O justo vive da fé – EB

O justo e a Fé

“O Justo Vive da Fé”
(Rm 1, 17)

“O justo vive da fé”. É São Paulo quem o diz três vezes (Rm 1, 17; Gl 3, 11 e Hb 10, 38, citando aliás o Profeta Habacuque 2, 4). A fé assim vem a ser a viga central da vida cristã.

E que é a fé?

É o ato mais nobre que a criatura humana possa realizar. Sim; é ato da inteligência, movida pela vontade, aplicando-se ao objeto mais elevado que possa haver: Deus. Tal adesão a Deus ocorre na penumbra ou no claro-escuro de uma caminhada de peregrino, que vai desembocar “naquilo que o olho jamais viu, o ouvido jamais ouviu e o coração do homem jamais percebeu” (1Cor 2, 9). A situação do caminheiro é incômoda; gostaria de andar às claras; ele vê apenas a próxima etapa de sua jornada, não vê ainda aonde deve chegar. Isto deixa o viandante ansioso e sôfrego por uma sadia sofreguidão, inquieto. Feliz é quem experimenta essa ânsia, e desgraçado é quem não a experimenta, mas se acomoda na estrada, contentando-se com a contemplação das flores e borboletas das bordas.

Todavia o incômodo da fé vai cedendo, aos poucos, a profunda alegria, pois a fé vai desabrochando naqueles que têm a coragem de a vivenciar coerentemente; ela se abre sempre mais para o seu Termo Final, que é Deus. Na verdade, o Deus da eternidade, que faz a bem-aventurança dos justos no céu, é o Deus do tempo, com toda a riqueza de sua vida e suas perfeições. A única diferença entre o tempo e a eternidade é que no tempo. Ele se faz presente através de véus, ao passo que na eternidade Ele se manifesta face-a-face como a Beleza Infinita a ser desfrutada sem contestação nem entrave.

O segredo dessa descoberta (tirar a coberta ou o véu) é a generosidade do cristão no doar-se aos apelos de Deus. São Paulo afirma sabiamente que “Deus ama a quem dá com alegria” (2Cor 9, 7), com grandeza dalma, sem pusilanimidade. O mesmo Apóstolo exorta a que “não entristeçamos o Espírito Santo de Deus” (Ef 4, 30); em linguagem antropormórfica, dizemos que Ele pode ser entristecido pela mesquinhez da criatura que tem medo de ser “invadida” pela graça de Deus. Foi esse segredo da grandeza dalma que abriu os santos para o oceano da vida divina e os fez tranqüilos e felizes em meio às tempestades da caminhada.

S. Agostinho comenta estas verdades num de seus sermões:

“O que nos foi prometido? “Seremos semelhantes a Ele, porque O veremos como é”. A língua o disse como pôde. O coração imagine o restante… Já que não podeis ver agora, prenda-vos o desejo. A vida inteira do bom cristão é desejo santo. Aquilo que desejas, ainda não o vês. Mas, desejando, adquires a capacidade de ser saciado ao chegar a visão. Se queres, por exemplo, encher um recipiente e sabes ser muito o que tens a derramar, alargas o bojo… Se o alargares, ele ficará com maior capacidade. Deste mesmo modo Deus, com o adiar, amplia o desejo…” (In 1 Jo 4, 6).

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”
D. Estevão Bettencourt, osb
Nº 448 – Ano 1999 – p. 385

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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