O pior cego é o que não quer ver

tumblr_lddlchvuga1qb4pkno1_500Há um sentido figurativo da cegueira que nos permite de compreender que a cegueira dos olhos nem sempre é a pior.

O evangelho em várias circunstâncias fala de cegos que foram curados por Jesus para que, recuperando a visão dos olhos corporais, pudessem também recuperar uma outra visão do espírito e saber assim enxergar o bem e o mal e se decidir a não mais seguir os caminhos errados da vida. Não é fácil saber enxergar quando tantos motivos podem turvar a nossa visão ou, pior, quando decidimos não querer ver de jeito nenhum e assim nos sentimos felizes em ser cegos. Jesus nos adverte também que se “um cego conduzir outro cego ambos cairão numa fossa e não poderão se levantar”.

Há um sentido figurativo da cegueira que nos permite de compreender que a cegueira dos olhos nem sempre é a pior, para vencer esta cegueira é necessário comprar o colírio de que fala o evangelista João no Apocalipse 3,18: Eu te aconselho a comprares meu ouro provado ao fogo, para te enriqueceres, e vestes brancas, para te vestires e não aparecer a vergonha de tua nudez, e colírio para ungir teus olhos, a fim de poderes ver. Somente colocando este colírio da fé a nossa visão vai recuperando a sua capacidade de ver o bem.

O provérbio que está como título “o pior cego é o que não quer ver” surgiu num caso interessante. Significa uma pessoa que não quer nem ver e nem tampouco assumir a verdade. No ano 1647 na França um médico fez o primeiro transplante de córnea num homem simples do povo chamado Angel. Foi um sucesso na medicina, todas as revistas e jornais do tempo relataram este caso clamoroso, mas o Angel, quando passou a enxergar, ficou horrorizado vendo o mundo com tantos horrores que ele via: pobres, coxos, doentes, pessoas passando fome e muitos, muitos mesmo sem o mínimo de dignidade de vida.

Tão desesperado pediu ao médico que o tinha operado que lhe arrancasse os olhos para não ver mais tanto sofrimento do povo. O caso se tornou tão estranho que foi parar no tribunal de Paris e até em Roma no Vaticano para que a Igreja pudesse dar o seu parecer. Angel, depois de muitas discussões, conseguiu ganhar a causa, lhe foi novamente retirada a córnea e voltou a ser cego; passou à história como o cego que não queria ver.

Jesus nos adverte uma coisa interessante “para que vendo não vejam e nem enxerguem”. São cegos que decidem serem cegos de propósito para não enxergar a verdade que está presente na vida. Olhos vedados para que a luz não possa ser vista e nem iluminar aos que dela se aproximam. Vivemos numa sociedade que faz questão de se definir inteligente, madura, e que sabe o que quer e ver com olhos profundos de pesquisador.

Uma sociedade que não quer mais ver com os olhos dos outros mas com os próprios e caminhar com plena autonomia. Esta autossuficiência e soberba se tornam prejudiciais num caminho de liberdade e de verdadeira autonomia, iluminada pela palavra de Deus. Como diz o provérbio: quatro olhos veem sempre mais do que dois. Saber caminhar juntos na solidariedade e na comunhão de vida é o sinal que queremos ser ajudados a enxergar os problemas que estão dentro de nós e que nos convidam a discernir para que não nos oprimam.

Quero colocar em evidência alguns tipos de cegueira que nos atrapalha no dia a dia. Antes de mais nada é preciso que assumamos a nossa cegueira com coragem e não tentando esconder. O cego Bartimeu sabia que era cego, não gostava de ser tal e tinha o grande desejo de ver, quando escuta barulho ao seu redor, um barulho diferente pergunta o que está acontecendo, ao saber que é Jesus de Nazaré que está passando e tendo tido notícia do seu poder de curar as doenças e de Ter redevolvido a vista a tantos cegos não duvida nem um instante, põe-se a gritar: “Senhor Jesus, filho de Davi, tende piedade de mim!”

A nada serve que o mandem se calar e que o obriguem a não perturbar o mestre. Ele grita ainda mais forte, e quando Jesus o chama ele joga fora o manto e dá um pulo, corre até Jesus, e Jesus lhe pergunta: “que quer que eu te faça?” Jesus nunca faz algo sem pedir a nossa licença, sem o nosso sim de adesão. Ele nos cura somente se nós queremos ser curados. É o seu estilo de respeitar a verdade e a liberdade do ser humano.

O cego Bartimeu não pede a Jesus de correr, estava correndo demais e bem. Nem que possa ouvir porque o seu ouvido era bem afinado, e nem tão pouco pede que ele possa gritar, estava gritando até perturbar os que estavam perto dele. Mas pede o que sente falta: que eu veja. É preciso que saibamos entrar dentro do nosso coração e saibamos reconhecer o que nos falta verdadeiramente na vida, e pedir. A cegueira da superficialidade e da autossuficiência são as mais perigosas porque, aliadas ao orgulho, não permitem que sejamos humildes e reconhecedores do que nos falta na vida.

O orgulho é a cegueira mais forte que tem levado tantas pessoas a perder de vista os verdadeiros valores da vida. Nunca devemos Ter medo de reconhecer os nossos erros e de voltar atrás nas nossas posições, mesmo que isto nos acarrete sofrimento e dor.

Não há pior cego daquele que não quer ver. Há pessoas que não querem ver que a felicidade verdadeira não consiste na realização própria somente, mas sim na realização dos que convivem conosco e estão ao nosso lado. O médico que não quer ver a gangrena que avança e compromete a vida do doente leva-o à morte, por uma piedade e compaixão imediata se prejudica toda a saúde dos que sofrem. Deus, que vê os nossos sofrimentos, ele não está estático mas toma a decisão de vir em nossa ajuda, enviando-nos o seu filho Jesus. Precisamos pedir olhos bons para enxergar… e uma vez tendo enxergado, coragem para não ter medo de fazer o que deve ser feito para que a vida seja vivida em plenitude.

Frei Patricio Sciadini, OCD

http://www.asj.org.br/educacao_artigos.asp?codigo=4672&cod_curso=121

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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