O Movimento do Alimento Glorioso

Em síntese: O Movimento do Alimento Glorioso foi fundado pela Sra. Debra Geileskey na Austrália e tem-se propagado pelo Brasil e por outros países, deixando interrogações abertas sobre a ortodoxia dessa Campanha, pois propaga estranhas modalidades de devoção à Eucaristia. – O Sr. Bispo de Toowoomba (Austrália) emitiu a propósito uma Declaração que rejeita esse Movimento; pede, porém, aos fiéis que não deixem de cultuar, com o mesmo fervor, a S. Eucaristia.

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Tem-se espalhado pelo Brasil e por outros países a devoção dita do Alimento Glorioso”. Propaga o culto à S. Eucaristia em termos estranhos. A fundadora do Movimento é a senhora australiana Debra Geileskey, que tem viajado pelo mundo, difundindo suas idéias. Tal forma de piedade vem suscitando interrogações…

Em abril pp. chegou à Redação de PR, por FAX, uma Declaração do Sr. Bispo de Toowoomba (Austrália) Mons. William Morris, que esclarece a questão, concluindo que o Movimento do Alimento Glorioso não tem a aprovação desse Sr. Bispo como parece não ter a chancela da Igreja Católica. – Vai, a seguir, apresentada a tradução portuguesa de tal documento como chegou à Redação de PR.

1.  A Declaração do Sr. Bispo

BISHOP’S HOUSE
73 Margaret Street
P0 Box 768
Toowoomba Old 4350
Australia
Tel.: (076) 324277
Fax.: (076) 392251

17’h May 1996 (17/05/96)

Caro Padre,   

O Movimento do Alimento Glorioso, sob a direção de sua fundadora Debra Geileskey fez com que muitas questões fossem levantadas não somente nesta Diocese, mas por toda a Austrália e em vários outros países.

Questões tais como se Debra e o seu Movimento tem ou não a aprovação da Igreja, questões sobre a posição doutrinária de alguns ensinamentos e práticas do Movimento, sobre a sua base financeira e a respeito das alegadas revelações privadas e dos milagres.

A confusão reina no que se relaciona a possibilidade da Santa Sé estar ou não investigando Debra e o seu Movimento e sobre quem seria o seu Bispo. Meias-verdades e inconsistências em várias declarações e relatórios a respeito de Debra e seu Movimento tornam difícil saber o que é ou não verdade e, consequentemente, causam confusão na mente das pessoas com relação a sua autenticidade. Alegações de perseguição e de falta de abertura e aceitação por parte da Igreja Oficial também vem sendo feitas.

Com vistas a ajudar a resolver esta confusa situação, eu gostaria de declarar o seguinte. Debra nunca foi perseguida pela Igreja local. Eu tenho estado, comumente, em termos amistosos com Debra e seu marido Gordon e, até recentemente, Debra e Gordon visitaram-me de forma regular e nós discutimos algumas preocupações e inquietações que eu tive, corno as relacionadas as alegadas revelações privadas de Debra, aos alegados milagres e a alguns ensinamentos e práticas do seu Movimento. Portanto, a porta sempre esteve aberta e ainda está.

No dia 28 de março, eu recebi uma carta do Arcebispo Franco Brambilla, Pró-Núncio Apostólico, informando-me que ele recebera uma comunicação da Santa Sé que declarava não haver nenhuma evidência de qualquer informação a respeito de Debra Geileskey e de suas atividades, e que não havia indícios de qualquer sindicância por parte da Santa Sé’.

Na edição de maio do boletim do Movimento do Alimento Glorioso é relatado que Roma teria finalmente anunciado uma nova substituição do Bispo e que o Bispo escolhido era Mons. Irsani Darwish, o novo Patriarca de Saint Michael’s de Sidney para os Gregos Melquitas1 Católicos.

O   Pró-Núncio Apostólico informou-me que isto não era verdade e que nenhum anúncio sobre este assunto tinha sido feito.

Devo reafirmar o fato de que não há aprovação oficial da Igreja para o Movimento do Alimento Glorioso ou para as alegadas revelações privadas e visões de Debra, algumas das quais são bastante aterrorizantes e, acredito, contrárias a doutrina.

Não houve resposta a minha solicitação a Debra sobre os estatutos segundo os quais o Movimento do Alimento Glorioso opera, nem houve qualquer esclarecimento a respeito de sua situação financeira.

O Movimento não tem permissão para conservar o Santissimo Sacramento em sua nova sede no antigo convento em Heltdon, nem para realizar celebrações eucarísticas em locais públicos. Não há aprovação nem bênção da Igreja para a nova Ordem Religiosa que Debra esta supostamente fundando; todo aquele que ingressar na referida “ordem” o fará sem a bênção da Igreja, porque o Movimento é um Movimento de caráter privado, patrocinado por Debra, pertencente a Debra, e não tendo absolutamente nada a ver com a Igreja.

A confusão e os danos que circundam Debra e seu Movimento entristecem-me, porque tem havido muitos que, através da devoção verdadeira a Eucaristia e a Maria, tem experimentado a conversão do coração e o aprofundamento de sua fé no Senhor Ressuscitado.

Infelizmente, por causa das meias-verdades, das inconsistências e, em alguns casos, da falta de alinhamento com a doutrina estabelecida concernente a aspectos de declarações feitas e a práticas realizadas, eu devo pedir que a devoção ao Santíssimo Sacramento e a Nossa Senhora sob os auspícios do Movimento do Alimento Glorioso cesse dentro da Diocese de Toowoomba. Eu apoio fortemente essas devoções e peço que elas continuem sob a direção e com o suporte das comunidades católicas locais, em consonância com os ensinamentos litúrgicos aprovados pela Igreja.

A partir deste momento, e até ulterior pronunciamento, o Movimento do Alimento Glorioso não tem crédito dentro desta Diocese.

Seu irmão em Cristo.

WILLIAM M. MORRIS DD
BISHOP OF TOO WOOMBA (BISPO DE TOO WOOMBA)

Na base desta Declaração, pode-se crer que estejam dissipadas as dúvidas existentes em alguns fiéis a respeito da devoção do Alimento Glorioso. A piedade eucarística continua a merecer o máximo apreço dos fiéis católicos, que, de resto, não precisam de revelações particulares pouco ortodoxas para se nutrir espiritualmente. A Tradição católica costuma citar fatos milagrosos que corroboram a antiga fé eucarística do povo de Deus; entre esses, há o de Lanciano, que é dos mais famosos e do qual foi enviada uma versão a PR; publicamo-la a seguir, pois parece completar harmoniosamente quanto o Sr. Bispo de Toowoomba recomenda aos seus diocesanos:

2.   O Milagre de Lanciano

Por volta dos anos 700, na cidade italiana de Lanciano, viviam no mosteiro de S. Legoziano os monges basilianos e, entre eles, havia um cuja fé parecia vacilante; era perseguido todos os dias pela dúvida de que a hóstia consagrada fosse o verdadeiro Corpo de Cristo e o vinho o Seu Verdadeiro Sangue.

Ora, certa manhã, celebrando a Santa Missa, mais do que nunca atormentado pela dúvida, após proferir as palavras da Consagração, ele viu a hóstia converter-se em Carne viva e o vinho em Sangue vivo. Sentiu-se confuso e dominado pelo temor diante de tão espantoso milagre; permaneceu muito tempo transportado a um êxtase verdadeiramente sobrenatural. Até que em meio a transbordante alegria, o rosto banhado em lágrimas, voltou-se para as pessoas presentes e disse: “Ó bem-aventuradas testemunhas diante de quem, para confundir minha incredulidade, o Santo Deus quis desvendar-se neste Santíssimo Sacramento e tornar-se visível aos vossos olhos. Vinde, irmãos, e admirai o nosso Deus, que se aproximou de nós. Eis aqui a Carne e o Sangue do nosso Cristo muito amado!”. A estas palavras, os fiéis se precipitaram para o altar e começaram também a chorar e a pedir misericórdia. Logo a noticia se espalhou por toda a pequena cidade, transformando o monge em um novo Tomé.

Aos reconhecimentos eclesiásticos do milagre, a partir de 1574 veio juntar-se o pronunciamento da Ciência Moderna através de minuciosas e rigorosas provas de laboratório. Foi em novembro de 1970 que os Fra¬des Menores Conventuais, sob cuja guarda se mantém a Igreja do Mila¬gre (desde 1252 chamada de S. Francisco), decidiram, com autorização de Roma, confiar a dois médicos de renome profissional e idoneidade moral a analise cientifica das relíquias. Para tanto, convidaram o Dr. Odoaldo Lineli, Chefe de Serviço dos Hospitais de Arezzo e livre-docente de Anatomia e Histologia Patológica e de Química e Microscopia Clinica, para, assessorado pelo Prof. Ruggero Bertelli, Prof. Emérito de Anato¬mia Humana na Universidade de Siena, proceder aos exames.

Após alguns meses de trabalho, exatamente a 4 de março de 1971,

Os pesquisadores publicaram um relatório contendo o resultado das análises:

– a Carne é verdadeira carne e o Sangue é verdadeiro sangue;

– a Carne é do tecido muscular do coração (miocárdio);

– a Carne e o Sangue são do tipo AB e pertencem a espécie humana;

– a conservação da Carne e do Sangue, deixados ao natural por doze séculos e expostos a ação de agentes atmosféricos e biológicos, fica sendo um fenômeno extraordinário.

Outro detalhe inexplicável: pesando-se as gotas de sangue coagulado (e todas são de tamanho e forma diferentes), cada uma delas tem exatamente o mesmo peso das cinco gotas juntas. Deus parece brincar com o peso normal dos objetos.

Depois que foram conhecidas as conclusões dessa pesquisa científica, os peregrinos vão de toda parte venerar a Hóstia que se tornou Carne, e o Vinho consagrado que se tornou Sangue.

Assim o Movimento do Alimento Glorioso da ocasião a que o povo de Deus repense sua devoção eucarística e renove ainda mais conscientemente a sua piedade.

Cura-te a ti mesmo. Terapia real, por Tikurnagawa Hiroshi 6ª edição. – Editora Madras, São Paulo 1998, 140 x 2lO mm, 81 pp.

0 autor, de origem japonesa, confessa ter passado a adolescência “atrás de um balcão de farmácia, num bairro de São Paulo”. Depois tornou-se instrumentador cirúrgico em vários hospitais e se decepcionou com a medicina. Em consequência, procurou a rnacrobiótica e finalmente a Terapia Real (assim chamada porque praticada por muitos reis de outrora); esta consiste em utilizar a urina como remédio. O autor descreve longamente os benefícios que ele atribui a urina. Não é nosso intuito debater esta temática. Apenas registramos que o autor adota uma filosofia religiosa de fundo panteísta, a qual se mesclam referências bíblicas. Assim julga ele que “0 universo é divino” (p.65), regido por “uma lógica Divina ou pela Frequência de Deus” (p.16). Todavia a p.28 cita Provérbios 5, 15-17, texto que fala de água, como se falasse de urina; as pp. 63s cita o Pai-Nosso e 0 Evangelho; a p.54 refere-se a Deus, ao anjo da água e a Satã… Será preciso, portanto, distinguir entre as receitas médicas apresentadas por Hiroshi e a sua filosofia; enquanto aquelas são aceitáveis aos olhos da fé católica, esta não condiz com o Cristianismo.

***

1 Melquitas (do hebraico melek, rei) é o nome que os monofisitas (hereges do século V) deram aos cristãos da Síria e do Egito que ficaram fiéis a fé ortodoxa professada pelo Imperador (melek) de Bizâncio ou fiéis a doutrina ortodoxa definida pelo Concílio de Calcedônia em 451. Os melquitas se separaram de Roma após o cisma de Bizâncio patrocinado pelo Patriarca Miguel Cerulário em 1054. Toda via conversações posteriores levaram a constituir uma comunidade melquita unida a Roma. Hoje em dia o nome melquitas designa unicamente Os gregos católicos agrupados nos três Patriarcados de Antioquia, Jerusalém e Alexandria e presentes em países estrangeiros. (Nota da Redação).

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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