O Islamismo – EB (Parte 1)

lua-do-islamismoEm síntese: O islã foi fundado por Maomé (Muhammad = o Louvado) no ano da hegira (= êxodo), ou seja, em 622. O “Profeta” fundiu  elementos do judaísmo, do Cristianismo e da religião árabe num estrito monoteísmo, que professa como síntese de seu Credo: “Allah é Deus e Maomé é seu enviado”. Os maometanos também apregoam a total submissão à vontade de Deus (= islam; donde o vocábulo muslim = muçulmano); acreditam na ressurreição final dos mortos, no juízo de Deus e na retribuição póstuma (o paraíso concebido em termos materiais, e o inferno para os incrédulos ou idólatras especialmente). O seu livro sagrado é o Corão, tido como intocável palavra de Deus. Entre as práticas religiosas do Islã, contam-se: a oração cinco vezes por dia; o jejum do mês do Ramadã; a peregrinação a Meca ao menos uma vez na vida; a esmola em favor dos pobres. A vida moral do Islã cultiva a honestidade, mas é tolerante em relação à poligamia e sujeita a mulher e os filhos a severas restrições. O Islã é religião teocrática, isto é, tende a formar Estados baseados nas linhas-mestras do Corão, devendo o Chefe de Estado ser muçulmano; os cidadãos não muçulmanos sofrem limitações em seus direitos civis e religiosos.

Os fiéis católicos reconhecem os valores positivos do Islã e fazem votos para que a revelação feita por Deus ao Patriarca Abraão se torne plenamente clara aos olhos dos filhos de Agar ou dos agarenos.

Após ter estudado o Hinduísmo e o Budismo em PR 309 e 310/1988, pp. 78-89 e 98-106, passamos a considerar o Islamismo na série das grandes correntes  religiosas da humanidade.

Os maometanos (seguidores do Islã) constituem numericamente o segundo bloco religioso da atualidade. Com efeito; dado que a população mundial seja de 5 bilhões de habitantes, conta-se o bloco cristão com 1.640.000 de fiéis, ou seja, 33,9%¹; a seguir, vem o bloco muçulmano com 854.000.000 de adeptos.

Uma das características do Islamismo é a de ser “Religião e Estado” (al-Islam din wadawla) ao mesmo tempo; esta concepção restaura o ideal da teocracia vigente, aliás, em países como o Irã e o Paquistão.

Examinemos os traços próprios do fundador e da mensagem do Islamismo.

O fundo de cena

O Islã teve origem na península arábica do século VII d.C. A população desta região estava dividida em tribos setentrionais e tribos meridionais, postas em contínua luta entre si. Dedicavam-se principalmente ao pastoreio de animais, à agricultura e ao comércio feito mediante caravanas.

Os árabes da época, principalmente os piedosos (hanif), conservaram a noção do antigo Deus Supremo, El, como os demais povos  semitas,mas, em grande maioria, tinham também suas crenças animísticas²; nutriam especial veneração por pedras, como a Pedra Negra de Meca (talvez de origem meteórica). Praticavam peregrinações aos lugares de sua devoção. Além disto, admitiam uma multidão de espírito (ginn, gul…), que eles temiam e veneravam, e dos quais alguns iam sendo cultuados como deuses e deusas. Assim o politeísmo ia-se desenvolvendo. Verdade é que na mesma península arábica  viviam também cristãos (na maioria, nestorianos e monofisitas, isto é, separados da Igreja universal por suas concepções a respeito de Cristo) e principalmente judeus; estas duas correntes religiosas exerciam sua influência sobre a população árabe, de modo que a religião desta tendia a certo ecleticismo.

É sobre este pano de fundo que aparece a figura de Maomé.

O Fundador

Maomé (570?-632), ou seja, Muhammad-ibn-Abbalag-ibn-Muttalib, o “Louvado”, nasceu na cidade de Meca, da família dos Hassenitas (Hashim), pertencente ao clã setentrional dos Banu Muttlib e à tribo dos Coraítas. Desde cedo, viu-se pobre o órfão de pai e mãe, de modo que se pôs a trabalhar como condutor de caravanas no deserto; assim visitou o Sul da península arábica (Yemen), a Mesopotâmia, a Síria e a Palestina. Em suas viagens, encontrou muitos israelitas e cristãos, que lhe deram a ouvir narrações bíblicas, especialmente passagens apócrifas referentes ao Novo Testamento (por exemplo, o Protoevangelho de Tiago, que trata da Virgem Maria). Parece, porém, que Maomé nunca teve um contato mais detido com os Evangelhos canônicos.

Provavelmente com 25 anos de idade, esposou a sua própria patroa, a rica viúva Hadidja, de quem teve alguns filhos e quatro filhas; entre estas, Fátima, que esposou Ali, o primo de Maomé.

Em 610-611, Maomé, com trinta anos de idade, teve uma experiência religiosa, convertendo-se do politeísmo animista ao monoteísmo; passou a professar a absoluta unicidade de Deus, El, sob a forma árabe de Allah. Apresentou-se como profeta (nabi) e enviando (rasul), e pregava, juntamente com o monoteísmo, o abandono à vontade de Deus (islam; donde se origina o termo muslim, muçulmano), a ressurreição dos mortos e o juízo de Deus sobre os homens. Impugnou outrossim a idolatria existente na Arábia e o comércio religioso correlativo.

Dizendo-se legado de Deus, que recompensa os bons, castiga os maus e faz triunfar os seus profetas apesar da obstinação dos ímpios. Maomé conseguiu reunir alguns poucos fiéis, mas foi rejeitado pela maioria dos ricos moradores de Meca, que eram dados ao politeísmo e o perseguiam. O profeta teve então que fugir, deixando familiares e amigos, em troca de um convite dos habitantes de Yathrib, rivais dos de Meca, em 622. Segundo a tradição, este êxodo (hijra, hegira) ocorreu em 16/07/622 d.C.; tal data assinala o início da era muçulmana. A cidade de  Yathrib mudou de nome, passando a chamar-se Medina (al-Madinat annabi, a cidade do Profeta).

Frente às hostilidades que lhe vinham dos israelitas, Maomé reivindicou para si e os seus seguidores o patrocínio do Patriarca Abraão (pai de Ismael por meio de Agar); Abraão foi apresentado como fundados da Kaaba, o santuário de Meca que encerra a “Pedra Negra”; doravante os maometanos deveriam rezas voltados (qibla) para Meca e não mais para Jerusalém.

Tendo-se  fortalecido, Maomé atacou as caravanas de Meca, prejudicando o seu comércio. Após represálias mútuas, finalmente conseguiu entrar em Meca no ano de 629. A vitória de Maomé foi tida como triunfo não apenas de seus homens, mas também de seu Deus ou de suas crenças religiosas; o Profeta eliminou os ídolos da cidade, aproximadamente  360, conforme a tradição. Fundou assim o primeiro Estado islâmico.

No ano décimo da hegira, Maomé realizou a “peregrinação do  Adeus” a Meca, que ficou sendo modelo para todas as peregrinações muçulmanas. Tendo voltado a Medina, morreu ali pouco depois (08/06/632). Mediante a religião, deixava unificadas entre si as tribos árabes da península.

O livro sagrado dos maometanos é O Corão

Maomé não escreveu os seus ditames, mas os discípulos o fizeram a partir de 650; donde se originou o Corão (Quran = recitação), que consta de 114 capítulos ou Suras e 6.236 versículos ou avat. Para os muçulmanos, tal livro é a própria Palavra de Deus, reprodução fiel de um original gravado em tábuas existentes desde toda a eternidade. Gozando de autoridade máxima, ensina aos seus leitores como se devem relacionar com Deus, com os correligionários e com os demais homens. É realmente um Código de Moral que, partindo dos dez mandamentos, chega a prescrições minuciosas relativas a rubricas litúrgicas, proibições alimentares, transações comerciais, convívio familiar, direito penal e empreendimentos bélicos. Assim o Corão é, ao mesmo tempo, para os maometanos a “Bíblia”, a  Constituição, o Direito Civil, o Direito Penal, o Livro das Rubricas litúrgicas, o Código de Moral… As crianças  muçulmanas esforçam-se por aprendê-lo de cor nas aulas de religião; conforma-se ao Corão significa unir-se à vontade de Deus; conscientes disto, muitos muçulmanos trazem uma miniatura do Livro Sagrado pendente do pescoço sobre o coração. – É claro que o texto do Corão precisa ser constantemente aprofundado; por isto grandes mestres e escolas através dos séculos se dedicaram e dedicam ao estudo do mesmo.

Escrito em língua árabe simples e clara, o Corão não pode ser oficialmente traduzido para outro idioma; por isto todo muçulmano não árabe é convidado a aprender o árabe a fim de poder recitar o Corão e tomar parte no culto (visto que em toda parte as orações oficiais muçulmanas são proferidas em árabe). Os fiéis mais devotos costumam repetir algumas passagens privilegiadas como é a Sura I, a Fatiha (de certo modo, o Pai-Nosso muçulmano):cpa_falsas_doutrinas

“No nome de Deus, o Benfeitor misericordioso.

Louvor a  Deus, Senhor dos mundos,

Benfeitor misericordioso,

Soberano do Dia do Juízo,

Nós Te adoramos, de Ti imploramos ajuda!

Dirige-nos pela via reta,

A vida daqueles a quem deste os teus benefícios,

Que não são objeto da tua ira,

E que não se desviaram”.

No Islamismo nada se pensa ou se decide sem recorrer ao texto do Corão e ao exemplo do Profeta, que deixou um “modelo perfeito” aos seus seguidores. Em consequência, o texto escrito e a tradição viva (Sunna) derivada de Maomé são as duas fontes de orientação do Islã; os propósitos, os atos e os silêncios do Profeta têm valor normativo para as gerações posteriores.

O Credo

O Islã professa seus artigos de fé derivados do Corão, aos quais é preciso aderir com a inteligência, o coração e as obras. Diz uma sentença das Sunna: “A fé (iman) consiste em crer em Deus, nos seus anjos, nos seus livros, nos seus enviados e no juízo final, assim como na predestinação, que acarreta o bem e o mal”.

Percorramos esses artigos:

1) Deus é único, podendo ser designado através de seus 99 “belos Nomes”, que correspondem aos seus atributos. “Benfeitor Misericordioso, Rei, Santíssimo, Salvação, Pacificador, Preservador, Poderoso, Majestoso, Criador, Renovador, Formador…”. O conceito de Deus é expresso mediante duas secções típicas do Corão: a do trono e a da Luz:

“Deus – não há outra Divindade fora dele – é o Vivente, o Subsistente. Nem sonolência nem sono jamais o acometem. A Ele pertence o que está nos céus e o que está na terra. Quem intercede junto a Ele se não por permissão dele? Ele conhece o que está nas mãos dos homens e através deles, ao passo que estes só percebem do seu saber aquilo que Ele permite. O teu trono se estende sobre os céus e sobre a terra. Para conservá-lo, Ele não é obrigado a dobrar-se. Ele é o Augusto, o Imenso” (Corão 2,255).

“Deus é a Luz dos céus e da terra. A sua luz é semelhante a  um nicho onde se encontra uma lucerna. A lucerna está dentro de um recipiente e vidro. Este se assemelha a um astro cintilante. A lucerna é acesa graças a uma árvore bendita, uma oliveira nem oriental nem ocidental, cujo óleo resplandeceria mesmo que nenhum fogo otocasse. Luz sobre Luz, Deus derrama a sua Luz, dirige quem Ele quer” (Corão 24,35).

2) Os anjos são, antes do mais, os puros adoradores de Deus e os seus mensageiros  junto aos homens; também exercem a função de “registrar” as ações dos homens e de “interrogá-los” na hora da morte.

O demônio também existe; feito de “fogo”, recusou prostrar-se diante de  Adão por ordem de Deus (Corão 7,12); desde então, Satanás, à frente das suas tropas demoníacas, odeia o gênero humano e tenta, de todo modo, desviá-lo de Deus.

O Corão admite ainda os djinn, espíritos intermediários entre anjos e demônios, aos quais Maomé também teria sido enviado.

3) Existem quatro livros sagrados, mediante os quais Deus sucessivamente transmitir a sua mensagem: a) a Torá (Pentateuco ou a Lei de Moisés); b) os Salmos (orações reveladas, mas não obrigatórias); c) o Evangelho (no singular); e d) o Corão. Este ab-roga e torna inúteis  os livros anteriores.

Os muçulmanos mais ortodoxos afirmam que a  Torá e o Evangelho, como se encontram atualmente nas  mãos dos israelitas e dos cristãos, não correspondem aos textos originais  de que fala o Corão; foram “falsificados”;¹ por isto carecem de todo interesse para um muçulmano. Este encontra no Corão aquilo que, dos livros anteriores, lhe é necessário reter. Também é em função do que afirma o Corão que os israelitas e os cristãos são conhecidos e julgados.

4) Os enviados de  Deus distinguem-se em Profetas maiores e Profetas Menores.

Os Maiores são: Abraão, o amigo de Deus, fundador do monoteísmo primitivo; Moisés, o interlocutor de Deus, legislador para os filhos de Israel; Jesus, o Filho de Maria, que procede da “Palavra” e do “Espírito” de Deus, mestre dos cristãos; por fim, Maomé, o mais  perfeito e mais justo dos Profetas, enviado a todos os seres humanos “para aperfeiçoar a sua religião” (Corão 5,3).

Os profetas Menores pertencem tanto à tradição bíblica (Adão, Noé, Isaque, Ismael, lote, Jacó, José, Aarão, Davi, Salomão, Elias, Eliseu, Jó, João batista…) quanto à  árabe (Hud, Salih, Shu’ayh…). Reproduzem a mesma aventura do Profeta, que clama no deserto para transmitir ao povo a mensagem do monoteísmo fundamental.

Os muçulmanos assinalam a Jesus um lugar de relevo entre os Profetas: nasceu de Mãe Virgem, dizem eles, por efeito da Palavra Criadora de Deus, como Adão. Foi um taumaturgo eminente, que chegou a ressuscitar mortos. Contraditado pelos israelitas, foi condenado à morte de Cruz, mas salvo por Deus; voltará à terra como “sinal da hora”. – Os maometanos acusam os cristãos de atribuir honras divinas a Jesus, pois negam o mistério da  Ss. Trindade (Corão 4,171; 5,73); também negam que os israelitas o tenham crucificado (4,157). No Corão encontra-se esta exortação aos cristãos: “Ó gente da Escritura, não sejais exagerados na vossa religião. Dizei somente a verdade em relação a Deus. Jesus, filho de Maria, é apenas  o enviado de Deus… Crede em Deus e nos seus enviados e não digais “Três”. Deixai de fazê-lo” (4,171).

Quanto a Maria, é tida como escolhida entre todas as mulheres, purificada desde o nascimento e consagrada a Deus; foi virgem e mãe, pois gerou um filho sem a cooperação do varão.

5) O juízo final. No fim dos tempos haverá a ressurreição dos mortos; todos serão julgados e receberão a justa sanção – o paraíso ou o inferno.

Para a maioria dos muçulmanos, ou seja, para os que conservarem a fé, é certo que bastará apenas a fé para salvá-los e que, por isto, o inferno terá fim logo que hajam expiado os seus pecados; entrarão então no paraíso.

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    Sobre Prof. Felipe Aquino

    O Prof. Felipe Aquino é doutor em Engenharia Mecânica pela UNESP e mestre na mesma área pela UNIFEI. Foi diretor geral da FAENQUIL (atual EEL-USP) durante 20 anos e atualmente é Professor de História da Igreja do “Instituto de Teologia Bento XVI” da Diocese de Lorena e da Canção Nova. Cavaleiro da Ordem de São Gregório Magno, título concedido pelo Papa Bento XVI, em 06/02/2012. Foi casado durante 40 anos e é pai de cinco filhos. Na TV Canção Nova, apresenta o programa “Escola da Fé” e “Pergunte e Responderemos”, na Rádio apresenta o programa “No Coração da Igreja”. Nos finais de semana prega encontros de aprofundamento em todo o Brasil e no exterior. Escreveu 73 livros de formação católica pelas editoras Cléofas, Loyola e Canção Nova.
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