O Nazismo e a Igreja 1933 a 1939 – EB (Parte 2)

Em 1936, na Baviera, 600
Religiosas dedicadas ao magistério foram afastadas do carga. Em conseqüência
deste e de outros casos semelhantes, muitas Religiosas se voltaram para
empregos profanos nas fábricas, a fim de sobreviver. Em Baden, no verão de 1938
havia 41 Religiosas trabalhando numa fábrica de têxteis após Ter deixado o
magistério. O governo proclamava que todas as Religiosas que deixassem o
convento, seriam imediatamente empregadas em instituições estatais. Na Renânia,
em abril de 1939, 330 educandários católicos foram fechados por decreto do
governo no chamado “Dia Negro para a Renânia Católica”. As associações de
jovens católicas foram declarados “não alemãs”, embora contassem centenas de
milhares de membros. Os professores foram advertidos no sentido de que, como
funcionários do Estado, tinham a obrigação de estimular seus alunos a entrar na
Juventude Hitlerista ou na Liga das Moças Alemãs; a jovem que não se filiasse à
Liga, era ameaçada de não encontrar rapaz para se casar quando terminasse seus
estudos: caso viesse a se casar, o seu marido perderia o emprego logo que
descobrissem que a esposa não pertencera à Liga das Moças Alemãs. Muitos
trabalhadores católicos foram ameaçados de demissão, caso não pudessem provar
que seus filhos se haviam alistado nas associações hitleristas de jovens.
Muitas escolas de Artes e Ofícios anunciavam que só aceitariam como aprendiz
quem estivesse filiado ao Partido. Os ferroviários alemães, num total de
centenas de milhares de pessoas, publicaram semelhantes normas.

A censura imposta à imprensa
e ao rádio fez que a Igreja se tornasse o único lugar em que o cidadão católico
podia ouvir uma voz de protesto. Era extremamente perigoso, para os clérigos,
exprimir-se contra o governo, embora alguns o fizessem energicamente, correndo
os riscos respectivos, como o Pe. Rupert Mayer, de Munique. Os padres, aliás,
estavam conscientes de que na igreja, disseminados entre os fiéis, havia agentes
hitleristas clandestinos à escuta de seus sermões. Nem os Bispos eram poupados:
tenham-se em vista
Clemens von Galen, de Münster, o Cardeal-arcebispo Faulhaber,
de Munique, o Cardeal Bertram, de Breslau, o Cardeal Shulter, de Colônia.

Os sermões do Cardeal
Faulhaber, de todos o mais famoso, proferidos na igreja de São Miguel durante o
Advento, despertaram interesse nacional e internacional. Tornaram-se tão
expressivos que milhares de pessoas os acompanhavam fora da igreja, nas ruas.
No primeiro desses sermões, proferido em dezembro de 1933, Faulhaber defendeu o
Cristianismo proclamando as suas raízes, ou seja, o judaísmo; enfatizou que o
Cristianismo não admitia discriminação por causa da raça, e perguntou se os
racistas ainda tinham fé. No mês seguinte algumas balas lançadas contra as
janelas do seu escritório quebraram-lhe os vidros. Em março de 1934 o livro de
seus sermões publicado com o título “Judaísmo, Cristianismo e Germanismo” foi
retirado do comércio por causa de suas caluniosas afirmações concernentes ao
Estado”. Apesar disto, o Cardeal Faulhaber continuou a denunciar a política
nazista referente às escolas católicas, às associações de jovens, às eleições
controladas, à esterilização de adultos, aos ataques contra o Papa e às
tentativas de substituir o Cristianismo por aquilo que ele chamava “uma falsa
religião”. Faulhaber desempenhou importante papel na redação da encíclica
antinazista Mit brennender Sorge  (Com
ardente Preocupação) publicada em março de 1937; este documento denunciava
ataques contra a fé, a violação de quase todos os artigos da Concordata assim
como os itens da ideologia nacional-socialista. A encíclica foi interditada
pela Gestapo, mas foi secretamente policopiada e enviada para toda a Alemanha;
a rede católica de comunicações clandestinas encarregou-se de a fazer chegar a
todas as paróquias da Alemanha; centenas de agentes se empenharam, para tanto
utilizando carros, bicicletas, motocicletas…, que transportavam até mesmo
cópias feitas à mão.

 

A reação à encíclica não se
fez esperar. O governo alemão enviou um protesto a Roma, que foi energicamente
rejeitado pelo Cardeal Pacelli, Secretário de Estado e futuro Papa Pio XII. Uma
ordem de Hitler e Goebbels mandou furiosamente que fossem acusadas publicamente
dezenas de clérigos por delitos de imoralidade e calúnias contra o estado. A
Gestapo e os agentes SS puseram-se a procurar as oficinas que haviam
reproduzido a encíclica; as tipografias suspeitas foram confiscadas e seus
proprietários desalojados. Numa paróquia da diocese de Oldenburg, sete moças
foram presas dentro da igreja quando confeccionavam cópias do texto após a
Liturgia do Domingo de Ramos.

O ano de 1939

A morte de Pio XI em
fevereiro de 1939 e a eleição de seu 
sucessor, o Cardeal Pacelli, suscitaram o escárnio do periódico Das
Schwarze Korps (O Corpo Negro), órgão do SS¹ e porta-voz do Ministro Himmler.
Referia-se a Pio XI como sendo “o Rabino-chefe dos cristãos, patrão da firma
Judah-Roma”. O Cardeal Pacelli já fora considerado pelo jornal como um aliado
dos judeus e dos comunistas numa série de caricaturas e artigos publicados por
ocasião de sua visita à França em 1937; ver ilustração à p. 218.

A política nazista podia
variar segundo as circunstâncias históricas, tentando novas estratégicas ou
suprimindo táticas pouco profícuas. A perseguição podia tornar-se dissimulada
ou mesmo sustada quando convinha. Por exemplo, em agosto de 1937, por ocasião
dos Jogos Olímpicos em Berlim, o governo deu ordens de suspender qualquer
atividade hostil aos judeus, aos católicos e aos protestantes; deviam ser
subtraídos aos olhares dos jornalistas estrangeiros todos os espetáculos
agressivos à religião. Todavia, logo que partiram os estrangeiros, a estrutura
persecutória voltou a funcionar.

Quando irrompeu a segunda
guerra mundial em setembro de 1939, Hitler preferiu deixar de lado o seu
propósito de total destruição do Cristianismo para melhor desenvolver a ação
bélica. Contudo houve no Partido que julgasse ser um erro a suspensão da luta
contra a Igreja (Kirchenkampf). Martin Bormann em 1941 fez ver a Himmler, chefe
dos agentes SS, que “a influência da Igreja Católica deveria ser inteiramente
sufocada”. No tocante, porém, à perseguição movida contra os judeus, houve
quase unanimidade na cúpula do nacional-socialismo em favor da continuação: a
guerra dava a Hitler a oportunidade de novas investidas contra os israelitas
para assim “purificar a Europa” pela eliminação dos não ários. Por quase toda a
Europa os judeus foram maltratados e assassinados, ao passo que os eslavos
foram escravizados ou mortos. A extensão do poder nazista para dentro da URSS
dilatou enormemente o seu campo de ação exterminatória. A respeito da posição
do Papa Pio XII frente ao Holocausto judaico, muito se tem escrito; está
comprovado que se  empenhou por salvar a
vida de quantos judeus lhe foi dado atingir; só não se pronunciou em alta voz
contra o anti-semitismo para evitar mais veementes represálias da parte do
nacional-socialismo. Cf. PR 446/1999, pp. 317-331.

Embora o alcance da
perseguição contra os cristãos tenha sido menor do que o da luta contra os
judeus (com exceção talvez do que aconteceu na Polônia), as duas moções
persecutórias manifestam a monstruosidade do sistema nazista.

Baldur von Schirach, chefe
da Juventude Hitlerista, nas assembléias de seus colegas, gostava de lhes
dizer, à guisa de chavão: “Somos jovens que crêem em Deus, porque servimos à
Lei Divina, que se chama Alemanha”. – É preciso não esquecer que essa blasfema
concepção de Lei Divina, por dez mil caminhos tortos, levou à guerra, ao saque,
a sofrimentos inauditos e, por fim, à destruição do ser humano.

Em Apêndice veja-se como o
nacional-socialismo considerava o Cardeal Pacelli.

Segundo a propaganda
nazista, Pio XII foi sempre um adversário do nacional-socialismo e um amigo dos
judeus. Essa caricatura apareceu no jornal Das Schwarze Korps dos SS, quando em
1937 o Cardeal Pacelli visitou a França. No alto da figura o título reza: “A
viagem do Cardeal à França”. Na parede há um mural que diz: “Cozinha Venenosa
da Frente Popular”, referência ao Partido Francês. O rótulo da botija diz:
“Horríveis Mentiras”, enquanto a mulher judia comunista tem nas mãos um
exemplar do jornal comunista L’Humanité com a manchete: “Perseguição dos
cristãos na Alemanha”. Diz o Cardeal: “Sem dúvida, ela não é bonita, mas
cozinha bem”. Note-se que o Cardeal foi reproduzido com traços típicos de um
judeu (da propaganda nazista) para combinar com as feições da mulher judia e
comunista.

***

¹ O conteúdo deste artigo é
retirado dos escritos do Prof. Karol Josef Gajewski, de Sandbach (Inglaterra),
especialista em História da Europa. Os resultados de seus estudos foram
publicados pela revista norte-americana Inside the Vatican, novembro 1999, pp.
50-54.

¹ SS = Staatsicherheit
(Segurança do Estado)

    

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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