o Concílio ensinou com estas
palavras encontra-se expresso nas fórmulas da Missa. Com efeito, a doutrina já
expressa concisamente nesta frase do antigo Sacramentário, conhecido como
Leoniano: ‘Todas as vezes que se celebra a memória deste sacrifício, renova-se
a obra da nossa redenção’ (Missa Vespertina na Ceia do Senhor, Oração sobre as
Oferendas), é desenvolvida clara a cuidadosamente nas Orações Eucarísticas;
nestas preces, ao fazer a anamnese, dirigindo-se a Deus em nome de todo o povo,
dá-lhe graças e oferece o sacrifício vivo e santo, ou seja, a oblação da Igreja
e a vítima por cuja imolação Deus quis ser aplacado, e ora também para que o
Corpo e Sangue de Cristo seja um sacrifício agradável ao Pai e salutar para o
mundo. Assim, no novo Missal, a regra da oração da Igreja corresponde à regra
perene da fé, que nos ensina a identidade, exceto quanto ao modo de oferecer,
entre o sacrifício da Cruz e sua renovação sacramental na Missa, que o Cristo
Senhor instituiu na última ceia e mandou os apóstolos fazerem em Sua memória.
Por conseguinte, a Missa é simultaneamente sacrifício de louvor, de ação de
graças, de propiciação e de satisfação.” (Instrução Geral sobre o Missal
Romano, Roma, 2000, Tradução portuguesa para o Brasil da separata da terceira
edição típica preparada sob os cuidados da Sagrada Congregação para o Culto
Divino e a Disciplina dos Sacramentos)

A Missa é também Sacramento

“A Eucaristia é o Sacramento
que sob a espécie de pão de vinho contém verdadeira, real e substancialmente o
corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, para alimento espiritual da
alma.” (DEL GRECO, Pe. Teodoro da Torre. “Teologia Moral”, Edições Paulinas,
São Paulo, 1959; p. 510)

Analisemos, essa afirmação
do respeitado canonista.

A Eucaristia, isto é, a
Santa Missa, é, primeiramente, um Sacramento. É, portanto, segundo a clássica
fórmula de Teologia Dogmática, um sinal visível de uma graça invisível. Essa
graça invisível é comunicada pelo Pai, em nome do Filho, Nosso Senhor Jesus
Cristo, através da operação do Espírito Santo, a todos os fiéis que do
Sacramento participam. Santifica-nos e dá-nos uma virtude própria de cada Sacramento,
o que, no caso da Eucaristia, é alimentar-nos espiritualmente e fazer-nos um
com o Cristo, atendendo à oração que Ele mesmo fez: “Não rogo somente por eles,
mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em mim. Para que todos
sejam um, assim como Tu, Pai, estás em mim e eu em Ti, para que também eles
estejam em nós e o mundo creia que Tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me
deste, para que sejam um, como nós somos um.” (Jo 17,20-22) A graça própria
desse Sacramento, portanto, é entrarmos em perfeita comunhão com Jesus e, por
Ele, com a Santíssima Trindade, participando da vida divina, e, por isso mesmo,
santificando-nos progressivamente, rumo à Pátria celeste que nos é destinada.

Tal Sacramento se apresenta
sob as espécies de pão e vinho. A aparência da Eucaristia é a de pão e de
vinho, embora, pelas palavras da consagração recitadas pelo sacerdote, que age
na pessoa de Cristo, unido, como já se disse, ao único e eterno sacerdócio do
Senhor Jesus, a substância mude para Corpo e Sangue. É necessário que
entendamos os princípios filosóficos e teológicos, magistralmente codificados
por São Tomás. Uma coisa é a substância, outra a aparência, a forma. Diferente
é a essência do acidente. Na Santa Missa, a aparência continua sendo a de pão e
de vinho, os elementos acidentais (gosto, resistência ao tato, forma) não
mudam. Porém, a substância já não é mais a mesma, eis que a essência foi
modificada de pão e vinho para Corpo e Sangue. Não um símbolo, não um sinal,
não uma figura espiritual, mas a presença verdadeira, real e substancial de
Nosso Senhor Jesus Cristo, conforme as próprias palavras do Pe. Teodoro. Por
isso, não ocorre uma transformação, isto é, uma mudança na forma, mas trata-se
de uma transubstanciação, pois é a substância quem muda.

Como Sacramento que é a
Santa Missa é celebrada somente por quem está de tal maneira unido a Cristo,
que participe intimamente do Seu sacerdócio. Já dissemos que aqueles que se
encontram nesse estado são os presbíteros e os bispos, em virtude do caráter
indelével de associação ao ministério messiânico impresso em suas almas pelo
Sacramento da Ordem. O sacerdote é quem pode oferecer a Missa, consagrando a
Sagrada Eucaristia. Também é ele o ministro – todo Sacramento deve ter um
ministro – da distribuição dessa Eucaristia na Missa e fora dela, em casos
específicos. De maneira subsidiária, e somente em casos extremos e autorizados
pelo Ordinário local – em consonância com as normas emanadas da Santa Sé –
podem alguns leigos serem investidos de um verdadeiro mandato para exercerem as
funções de Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística, para distribuir a
Eucaristia naquelas situações. Convém observar atentamente as normas aludidas,
para que não se incorra no abuso que vemos hoje na maioria de nossas paróquias.

Funções sagradas e rito na
Missa

Tudo, na Missa, deve se
ordenar para o essencial. Nada deve fugir a isso, sob pena de esquecermos que a
Missa é um sacrifício.

Infelizmente, esse
esquecimento toma conta da Igreja hodierna, culpa, também, dos abusos litúrgicos
ocasionados pela desobediência das normas emanadas da Santa Sé.

A Missa, como cerne do culto
católico, em função de ser o sacrifício, penhor de nossa salvação e abertura
das portas do céu para nós, pela graça, deve comunicar aos fiéis, toda a riqueza
da Tradição da Santa Igreja. A Liturgia da Missa se presta, também, ao ensino
das verdades dogmáticas, cridas pela Igreja pela Revelação de Deus. “Pela
Revelação divina, quis Deus manifestar-Se e comunicar-Se a Si mesmo e os
decretos eternos de Sua vontade acerca da salvação dos homens, a saber, para
fazer participar os bens divinos, que superam inteiramente a capacidade da
mente humana.” (Concílio Ecumênico Vaticano II, Constituição Dogmática “Dei
Verbum” sobre a Revelação Divina)

Para que isso seja feito de
forma eficaz, e a Missa possa passar aos homens de nosso tempo a verdadeira
Tradição de modo que eles a compreendam, a Igreja se mantém sempre vigilante
para restaurar e enriquecer as normas litúrgicas, ao passo que estabelece a ela
própria a faculdade de assim fazê-lo, garantindo que não se coloque em risco o
essencial.

A melhor forma de transmitir
a Fé Católica, a Tradição e, principalmente, aquilo que é a Santa Missa, ou
seja, seu caráter sacrificial tanto esquecido pela desobediência do princípio
descrito no parágrafo anterior, é a fiel observação de certas normas, expressas
nos documentos eclesiais e nas rubricas dos livros litúrgicos. No rito romano,
os livros por excelência, onde se encontram os formulários da Missa e o modo de
oferecê-la, são o Missal Romano e o Pontifical Romano, ambos restaurados e
reformulados após o Concílio Vaticano II, para “exprimirem mais claramente as
realidades sagradas que significam” (Constituição Apostólica de Sua Santidade,
Paulo VI, “Missale Romanum”, de 3 de abril de 1969)

O uso adequado dos
paramentos, o correto oferecimento da Missa, e a obediência irrestrita às
rubricas não devem ser causa para que pensemos estarmos atrelados a uma forma
fria de religiosidade. Pelo contrário, essa fidelidade, por apontar para o
sacrifício, a ele se ligar, e por melhor demonstrar ao povo esse caráter da
Santa Missa – eis a razão do seguimento de certas normas – dá a legítima ideia
de submissão, piedade e unção, além daquilo que é mais substancial: protege a
Missa de falsos conceitos daquilo que ela não é, e inculca na mente dos
católicos e dos não-católicos aquilo que ela é – um verdadeiro e real
sacrifício, o mesmo do Calvário, oferecido por Cristo para o perdão dos nossos
pecados.

Bens que se adquire com a
participação na Santa Missa

Por tornar presente o
sacrifício de Cristo na Cruz, a participação na Santa Missa é essencial na vida
do cristão. É pela morte de Jesus que temos uma vida cristã. Por ela, temos
novo acesso a Deus. O sacrifício de Nosso Senhor e Sua gloriosa Ressurreição
são a ponte que temos para chegar ao Pai e recuperar o estado perdido de
justiça original. Sem o sacrifício de Cristo, não há salvação. Sem salvação,
não há Igreja. Sem Igreja, não há vida cristã e tornam-se sem sentido e até
inexistentes nossos esforços cotidianos por santificação.

No Domingo, dia do Senhor,
em que relembramos a Sua Ressurreição, centro da nossa fé católica, estamos,
pois obrigados a assistir Missa inteira. Essa obrigação deve ser observada,
mesmo quando não temos a mínima vontade de ir à igreja. É pelo exercício
constante que, com o tempo, ou mesmo instantaneamente, conforme o desígnio de
Deus – que continua o mesmo: formar um povo à Sua imagem e semelhança,
crescendo até o caráter de Cristo -, que passamos a dar a devida importância ao
ritual de sacrifício que diante de nossos olhos se desenvolve.

Pela participação na Missa
e, se possível, comungando do Corpo e Sangue do Senhor – se estivermos em
estado de graça, isto é, sem pecados mortais -, santificamo-nos, e mesmo
podemos aderir mais firmemente ao altos propósitos ditados por Deus à Sua
Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica. Venerando o sacrifício perpétuo (cf.
Dn 12,11) da Santa Missa, Ceia do Senhor e memória viva, tornando presente a
Cruz e a Ressurreição, embora de um modo diferente de ofertar, somos,
inclusive, colocados diante da grande resposta que Deus quer de nós, à
semelhança de Samuel: “Falai (Senhor)… (…); vosso servo escuta!” (1Sm 3,10)

Por Rafael Vitola Brodbeck

Rafael Vitola Brodbeck, 23,
é bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pelotas, pregador,
evangelista, professor de doutrina católica, apologista e pesquisador em
Teologia, História Eclesiástica e Liturgia. É membro do Movimento Regnum
Christi, participa da Renovação Carismática Católica, e exerce seu apostolado
principalmente através do Movimento de Emaús, na Diocese de Pelotas, RS.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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