O que é educar? (Parte 3)

3familia3É preciso se conscientizar que os nossos filhos não são objetos de decoração, exibição e nem vitrines do nosso eu que deseja aparecer através deles.

Os pais devem cultivar nos filhos as atitudes de sobriedade, discrição, respeito, acolhimento, etc, e não, como tanto se vê, atitudes de exibicionismo. Isto não faz bem à criança.

André Berge, educador francês, costumava dizer que os defeitos dos pais são os pais dos defeitos dos filhos; portanto, é preciso tomar muito cuidado para que os nossos erros não sejam transmitidos para os filhos. Sabemos que “filho de peixe é peixinho”; isto é, a criança tende a ser a cópia dos pais, naquilo que eles têm de bom e de mau.

“Não lhe dês toda a liberdade na juventude, não feches os olhos às suas extravagâncias” (Eclo 30, 11).

Na arte de educar os filhos, a corda mais sensível é a da liberdade. De um lado, não se pode dar ‘toda’ a liberdade que eles querem, mas, por outro lado não se pode suprimi-la de vez. Alguns pais erram, exagerando num extremo ou no outro. Diria que educar é ensinar o filho a usar a liberdade com responsabilidade. O pecado, o mau comportamento, consiste exatamente no ‘abuso da liberdade’, no seu uso sem responsabilidade e sem o compromisso com a verdade.

Para conseguir isto, os pais devem dar liberdade aos filhos na medida em que eles correspondem com responsabilidade. Quanto mais responsável o filho se mostrar, tanto mais liberdade receberá; até o ponto em que ele mesmo porá limites a si próprio. E é importante dizer que esta prática deve começar bem cedo, tão logo a criança adquira o uso da razão, por volta dos seis anos de idade.

Sobretudo, é preciso prestar atenção ao que foi dito: não feches os olhos às suas extravagâncias. Às vezes os pais estão percebendo que os filhos não estão agindo bem, e mesmo assim nada fazem. Mesmo até quando algum amigo ou parente, vem alerta-los sobre os maus comportamentos do filho, e ainda assim, permanecem sem agir. Muitas vezes a mãe está vendo que aquele namoro não está indo bem, ultrapassando os limites, mas faz de conta que não percebe a gravidade da situação; até que mais tarde venha a chorar porque a filha engravidou, ou porque o filho está se drogando, ou porque se envolveu em sérias confusões com a polícia, etc. Ora, é preciso ser vigilante com os filhos; isto é dever dos pais, dado por Deus.

Na sua sabedoria o Eclesiástico diz aos pais:

‘Obriga-o a curvar a cabeça, enquanto jovem, castiga-o com varas enquanto ainda é menino, para que não suceda endurecer-se e não queira mais acreditar em ti; e venha a ser um sofrimento para a tua alma’ (Eclo 30,12).

Conhecemos muito bem o provérbio que diz: é de pequenino que se torce o pepino. Quando a planta é ainda pequena, é possível retificá-la facilmente, amarrando-lhe uma estaca. O mesmo se dá com a natureza humana. Sem reações, a criança aceita a correção do pai e da mãe, não lhes questiona a autoridade, pois não tem ainda o senso crítico desenvolvido. É a melhor hora para educar e moldar o seu caráter com os valores retos da moral e da fé. É precisamente esta a sagrada missão que Deus confiou aos pais; moldar aquele caráter em formação, desenvolver na criança os hábitos corretos, de maneira suave, indolor, natural, na hora certa. Se passar a hora certa, tudo vai ficar mais difícil depois, para os pais e para os filhos.

A criança aprende mais por imitação do que por convicção. Se ela vê o pai e a mãe gritarem, ela também grita; se ela vê os pais baterem, ela bate também nos irmãos menores; se ela vê os pais rezarem, ela reza; se ela ouve os pais dizerem palavrões, ela diz também. Por fim o Eclesiástico termina dizendo:

‘Educa o teu filho, esforça-te por instruí-lo para que te não desonre com sua vida vergonhosa’ (Eclo 30,13).

Insisto neste ponto: o filho só aceitará a instrução do seu pai ou de sua mãe, se os respeitar e admirar pelo seu próprio valor. Para isto é fundamental que os pais tratem os filhos, desde pequenos, com atenção, seriedade e respeito.

Um erro que certos pais cometem, e que os separa dos filhos, é rejeitar os amigos deles e não permitir que eles os tragam para casa.

Certas mães, por exemplo, para evitar as desordens que os filhos normalmente fazem, quase os expulsam de casa com os amigos.

cpa_familia_santuario_da_vidaSaibam que estão fazendo péssimo negócio.

Para ser amigo do seu filho, seja também amigo dos seus amigos. Esteja com eles, ganhe-lhes a confiança. Esta atitude ajuda-nos a conhecer os amigos dos nossos filhos, a fim de que possamos evitar as suas más companhias, que certamente poderão corromper os seus costumes. É muito melhor ter os filhos perto de nós em casa, com os amigos, mesmo fazendo alguma coisa que não seja inteiramente do nosso agrado, do que tê-los longe dos olhos…

O jardim da nossa casa, durante os anos de infância dos nossos filhos, foi o seu campinho de futebol onde eles reuniam os amigos para jogar. Preferimos deixar para plantar as flores depois que eles cresceram, já que eles sempre foram as nossas flores mais importantes.

Um princípio vital na educação dos filhos, e que os pais jamais podem esquecer, é que não se pode deixar para amanhã, aquilo que a educação exige que seja feito hoje. Amanhã pode ser tarde. O filho cresce muito mais depressa do que a gente pensa. Há um provérbio chinês que diz assim: o que mata a planta não é a erva daninha, é a preguiça do lavrador. O mesmo pode-se dizer de alguns pais que se descuidam da educação dos seus filhos.

Outra necessidade vital para a família é que esta seja unida. Sempre que possível, saírem todos juntos nas viagens de férias e nos passeios. São oportunidades de ouro para educar os filhos. Infelizmente certos pais preferem viajar para longe, sozinhos, ao invés de ir para lugares mais próximos com toda a família.
Temos que nos convencer de uma verdade: não há alegria maior, mais autêntica e mais durável do que aquela que a família nos dá.

Enfim, ensina-nos o Espírito Santo:

‘Tens filhos, educa-os, e curva-os à obediência desde a infância,

Tens filhas, vela pela integridade de seus corpos (Eclo 7, 25-26). Mais do que tudo o que já foi dito até aqui, vale relembrar, como disse o educador João de Freitas, que os filhos são o que são os pais.

Ou como disse o frei Dr. Albino Aresi: Educa-se mais por aquilo que se é do que por aquilo que se ensina.

Quase que inconscientemente os pais transmitem para os filhos o seu comportamento e o seu equilíbrio. Toda a segurança e apoio dos filhos está nos pais. Quando estes estão nervosos e descontrolados, os filhos sentem-se, imediatamente inseguros e desnorteados, sem ter em quem se apoiar. Esses desequilíbrios geram traumas marcantes na vida da criança e do jovem, às vezes, por toda a vida.

Por essa carência afetiva é que os jovens buscam as variada sautocompensações: drogas, aventuras violentas, crimes, rachas de  automóveis, bebidas, farras, etc.

Eis um fato de vida ensinado por frei Dr. Albino Aresi:

Ninguém fica por muito tempo sem compreensão e amor. Ou se entregará a Deus, ou se compensará com as criaturas. (Pode-se educar sem Deus?, Ed. Mens Sana, SP, 1986, p.197).

Transferimos para os nossos filhos todas as nossas angústias, emoções e problemas que vivemos; portanto, é preciso poupa-los disso tudo.

Alguns pais confundem autoridade com autoritarismo, gerando revolta nos filhos. Outros pais são frios e distantes, e não se dão conta das angústias dos filhos.

Durante a Revolução Francesa (1789), um criminoso estava para ser executado na guilhotina; então, pediu ao juiz, para falar à plateia curiosa, antes de morrer. Disse:

Perdoo o juiz que me deu a sentença merecida. Perdoo os soldados que me prenderam. Perdoo o carrasco que irá me executar… Mas aqui no meio de vós há alguém que eu não posso perdoar: esse alguém são meus pais, que não me amaram e não me educaram…

Por outro lado, não pode haver também a superproteção, pois gera no filho a falta de autoafirmação e de personalidade, podendo até, como garantem alguns psicólogos, gerar a esquizofrenia e a homossexualidade, por fazer a criança psiquicamente dependente. Isto impede o seu pleno amadurecimento.

Do livro ”Família, Santuário da Vida”, Prof. Felipe Aquino

Compartilhe!

    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
    Adicionar a favoritos link permanente.