O Rosário no Magistério dos Papas

De Leão XIII a João Paulo II

SALVATORE M. PERRELA, O.S.M.

Professor na Pontifícia Faculdade
Teológica `Marianum`

Todos sabem como o magistério dos Bispos de Roma esteve sempre particularmente atento, à luz da revelação e da Paradosis Ecclesiae, para motivar, regular, incrementar e acompanhar a veneração e a piedade dos fiéis para que este antigo e justificado costume `variado nas suas expressões e profundo nas suas motivações, é um fato eclesial relevante e universal`. Foi também relevante o interesse dos Papas pela oração do Rosário ou Saltério com freqüência devido ao seu caráter ou marca bíblica centrada na contemplação dos acontecimentos salvíficos da vida  de Cristo, à qual  foi estreitamente associada a Virgem Maria. São também numerosos os testemunhos dos Pastores e de homens de vida santa sobre o valor e a eficácia desta oração . Nos nossos dias, apesar da renovação  da liturgia e da piedade popular após o Vaticano II e a Marialis cultus, ela conhece em certos ambientes uma espécie de altiva marginalização de natureza `pseudodemocrática` (K. Rahner) justificada pelo receio de que ela possa, de alguma forma, diminuir a centralidade da liturgia eclesial. Longe de `competir` de maneira conflitual com a oração pública da Igreja, O Rosário é uma prática piedosa, uma oração popular proposta de novo por João Paulo II com a sua Carta apostólica Rosarium Virginis Mariae; proposta que tem a finalidade, fazendo nossas algumas observações ainda atuais de von Balthasar de `libertar o rosário de uma espécie de mesquinhez alheia ao espírito de Maria e alimentá-lo, em conformidade com aquele mesmo espírito, com a plenitude da idéia e da obra salvífica de Deus para o mundo. A essência e a ação de Maria em tudo isto é a mediação: entre Deus e o mundo, entre Cristo e  a Igreja, entre espírito e carne, entre os dois modos de existência eclesial, entre o mundo dos santos e o dos pecadores. Ela encontra-se em todas as encruzilhadas, para indicar o caminho`.

Estas são palavras que resumem muito bem a atitude, as intenções os conteúdos e as propostas com que os Romanos Pontífices, de Leão XIII a João Paulo II, se empenharam a eles mesmos e ao seu magistério no Rosário da Virgem Maria.

O Rosário: oração pela remissão dos males e dos erros da idade moderna (1878-1958)  Leão XIII (1878-1903) desempenhou o seu longo e intenso serviço pontifício num tempo difícil: entre a tradição e o progresso. O Papa Pecci dedicou ao Rosário mariano 16 documentos: 11 encíclicas (da Supremi apostolatus, de 1 de Setembro de 1898); 1 constituição apostólica (Parta humano generis, de 8 de Setembro de 1901) 3 cartas apostólicas (Salutaris ille Spiritus, de 24 de Dezembro de 1883); Vi è bem noto, dirigida aos Bispos italianos, de  20 de Setembro de 1887; Ubi primum, sobre a Confraria do Rosário, de 2 de Outubro de 1898); 1 documento enviado ao Cardeal Luigi Maria Sincero, vigário de Roma, de 31 de Outubro de 1886, para que os fiéis se distingam na sua piedade à Virgem com a recitação  do Santo Rosário. Falta-nos o espaço para mencionar os outros documentos marianos menores sobre o Rosário.

Essa prática piedosa é considerada por Leão  XIII uma verdadeira e própria oração cristã porque `é uma seqüência de saudações angélicas, intercaladas pela oração do Senhor e unidas  pela meditação. Composto desta forma, o Rosário constitui a mais excelente forma de oração, oferece-nos  uma sólida defesa da  nossa  fé e um sublime modelo de virtudes nos mistérios  apresentados à  nossa contemplação`. Entre `as numerosas formas de piedade para com Maria, a  mais estimada e praticada é a tão excelente do Santo Rosário`.  A esta prática muito simples e popular foi dado o nome de Rosário também porque `recorda, num feliz  conjunto, os grandes mistérios de Jesus e de Maria: as suas alegrias, dores e vitórias`. Portanto, ela é uma oração  ampla e convictamente difundida pelos Papas, recomendada e experimentada pela Igreja, nos momentos atormentados da sua história, como remédio para os males e para os erros religiosos, ideológicos e sociais que afligiram e ainda afligem a Igreja e o povo cristão. Santos, pastores e fiéis consideraram-na querida porque é inspirada, ensinada e recomendada pela própria Mãe de Deus, porque é oração e meditação dos saudáveis e edificantes mistérios de Cristo e de Maria, prática  que exprime a eficiência e o poder da Co-Redentora do gênero humano, da Mediadora e da Dispensadora das graças celestes.

Para Leão XIII, esta caríssima prática mariana, que no final do século XIX e no começo do século XX, `se afirmou, por  disposição divina, para despertar a piedade esmorecida dos fiéis`, é útil para a  perseverança na fé e para viver as obras da mesma a exemplo das virtudes evangélicas da Virgem. E se o Rosário é compreendido também como meditação teologal do amor de Cristo, levará o crente a viver exemplarmente a fé, porque não `é de modo algum possível que se considere e contemple atentamente estes lindíssimos testemunhos de amor do nosso Redentor, sem ferver de reconhecimento  profundo por ele. Assim, a  fé, se for autêntica, terá um poder  tal que, iluminando a mente do homem, e comovendo o seu coração, quase o arrebata no seguimento das pegadas de Cristo, através de todos os obstáculos; até o fazer irromper naquela afirmação digna de Paulo: `Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a fome, a nudez, o  perigo, a perseguição, ou a espada?` (Rm 8, 35). `…  Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em Mim`. Devido a estes indubitáveis valores e  influxos para a vida humana e cristã, devido à sua própria forma `que se presta em grande medida para a oração comum`, o Rosário pode ser considerado oração para a Igreja e da Igreja e é vivamente aconselhado  como prática  quotidiana aos pais, aos filhos, aos jovens, às famílias. O Saltério da Virgem, `constitui a forma mais excelente de oração, e o meio mais eficaz para obter a vida eterna… oferece-nos uma firme defesa da nossa fé e um sublime modelo de virtudes nos mistérios apresentados à nossa  contemplação. Além disso, demonstramos que o Rosário é uma prática fácil e adequada para a índole do povo, ao qual apresenta de igual modo, na recordação da Família de Nazaré, o ideal mais perfeito  da vida doméstica. Por  estes motivos os fiéis experimentaram sempre o seu poder salutar`. Não nos admiramos se Leão XIII foi denominado o `Papa do Rosário`, prática que ele propagou ampla e convictamente tornando-se `um testemunho público do Nosso amor para com a augusta Mão de Deus, e, ao mesmo tempo, um estímulo e um prêmio para a piedade dos fiéis, para que na hora extrema da sua vida possam ser confortados pela sua ajuda, e adormecer suavemente no seu seio`.

 Pio X (1903-1914), para concretizar o seu lema pontifício Instaurare omnia in Christo, empenhou-se em grande medida na iniciação catequética do povo cristão; enfrentou com vigor o fenômeno da modernidade; incentivou o zelo missionário. Lançou, embora inutilmente, a 2 de Agosto de 1914, um  premente apelo pela paz e manifestou a sua dor e horror face ao perigo da guerra mundial iminente. Do ponto de vista mariano o seu magistério foi escasso mas, ao menos para o tempo, significativo, basta pensar na encíclica Ad diem illum, de 2 de Fevereiro de 1904, para o cinqüentenário da Imaculada, na qual aprofunda o dogma e a doutrina da meditação. Sobre o Rosário, segundo o que consta, tendo talvez presente o conspícuo magistério do seu Predecessor, ele deteve-se em documentos `menores`, como a carta apostólica Summa Deus, de 27 de Novembro de 1907, escrita por ocasião do qüinquagésimo aniversário das mariofanias de Lourdes, realçando como este `fato maravilhoso` aumentou o culto à Imaculada e ao `seu santíssimo Rosário`.

 Bento XV (1914-1922), é recordado como o `Papa da paz` devido aos seus esforços e aos seus apelos contra o `massacre inútil`, que infelizmente não foram ouvidos. Promulgou o código de Direito Canônico; agiu em favor da resolução da `questão romana`; empenhou-se para fazer cessar um clima de suspeita e de intimidações devido à crise modernista; demonstrou interesse a respeito da exegese bíblica, procurando ao mesmo tempo o aperfeiçoamento dos estudos nos seminários; prestou grande atenção à causa ecumênica, sobretudo com o Oriente cristão; promoveu a obra missionária; escreveu prementes orações para implorar de Deus a paz, a prosperidade, a unidade entre os povos. Para esta finalidade ordenou a inserção nas ladainhas lauretanas da invocação Regina pacis, ora pro nobis. O Rosário, no documento dedicado ao VII centenário da morte de São Domingos, é apresentado como remédio e conforto nos momentos difíceis da provação, sendo uma prece ` maravilhosamente adequada para alimentar a fazer surgir em todas as almas a caridade e as virtudes`. A Virgem, que  `tem um poder tão grande junto do seu Filho divino, que, de todas as graças concedidas aos homens… é sempre a medianeira e o árbitro`… e sempre se revelou como tal, sobretudo quando se recorreu ao santo Rosário e por isso os Papas não perderam ocasião alguma para exaltar com grandíssimos elogios o Rosário… e enriquecê-lo com os tesouros da indulgência apostólica`. Portanto ele é uma prática piedosa que deve ser habitual em toda a parte e que é recomendada calorosamente por Bento XV, sobretudo `nesta época tão perturbada`.

 Pio XI (1922-1939), pontífice de grande caráter, que nos tormentos do século XX afirmou a congruência e a verdade do `reino de Cristo`, pelo qual se entregou completamente a si mesmo e a sua ação pastoral. Do ponto de vista mariano recordamos a encíclica Lux veritatis, de 25 de Dezembro de 1931 por ocasião do XV centenário do dogma da Theotokos. Em 1937, restabelecendo-se de um agrave enfermidade, o Papa Ratti recorda como perante os erros e graves males do tempo atual, a Igreja e o próprio Pontífice encontram conforto e estímulo na confiança filial na Mãe do Redentor e na recitação quotidiana do Rosário. Ele, verdadeiro `Saltério da Virgem, Breviário do Evangelho e da vida cristã`, é uma `grinalda mística`, uma `coroa mística amada pelos católicos de todas as condições sociais; prática piedosa que, mediante a contemplação dos mistérios de Cristo e da Mãe, é um estímulo para a  prática das virtudes evangélicas e reanima a esperança dos bens eternos. O Rosário é uma oração que, ao inculcar o amor de Deus, insinua também a caridade para com o próximo, que nos últimos tempos está enfraquecida e arrefecida no coração de muitos homens; por isso os sacerdotes devem incentivá-la entre os jovens e nas famílias, entre os adultos e na Ação Católica.

 Pio XII (1939-1958), bispo de Roma aclamado como Pastor Angelicus mas injuriado como o `Papa de Hitler`; pontífice de firme doutrina e de magistério conspícuo situados entre a tradição e a profecia. Ele será recordado sempre como o `Papa da Assunção`, da consagração da Igreja e do gênero humano ao Coração Imaculado de Maria, da instituição da memória litúrgica de Maria Rainha. Devem recordar-se, além disso, as cartas marianas enviadas durante o período da guerra (1939-1944) ao Cardeal Luigi Maglioni, Secretário de Estado, para que se proclame uma cruzada de orações à Virgem Maria a fim de suplicar o dom da paz e da justiça entre os povos. O Papa Pacelli dedica ao Rosário os discursos de 16 de  Outubro de 1941, com os quais convida as famílias cristãs a destinar-lhe um lugar de relevo e de honra entre as orações. Na encíclica Ingruentium malorum, de 15 de Setembro de 1951, o Papa faz o convite a confiar no patrocínio de Maria, constituída por Deus causa de salvação para todo o gênero humano, para que dissipe as graves desavenças entre as  nações, as perseguições à Igreja em vários estados, e afaste a juventude das insídias. Para alcançar estas nobres finalidades, Pio XII convida à oração do Rosário, consciente da `sua eficácia poderosa a fim de obter a ajuda materna da Virgem. Os mistérios da redenção, contemplados e rezados pelo crente, sobretudo pelas famílias, mostrando os luminosos exemplos de Jesus e de Maria, aumentam o zelo cristão dos bons, reacendem a esperança da Igreja contra os inimigos da religião, porque recordam aos desorientados que o Senhor não salva com a espada, mas unicamente com o seu nome. A oração querida à Virgem inspira a compaixão pelo sofrimento do mundo: `Não vos esqueçais… enquanto a coroa do Rosário desliza entre as vossas mãos, não vos esqueçais, repetimos dos que, desfalecem miseravelmente nos cárceres, nos campos de concentração. Entre eles encontram-se…  também Bispos…; encontram-se filhos, pais e mães de família… Assim como nós os preferimos e rodeamos de afeto paterno a todos eles, assim também vós, animados por aquela caridade fraterna que a religião cristã alimenta e aumenta, juntamente com as nossas, uni as vossas orações…, e recomendai-os ao seu coração materno`.

O Rosário: compêndio de todo o Evangelho: a renovação conciliar e pós-conciliar

 João XXIII (1958-1963), o `Papa do Concílio`, acontecimento que marcou uma mudança positiva na Igreja, entre as Igrejas e as comunidades cristãs e nas relações com o mundo e com o homem contemporâneo. Tornando-se Bispo de Roma são numerosas  as suas intervenções para que os fiéis, mediante a prática do Rosário, do Angelus, da prática piedosa do mês de Maio, implorem a intercessão da Mãe de Jesus, por ele constituída Concilii caelestis patrona, para o bom êxito da assembléia ecumênica, por ele querida `com humilde resolução de propósito`. Ato não formal e episódico, visto que influenciará em grande medida e redação da  `mariologia` do Vaticano II, claramente expressa no capítulo VIII do De Ecclesia.

João XXIII, no seu breve mas intenso pontificado, dedicou à piedosa prática mariana dois significativos documentos: a encíclica Grata recordatio, sobre a recitação do Rosário pelas missões  e pela paz, de 26 de Setembro de 1959, e a carta apostólica II religioso convegno, de 29 de Setembro de 1961, no qual inseriu um ensaio de meditação sobre essa prática piedosa. Na  encíclica o Papa, partindo das recordações da juventude sobre o movimento de piedade mariana suscitado pelas encíclicas de Leão XIII, ensinamento que serviu para `tornar muito querido ao nosso espírito o santo Rosário que nunca  nos esquecemos de recitar por inteiro, todos os dias do ano`. Ato de piedade mariana que ele pede ao clero e aos fiéis que pratiquem com particular fervor pelo menos no mês de Outubro, pelos seguintes motivos: – o primeiro aniversário da morte de Pio XII e da sua eleição ao supremo pontificado; – a entrega do crucifixo a  um grande número de jovens missionários da fundação do Colégio da América do Norte: `Portanto, desejamos sentidamente que, durante o próximo mês de Outubro, todos estes nossos filhos sejam recomendados com fervorosas orações à augusta Virgem Maria`; – para que os responsáveis das nações, pequenas ou grandes, conservem intactos os direitos e as riquezas espirituais dos membros das suas comunidades, adequando as legislações às necessidades de progresso e de liberdade religiosa, visto que se estão a espalhar posições filosóficas e atitudes práticas inconciliáveis com a fé cristã. A oração, o compromisso e a esperança da Igreja são pelo triunfo da verdade, da justiça, da paz e da caridade entre as nações, com a proteção da Mãe amadíssima de Cristo. No final da Grata recordatio, João XXIII pede a recitação do Rosário também pelo bom êxito do Sínodo romano e pelo anunciado Concílio ecumênico.

A carta apostólica que, na iminência do mês de Outubro, João XXIII envia à Igreja, inspira-se na reunião pela paz por ele convocada  em Castelgandolfo a 10 de Setembro de 1961 e da visita, nesse contexto, às catacumbas romanas de São Calisto para rezar pela paz undial. Retomando os ensinamentos de Leão XIII e dos seus sucessores, o Papa Roncalli expõe e recomenda essa prática piedosa exaltando, contra acusações de repetitividade e de pouca originalidade, a sua contemplação mística, a reflexão íntima, e a intenção piedosa. O Rosário é uma oração social, pública e universal com vista as necessidades ordinárias e extraordinárias da Igreja, das nações e do mundo. Por fim, o Papa, com submissa humildade, com verdadeira modéstia, oferece algumas `notas simples e espontâneas` para cada dezena do Rosário, com referência à tripla acentuação: mistério, reflexão, intenção.

 Paulo VI (1963-1978), foi o tenaz continuador do Vaticano II, o executor inteligente das suas orientações no tempo difícil, mas fecundo, da sua recepção; interessou-se com grande congruência e originalidade da questão mariana. Do seu magistério recordamos três documentos sobre o Rosário; a encíclica Mense maio, de 29 de Abril de 1965, na qual realçando o caráter mariano do mês de Maio, recorda que Maria é caminho para Cristo e isto significa que o recurso contínuo a ela exige que se procure nela, para ela e com ela, Cristo Salvador, ao qual nos devemos dirigir sempre. Paulo VI pede orações pelo momento histórico que vive a Igreja que está a concluir o Concílio pela difícil situação internacional  que conhece momentos de tensão por causa dos acontecimentos bélicos; pelo progredir alarmante de atentados ao caráter sagrado e inviolável da vida humana; para impetrar a paz, dom divino. Exorta os pastores a inculcar `com toda a atenção a prática do santo Rosário, a oração tão querida à Virgem e tão recomendada pelos Sumos Pontífics`. A encíclica Christi Matri, de 15 de Setembro de 1966, convida a comunidade católica a pedir a Deus, mediante a intercessão da Virgem com o seu Rosário, o dom celeste e inestimável da paz. `Esta frutuosa  oração não só possui uma grandíssima eficiência na dissuasão dos males e em manter distantes as calamidades, como demonstra claramente a história da Igreja, e alimenta também abundantemente a  vida da Igreja`. A exortação apostólica Recurrens mensis october, de 7 de Outubro de 1969, onde o Papa exorta a rezar pela paz entre os homens e os povos, dado que ainda persistem horríveis conflitos e surgem novos `pontos quentes` `e se vêem em luta até os cristãos, que fazem apelo ao mesmo Evangelho do amor`. Incompreensões que se manifestam também entre membros da Igreja; por isso é preciso pedir a Deus a paz e a reconciliação por meio da Mãe do Príncipe da paz, que proclamou a sua bem-aventurança (cf. Mt 5, 9). A Igreja do Concílio  não deixa de recordar e de haurir da obra de intercessão da Virgem, assim como fez em Caná (cf. Jo 2, 1-11), junto do Filho em favor dos homens. Aliás, `ao meditar os mistérios do santo Rosário, nós aprenderemos, a exemplo de Maria, a tornar-nos almas de paz, através do contato amoroso e incessante com Jesus e com os mistérios da sua vida redentora`. Os membros da Igreja, conclui o Papa, devem ter como honra e recitar  com freqüência esta `meditação  dos mistérios da salvação`, que já se tornou uma forte prática de devoção mariana eclesial.

A verdadeira mudança sobre a natureza, os conteúdos e a finalidade dos exercícios piedosos, já anunciada pelo Concílio (cf. Sc, 13; LG, 66-67), dá-se com a exortação apostólica Marialis cultus, de 2 de Fevereiro de 1974. O Papa Montini, em continuidade com a doutrina exposta pelo Concílio e com a exortação apostólica Signum magnum, de 13 de Maio de 1967, quis propor o desenvolvimento teológico-litúrgico com o fim de realçar o lugar que Maria ocupa na piedade eclesial, sobretudo no que se refere à doutrina sobre a presença e a celebração de Maria no âmbito do ciclo anual do mistério de  Cristo (cf. MC, 2-15), a exemplaridade de Maria com vista ao culto divino (cf. MC, 16-23). A exortação pontifícia, além disso, quis oferecer e o desenvolvimento da piedade litúrgica, dos exercícios piedosos do Angelus e do Rosário. A Marialis cultus realça  na prática piedosa, bastante diversa dos outros `atos litúrgicos` sacramentais por natureza, virtudes e finalidade-realização salvífica (cf. MC, 48), do Rosário três  notas fundamentais: teológica, litúrgica e pastoral. A nota teológica esclarece a índole evangélica  que brota  da apresentação dos mistérios da Encarnação  redentora, segundo a qual esta prática é oração cristológica e soteriológica, onde se realça a participação da Mãe  e Serva do Senhor. A nota litúrgica apresenta o  Saltério da Virgem como oração  de louvor, de imploração, sobretudo de contemplação. A nota pastoral é caracterizada pelo encorajamento a  propor de novo a prática da recitação do Rosário no âmbito da família. É na família cristã que deve florescer a recitação do Rosário, uma das mais excelentes orações  `em conjunto`  (cf. MC, 52-54). O conjunto de todos estes elementos  faz deste desenvolvimento sobre a prática piedosa  do Rosário, um relevante exemplo de síntese doutrinal que não só canaliza a doutrina já exposta noutros documentos pelos Predecessores e  pelo próprio Paulo VI, mas lhe aplica, desenvolvendo-os, também normas  e princípios gerais enunciados pelo Concílio Vaticano II.

 João Paulo II, eleito Bispo de  Roma a 16 de Outubro de 1978, o Papa do Totus tuus, relançou  esta prática desde o começo do seu pontificado e em diversas ocasiões se deteve a ilustrar o seu valor, atualidade e finalidade. É suficiente  recordar os Angelus do mês de Outubro de 1993, nos quais realçou o valor evangélico, eclesial e humano da oração do Rosário; oração cristã que eleva os sentimentos e os afetos  do homem; que faz reviver as esperanças do crente: `as esperanças da  vida eterna, que empenham a  omnipotência de Deus, e  as expectativas do tempo presente, que comprometem os homens a colaborar com Deus`. Na catequese mariana de  5 de Novembro de 19997, João Paulo II realçava como esta prece `leva a contemplar os mistérios da fé…. alimentando o amor do povo cristão pela Mãe de Deus, ordena mais claramente a oração, mariana para a sua  finalidade: a glorificação de Cristo`. Na recente  Rosarium Virginis Mariae, o Santo Padre recorda como no Saltério da Virgem, que é ao mesmo tempo meditação e súplica, a  Orante misericordiosa, a Deesis, como gostam de a chamar e invocar os Orientais, coloca-se também diante do Pai que, com o seu Espírito, a encheu de graça e ao Filho nascido do seu seio virginal, rezando conosco e por nós. Por estes motivos, afirma João Paulo II, `o Rosário é a  minha oração predileta… Podemos dizer que o Rosário é, de um certo modo, um comentário-oração do último capítulo da Constituição Lumen gentium do Vaticano II, capítulo da admirável presença da Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja… Ao mesmo tempo o nosso coração pode  encerrar nestas  dezenas do Rosário  todos os fatos que compõem a vida do indivíduo, da família, da nação, da Igreja e da humanidade. Vicissitudes pessoais e vicissitudes do próximo e, de modo particular, daqueles que estão mais próximos de nós, que nos são mais queridos. Assim a simples oração do Rosário bate o ritmo da vida humana`.

Se for bem rezado e meditado, individualmente, em comunidade ou em família, o Rosário torna-se verdadeiramente um percurso espiritual no qual Maria se torna mãe, irmã, mestra, guia para o Deus Trinitário, amparando-nos com a sua mediação e intercessão poderosa, verdadeira e eficaz.

NOTAS

1) Congregação  para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Directório sobre piedade popular e liturgia. Princípios e orientações. LEV, Città del Vaticano 2002, n. 183, pág. 152.

2) Ibidem, n. 197, pág. 163; cf. todo o capítulo dedicado ao Rosário nos nn. 197-202, pág. 163-166.

3) Cf. João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae 4, carta apostólica de 16 de Outubro de 2002. LEV, Città del Vaticano 2002, pág. 7-8.

4) Com esta expressão deseja-se designar aquelas `manifestações públicas ou privadas da piedade cristã que, apesar  de não  pertencerem à Liturgia, estão em harmonia com ela, respeitando o seu espírito, as normas, os ritmos; além disso, de alguma forma se inspiram na Liturgia e a ela devem conduzir o povo cristão`. Os  exercícios piedosos `têm sempre uma pública e um fundo eclesial` (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Directrizes  sobre piedade popular e litúrgia, n. 7, pág. 20; sobre a natureza, conteúdos e finalidades dos exercícios piedosos de índole mariana, cf. Ibid., n. 183-207, pág. 152-173).

5) H. Urs von Balthasar, O Rosário, A  salvação do mundo na oração mariana. Jaca Book, Milão 1984 pág. 107.

6)  Sobre as numerosas intervenções, diretas e indiretas, sobre o Rosário por parte de Leão XIII cf. As Eccíclicas Marianas. Por Mons. Amleto Tondini. Ângelo Belardetti, Roma, págs. 786-793.

7) Diuturni temporis, em Enchiridion das Encíclicas (=EE) EDB, Bolonha 1997, vol. 3, n. 1419.

8) Adiutricem populi, em EE, 3, n. 1217.

9) Octobri mense, em EE, 3, n. 953.

10) Superiore anno, em EE, 3, n. 433; Supremi apostolatus, em EE, 3, n. 352, 353; Adiutricem populi, em EE. N. 1230, 1419; Augustissimae Virginis, em EE, 3, n. 1349, 1353; Diuturni temporis, em EE, 3, n. 1420-1421.

11) Cf. Supremi apostolatus, em EE, 3, n. 350; Magnae Dei Matris, em EE, e, n. 1034-1035.

12) Cf. Superiore anno, em EE, 3, n. 435-437;  Octobri mense, em EE, 3, n. 939-952; Magni Dei Matris, em EE, 3, n. 1033.

13) Cf. Octobri mense, em EE, 3, n. 940-943; Laetitiae sanctae, em EE, 3, n. 1095-1098; lucunda semprer, em EE, 3, n. 1204-1207; Vi é bem noto, em EE, 3, n. 1772.

14) Cf. Octobri mense, em EE, 3, n. 954; Magnae  Dei Matris, em EE, 3, n. 1035; Adiutricem populi, em EE, 3, n. 1217.

15) Cf.. Octobri mense, em EE, 3, n. 953; Magnae Dei Matris, em EE, 3, n. 1039; lucunda semper, em EE, 3, n. 1193-1196.

16) Cf. Supremi apostolatus, em EE, 3, n. 344-346, 352; Superiore anno, em  EE, 3, n..  434-439; Octobri mense, em EE, 3, n. 948-952; Magnae Dei Matris, em EE, 3, n. 1036; Laetitiae sanctae, em EE, 3, n. 1094; lucunda semper, em EE, 3, n. 1192, 1200; Adiutricem populi, em EE, 3, n. 1217, 1220, 1232; Fidentem piumque, em EE, 3, n. 1289-1290; Diuturni temporis, em EE, 3, n. 1417, 1422; Vi è bem noto, em EE, 3, n. 1774; Diuturni temporis, em EE, 3, n. 1417.

17)) Augustissimae Virginis, em EE, 3, n. 1344.

18)    Cf. Magnae  Dei Matris, em EE, 3, n. 1044-1046; 1419.

19) O Rosário `produz outro fruto notável, adequado às necessidades dos nossos tempos. O seguinte: que, numa época em que as virtudes da fé em Deus  é exposta todos os dias a perigos tão graves e assaltos, o cristão encontra no Rosário meios abundantes para a alimentar e fortalecer` (Fidentem piumque, em EE, 3, n. 1291; cf. Ibid., n. 1292).

19)    Magnae Dei Matris, em EE, 3, n. 1043.

21) Os mistérios do Rosário mostram a harmonia das virtudes humanas e cristãs vividas pelos Santos membros da  Família de Nazarré (cf. Magnae Dei Matris, em EE, 3, n. 1047-1048; Laetitiae sanctae, em EE, 3, n.. 1099-1110).

22)    Fidentem piumque, em EE, 3, n. 1286.

23)    Cf. Octobri mense, em EE, 3, n. 959-960.

24)    Cf. Octobri mense, em EE, 3, n.. 957.

25)    Diuturni temporis, em EE, 3, n. 1419.

26)    Diuturni temporis, em EE, 3, n. 1422. Não se deve esquecer a grande atenção que o Papa Pecci  dedicou ao Santuário da Virgem de Pompeia; disto dão testemunho alguns dos seus escritos:  Quotquot  religions, de 28 de Março de 1890, com o qual  nomeia um cardeal protetor para aumentar o esplendor do santuário; Qua providentia, de 13 de Março de 1894, com o qual transfere para a Sé Apostólica os direitos e a propriedade do santuário e das obras anexas; Iam nemini, de 4 de Maio de 1901, com que eleva o santuário de Pompeia a `basílica menor`.

27)    Cf. Pii Pontificis Maximi Accta. Typografia Vaticana 1908, vol 5, pág. 129. Sobre as várias intervenções marianas do Pontifíce cf. As  Encíclicas marianas, cit., págs. 793-801.

28)    Cf. a carta ao Cardeal Pietro Gasparri, Secretário de Estado, de 5 de maio de 1917.

29)    Fausto appetente, em  EE, 4, n. 579.

30)    Ibidem.

31)    Ibidem, em EE, 4, n. 581.

32)    Cf, EE, 5, nn. 820-878.

33)    Cf. Ingravescentibus  malis, em EE, 5, 1327-1342.

34)    Ibidem, em EE, 1331.

35)    Ibidem, em EE, 5, n. 1333.

36)    Cf. Ibidem, em EE, 5, n. 1333.

37)    Cf. Ibidem, em EE, 5, n. 1338-1339.

38)    Cf. EE, 6, n. 873.876.

39)    Ingruentium  maloru em EE, 6, n. 877; cf, ibidem, n. 879.

40)    Cf. Ibidem, em EE, 6, n. 880-881.

41)    Ibidem, em EE, 6, n. 884.

42)    João XXIII, Celebrandi  Concilii. Carta apostólica de 11 de Abril de 1961, em Discursos, mensagens, colóquios do Santo Padre João XXIII. Tipografia Poliglota Vaticana 1962, Cidade do Vaticano, vol. 3, pág. 784.

43)    Grata recordatio, em EE, 7, n. 150.

44)    Ibidem, em EE, 7, n. 152.

45)    Ibidem, em EE, 7,, n. 160; cf. também os nn. 156-159.

46)    Cf. Ibidem, em EE, 7, n. 161-165.

47)    Cf, Ibidem, em EE, 7, n. 166.

48)    Cf. Discursos, Mensagens, Colóquios do Santo  Padre João XXIII. Tipografia Poliglota Vaticana, Cidade do Vaticano 1962, vol. 3, pág. 753-761.

49)    O pequeno ensaio intitula-se `Elevação sobre os quinze mistérios da Coroa áurea”, cf. ibidem, págs.  762-772.

50)    Cf. Mense maio, em EE, 7, n. 831-832.

51)    Cf. Ibidem, em EE, 7, n. 834-841.

52)    Ibidem, em EE, 7, n. 843.

53)    Cf. Christi Matri, em EE, 7, n. 920-925.

54)    Cf. Ibidem, em EE, 7, n. 926.

55)    Recurrens mensis  october, em Enchiridion Vaticanum, EDB, Bolonha 1997, vol. 3, n. 1609-1610.

56)    Ibidem, em EV, 3, n. 1615.

57)    Ibidem, em EV, 3, n. 1617.

58)    Cf. EV, 5, n. 13-97.

59)    Cf. Marialis cultus, 40-55, em EV, 2, n. 71-87.

60)    Cf. Insegnamenti di Giovani Paolo II, LEV, Cidade do Vaticano 1983, vol.. VI/2, págs. 704-705; 737-738; 853-855; 939-941; 1001-1002.

61)    Ibidem, pág. 1001.

62)    Ibidem, vol.  XX/2, pág. 738.

63)    João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae, cit., n. 2 pág. 5.

         

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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