O Sacrifício da Missa – Parte 1

Introdução

Em nosso mundo
dessacralizado e esquecido da Fé Católica, conforme revelada por Deus, Nosso
Senhor, torna-se fundamental não esquecer aquelas palavras de São Paulo: “Guarda
o precioso depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós.” (2 Tm
1,14)

Esse depósito, sabemos, é a
própria Revelação da Santíssima Trindade, no Pai, no Filho e no Espírito Santo,
aos homens, mediante a Sua Santa Igreja Católica. Por amor, Deus quis se
revelar e ensinar a Sua santíssima doutrina. “Toda a finalidade da doutrina e
do ensinamento deve ser colocada no amor que não acaba. Com efeito, pode-se
facilmente expor o que é preciso crer, esperar ou fazer; mas, sobretudo, é
preciso fazer sempre com que apareça o Amor de Nosso Senhor, para que cada um
compreenda que cada ato de virtude perfeitamente cristão não tem outra origem
senão o Amor, e outro fim senão o Amor.” (Catecismo Romano, prefácio, 10)

Dentre os muitos desafios
que urgem por serem enfrentados, encontra-se o de se explicar ao povo, mesmo o
católico que frequenta a igreja todos os fins de semana e enche as fileiras dos
grupos de oração e dos movimentos eclesiais com um trabalho apostólico digno
dos mais altos louvores, as bases daquela que é o centro da nossa vida
espiritual: a Santa Missa. “A celebração do mistério pascal, conforme nos
ensinou claramente o Sacrossanto Concílio Vaticano II, constitui o cerne do
culto religioso do cristão no seu desenvolvimento cotidiano, semanal e anual.”
(Carta Apostólica de Sua Santidade, o Papa Paulo VI, “Mysterio Pascale”, sobre
a Celebração do Mistério Pascal, em 14 de fevereiro de 1969)

Com efeito, pela onda
teologicamente modernista e disciplinarmente liberal que atravessa a Igreja de
Cristo, tentando, como que num derradeiro ataque de Satanás, destruir a Santa
Tradição, chegamos, nos tempos atuais, a esquecer por completo o que é a Missa.
Foge de nossa compreensão, no mais das vezes, o que ela realmente é, e, via de
consequência, substituímos sua essência pelos elementos acidentais que dela
fluem. Para que isso seja corrigido, impõe-se a correta exposição da doutrina e
a mais ampla catequese, que atinja o douto e o simples, o erudito e o humilde.
Tal é a finalidade do presente estudo.

Cumpre, em primeiro plano,
dizer o que a Santa Missa não é. Ela não é uma simples reunião de oração, onde
os fiéis leigos se reúnem sob a presidência do padre. Tampouco, ela é apenas um
culto, à moda protestante, onde cantamos, louvamos, pedimos perdão, ouvimos a
Palavra de Deus e sua pregação. A Missa não se trata de um programa
psicológico, onde procuramos atrair as pessoas para que se sintam bem e busquem
forças para a semana que se inicia, nem ao menos é uma estratégia evangelística
ou de pregação, para buscar as “ovelhas perdidas.” Não é somente um ato
público, oficial, em que o povo católico congregado, reza junto com um diretor,
o padre. Outrossim, cabe salientar que a Missa não é uma celebração nostálgica,
ou uma encenação histórica, ainda que piedosa, do que Jesus fez na última ceia.
Tudo isso, é verdade, pode ser santo, ungido, e nos levar a Deus, mas caberia
muito mais à definição de um culto de uma igreja evangélica.

As reuniões de oração são
importantes. Dos círculos de meditação e reflexão espiritual às famílias que se
juntam para recitar o rosário; dos grupos de oração na linha da renovação
carismática àqueles que cantam o Ofício Divino, na Liturgia das Horas; das
diversas orações que se fazem em equipes nos mais variados movimentos até
aquelas comunidades religiosas que fiam nos formulários oficiais da Santa
Igreja; toda a forma católica de oração é importantíssima, pois nos faz entrar
em contato com nosso Soberano Deus, Rei e Senhor do Universo.

Porém, a Missa é mais do que
isso. Ela é o único e suficiente sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo,
oferecido na Cruz, não recordado de forma encenada, mas tornado realmente
presente em nossas igrejas. Para isso, temos um sacerdote e um altar. Sacerdote
é aquele que, em qualquer religião, preside um sacrifício real e verdadeiro.
Altar é o lugar onde esse sacrifício é oferecido (por isso, os protestantes,
que não crêem na atualidade do sacrifício, não chamam a seus pastores de
sacerdotes, nem têm altares em suas igrejas).

Iremos aprofundar esse
conceito, no decorrer desse artigo.

A Criação e o pecado
original

Tendo Deus criado o mundo,
nele colocou Sua criatura mais excelente, o homem, feito à imagem e semelhança
do Seu Criador. “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele reine
sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e
sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastam sobre a terra.”
(Gn 1,26) Era vontade de Deus que o homem permanecesse livre. Diz o Catecismo
da Igreja Católica: “Deus criou o homem à Sua imagem e o constituiu na Sua
amizade. Criatura espiritual, o homem só pode viver esta amizade como livre
submissão a Deus.” (Cat. 396)

Livre, o homem pode optar
entre obedecer a Deus ou recusar Sua ordem. Essa liberdade foi posta a prova, e
a obra máxima das mãos do Senhor caiu, pecou. “O homem, tentado pelo Diabo,
deixou morrer em seu coração a confiança no Criador e, abusando da sua
liberdade, desobedeceu ao mandamento de Deus. (…) Neste pecado, o homem
preferiu-se a si mesmo a Deus, e com isto menosprezou a Deus: optou por si
mesmo contra Deus, contrariando as exigências do seu estado de criatura e
conseqüentemente de seu próprio bem. Criado em um estado de santidade, o homem
estava destinado a ser plenamente ‘divinizado’ por Deus na glória. Pela sedução
do Diabo, quis ‘ser como Deus’, mas ‘sem Deus, e antes de Deus, e não segundo
Deus.'” (Cat. 397-398)

O pecado do homem o afasta
de Deus. Por essa primeira desobediência, nossos primeiros pais transmitiram a
todos os homens uma natureza privada de glória, justiça e santidade. Não, como
afirmaria Calvino, deixando o homem em um estado total de corrupção, mas
sujeitando-o ao sofrimento, à morte, à ignorância e ao rompimento com Deus.
Pelo pecado, foi como que se um abismo se abrisse entre um Deus santo e uma
humanidade pecadora, um Criador justo e uma criatura corrupta e corruptível.

Assim se expressa o Concílio
Ecumênico de Trento, a respeito do pecado original:

“I. Se alguém não acreditar
que Adão, o primeiro homem, quando anulou o preceito de Deus no paraíso, perdeu
imediatamente a santidade e justiça em que foi constituído, e incorreu, por
culpa de sua prevaricação, na ira e indignação de Deus, e consequentemente na
morte com que Deus lhe havia antes ameaçado, e com a morte em cativeiro, sob o
poder daquele que depois teve o império da morte, ou seja, o demônio, e não
confessa que Adão, por inteiro, passou, pelo pecado de sua prevaricação, a um
estado pior, no corpo e na alma, seja excomungado.

II. Se alguém afirmar que o
pecado de Adão prejudicou apenas a ele mesmo e não à sua descendência, e que a
santidade que recebeu de Deus, e a justiça com que perdeu, a perdeu para si
mesmo, não incluindo nós todos, ou que marcado ele com a culpa de sua
desobediência, apenas repassou a morte e penas corporais a todo gênero humano e
não o pecado, que é a morte da alma, seja excomungado, pois contradiz o
Apóstolo que afirma: ‘Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a
morte, e desse modo foi passada a morte a todos os homens por aquele em quem
todos pecaram.'” (Decreto sobre o Pecado Original; Sessão V, celebrada sob o
Sumo Pontífice Paulo III, em 17 de junho 
de 1546)

Por misericórdia,
entretanto, o Senhor prometeu a Adão e Eva, que enviaria um Salvador, para
remover a culpa devida pelo pecado. Logo em seguida à transgressão de nossos
primeiros pais, Deus diz a Satanás, metamorfoseado em forma de serpente: “Porei
ódio entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela.” (Gn 3,15a) Esse
descendente da mulher é o Cristo, o Salvador. A partir dessa promessa, Deus vai
executando Seu plano de formar, chamar e eleger um povo, do qual sairá o
Messias, o Redentor do mundo.

A Lei Moral inscrita nos
corações dos homens, e a noção de sacrifício

Mesmo afastada de Deus, a
humanidade reconhece Sua dependência do Criador. O pecado original afetou o
relacionamento do homem com Seu Senhor, privando a natureza humana de santidade
e de justiça. Todavia, já os filhos de Adão e Eva sentiram a necessidade de
aplacar a ira divina e tentar restituir a Deus pela ofensa causada pelo pecado.
O capítulo 4 do livro do Gênese descreve Caim e Abel oferecendo sacrifícios ao
Criador.

Em todas as civilizações do
mundo antigo, vemos o homem procurando Deus, ainda que não O encontre em Sua
plenitude. Isso se deve ao desejo por Deus, que está impresso em nossos
corações. A vontade do homem em buscar o sobrenatural foi algo que o pecado
original não afetou. Pela própria razão, diz São Tomás, podemos concluir que
existe um Deus. O universo é simplesmente inexplicável sem Sua presença. “O
desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por
Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o
homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de
procurar.” (Cat. 27)

Apesar do pecado, continuou
no homem, não só um desejo por Deus, mas também uma certa consciência do que é
reto – ainda que não o pratique sem a ajuda da graça. Essa consciência é fruto
da lei natural, “que permite ao homem discernir, pela razão, o que é o bem e o
mal, a verdade e a mentira.” (Cat. 1954) Não se trata de uma revelação do
Senhor ao homem, mas de algo que se encontra em seu próprio coração, e que não
foi atingido pela queda original. Essa norma natural é uma verdadeira Lei
Moral, universal e absoluta. Pertence ao campo da Ética, e a podemos encontrar,
de formas mais ou menos perfeitas, em todos os povos e culturas do mundo, mesmo
nas mais afastadas de Deus.

Essa Lei Moral manda ao
homem que não cometa assassinato, que não roube nem furte, que não violente o
próximo, que tenha senso de justiça, que adore um ser superior, que tenha
práticas religiosas (das mais elaboradas às primitivas e anímicas), faça o bem
etc.

A partir da consciência
dessa Lei Moral, o homem deduziu, pela razão – e pelo impulso do seu coração
desejoso de Deus -, que deveria encontrar-se com seu Criador. Para tanto, notou
que seu afastamento da divindade devia-se a uma falta que deveria ser paga e
satisfeita. Todo ato pecaminoso, diz a razão à luz da lei natural, necessita de
algo que o extirpe: um sacrifício. É por isso que, em quase todas as religiões,
vemos a noção de sacrifícios aos deuses. Inclinado que estava o coração do
homem à Lei Moral, conhecia ele a exigência da mesma em relação ao
relacionamento com suas deidades. Vemos nos filmes, nos livros e nas aulas de
História no colégio e na faculdade, que essas religiões sempre sacrificavam aos
seus deuses. Esses sacrifícios eram de animais e até de seres humanos, porque a
mente dessas pessoas lhes dizia que algo deveria ser feito para purificá-los de
seus erros e aplacar a ira dos espíritos.

Se essa norma universal
pertence somente à Moral, nos povos da terra, foi tornada positiva nos vários
ordenamentos jurídicos existentes ao redor do mundo. Tanto é que as legislações
conceberam como Direito a proibição de várias daquelas coisas já condenadas
pela Ética. Em um povo, entretanto, essa positivação (codificação, tornar algo
como pertencente ao Direito, ao conjunto de normas jurídicas de um povo) foi
feita pelo próprio Deus, e de maneira completa. Em Moisés, líder dos
descendentes de Abraão cativos no Egito, Deus apresentou a Lei Moral em forma
de dez artigos, que conhecemos como decálogo. Ao longo dos primeiros livros da
Bíblia, encontramos a descrição desses mandamentos, bem como de outros dispositivos
jurídicos, oriundos também da Lei Moral natural, alguns dos quais meros
instrumentos interpretativos do resumo que é o decálogo.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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